Hermione sentiu o coração acelerar quando se aproximou de Snape para sentir o pulso do pescoço. Nada.
Antes que ela chamasse o curandeiro estava ali e voou para a cama e parou ao lado de Snape.
- Faça alguma coisa, sr. Borwn, eu imploro... – murmurou ela.
Ele executou vários feitiços seguidos. Snape inspirou forte e tossiu muito sangue. Hermione passou para o outro lado da cama e tentou colocá-lo numa posição sentada, de modo que ele não teria de se dobrar para conseguir tossir.
- O que foi aquele apito, doutor?
- Ele teve uma parada cardíaca – explicou o curandeiro. – O que até demorou demais para acontecer. Ele não está conseguindo respirar direito, um dos pulmões está inundado de sangue, e a primeira poção que eu ministrei, antes de trazê-lo para cá, foi para limpar o pulmão e impedir que mais sangue entre. Só depois de limpar o pulmão é que poderei tentar fazê-lo cicatrizar.
- Quanto tempo você acha que isso pode demorar?
- Um mês, talvez mais.
Os olhos dela se arregalaram.
- Um mês? Um mês inteiro?
- Ou mais.
- Ele vai ficar em coma durante um mês?
- Não, é possível que ele acorde antes. Mas vai dormir muito mais do que ficar acordado. Ele não terá força para permanecer acordado por muito tempo. O coma é um mecanismo do corpo para não gastar uma energia que ele não tem.
Hermione assentiu.
- Você vai ficar com ele durante todo o tempo que ele ficar aqui?
- Sim – ela disse.
- Não existe nenhuma garantia de que ele vá sobreviver a esse ataque – ponderou o curandeiro.
- Eu sei disso, senhor, mas estarei aqui mesmo assim.
Brown assentiu e retirou-se mais uma vez e Hermione voltou-se para olhar para Snape. Naquela posição meio sentada o som da respiração dele era menos ruidoso, mas, em contrapartida, mais sangue escorria do nariz e do canto da boca dele.
Ela lavou uma toalha na pia do banheiro e limpou o sangue. As lágrimas não haviam deixado os olhos dela, e o nó na garganta persistia, mas ela tinha que cuidar dele.
Passou-se uma semana daquela agonia. Ninguém da Ordem viera vê-los, mas o curandeiro explicou que havia muitos espiões de Voldemort no hospital, e que por isso não era seguro ficar um entra e sai de membros da Ordem.
Hermione tinha olheiras profundas e os olhos vermelhos. O cabelo estava um ninho, mas ela pelo menos tomava banho todos os dias no banheiro do quarto. O curandeiro começou a se preocupar com ela, mas ela garantiu que não arredaria o pé dali sem Snape, andando ou carregado num saco preto.
O curandeiro trazia as refeições para ela e a fazia comer tudo na sua frente, porque ele tinha certeza de que ela não comeria se não fosse obrigada.
Ele incluíra uma poção de nutrientes para Snape, pois, como ele não acordara, era impossível fazê-lo mastigar. Hermione às vezes conseguia fazê-lo engolir uma sopa quentinha com um sabor mais razoável.
O sangue das tosses vinha diminuindo e o que escorria pelo nariz durante a respiração também. O curandeiro disse que pelo menos o corpo dele parecia estar respondendo às poções.
Depois daquela semana inteira, Hermione comentou com Brown que talvez fosse bom dar um banho em Snape, pois remover a sujeira do corpo com magia não era e nem nunca seria a mesma coisa que um banho.
O curandeiro disse que teria de chamar uma enfermeira, e ela disse que ela mesma faria, que só precisava de ajuda para colocá-lo na banheira.
- Isso não é muito sábio, senhorita, você não tem experiência com isso – disse ele.
- Eu juro que tomarei cuidado, senhor. Eu duvido que alguém tomaria mais cuidado nesse mundo do que eu. Apenas o levite até a banheira.
O curandeiro deixou-se convencer. Obviamente, ninguém além daquela jovem visivelmente apaixonada seria capaz de cuidar dele melhor. Além do mais, qualquer enfermeira que visse a feia marca negra no braço dele entraria em pânico e o negligenciaria com certeza. Aquela marca não era sinal de nada bom, mesmo sabendo que Snape era apenas um espião.
Ele levitou Snape e o pôs vestido numa banheira vazia, e então se retirou.
Hermione controlou a temperatura da água usando a varinha dele – impressionante como ela se dava bem usando a varinha dele – e delicadamente removeu a veste de hospital, que era mesmo desenhada para ser facilmente removível.
