Olhei atentamente para o quarto de Hermione. Lembrei-me de quantas vezes nós rimos e brincamos naquele quarto. Olhei para a cama e por um segundo imaginei que ela estivesse ali, sentada lendo um livro, como a vi muitas vezes quando fui até sua casa. A ficha ainda não tinha caído, que eu a tinha perdido. E tudo por culpa minha. Vi um porta retratos virado na escrivaninha e o levantei. Não havia nada ali. Talvez fosse uma foto que ela tivesse queimado ou rasgado, junto com tantas outras que tiramos. Nesse momento cai na realidade. Hermione nunca mais voltaria pra mim.
- Rony... – Marcos apareceu na porta e eu me levantei.
- Desculpe Marcos, eu... Já estou indo. Só vim... Deixar isso. – Apontei para o bilhete em cima da cama.
- Tudo bem, não se preocupe. – Ele sorriu. – Mas... Você sabe que isso é em vão não é?! Se bem conheço Hermione, infelizmente, ela é muito decisiva.
- Sim eu sei. – Abaixei a cabeça. – É meio inútil isso mesmo, mas eu precisava deixar alguma coisa, para o caso de um milagre acontecer. – Eu ri meio triste.
- Rony, eu e minha esposa gostamos muito de você, e você sabe disso. Sabemos que você não quis magoá-la de propósito, e fizemos de tudo para muda-la de ideia...
- Eu sei disso Marcos, e eu agradeço muito. Bom, não vou mais incomoda-los. Obrigado por tudo. – Eu apertei sua mão e ele sorriu para mim.
- Não queremos perder contato Rony. Helena se apegou a você, e gostaríamos que viesse nos visitar de vez em quando.
- Com certeza virei. – Eu sorri agradecido e saí do quarto. Na sala a pequena Helena olhava pra mim com os olhos vermelhos de tanto chorar. Mais uma vez aquela pontada de culpa bateu em mim.
- Tchau Rony. – Ela se apressou em me dar um abraço.
- Tchau pequena.
- Você vai voltar pra me ver?
- Claro! Quando você quiser. – Eu sorri.
- Você também pode buscar Hermione para nós? Porque sabe... Eu já estou com saudades dela. – Ela disse abaixando a cabeça e eu não consegui responder. Vivian a pegou e a abraçou.
- Meu amor, mamãe já te explicou não é mesmo?!
- Bom, eu já vou. – Falei e Vivian sorriu para mim.
- Como Marcos lhe disse Rony, não queremos perder contato, e qualquer noticia que tivermos de Hermione, você saberá. – Ela sorriu e me abraçou.
- Obrigado Vivian, mesmo. – Eu sorri e olhei pela ultima vez aquela casa. Ela nunca mais seria a mesma para mim.
Eram quase cinco horas da tarde quando Rony chegou em casa. Todos estavam na sala em silencio. Ele olhou um por um, e viu aflição em seus olhos. Rony respirou fundo e subiu em direção ao seu quarto, sem dizer uma palavra. Molly olhou para Arthur com tristeza, e Gina deitou a cabeça no ombro de Harry.
(Leiam enquanto escutam essa música: http://www.youtube.com/watch?v=Ss0kFNUP4P4)
Quando entrou em seu quarto Rony fechou a porta. Sentou em sua cama e ficou olhando para o nada, durantes alguns segundos. Ele colocou a mão no bolso e tirou a caixinha de dentro dele, olhou para ela por um tempo e depois a jogou do outro lado do quarto. Ele se levantou e bateu em seu guarda roupa. As lágrimas que Rony guardou por tanto tempo, tentando ser forte, caíram naquele momento. Rony encostou a cabeça no guarda roupa enquanto descontava a sua raiva batendo no objeto. Depois de tanto descontar sua raiva ele ajoelhou no chão sem forças. Abaixou a cabeça e soluçava de tanto chorar. Molly e Gina apareceram no quarto correndo, depois de escutarem os barulhos. Gina olhou assustada para a cena que via, nunca tinha visto Rony assim. Harry se apressou em levantar Rony do chão, e num ato espontâneo eles se abraçaram. Rony não se importava se nunca havia chorado na frente de ninguém, ele não se importava com mais nada. Harry vendo a tristeza do amigo tentou ser forte, para ajudá-lo. Molly e Gina não conseguiram segurar as lágrimas vendo Rony sofrer daquele jeito. Harry ajudou Rony a se sentar na cama, e Molly sentou ao lado dele. Harry segurou a mão de Gina e os dois saíram, deixando Rony e a mãe sozinhos.
