Capítulo IV – Ronda e Detenção.
Chegando ao local onde ficaria de ronda; perto de um dos jardins, sentou-se em um dos arcos e procurou não pensar em nada, deixar a mente livre, pois sua cabeça latejava. Anotou mentalmente de que deveria passar em Madame Pomfrey e tomar alguma poção para a dor, se não, não dormiria essa noite. Olhou ao redor, tudo muito tranquilo, nenhum ruído a não ser o de sua própria respiração. Era aterrorizante. Essa ronda realmente seria longa. Se não tivesse com a cabeça latejando, poderia dormir, tamanho era o tédio e a falta do que fazer. Sempre gostou do seu cargo como Monitora, nunca reclamou das noites em claro que as vezes tinha que passar, mas hoje, só almejava bons analgésicos e sua cama. Sabia que nada aconteceria, até porque no outro dia tinha passeio a Hogsmead, ninguém queria ficar de castigo ou detenção e perder a saída do castelo.
Levantou-se e começou a andar, passando a mão nos próprios braços. Estava frio naquele lado do castelo. Arrependeu-se de, na pressa, não ter pego um casaco. A blusa que vestia era fina demais e sentia o vento frio tocar sua pele, arrepiando-a. Acelerou o passo, na esperança de que assim pudesse se esquentar, mas logo desistiu e voltou ao seu lugar, vendo o tempo passar lentamente. 21:30. 21:40. 21:50. 22:00. Estava mais frio, e ela dava pulinhos, tentando inutilmente espanta-lo.
Pensou em sentar-se novamente quando ouviu passos apressado; alguém correndo. Empunhou a varinha, e viu um menininho passar muito depressa por ela, rindo. Atrás dele; ela viu, Malfoy corria, tentando acertar feitiços imobilizantes no garoto, que não parava de gargalhar.
- Abaixe-se, Granger! – Ele gritou quando viu que um dos feitiços a atingiria, e ela só reagiu quando o ouviu gritar um “Petrificus Totalus”. Não atingiu o garotinho novamente. – Ahh, esse menininho está pedindo para morrer! – Vociferou e continuou a correr atrás dele.
Hermione o seguiu, ambos lançando feitiços que pudessem parar o menino sem machuca-lo. Nada o parava. Hermione estava cansada, irritada e ofegante. “Pelo menos o frio passou”, pensou irônica. Não aguentava mais, que garotinho impossível!
- Estupefaça! – Gritou, antes que pudesse pensar. Atingiu-o em cheio. O garotinho caiu longe desacordado, e eles correram mais até ele. “Está vivo“, pensou ela, novamente irônica. Estava muito ofegante. Curvou-se, apoiando as mãos nos joelhos.
- Ora, ora... – Disse Draco com ironia, tão ofegante quanto ela. – Nunca pensei que fosse ver uma Grifinória estuporar um pobre garotinho do Primeiro Ano.
- Ele corre demais. E estou de TPM. – Tentou manter um tom sério, mas ele riu, o que a fez rir também. – Que garotinho infeliz. Ele não sabe que não adianta fugir de Hermione Granger?
- Provavelmente ele não tem noção do perigo, estava fugindo de Draco Malfoy! – Riu mais. – E agora? O levamos para a McGonagall?
- É o mais prudente. Mas estou com medo, eu nunca estuporei ninguém sem motivos. McGonagall vai me matar. – Ela falava mais para si mesma, nervosa.
- Vai nada, já fiz isso outras vezes, ela só passa um sermãozinho e está tudo certo.
- É, mas você é “O” Malfoy encrenqueiro, eu nunca levei “sermãozinho” da McGonagall. – Desdenhou. - Ah, Granger, uma reprimenda de vez em quando não faz mal.
– Abaixou-se e pegou o menino que permanecia desacordado, no colo – Vamos.
Hermione o acompanhou até a sala de McGonagall mantendo uma boa distancia entre eles. Estava nervosa. Não imaginava porque não tinha se controlado, não devia ter estuporado o garoto, mas não se controlou. “Droga! Merda! Porcaria!”, praguejou mentalmente. Quando chegaram em frente a sala, ela bateu na porta três vezes, insegura. Ouviu um “pode entrar” da professora e a porta se abriu sozinha. A senhora ficou horrorizada quando viu o menino desacordado nos braços de Malfoy.