Ela poderia ter imaginado, mas o sentiu mais relaxado imerso na água quente. Ela o sentira meio tenso durante toda aquela semana e, embora o curandeiro dissesse que era impossível, agora ela via que estava certa. Não havia prova física disso, no entanto; era uma sensação.
Ela colocou sais de banho relaxantes na água, e um especial com propriedades curativas que ela mesma havia preparado e mandado para o hospital. Era uma poção que agia em contato com a pele, e o próprio curandeiro concordara em deixá-la usá-lo.
Hermione cuidadosamente lavou os cabelos dele e, quando terminou, deixou-o na água e apoiou os braços na beira da banheira e a cabeça nos braços, numa posição confortável para observá-lo. Os olhos dela eram ternos ao fitar o rosto dele. Ela olhou-o com atenção. Pela primeira vez em uma semana, não havia sangue escorrendo do nariz dele.
Ela executou o feitiço que Brown a ensinara para conferir se os pulmões já estavam limpos. O sorriso dela ao constatar que sim faria o sol parecer opaco.
O coração dela bateu forte quando o viu fazer uma cara de desagrado. Os olhos dele se contraíram e ele crispou os lábios. Ela segurou os lados da cabeça dele e a levantou de leve e deu um beijo leve nos lábios dele.
- Volta pra mim, Severo...
Ele piscou e abriu os olhos lentamente. Piscou várias vezes para clarear a visão e olhou para a mulher à sua frente. Parecia um anjo, se isso existisse.
Mas as lembranças passaram em sua mente, e a voz dela num lugar escuro implorando para ele não deixá-la sozinha o fez olhá-la melhor.
- Hermione... – a voz dele estava rouca e veio num sussurro, e ele tossiu.
- Shh... está tudo bem – sussurrou ela. – Está tudo bem. Eu vou chamar o curandeiro...
Ela fez menção de se levantar, mas uma mão em seu braço a reteve. Fora rápido demais, entretanto, e Snape sentiu a cabeça girar.
- Severo, eu só vou chamar o curandeiro – sussurrou ela. – Fique quieto aí.
Hermione levantou-se e pegou a varinha dele em cima da pia e executou o feitiço que o curandeiro ensinara para chamá-lo. E depois ela se abaixou ao lado dele. Ele olhava para ela, e a expressão dele estava vazia.
- Eu imagino que tenha alguma dor e que você esteja se sentindo meio tonto e meio fraco – sussurrou ela, acariciando o rosto dele.
Ele fechou os olhos e se inclinou ao toque dela.
- O curandeiro disse que você dormiria muito para recuperar as energias... eu quero que você descanse. Nós ainda temos que cicatrizar o seu pulmão esquerdo. Ele foi limpo durante essa semana, porque estava cheio de sangue. Ninguém sabe como você sobreviveu, mas por favor, não vá embora...
Os olhos dele se abriram e ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas Brown chegou naquele exato momento. Hermione se levantou e se afastou. O curandeiro tomou o lugar dela e executou uma série de feitiços rápidos.
- Bem, o pulmão está limpo. Talvez seja bom deixá-lo na água por enquanto. Pegue a poção específica para a cicatrização de órgãos internos – disse ele, falando diretamente com Hermione.
O curandeiro deu um saltinho de susto quando viu o movimento brusco de Snape ao ver a menina sair do banheiro. E viu Snape levar uma das mãos à cabeça.
- Ela não saiu daqui – disse ele para o paciente. – E ela já disse que não vai sair sem você. Andando ou num saco preto, se me recordo das palavras dela.
Snape pigarreou levemente.
- Quanto... tempo...? – ele parecia exausto ao falar.
- Uma semana e dois dias desde que Dumbledore, madame Pomfrey e a srta. Granger o trouxeram aqui.
Snape não respondeu. Sua cabeça latejava como o inferno. Logo Hermione voltou com um vidro de uma poção azul nas mãos.
- Eu não fiz essa – sussurrou Hermione.
- Não, eu roubei dos estoques do hospital – disse Brown com um sorriso simpático.
Hermione sorriu de volta.
- Dê você mesma a ele – disse o curandeiro. – 100ml a cada hora.
- Eu não... – começou ela.
- Eu duvido que eu consiga fazê-lo beber alguma coisa – disse o curandeiro, olhando para Snape.
Hermione olhou para o homem na banheira e suspirou e se abaixou ao lado dele. Conjurou uma medida de 100ml e ajudou Snape a beber. Ele bebeu tudo.
O curandeiro assentiu.
