Capítulo 14 – Cartas Sem Respostas
“Harry,
Eu mandei uma carta há alguns dias atrás, mas como Errol está meio velha, acho que você não a recebeu.
Enfim, como estão as suas férias?
Espero que tudo bem, apesar dos seus tios. Eles não parecem muito legais.
Então, como eu falei no trem, o convite para que passar alguns dias aqui, nas férias, ainda está de pé!
Lino está vindo, um dia desses.
Bom, espero pela sua resposta.
Até mais,
Rony”
XxXxX
“Percy, me empresta o Hermes!”, pedi, exasperado, “Ela sempre fica enfiada naquela gaiola idiota, de qualquer jeito!”
“Eu uso a minha coruja, Ronald”, Percy fungou, indignado.
Hermes foi presente de papai e mamãe para Percy por ter virado monitor, o que era bem estúpido, se pensar bem no assunto. Percy era tão bom aluno que ninguém gostava de ficar perto dele, duvido que alguém quisesse trocar cartas com ele.
“Para mandar carta para o Wendel, seu amigo imaginário?”, Fred questionou, surgindo acompanhado por Jorge na cozinha, erguendo as sobrancelhas, “Empresta a coruja para o Rony, Percy, pára de ser chato”
“A gente sabe que é difícil para você, afinal ser chato é a sua... primeira natureza”, Jorge acrescentou.
Percy empinou o queixo, ignorando deliberadamente o comentário dos dois irmãos.
“Por que você não usa a Errol?”, Percy voltou os olhos para mim, impaciente.
“Eu estou usando a maldita da coruja, mas acho que ela está perdendo as minhas cartas!”, retruquei, revirando os olhos, “Mandei umas cinco cartas para o Harry e não recebi nenhuma resposta”, expliquei.
“Empresta a coruja para o garoto, Percy”, Fred suspirou, sentando-se à mesa e puxando um copo para perto e enchendo-a com leite.
“E por que eu deveria?”
“Porque Harry é bem mais legal que o Wendel”, Jorge alfinetou, “Sem contar, claro, que ele existe”
Percy bufou, colocou-se de pé, e ajustou o óculos com o dedo médio, enquanto nos lançava um olhar desdenhoso.
“Eu tenho com quem trocar cartas”, resmungou, “E não vou emprestar a Hermes”
Soltei um palavrão, enquanto apoiava o queixo na mão.
XxXxX
“Devolvam”, Percy sibilou, abrindo a porta do quarto dos gêmeos com força e nos encontrado jogando uma partida de Snaps Explosivos.
Todos erguemos os olhos, inocentemente, de nossas cartas.
“Devolver o quê?”, Gina perguntou, piscando os grandes olhos castanhos amendoados.
“Vocês sabem o quê!”, Percy guinchou, ajeitando o óculos que tinha começado a escorregar pelo nariz, “Devolvam!”
Virei a cabeça para o lado oposto e tentei conter uma gargalhada que subia pela minha garganta e Lino, que tinha chegado naquela manhã para passar o fim de semana conosco, estava revirando sua mala, fingindo procurar por algo, para esconder o riso.
“Devolver o quê, Percy?”, Fred pareceu genuinamente confuso, mas ambos os gêmeos eram ótimos para esse tipo de atuação, cujo dom eu não herdei – maldita genética.
“O meu...”, lançou um olhar exasperado, “caderno de registros”, sussurrou, mortificado.
“Ah, isso?”, Jorge se esticou e puxou um caderno de couro de debaixo de sua cama.
Percy ficou corado de raiva e vergonha, se não fosse pelos óculos que escorregava pelo seu nariz fino e comprido, não saberíamos se ele estava de frente ou de costas.
“Eu vou contar para a mamãe que vocês entraram no meu quarto!”, ameaçou, o dedo em riste.
“E nós vamos contar para mamãe que você tem tido sonhos estranhos”, Gina retrucou, sua voz calma, mas igualmente ameaçadora, “com uma garota chamada Penny”
“Quem tem cabelos castanhos como camundongos...”, recitou Fred.
