Capítulo III – Toque.
Passou o resto seu tempo livre a beira do lago, como havia combinado com os amigos. Mas no fundo, queria mesmo era ficar sozinha. Respondia apenas o que achava estritamente necessário. Em sua mente, só a seguinte frase passava: “Draco não é o pior. Só é incompreendido.”
Isso ela sempre imaginou. Filho único, homem, deveria ter nas costas todo o destino do pai, deveria ter que seguir o mesmo caminho que ele, sem escolhas. Talvez não pudesse opinar nem nas roupas que vestia. Mas isso não era desculpa para ofender nascidos trouxas ou perturbar a vida das crianças inexperientes e indefesas do Primeiro Ano. Mesmo incompreendido, ele era ruim. Era algo natural dele, como respirar. Nunca esperou que ele mudasse.
Ainda faltando 30 minutos para a próxima aula, Hermione saiu de perto dos amigos, dizendo que iria a biblioteca pegar um livro para estudar. Não era de todo mentira, não precisava de mais livros para estudar, mas precisava se distrair, mudar o rumo de seus pensamentos, e nada melhor do que um bom livro. Entrou na biblioteca salivando. Adorava aquele cheiro de livros. Era seu refugio.
Passou pela prateleira onde havia livros de romances. Sempre foi adepta desse estilo. Principalmente aqueles trágicos, como Shakespeare. Achou Romeu e Julieta, e o pegou, não faltava muito para a próxima aula, mas era uma boa distração e assim manteria a mente ocupada. Já havia lido aquele livro muitas vezes, mas não se cansava, era o seu favorito. Saiu em direção a sua mesa favorita, perto da janela, onde poderia ver o céu azul sem nenhuma nuvem, mas quando chegou perto, estancou. Já estava ocupada, por ninguém menos que Draco Malfoy. Lia atentamente um livro não muito grande, que ela identificou como “A Bela e a Fera”. “Um conto trouxa” ela pensou. Nunca imaginou ver aquela cena um dia: Draco Malfoy lendo um romance. E ainda por cima trouxa. “Ele está mais estranho que o normal. Eu hein!”
Desanimada, ela retornou a estante e devolveu o livro ao seu lugar. Perdeu a vontade de ler. Arrumou a mochila nos ombros e saiu, rumou a sala de DCAT, sua próxima aula. Ainda faltavam 15 minutos, mas quem liga? Nem entendia o porque, mas queria que aquele dia acabasse logo. Sua cabeça explodia com tantos pensamentos. “Malfoy estranho. Encontro com Zabini. Ron com ciúmes. Roupa. Maquiagem. Sapatos. Gina louca. Eu ainda mais.” Era muita coisa para pensar, e ainda aquele mosquitinho chato sussurrando em seu ouvido: “E porque o Malfoy está em seus pensamentos? Você se importa com ele? Você quer que ele mude? Porque?”
Não, ela não se importava. “Se importa sim, sempre se importou!” Não, era mentira! “Você sabe que não é!” Não poderia! “Você tem um coração bobo, Hermione. Mesmo sem querer você sempre se importou. Com todos. Não é ele em especial, no fundo você acha que até para Voldemort existe esperança, quem dirá para o Malfoy?” Não, ele não vai mudar! “Você sabe? Porque tem tanto medo que ele mude?” Não era medo, era só um fato. “Você tem medo que ele fique bom o suficiente para que você se apaixone por ele.” Mas quem falou nisso? “Você sabe que é verdade. Ele sempre te atraiu, desde a primeira vez que você o viu.” Ele era bonito, mas ninguém falou em paixão. “Você tem medo que ele se apaixone por você. Tem medo de se apaixonar por ele.” Impossível. Isso nunca aconteceria! “Nunca é tempo demais, minha cara.” Eles se odiavam. “E entre o amor e o ódio, a linha é muito tênue.”
- Hermione! – Era a segunda vez que gritavam com ela daquele jeito, e dessa vez foi Parvati, que a olhava divertida. – Terra chamando Hermione! – Estralou os dedos a sua frente, quando percebeu que a amiga ainda estava um pouco fora de orbita – Você está bem, Hermione?
- E-estou... – Gaguejou, olhando a amiga sentada ao seu lado. A sala já estava cheia e ela não viu ninguém entrar. Na verdade, nem lembrava muito bem como havia chegado a sala. Passou tanto tempo assim devaneando entre sua razão e o seu coração? E que pensamentos eram aqueles? “Você sabe...” Sussurrou seu coração. Mas não começaria outra guerra psicológica ali.
- Você está é bem estranha, isso sim. – Riu, divertida. – Pensando no Zabini? – Cutucou.
- Sim. – Mentiu – Preciso de uma roupa para o encontro.
- A gente vê isso no quarto, antes de você ir para a ronda. Vamos prestar atenção na aula. – Completou, quando ouviu o professor dizer um “boa tarde”.