- Eu deveria levitá-lo até a cama.
Hermione esvaziou a banheira e vestiu a roupa de hospital em Snape, que esboçou uma expressão azeda de desprezo. O curandeiro levitou-o até a cama e, depois de algumas instruções, saiu do quarto.
Ela foi sentar-se na cadeira, mas ele segurou a mão dela, e ela acabou sentando-se na beirada da cama, ao lado dele.
Ele fez menção de falar, mas ela pousou um dedo sobre os lábios dele.
- Não fale ainda. É bom ver você acordado, mas você deve estar cansado. Já está até com os olhos pesados... Durma, e eu continuarei cuidando de você.
Snape piscou lentamente e mais lentamente. E adormeceu. Hermione suspirou e deu um beijo nos lábios dele. Quando tentou se mover para se sentar na cadeira, sentiu a mão dele ainda a segurando e deu um sorrisinho entre lágrimas. Ela apertou a mão dele e ajeitou-se para se deitar ao lado dele. Também estava cansada e não conseguira dormir durante todo aquele período torturante.
Na sede da Ordem Lupin estava treinando Harry, Gina e Rony naquela tarde, e estava impressionado com a melhora dos três. O problema era que, se eles tiveram uma melhora tão visível em uma única semana de treinamento, isso significava que eles não sabiam quase nada de duelos. Como alguém que já soubesse o necessário poderia demonstrar tanta superioridade em relação ao próprio desempenho em apenas uma semana.
McGonagall acompanhava esses treinamentos e ela mesma dava uma sugestão ou outra. Pobres comensais que atravessaram ou atravessassem o caminho dela.
Ela também passava longas horas conversando com Dumbledore sobre as próximas ações, que deveriam esperar tanto Snape, quanto Hermione, quanto Moody, que receberia alta ainda naquela noite.
Os gêmeos Weasley haviam criado uma forma variada do feitiço não-me-note, menos durável, mas mais eficaz, pois conseguia encobrir o som de passos e de respiração também. Eles e Dumbledore estavam trabalhando em conjunto para garantir que funcionaria por mais tempo, afinal vinte minutos eram muito pouco.
Molly e Arthur Weasley se juntavam a Shakebolt e Tonks para vigiar o Ministério e observar os possíveis espiões de Voldemort. Era uma tarefa difícil, e por essa razão eles permaneciam tanto tempo fora da Ordem. Além do mais, camuflavam essa vigilância com o próprio emprego no Ministério. Aurores, afinal tinham de xeretar os outros, e isso Shakebolt e Tonks podiam fazer muito bem. E a função de Arthur Weasley era mexer com papéis. E ninguém via com que papéis ele mexia.
O maior problema pra quem estava encarregado de vigiar o Ministério era Lúcio Malfoy. Ele tinha influência e não havia nada provado contra ele afinal, embora a marca negra no antebraço esquerdo poderia ter provado qualquer coisa.
Hermione passou dois dias ainda dando poções de cicatrização para Snape. Ele não acordou, à exceção de uma vez, durante a noite, que Hermione não viu. O cansaço óbvio dela chocou Snape. Ele mesmo sentia suas tonturas diminuírem, mas agora o problema era voltar a ficar em pé depois de tanto tempo sentado ou deitado. Ele não se mexera. Ele apenas a observara até o sono tomar conta dele outra vez.
No fim do segundo dia de ministração da poção curativa, o curandeiro declarou que o pulmão dele estava completamente cicatrizado.
- Mas por que ele não acorda? – perguntou ela, apreensiva, enrolando a toalha com os dedos.
- A poção de cicatrização não faz o trabalho dela sozinha; precisa do metabolismo dele. Cicatrizar algo tão grave em tão pouco tempo consome muita energia do corpo. Talvez ele acorde lá pelo horário do almoço de amanhã bem mais disposto e, se ele conseguir comer e não voltar a dormir durante a tarde, terá alta. Mas deverá ficar no mais completo e absoluto repouso.
- Entendi – disse ela. Pode deixar que eu cuido disso.
E, quando Brown saiu, ela deu seu habitual beijo nos lábios de Snape e sentou-se em sua poltrona. Segurando a mão dele, adormeceu.
Era por volta das dez horas da manhã quando ela foi acordada por uma mão removendo uma mecha de cabelo de seu rosto. Ela abriu os olhos devagar e encontrou um Snape sentado fitando-a com um meio sorriso.
- Eu não quis acordá-la – disse ele.
Ela abriu um sorriso estonteante e levantou-se para ficar em pé ao lado dele. Ele a puxou e a fez sentar-se à beirada da cama.