“...olhos doces como o mel...”, completou Jorge.
“...voz suave como o piar de um rouxinol...”, acrescentei, minha voz trêmula pela vontade de gargalhar. Ninguém mandou não me emprestar a porcaria da coruja.
Sim, a idéia tinha sido minha.
Não, eu não me sinto culpado.
Egoísta filho-da-mãe.
“...e pele macia como seda”, Gina terminou, com um sorrisinho, “Como você é brega”, declarou, por fim, mostrando a língua.
Percy ficou parado por alguns segundos, abrindo e fechando a boca, incapaz de falar qualquer coisa.
“Vocês...”, ele articulou, soltou um grunhido, incrédulo, “Vocês não podiam ler isso!”
Fred deu de ombros.
“A culpa é sua: quem esconde um diário dentro da gaveta? Quero dizer, a gente nem precisou procurar direito!”, Fred soltou, exasperado, “Um conselho: da próxima vez, esconda embaixo do seu colchão, junto com aquele catálogo cheio de mulheres peladas”, sugeriu, pensativo.
“Elas não estão peladas!”, Percy guinchou, indignado, enquanto Gina fazia uma careta e soltava um ‘eeeeeca’, “Ela estão usando roupa íntima”, resmungou, mortificado, evitando estabelecer contato visual, “E aquilo é um catálogo de uma loja, OK?”
“E você faz compras lá com que freqüência exatamente?”, perguntei, erguendo as sobrancelhas.
Percy ficou ainda mais vermelho – se é que isso era possível. Caminhou, pisando duro, até nós cinco e, com um movimento brusco, arrancou o diário da mão de Jorge, lançando um olhar irritado na nossa direção.
“Mamãe sempre disse para não confiar no que não tem cérebro”, Fred lembrou.
“Bem, e eu vou falar com quem, exatamente?”, perguntou, desdenhoso, “Vocês?”, com isso, ele saiu do quarto, fechando a porta com força.
Lino começou a gargalhar.
“Então, alguma chance da gente conseguir aquele catálogo?”, perguntou, um brilho divertido nos olhos escuros.
“Eeeeeeca”, Gina fez uma careta, “Nojentos”
XxXxX
Eu estava escovando os dentes quando Gina entrou no banheiro e sentou-se na borda da banheira, me observando, pensativa.
“O que foi?”, perguntei, minha voz abafada pela escova de dente e a pasta na minha boca.
“Hum...”, Gina desviou os olhos para o teto, como se estivesse calculando o que ia me falar, “Por que você não chamou o Harry Potter para vir para cá esse fim de semana?”, perguntou, finalmente.
Franzi o cenho. Gina tinha mencionado muito o Harry desde que eu chegara do colégio, fizera todo o tipo de perguntas sobre ele e me obrigara a contar a história do trasgo e da Pedra, pelo menos, umas vinte vezes.
“Mandei uma carta para ele e para Hermione”, respondi, cuspindo a pasta na pia e enxaguando a boca, “Hermione vai passar as férias com os avós e Harry não respondeu”, acrescentei, guardando a escova junto com as outras seis,
“Mas ele vai vir?”, ela perguntou, balançando os pezinhos, que não alcançavam o chão, “Outro dia?”
“Não sei, Gina”, ergui as sobrancelhas, “Eu estou esperando ele responder a minha carta ainda”
“Mas você acha que ele vai vir?”, ela insistiu, ainda se recusando a fazer contato visual.
“Não sei! Por quê?”, perguntei, finalmente.
Gina corou furiosamente, desviando os olhos dos meus.
“Nada, não”, murmurou, pulando da banheira e correndo para fora.
Fiquei observando a porta, algum tempo, tentando entender o que se passava na cabeça das garotas.
Dei de ombros, apaguei a luz do banheiro e fui para o meu quarto.
XxXxX
“Eu não quero ser a gandula!”, Gina guinchou, tentando recuperar a vassoura que eu tinha tirado de suas mãos, “Devolve isso, Rony!”, ela berrou, agarrando com força o cabo da vassoura e dando puxões fortes.