Hermione concentrou-se em prestar atenção na aula, e conseguiu. Só viu sua mente livre para pensar novamente na hora do jantar, e só pensou mesmo em se alimentar. As meninas a chamaram para ir ao quarto antes da ronda para ver a roupa que vestiria no dia seguinte, mas não sentia vontade. Agora sim, queria pensar, pôr tudo no lugar e parar de uma vez com esses pensamentos bobos. Com uma desculpa qualquer, rumou para um de seus refúgios favoritos: a Torre de Astronomia.
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Draco não aguentava mais. Precisava terminar seu relacionamento com Pansy, não aguentaria aquele ser humano irritante nem mais um minuto em seu encalço. Chamou-a em um canto do Salão Comunal e decidiu que seria curto e grosso. Não tinha paciência para ser carinhoso com ela.
- Precisamos conversar.
- Mas agora, Draquinho? Vamos namorar um pouquinho antes, depois conversamos. – Jogou-se em seus braços, falando em um tom manhoso.
- Não, agora. – Tentou se soltar.
- Ok, então me diga, Draquinho, o que quer conversar? – A voz dela arrastou-se, era mel puro. Mas não era bonito. Era irritante.
- Quero terminar. – Curto.
- Que piada de mal gosto, Draquinho.
- Não é piada. Quero terminar.
- Não pode fazer isso. – Ofendeu-se, soltando-o.
- Posso. E vou.
- Porque?
- Porque eu não gosto de você. – Grosso.
- Gosta sim, você me ama. – Insistiu.
- Nós sabemos que isso não é verdade.
- O que foi? Tem outra? Não sou suficiente? - Disse a morena, começando a chorar.
- Não tem ninguém, Pansy. Só quero terminar, ficar sozinho. Se me der licença. – E saiu, deixando a morena aos prantos.
Sabia que seria assim, por isso optou por ser rápido. Ela não desistiria fácil, ainda veria aquelas lágrimas de crocodilo milhares de vezes, implorando para voltar, mas não a aguentava mais. Não pretendia fazê-lo aquela hora, mas sua cota de paciência havia acabado quando viu a Granger ir combinar detalhes de seu encontro com Blaise. “O que você tem haver com isso?” Sua mente lhe gritava toda vez que pensava no encontro.
Precisava pensar, pôr os pensamentos no lugar. Estava pensando mais na Granger do que lhe era permitido. Resolveu ir para a Torre de Astronomia. Era um lugar tranquilo, silencioso e vazio. Pelo menos, ele achava.
Assim que chegou lá, arrependeu-se. Alguém já havia invadido seu canto de paz. Sabia que não era só seu, muita gente ia lá para pensar, como ele. Mas achou que o lugar estaria vazio pelo fato de ainda ser o segundo dia de aula e que no outro dia tinha passeio a Hogsmead. Todos já deveriam estar indo para os quartos, descansar ou conversar. Estava pronto para mandar quem estivesse ali para longe quando viu quem era. A Granger. Não era possível, nem em seu canto de paz, teria paz? E ela estava tão linda. Recostada ao parapeito, a luz do luar e iluminava, deixando-a ainda mais branca; os cabelos refletindo o próprio tom de castanho. Era linda, quase uma miragem, quase um sonho. Ela notou que não estava sozinha e virou-se bruscamente.
- O que faz aqui, Malfoy?
- Eu que te pergunto, o que faz aqui, sangue ruim? – Incitar seu ódio era a melhor saída. Precisava odia-la.
- Ora, eu cheguei aqui primeiro!
- Na boa, Granger. – Suspirou – Eu só quero pensar. – E com um aceno na varinha, fez cair um tecido preto bem ao meio da varanda da Torre, como uma cortina, dividindo o lugar em dois. – Fique aí, se quiser. Somente... Não respire. Não quero me infectar com seu ar sujo.
- Mas é muita ousadia! – Desdenhou. – É claro que ficarei. Cheguei aqui primeiro. Idiota!
- Granger, cala essa sua boca, por favor? Não quero discutir com você.
- Então suma daqui!
- Cale-se por bem ou eu a calarei por mal, Granger. Você decide. – Então ela calou-se, e mesmo sem vê-la, ele sabia, ela estava bufando de odio por ele. Queria provoca-la mais, mas era melhor assim, precisava realmente pensar.
O que estava quase impossível. Cada vez que qualquer brisa suave chegava a ele, vinha junto o perfume dela e o desnorteava. Não era possível. Tinha ido aquele lugar justamente para pensar, e quando chegou lá, ela estava ali, como se o esperasse, com o se o destino o afrontasse. Era um tormento. O perfume floral invadiu novamente suas narinas e ele perdeu o rumo. O que estava pensando mesmo?
Aquilo era um castigo.
Ela não estava muito diferente. Mas que grande ironia do destino! Havia ido aquele local pensar nele, ou no porque pensava nele, e ele se materializara a sua frente. Parecia até brincadeira. E agora aquela cortina negra entre eles, parecia mais intransponível do que qualquer outra invisível que já havia ali. Era como se todas as diferenças houvessem se materializado entre eles, provando que até uma amizade ali era algo impossível. Percebeu que ele estava estranho. Nem discutira com ela, ou a mandara para fora dali. Tudo o que queria era arrancar aquela cortina, segurar sua mão e perguntar o que havia acontecido.