- O que aconteceu? – A senhora ordenou. Hermione baixou a cabeça. Não seria fácil engolir seu orgulho de aluna perfeita e assumir o que havia feito. Quando ia abrir a boca para explicar para a mulher, Draco falou.
- Estuporado, senhora.
- O que? Mas por quem?
- Por mim. – Ele assumiu. Ela ia abrir a boca para retrucar a mentira, mas ele lançou-lhe um olhar que a fez ficar calada. – Eu o peguei fora da cama fazendo travessuras e ele achou que podia fugir. Saiu correndo e eu fui atrás. Tentei para-lo de todas as formas, mas ele sempre escapava. A Srta. Granger viu e foi me ajudar a captura-lo, mas não adiantou. Infelizmente me irritei e aconteceu. Desculpe. – Ele falava em um tom arrependido, como se realmente tivesse feito tudo aquilo. Que ator!
Ele a livrara de toda a culpa. Estava em choque.
- Sendo assim, tudo bem, mas isso foi falta de prudência. E me surpreende que um garotinho de 11 anos tenha fugido dos melhores bruxos dessa escola. – Os dois baixaram a cabeça. – Coloque-o em cima da mesa. – Draco assim o fez. Minerva murmurou um feitiço que o fez despertar, quase caindo, vendo que fora pego. Soltou um muxoxo. – O que fazia fora da cama?
- Nada que lhe interesse. – Respondeu mal educado.
- Não me interessa? Pois bem, também não me interessa que perderá 50 pontos para sua casa, e também não me interessa até que horas você irá ficar lustrando tudo na Sala de Troféus. – Falou McGonagall calmamente, e antes que o menino pudesse retrucar, disse: - Levem-no daqui. Acompanhem-no até a Sala e fiquem com ele até que termine.
- Se me permite, senhora, deixe que Malfoy volte para sua ronda. Eu vou com o garoto. – Hermione se ofereceu. Era uma forma de retribuir, não era?
- Não, senhora. Mande-a de volta para ronda. Eu fico com o garoto. – Draco retrucou.
- Não. Vocês dois o pegaram, vocês dois o acompanham. Agora vão. – Draco pegou o menininho pelo punho e o levou para fora da sala. Para Hermione, só restou segui-lo.
Aquela noite seria mais difícil do que imaginava.
Já haviam andando boa parte do caminho no mais completo silêncio. Dele, ela só ouvia os passos. Era perturbador.
- Porque não deixou que eu assumisse a culpa do estuporamento? – Perguntou ela em um tom indeciso, sem saber se deveria ou não se dirigir a ele.
- Porque apesar de você achar que eu sou um ogro, sangue-ruim, eu também sou capaz de gentilezas.
- Oh, e porque será que eu acho isso hein, doninha saltitante?
- Apenas cale-se. – Irritado. Chegaram a Sala de Troféus e ele praticamente jogou o garoto lá dentro – Limpe tudo. E rápido. – E foi sentar-se em um canto da sala. Hermione permaneceu de pé.
- E porque você não me deixou vir sozinha cuidar do garoto?
- Porque a McGonagall não deixou, Granger, ou você é surda e não ouviu a ordem dela?
- Não, quero dizer, antes você se ofereceu para vir só. Porque? – Percebeu que estava perguntando demais. Mas não conseguia conter sua curiosidade. Ele estava estranho, gentil demais. Ele não era assim.
- Porque você deveria dormir. Amanhã você tem um encontro com meu melhor amigo. – Notou que soou meio enciumado. Pigarreou e se recompôs – Não quero que ele saia com uma zumbi. Já basta que você seja uma sabe-tudo suja.
- Obrigada pela parte que me toca, Malfoy. – Irônica.
- Não disponha, Granger. E cale-se, por favor.
- Você não manda em mim!
- Granger, eu não estou no meu melhor humor. – Ele fechou os olhos e pressionou as têmporas, impaciente. – Vamos passar horas aqui dentro. Torne isso menos insuportável para mim e para você. Fique quieta.
- Argh! – Balbuciou, brava. – Eu vou na enfermaria tomar uma poção para dor de cabeça.
- Traga uma para mim. – Ele disse quando ela chegou a porta.
- Não sou sua empregada.