“Gina, os gandulas são muito importantes”, Lino observou, tentando ser útil, “Sabe, eles pegam a bola quando ela vai para fora do campo...”
“Então, por que você não é o gandula?”, ela rosnou, lançando um olhar feio para o menino.
“Gina, você não pode jogar com a gente”, Fred deu um passo a frente, os braços cruzados e uma expressão determinada.
“Por quê?”, ela perguntou, os olhos castanhos cerrados, fuzilando o irmão que se pronunciara.
“Porque...”, Fred hesitou, o cenho franzido, buscando por uma justificativa plausível.
“Porque nós estamos em número par”, Jorge pronunciou-se, abruptamente, chamando a atenção de todos para ele, “E, se você entrar, um time vai ficar desequilibrado”, concluiu.
“Isso não é desculpa”, Gina chiou, dando solavancos com o braço, com força, tentando fazer com que eu soltasse sua vassoura, “Eu quero jogar!”
“Você pode ser juíza!”, Fred tentou, desesperado, enquanto via Gina começar a cerrar os olhos e algumas pedrinhas que estavam aos nossos pés começaram a tremer, erguendo-se do solo, “Eu até te consigo um apito!”, acrescentou, pouco convincente.
Gina, então, soltou a vassoura – com a falta de força oposta, acabei caindo no chão -, e lançou um olhar feio para nós quarto.
“Você pode enfiar esse seu apito no seu...”
Mamãe ficaria escandalizada.
XxXxX
“Ahn... Gina?”, entrei no quarto dela, cauteloso, e fechei a porta às minhas costas, “Tudo bom?”, perguntei, enquanto observava-a pregar um pôster na parede, “O que é isso?”
“As Holyhead Harpias”, respondeu, sem olhar para mim, “É um time só de mulheres, você sabe. E elas venceram os Chudley Cannons ano passado. Duas vezes.”, acrescentou, cruelmente.
“Não que isso seja grande coisa”, Gina continuou, pulando para consegui fixar a parte de cima do pôster, “Um grupo de amebas adestradas e cegas poderia vencer aquele monte de lixo”
“Hey, controla a língua!”, fiz uma careta.
“O que você quer, Rony?”, Gina perguntou, sem rodeios, enquanto recuava dois passos, as mãos na cintura e a cabeça levemente inclinada, certificando-se de que o pôster estava bem fixado.
Respirei fundo.
Eu odiava quando tinha que passar por aquele tipo de situação, mas eu não tinha outra opção.
“Tem uma aranha no meu quarto”, falei, rapidamente, olhando para a janela dela, enquanto alternava meu peso de um pé para o outro.
“E você quer que eu mate”, Gina concluiu, cruzando os braços e voltando-se para mim, as sobrancelhas erguidas cinicamente.
“É”, senti minhas bochechas ardendo.
Não era a primeira vez que eu o pedia, mas isso não tornava a situação menos humilhante.
“Depois que você não me deixou jogar com vocês?”, ela ergueu as sobrancelhas.
“Eu estava com esperanças de que você tivesse esquecido esse detalhe”, murmurei, contrariado.
“E você quer que eu te ajude, quando você foi um total babaca comigo, que me ignorou e queria que eu fosse juíza no jogo?”, a voz dela era fria e estremeci.
“Se não fosse pedir demais”, soltei, num fio de voz.
“Por que você não pede para o Fred ou o Jorge matarem? O Lino, talvez?”, sugeriu, maldosa, os olhos castanhos brilhando de uma maneira muito parecida com a dos gêmeos antes de aprontarem alguma coisa.
Estremeci.
“Você sabe o que aconteceu da última vez que eu pedi”, choraminguei.
“Pelo amor de Merlim, Rony, esquece aquele ursinho de pelúcia”, Gina resmungou, enquanto prendia os longos cabelos em um rabo-de-cavalo.
“Primeiro, aquele era o meu ursinho favorito que foi transformado numa aranha horrível”, ergui um dedo, “E, segundo...”, hesitei, “Gina, eu não vou conseguir dormir com aquela coisa me espreitando”, choraminguei.