E nem sequer sabia o porque dessa vontade.
Instintivamente e sem pensar, ela levantou a mão e passou pelo tecido, como se assim pudesse toca-lo, e surpreendeu-se quando sentiu que já havia outra mão ali por trás da cortina. Era ele? “Claro que é ele, sua boba, só há vocês dois aí!” Sua mente alertou. Continuou com o toque através do tecido, sentindo a mão dele quente mesmo com aquela barreira ali. Era um calor diferente, bom.
O que estava acontecendo?
Draco não pode acreditar quando sentiu a mão dela. Levara a mão a cortina simplesmente por querer toca-la e ali estava. Sua mão na dela. Um calor tão fraco emanava daquele toque, mas que esquentava-o por completo. Continuou ali, com a mão parada sentindo o toque dela, até que cessou. Viu-a sair correndo para fora da Torre, e a frieza instantânea o atingiu de forma brusca, fazendo-o vacilar, como se o calor do toque dela fosse vital para que ele não morresse de frio. Como deixara aquilo acontecer? Não podia ter acontecido.
“Não podia!” Gritou sua mente.
Mas aconteceu.
Hermione corria sem parar, como se aquilo fosse mudar alguma coisa, como se a pressa fosse apagar todo o ato; fazê-la, talvez, atravessar alguma barreira no tempo e voltar, desfazer tudo aquilo. Não acreditava em si mesma. Como ousou aquilo? Não podia crer. E ele havia retribuído! Como? Era inacreditável. Não conseguia raciocinar, só queria correr e esquecer aquilo, mas suas pernas protestavam. Parou, respirou fundo e tentou achar alguma lógica naquilo.
Não conseguiu.
Aquilo era um sonho? Se sim, por sinal, era muito sem graça.
Respirou fundo outra vez e olhou para o relógio. 20:30. 30 minutos para o início das rondas. “Faça alguma coisa!” Sua mente sussurrou. Precisava fazer algo, mas algo que a impedisse de voltar lá e perguntar o porque daquilo. Decidiu-se por ir tomar um banho e colocar uma roupa mais confortável, afinal, passaria três horas perambulando pelo castelo. Foi, mantendo um passo rápido, até seu quarto e quando passou pela porta, foi bombardeada de perguntas das quais ela só entendeu a palavra “encontro”. Não era o que precisava. Dizendo as amigas que estava com dor de cabeça, foi para o banheiro. Realmente estava com dor, mas não era isso que a impedira de ficar e conversar com as amigas. O fato é que falariam de Blaise, e, sabia, de alguma maneira, falariam dele. Ficaria estranha e suas amigas notariam. Não queria falar sobre ele e nem sobre aquilo, só queria esquecer.
“Você faz muito caso de pouca coisa.” Sua mente lhe alertou. Sim, havia sido só um toque, por cima de um tecido, realmente não era nada demais, se aquele em questão não fosse Draco Malfoy, seu maior inimigo. Isso fazia daquele pequeno ato algo enorme. Principalmente em seu coração.
“Eu disse que seu medo era se apaixonar.” Gritou seu coração. Decidiu que aquela era a hora perfeita para discutir consigo mesma. Razão versus coração. Era um grande duelo.
“Ninguém falou em paixão.” Retrucou a razão.
“Sim, mas eu falei, e eu comando seus sentimentos. E digo também que você é uma medrosa.”
“Não é medo. E só a constatação de algo impossível.”
“Se não é medo, porque não tenta ser amiga dele?”
“Enlouqueceu? Ele é nosso inimigo. Ele é mal. Ele me ofende de todas as coisas horríveis existentes. Como acha que haverá amizade assim?”
“Lembra do que Gina disse? Ele te ofende por puro prazer de te ver brava. E ele não é mal. Você sabe que ele não é.”
Chega. Não podia mais com aquilo. Seu coração era impossível e quase sempre vencia por ser tão boba e ver bondade até onde não tinha. Não com o Malfoy. Ele nunca mudaria.
“Então de uma explicação plausível para o que aconteceu hoje.”
Não se deixaria levar. Terminou o banho rapidamente, vestiu calças confortáveis, uma regata branca simples e calçou tênis. Colocou a varinha no bolso, despediu-se das amigas e saiu. 20:55. Em cima da hora, sem tempo para pensar, foi para sua área de ronda. Seriam três horas difíceis.
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N/A: Gente... Sinceramente, estou muito triste com o Floreios e Borrões. Aqui é meu lugar favorito para ler fanfics, posto aqui por isso, pensei que fosse ter leitores e comentários aqui, porque pelo menos eu sempre comento nas fics que eu leio aqui e... Nada? Realmente, fiquei muito triste, tô atualizando aqui só porque vou atualizar no Nyah. Percebi que lá se tornou o favorito de muitas escritoras e acho que entendi porque. Enfim, espero que gostem. x