- Por favor, Granger. – Enfatizou o por favor, em um tom cansado.
- Tá, tá. – Saiu batendo o pé, deixando Draco com um sorrisinho vitorioso.
Ela mal sabia o quanto aquela detenção seria difícil para ele. Por isso sempre que surgia uma oportunidade, ele a destratava, para resistir a tentação de ser sempre gentil demais com ela. Já excedera seus limites. Precisava se concentrar em ser ruim com ela. “O ódio é o melhor.” E ela ficava tão mais linda brava.
Será que ela sabia o quanto ficava linda sem aquele uniforme? A blusa que vestia marcava bem as curvas de sua cintura e fazia um decote displicente em forma de V. Enlouquecia-o. Olhou pela sala a procura do garoto e encontrou-o lustrando um troféu. Recostou a cabeça e fechou os olhos, se permitindo analisar todos os pequenos detalhes dela. Os cabelos castanhos soltos em cachos definidos, caindo abaixo do ombro. Olhos em tom de castanho ou quase mel, brilhantes; frios quando se dirigiam a ele, quentes quando irritava-a – e ele amava o calor que emanava deles. Rosto fino e delicado, esculpido por anjos. Perfume floral inebriante. Corpo bem feito, com volumes nos lugares certos... Era perfeita.
- Malfoy! – Ouviu-a gritar. Abriu os olhos e viu-a ajoelhada diante dele. Os pensamentos que vieram a seguir não foram nada puros. – Malfoy! Em que mundo você está?!
- Hã... O que? Granger? Pensei que tivesse ido a enfermaria! – Ele disse ainda meio desnorteado.
- E eu fui. Já fui e já voltei.
- Como assim? Quanto tempo você passou lá?
- Uns 10 minutos. Voltei e te vi aqui de olhos fechados, achei que estivesse dormindo, mas duvido que doninhas sorriam enquanto dormem. E você pediu isso. – Balançou o vidrinho de poção na frente dele – Aí vim tentar te acordar. Estava tentando a uns 5 minutos.
Passou tanto tempo assim pensando nela sem perceber? E sorrira? Estava louco, agia como um menininho apaixonado, e na verdade não era isso, era só atração. Não se permitiria apaixonar por ela de novo. Ela não faria isso outra vez.
Sentiu vontade de retrucar a resposta dela a altura, chamando-a de sangue-ruim e tudo o que pudesse, mas estava sem humor para isso. Não entendia o porque. Deveria ofende-la, era o que ela merecia por existir, mas as palavras não vinham a boca. Pegou o vidrinho da mão dela, tomou o conteúdo e disse sério, porém calmo:
- Obrigado. Mas agora mantenha-se longe, por favor. Para o nosso bem.
O tom dele fez ela estremecer. Queria achar uma resposta digna, mas não conseguia. Só o que pôde fazer foi levantar e sentar-se a uma boa distancia dele. Dando a desculpa para si mesma de que devia vigiar o garoto, desprendeu seu olhar do loiro e fitou fixamente o menino, tentando não pensar.
Em vão.
Ele estava estranho, agora ela teve certeza. Ele não estava bem. Esperava que, com a resposta piadista que dera, ele fosse se levantar e manda-la embora dali a pontapés. Mas não, ele foi tranquilo, e sentiu um arrepio ao lembrar da ameaça contida no “mantenha-se longe, para o nosso bem” que ele lhe dissera. Não parecia uma ameaça ruim, não teve medo, e estava muito curiosa para saber o que aconteceria se ela não se afastasse dele, como ele mandou. Balançou a cabeça, espantando os pensamentos.
E o sorriso dele quando ela voltara da enfermaria... No que será que ele estava pensando? Parecia tão bobo, mas tão malicioso. Balançou a cabeça novamente.
Chegou a conclusão de que estava louca. E ele deveria estar também.
Surpreendeu-se ainda mais quando o ouviu falar em um tom contido, depois de cerca de 20 minutos em silêncio:
- Já sentiu vontade de ser qualquer pessoa no mundo, menos você?
“Que pergunta estranha...” -
Acho que todos sentem vontade disso, Malfoy. O que vale é o porque de querer ser outra pessoa. – Disse, também contida.
- Eu não queria ser um Malfoy. – Falou em um tom pesaroso, triste. Hermione se compadeceu.