“Inferno”, Gina resmungou, “Vamos lá, donzela. Eu vou matar a Aranha Malvada para você”
“Haha. Engraçadinha”, resmunguei, enquanto saíamos do quarto dela e atravessávamos o corredor, em direção ao meu.
XxXxX
“Rony, não tem nenhuma aranha aqui”, Gina sentou-se na minha cama, brincando, entediada, com o travesseiro.
Ocupei o lugar ao lado dela.
“Tem, sim”, teimei, deitando-me, fitando o teto, “Ela estava bem naquela quina ali”, apontei para o canto onde as paredes se encontravam, alguns centímetros acima da janela, “E ela era muito grande”
Gina voltou-se para mim.
“Você é tão marica”, soltou, desolada.
“Gina! Eu não sou...”, soltei, indignado, mas logo interrompi-me, mudando de tática, “Mamãe ficaria decepcionada se ouvisse seu linguajar”
“Papai ficaria decepcionado se soubesse que você foge de aranhas de meio centímetro”, ela rebateu, imediatamente, depois riu, inclinou-se e apertou minha bochecha, “Mas não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo, Roniquinho”
“Sai para lá”, resmunguei, empurrando a mão dela, bem no momento que uma coruja entrava pela janela do meu quarto, deixava um envelope sobre a minha escrivaninha e pousava sobre o encosto da cadeira.
“Gina, pegue um pouco de água para a coruja e um pouco da ração do Errol, por favor?”, pedi, enquanto me aproximava da escrivaninha e pegava a carta.
Gina saiu correndo em direção a cozinha, enquanto, distraidamente, eu passava o dedão na cabeça da coruja, acariciando-a, enquanto virava o envelope, lendo o remetente.
A carta era de Hermione.
“Rony,
Como você está?
Anda tudo bem por aqui.
Obrigada pela carta, fico contente que vocês estejam se divertindo com o Lino – tenho certeza que sua mãe não deve estar adorando tudo isso na mesma proporção que vocês.
Infelizmente, não poderei passar o fim de semana com vocês; meus pais tiraram férias e querem passar o resto do verão com meus avós.
Harry respondeu alguma das suas cartas? Ele não respondeu nenhuma das minhas também; claro que ele pode estar viajando com os tios dele, mas, mesmo assim, é bem estranho, não é?
Tenho quase certeza de que pedi a todas as corujas que entregassem para o endereço que Harry nos deu.
Enfim, aguardo uma resposta sua.
Abraços,
Hermione
P.S.: Já começou a fazer as tarefas? É claro que não, você é você e, se bem te conheço, vai esperar até o último minuto para fazê-las e, no fim, vai ficar choramingando e implorando para que eu empreste a minha. O que eu não vou fazer, por falar nisso. Então, comece suas tarefas logo.
P.P.S.: Estou falando sério.
P.P.P.S.: E que isso fique como prova”
Dei um risinho bem no momento que Gina entrava com um pires com água e um outro com um pouco de ração para corujas.
“De quem é?”, ela perguntou, curiosa, enquanto colocava os pires em cima da minha escrivaninha e a coruja voava para o tampo da mesa para se servir, “Do Harry Potter?”, acrescentou, ansiosa.
“Não, da Hermione”, respondi, abrindo a gaveta da escrivaninha e buscando por um pergaminho, “Ela não vai poder vir”
“E o Harry?”, ela perguntou, no mesmo toma, enquanto fixava os olhos em mim.
“Ele ainda não respondeu”, retruquei, distraído, enquanto puxava uma pena e um tinteiro, me jogava na cama e começava a escrever uma resposta, “Na verdade, o Harry não respondeu nem as cartas dela, nem as minhas”, acrescentei, enquanto coçava meu nariz com a ponta da pena, pensativo, e começava a escrever a carta de resposta, “Que estranho, não é?”
“Bem, o tio dele parecia bem malvado”, Gina sentou-se na minha escrivaninha e começou a acariciar a nuca da coruja com o dedo, “Vai ver ele prendeu a coruja dele”, sugeriu, erguendo as mãos.