- Você está melhor? – perguntou ela.
- Com um pouco de dor de cabeça, apenas. Creio que é por causa do tempo deitado – disse ele.
Ela sorriu e acariciou o rosto dele.
- Você ficou comigo... – sussurrou ela.
Snape olhou para ela, mas não respondeu. Ela tinha lágrimas nos olhos.
- O que foi? – perguntou ele.
- Eu achei que ia perder você – sussurrou ela, e abraçou-o e encostou a cabeça no peito dele. Snape abraçou-a de volta e deixou-a chorar. A voz dela estava no fundo de sua consciência pedindo-o para ficar com ela, dizendo-lhe o quanto ela o amava. É claro que ele ficara com ela. Como poderia não atender a um pedido tão doce da única pessoa que amara de verdade em sua vida? Nem Lílian ele amara tanto. Ele conseguiu sobreviver depois da morte de Lílian, mas não achou que teria algum motivo para continuar vivo se Hermione morresse. Nem a vingança teria sido capaz de trazê-lo para longe dos corredores escuros da morte se Hermione, sua doce Hermione, não tivesse permanecido a seu lado.
Pensando bem, agora que ele a olhara por inteiro, ela parecia desgastada. As olheiras mais profundas que ele já vira em sua vida eram as que circulavam os olhos dela, e os cabelos dela pareciam positivamente abandonados. Ele sentiu um aperto forte em seu coração. E quando ele morresse? A guerra não terminara. Se em uma semana tendo-o entre a vida e a morte ela ficara assim, o que aconteceria com ela se ele morresse, realmente morresse?
E não adiantava afastar a menina de si agora que ela já o amava. Ele devia ter feito isso antes. Ele não devia ter feito sexo com ela na primeira vez. Ele não deveria ter aceitado o plano maluco dela para devolvê-lo às boas graças de Voldemort.
Ele suspirou aborrecido, o que a fez se afastar dele e olhá-lo nos olhos.
- O que foi?
- E quando eu morrer, Hermione? O que vai acontecer? – ele bufou. – Se eu já deixei você assim por causa de uma coisinha à toa, como vai ser quando você me vir morto, possivelmente no campo de batalha?
As lágrimas que encheram os olhos dela caíram rápidas e fluentes, sem parar. Ela não falou. Snape olhou para o outro lado. Nada mais doloroso do que provocar dor a alguém que se ama. Mas era a verdade, o que ele podia fazer? Sabia que não sobreviveria no final de tudo. Ele nem mesmo merecia viver.
- Hermione, vá embora – ele disse com um nó na garganta. – Vá embora e não fale mais comigo.
Ela olhou para ele. As lágrimas ainda marcavam o rosto dela. Ela parecia tão indefesa e abatida e cansada.
- Severo, porque você faz isso com você? Eu te amo. Amo, amo tanto que se eu voltasse dez mil vezes no tempo, sabendo as conseqüências de meus atos, dez mil vezes eu teria ido pra cama com você naquela tarde depois da cena do laboratório. Eu não vou embora. Eu não fui embora esta semana, sabendo que você poderia morrer. Mas no seu último suspiro eu estaria aqui para te dizer o quanto eu amei você.
Snape engoliu em seco, olhando para o outro lado. Hermione respirou fundo e enxugou as lágrimas. Dois pratos acabavam de aparecer na mesa de cabeceira dele.
- Comida para um doente ficar fortinho – disse ela com um sorriso angelical, ajeitando-se o melhor que podia na beirada da cama.
Snape olhou para ela. Ele via como suas palavras a haviam machucado, mas ela sabia que ele só queria seu bem. Ela juntou comida no garfo.
- Abre a boca.
- Você vai me dar de comer?
- Eu fiz isso a semana inteira, Severo, qual o problema agora? – perguntou ela.
Ele bufou e abriu a boca. Ela lhe deu de comer. Os olhos dela brilhavam com tanto amor que Snape se sentiu afogar. Como ela podia amá-lo de volta? Era fácil acreditar em Deus vendo um anjo à sua frente. Era fácil acreditar em toda a história trouxa, em todo aquele papo de misericórdia, perdão e sabe-se lá mais o que. Ele não merecia o amor dela. Mas ele o tinha. Ele deveria apenas corresponder a esse amor e se fazer merecedor, por mais que não fosse.
AEWWWWWWWWW
POSTEI
O 17 NUM TA PRONTO AINDA, ENTÃO ESPEREM COM CARINHO.
BJOKASSSSSSSSSSSSSS |