- E porque não?
- Porque eu sou condenado por isso. O meu sangue sempre tem que falar mais alto. Eu não posso amar. Eu não gosto de ser ruim, maltratar as pessoas, mas meu sangue e meus ensinamentos me impelem a isso. Eu não queria ser mal, mas sou. Tenho que ser.
Não sabia nem o porque de ter desabafado daquela maneira com ela. Mas não aguentava mais. Precisava desabafar, e tinha que ser com ela, tinha que mostrar para ela que ele não era mal, precisava mostrar que ele tinha um lado bom, mesmo que isso não fosse adiantar nada e nem mudar nada. Como era idiota. E louco. Deviam interna-lo em St. Mungus, ou prende-la por usar a maldição Imperius, porque só podia existir duas opções: ou estava louco ou ela o controlava. A segunda opção pareceu mais plausível, de várias formas diferentes.
- Sabe que eu vou ter que usar Obliviate em mim ou em você depois dessa confissão, não sabe? – Ele disse rindo. Ela também riu.
- Não seja bobo, inimigos também podem ter um momento de trégua e ninguém precisa ficar sabendo.
- É, eu sei. E de uma maneira muito idiota eu confio em você.
- Eu também. Mais uma coisa que ninguém precisa saber. – Deu um sorriso cúmplice. – Mas você não precisa ser um Malfoy, você não tem só esse sangue correndo em suas veias.
Hermione sabia que não podia deixar aquela conversa ficar tão cúmplice e confidente. Ele também sabia. Mas não puderam evitar. Eles queriam aquilo, mesmo sem entender o porque, mas queriam.
- Eu sei... – Respondeu depois de pensar um pouco. – Tenho minha mãe. Ela é adorável. Mas como eu, não teve a opção de ser boa. Foi entregue de bandeja ao meu pai, em um casamento forçado. Não pôde escolher nem com quem casar, foi proibida de amar. Como ela, eu já tenho meu destino traçado. Sem opções.
- Não, Malfoy. Seu destino é você quem faz. Soa clichê, mas é a verdade.
- Não para mim. Eu não tenho para onde correr.
Hermione calou-se. Queria conforta-lo, dizer que estava tudo bem, mas não era verdade, A vida não era o conto de fadas que ela queria que fosse. Quando ele voltou a falar, tinha o tom embargado, a face sofrida:
- Eu só queria poder me apaixonar e fazer alguém se apaixonar por mim, sem medo que ela morra por isso. Queria não precisar ter que repelir as pessoas, porque até ser meu amigo, Granger, é perigoso. – Suspirou – Eu só queria ser normal, igual a todo mundo.
Hermione não soube o que falar. Era irreal, sem lógica e sem sentido. Sabia que no dia seguinte, quando seu humor voltasse ao normal, ele a ofenderia, chamando-a de suja, sangue-ruim, nojenta e todos os outros adjetivos que ele usava. Mas queria que aquele momento durasse, que aquele Malfoy aparentemente bom e sem mascaras fosse real. Queria ajuda-lo, mostra-lo uma saída. Mas nenhuma palavra queria se formar em seus lábios. A única coisa que sabia que aquele momento de trégua traria consequências.
- Você está gostando de alguma garota e não pode ficar com ela, é isso?
- Não. – Mentiu – Eu não gosto de ninguém. Meu pai a mataria, se fosse o caso.
Não era de todo mentira. Não gostava mesmo de ninguém. Não poderia gostar.
- Você não pode se proibir de se apaixonar, Malfoy. Ninguém pode escolher de quem gosta e nem quando. E seu pai está preso, não pode saber o que você faz aqui no castelo.
- Acredite, ele pode. Mas deixa isso para lá, esquece isso. Não vale a pena falar nesse assunto. – Disse, fechando os olhos e colocando um ponto final na conversa.
Nunca se imaginou tendo uma conversa dessas com ele. Nunca imaginou um Malfoy bom. Será que era verdade? Será que ele sofria tanto assim em ser o que era? Será que ele queria mudar? Eram tantas dúvidas.
Só teve certeza de uma coisa: ela não esqueceria essa ronda e detenção. Nem ele.
xxx
N/A: Estou realmente desapontada com o FeB... Postando só por postar.