“Huuum...”, considerei, pensativo, enquanto escrevia mais algumas palavras na minha carta, “Do jeito que o tio dele é, é mais provável que tenham prendido ele”, corrigi.
Gina soltou uma exclamação, perplexa.
“Mas... mas... mas ele é o Harry Potter! Você não pode simplesmente prender o Harry Potter!”, sua voz estava semi-histérica.
“É, o Harry não é exatamente popular com os tios dele”, respondi, relendo o que já tinha escrito, “Você sabe, eles não ligam muito para ele”
“Mas ele é o Harry Potter”, ela repetiu.
“Eles sabem disso”, voltei a escrever.
“Então, como eles podem não se importar?”, exasperou-se.
“Eles se importam, acho. Mas acho que é do jeito que eu me importo com o Perebas, sabe? Detesto ele e rezo todos os dias para que ele seja devorado pelo Errol para que eu ganhe um animal de estimação novo, mas também acho que ficaria chateado se isso acontecesse. Tem algum jeito de falar ‘pare de ser essa madona insuportável’ sem perder a amizade da pessoa?”, perguntei, erguendo meus olhos na direção dela.
“Eu acho que não dá”, ela respondeu, aturdida, “E... Você acabou de comparar Harry Potter ao Perebas?”, ela perguntou, finalmente, piscando os olhos, perplexa.
“Não... foi só... uma... metáfora”, ergui os olhos e vi algo que me paralisou, “Gina, ela voltou”, sussurrou.
“Quem?”, Gina perguntou, acompanhando meus olhos, “Ah, sua inimiga de meio centímetro”, revirou os olhos e tirou o chinelo, “Você sabe que ela tem mais medo de você do que você tem dela, certo?”
Estremeci.
“Duvido”, resmunguei.
Gina soltou o ar.
“Gina ao resgate”, murmurou, subindo na minha cadeira e matando o inseto.
Cara, como eu odeio aranhas.
XxXxX
Estava próximo do fim de Julho, quando meu pai abriu a porta da sala, assoviando, e nos encontrou deitados no chão, entediados. Gina e Fred estavam jogando xadrez bruxo, enquanto Jorge e eu fazíamos nossas lições de casa – é, tão ruim assim.
“Onde está a mãe de vocês?”, ele perguntou, baixinho, e quando Gina apontou para o andar de cima, ele sorriu, “Crianças, eu tenho uma coisa para mostrar para vocês”, anunciou, satisfeito, deixando sua mala em cima da mesa da sala e gesticulando para que o seguíssemos em direção à cozinha.
Deixando nossos afazeres de lado, o acompanhamos, até que ele nos levou à garagem.
“Aqui está a minha maior invenção”, disse, orgulhoso, fazendo um gesto largo com os braços.
Todos nós esticamos o pescoço, procurando por algo na garagem, além do carro que possuíamos há mais de oito anos.
“Onde?”, Gina estava com a testa franzida, enquanto olhava em volta.
“Aqui!”, papai bateu com a mão no capô.
Ficamos em silêncio por algum tempo.
“Pai, isso se chama carro”, Fred ergueu as sobrancelhas, surpreso, “Já foi inventado faz um tempinho”
Jorge observou papai atentamente, provavelmente analisando suas pupilas.
“Você mesmo comprou lembra?”, perguntou, lentamente, como se falasse com uma criança retardada, “Pai, você fumou algo com um cheiro doce ou passou por aquele bar irlandês?”, aproximou-se, cauteloso.
“Quê?”, papai nos observou, aturdido, “Não o carro, Merlim! Mas o que eu fiz no carro!”, satisfeito abriu a porta do passageiro, puxando Jorge para dentro, e depois abriu a do banco traseiro e Gina, Fred e eu nos sentamos, trocando olhares confusos, enquanto ele dava a volta pelo carro e ocupava o lugar atrás do volante, “Prontos para a melhor experiência da suas vidas?”
“Vai deixar a gente dirigir?”, Gina perguntou, esperançosa.
“Não”, papai empurrou o óculos para o alto do nariz, “Mas nós vamos voar”
“Ah, meu Merlim, pai!”, Fred passou a mão pelos olhos, exasperados, “Carros não voam, esses são os...”, mas enquanto Fred resmungava, papai acelerou o carro e, mudando de marcha, o carro começou a planar até que estávamos há uns bons dois metros do chão, “Esse carro voa! Merlim amado! Por que esse carro voa?”, os olhos escuros de Fred estavam arregalados, enquanto grudava o nariz na janela, observando o campo de quadribol.
“Eu falei que era a minha melhor invenção”, ele sorriu, orgulhoso.
“Pai, mas não podemos voar assim!”, Jorge exclamou, embora tivesse um brilho de admiração nos olhos, “Trouxas poderiam nos ver! E, não tenho certeza, mas acho que eles não estão acostumados com carros que voam. Embora seja, você sabe, muito maneiro e tudo o mais”, apontou, com o dedo, para as luzes do vilarejo.
“Eu também pensei nisso”, com um sorriso, papai apertou um botão e o carro tremeu, mas nada mudou; olhamos em volta, tentando achar algo que indicasse o que aquele botão fizera.
“Pai, eu acho que...”, Gina começou, as sobrancelhas quase unidas, numa expressão confusa, mas foi interrompida pelo carro sendo acelerado, afastando-se do vilarejo e seguindo em direção a um lago.
Ele desceu o carro até que estivesse a apenas um metro acima da superfície do lago.
“Olhem para baixo”, papai disse.
Todos o fizemos e, perplexos, observamos a superfície parada do lago aos nossos pés.
“Estamos invisíveis?”, Fred berrou, os olhos escuros brilhando, animados.
“Nós não”, papai respondeu, sorridente, “Mas suponho que eu poderia enfeitiçar alguns lençóis com feitiços ilusórios, caso fosse necessário...”, acrescentou, pensativo, o cenho franzido.
Jorge, Gina e eu soltamos exclamação de surpresa e admiração, enquanto observávamos papai, habilmente, se desviar na direção a uma clareira, ganhando altura novamente, girou o carro, dirigindo-nos à Toca novamente.
“Posso dirigir?”, a voz de Gina estava trêmula de tanta ansiedade, “Por favor?”
“Não”, papai falou, em tom objetivo, “Eu só queria mostrar para vocês”, acrescentou, enquanto aterrissava perto do lago e dirigia em direção à garagem.
Todos nós resmungamos, contrariados, enquanto descíamos do carro.
“Mamãe sabe disso?”, Fred perguntou, abrindo o capô do carro, curioso. Papai fechou-o com a mão, impossibilitando meu irmão de espiar qualquer que tenha sido a mudança efetuada.
“Então, sobre isso...”, meu pai começou, escolhendo cuidadosamente as palavras.
XxXxX
“Rony,
Voltaremos da casa dos meus avós em breve e acho que iremos direto para o Beco Diagonal, comprar os materiais – espero que a carta já tenha chegado!
Aqui foi bem divertido. Meu avô está fascinado com o fato de eu ser uma bruxa, ele vive me pedindo para fazer coisas esquisitas, como pintar as paredes de roxo ou transformar a cadeira em um cavalo e uma vez, quando minha avó começou a contar sobre a última briga dos vizinhos, ele suplicou para que eu a deixasse muda... você não pode imaginar o quão decepcionado ele ficou quando expliquei que não posso usar magia fora do colégio.
Seu pai realmente fez um carro que voa e fica invisível? Agora eu sei de onde os gêmeos tiraram toda a genialidade. Uma pena que não empreguem onde deveriam.
Bem, deve ter sido legal!
Talvez, se eu for aí no final das férias, você possa me mostrar!
Por falar nisso, soube do Harry? Alguma carta? Algum recado? Ele não respondeu nenhuma das minhas ainda e, como você disse nas cartas anteriores que ele ainda não respondeu nenhum dos seus convites – e Harry parecia muito ansioso para ir para a sua casa -, estou começando a ficar realmente preocupada.
Você não acha que os tios horríveis dele fizeram algo com ele, acha?
Bem, vou terminar por aqui.
Abraços,
Hermione
P.S.: Estou contente em saber que você já fez a lição de Herbologia, mas realmente te aconselho a começar a de Poções logo”
Sentei na escrivaninha para escrever a resposta.
“De quem é essa carta?”, Gina perguntou, jogando-se na minha cama, “Do Harry?”
“Não”, respondi, sem erguer os olhos do que estava fazendo, “É da Hermione”
“Ah, tá”, Gina ficou algum tempo em silêncio, “E... o Harry Potter respondeu?”
“Não, Gina, ele não respondeu”, uma pitada de impaciência fez-se ouvir em minha voz.
“Estranho, né?”, Gina continuou, em tom casual, “Do jeito que tá, até parece que o tio dele prendeu mesmo ele”, ela suspirou e interrompi o que estava fazendo.
Soltei um grunhido, concordando, enquanto terminava de responder.
“Mas, e então? Você acha mesmo que ele vai vir?”, ela perguntou.
Com um suspiro exasperado, puxei um pergaminho.
“Vou escrever de novo”, respondi, “Agora sai daqui e pára de me encher o saco”, rosnei, enquanto voltava minha atenção para a carta de Hermione.
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Papai chegou naquela noite, tirou a capa, guardou a chave do carro na gaveta da cozinha, como de costume, aproximou-se da mesa, inclinou-se, beijou minha mãe nos lábios e sentou-se à mesa conosco para o jantar.
“Como foi no Ministério, querido?”, mamãe perguntou, enquanto o servia com um pouco de purê de batata.
“Tudo bem”, papai franziu o cenho, “Rony, você falou com Harry Potter durante esse verão?”, ele voltou os olhos para mim, curioso.
“Ahn... não”, respondi, enquanto enfiava uma colher de purê com ervilhas na boca, “Por quê?”, perguntei, a voz abafada pela comida.
“Ele recebeu uma advertência por ter usado magia”, papai respondeu, enquanto se servia de um pouco de suco, “Ao que me parece, foi um feitiço de levitação”
“E foi expulso?”, Percy perguntou, enquanto cortava um pedaço do seu bife, interessado.
“Não, foi uma advertência, gênio”, Fred retrucou, arremessando um monte de ervilhas na direção do monitor com o auxílio de sua colher, ao que recebeu um olhar ameaçado de mamãe.
“Não, não foi expulso”, papai respondeu, ignorando a mini-guerra de comida, “Mas foi por muito pouco”
“Bem, eu avisei”, Percy deu de ombros, “Entreguei pessoalmente os informativos e fiz questão de dizer que não era permitido usar magia nas férias”, informou, em tom de desaprovação.
Mas meus pensamentos estavam em outro lugar.
Harry sabia que não podia usar magia fora do colégio e ele adorava Hogwarts, não faria nada para ser expulso de lá. A menos que estivesse em uma situação extrema.
Arregalei os olhos, pensando no tio dele e em todas as coisas que ele podia estar fazendo com o pobre coitado, com aqueles olhos pequenos e maldosos, que se parecem com os dos hipopótamos. Vai ver ele obrigava o Harry a usar aventais cor-de-rosa e a cozinhar e encerar o chão como... como... como um escravo. E deixam-no preso numa gaiola junto com um monte de aranhas... aranhas grandes e peludas... e carnívoras...
Ah, meu Merlim, precisávamos fazer algo.
Então, pensei no carro que tínhamos estacionado na garagem. Aquele que voava e ficava invisível.
E, então, eu tinha um plano.
XxXxX
“Hermione,
Acho que sei o que está acontecendo com o Harry.
Fred, Jorge e eu tentaremos fazer algo a respeito.
Tentaremos trazê-lo para casa.
Você não respondeu minha última carta.
Está tudo bem?
Espero que sim.
E espero que a Errol não tenha morrido no meio do caminho.
Até,
Rony”
XxXxX
“O que vocês estão fazendo?”, perguntei, num fio de voz, enquanto via Fred e Jorge descerem as escadas segurando suas varinhas, “Não podemos fazer magia fora do colégio”, lembrei, observando os objetos, as sobrancelhas erguidas.
Papai estava trabalhando até mais tarde naquele dia, então resolvemos que era chegada a hora de salvarmos Harry de onde quer que ele estivesse.
“Não é uma varinha”, Fred revirou os olhos, estendendo o objeto para mim, “É um doce”
“Nossa mais nova invenção”, Jorge acrescentou, enquanto pegava a chave do carro que estava guardada dentro da primeira gaveta da cozinha, equilibrando uma pilha de bombas de bosta coloridas.
Jorge jogou a chave para mim. Abri a porta do piloto, ansioso; desde que papai mostrara o carro, estava me coçando de vontade de dirigi-lo.
“Bem, quem de vocês vai no banco da carona?”, perguntei, enquanto jogava a chave de uma mão para a outra e me apoiava na porta aberta.
Num movimento rápido, Jorge pegou a chave no meio de sua parábola, antes que ela chegasse à minha mão esquerda.
“Você não acha, sinceramente, que vai dirigir, não é?”, ergueu as sobrancelhas.
“Bem, o plano é meu”, argumentei, tentando reaver as chaves.
“Rony, o seu plano era: vamos usar o carro para salvar o Harry das aranhas peludas e do avental cor-de-rosa”, Fred me empurrou na direção do banco de trás, “Nós que trouxemos tudo de importante e ajudamos a dar corpo ao plano”
“Além do mais”, Jorge ajudou Fred a me arremessar para dentro do carro, “Nós somos mais velhos”, acrescentou, enquanto fechava a porta com força.
Fred sentou ao volante e Jorge ocupou o lugar da carona.
“Os gêmeos ao resgate!”, bradaram, animados, enquanto Fred ligava o carro e o tirava da garagem. Pigarreei, incrédulo.
Fred revirou os olhos.
“Os gêmeos e Rony ao resgate”, corrigiu, enquanto dava a marcha incluída por papai e o carro começava a planar. Vibramos animados, e olhamos para trás, enquanto a Toca se tornava um pontinho na escuridão.
“Então... quer dar uma mordida?”, Fred perguntou, entregando-me seu doce no formato de varinha.
Por que eu sempre era a cobaia?
Continua...
N/A: Olá, gente!
Aqui está o novo capítulo, na data prometida! :D
Infelizmente, ainda não consegui concluir a Câmara Secreta, mas já tenho alguns capítulos escritos.
Como sempre, os capítulos serão postados com uma diferença de duas semanas entre um e outro, sem atrasos.
Agora, aos comentários:
Pollitá: Aqui está o novo capítulo! O que achou? Espero que tenha gostado!
Trícia Guima: Eu concordo com você, também acho que o Rony não se apaixonou pela Hermione ‘de cara’ e é isso que tentarei fazer na minha fanfic – essa transição complexa do companheirismo ao amor. Espero que fique boa! Eu também mal posso esperar para chegar no Cálice de Fogo! Ter esquecido do aniversário de Rony foi uma falha terrível minha, mas tentarei compensá-la daqui em diante, OK? Espero que tenha gostado do novo capítulo!
Primo Barney: Uau! Obrigada pelo elogio! Espero que goste da nova ‘fase’ (?) da fanfic! E aguardo seu comentário! :)
Renata Nofal: Eu também adoro a cena onde o Rony começa a falar de sua família para a Hermione, de alguma forma, parece que eles estão começando um novo laço, sabe? O que achou do primeiro capítulo da Câmara Secreta??
Rafael Oliveira Silva: Desculpa ter que mudar a data de ‘lançamento’, mas é que eu mal tinha conseguido escrever – estou no último ano de colégio e mal tenho tempo para escrever -, mas fico contente que você tenha gostado da fic! O que achou do primeiro capítulo?
Hermione Granger Weasley: Eu ainda estou sem tempo para ler fanfics, com todo o rolo do colégio, mas prometo que assim que tiver uma ‘folga’ darei uma olhadinha, OK? Espero que tenha conseguido terminar a fic! ;D
Obrigada a todos que leram até aqui!
Beijos e até duas semanas,
Gii. |