- Eu sou um inútil, mãe. – Ele falava ainda soluçando.
- Não é não meu amor. Nunca diga isso. – Molly o deitou em seu colo enquanto acariciava seus cabelos. – A culpa não foi totalmente sua, Rony, você não tem que se culpar desse jeito.
- Mas agora ela se foi mãe, para sempre. Eu a perdi. – Ele falava enquanto chorava. Molly não conseguiu dizer nada, apenas ficou ali, fazendo carinho em seu filho, deixando que ele colocasse todo sua angustia para fora.
- É assustador ver Rony assim. – Gina falava enquanto Harry segurava sua mão. Eles estavam na sala junto com Arthur e os gêmeos.
- Realmente, nunca vi Rony desse jeito. – Arthur falou triste.
- Mas nós temos que ajuda-lo. – Fred falou.
- Sim, precisamos animá-lo. Ele não pode ficar assim. – Jorge completou.
- É, mas no momento acho que ele tem que ficar sozinho um pouco... – Harry disse e os outros concordaram.
Nesse momento Rony desceu, com os olhos inchados e vermelhos. Ele olhou para todos na sala, e eles pareciam preocupados. Ele respirou fundo e passou as mãos enxugando o rosto.
- Eu estou bem. – Ele mentiu e Gina correu para abraçá-lo. Agora seu apoio seria sua família. Ele teria que continuar sua vida, querendo ou não.
*1 ano depois*
Tranquei-me no quarto sem paciência. Aquela casa estava um caos, não dava pra ficar em paz ali. Gina e mamãe já me tiravam do sério, juntava as outras mulheres então eu não aguentava. Todo mundo estava eufórico pelo casamento de Gina e Harry. Ele havia pedido ela em casamento no meio do ano, e eles marcaram para depois da formatura de Gina. O casamento seria lá em casa, apenas para os amigos mais próximos e família. Mas tendo em consideração que minha família é enorme, a casa estava de pernas para o ar. Tranquei-me no quarto para fugir dos gritos histéricos daquelas mulheres loucas e neuróticas. Olhei pela janela e estava quase tudo pronto, o casamento seria em poucas horas. Fiquei imaginando que poderia ser Hermione naquela euforia toda, que poderia ser eu aflito e apreensivo no lugar de Harry, que ao invés de uma faixa escrito: “Harry e Gina”, poderia ter sido: “Rony e Hermione”. Mas não aconteceria isso. Olhei para minha escrivaninha e observei a caixinha em cima dela. Peguei-a e a coloquei no bolso. Olhei no espelho arrumando meu terno, felizmente eu tive livre arbítrio para escolhê-lo, porque se dependesse de Gina eu estaria igual um mané. Arrumei minha gravata e abri a porta do quarto. Me assustei com várias crianças ruivas passando correndo pelo corredor, primos, alguns que eu nem conhecia. Desci as escadas e minha mãe me olhou curiosa.
- Aonde pensa que vai?
- A senhora sabe aonde vou mãe...
- Mas hoje? Agora?
- Sim.
- Rony... Pelo amor de Deus não vá se atrasar para o casamento da sua irmã, você é o padrinho de Harry e...
- Eu sei mãe, não se preocupe eu não vou me atrasar. – Continuei andando e saí. Fui até o meu carro, novo a propósito. Logo quando formei, eu e Harry fomos chamados para jogar em um time da cidade. Claro que concordamos, era nosso sonho. Ganhávamos muito bem, até demais, e foi um dos motivos de Harry ter pedido Gina em casamento tão rápido. Entrei no carro e dei partida, a caminho do lugar que eu sempre ia naquele horário, todos os dias, há um ano.
Rony estacionou o carro e entrou no aeroporto. Olhou em volta, estava muito mais movimentado do que da ultima vez. Desde que Hermione foi embora, ele sempre ia até o aeroporto, as três horas da tarde, e ficava ali, na esperança de que ela retornasse. Obviamente era em vão, já que as únicas noticias que ele tinha dela era quando ele ia visitar Vivian e Marcos.
- Olá Victória. – Rony sorriu para a moça atrás do balcão.
- Olá Rony! – Ela disse simpática. – Está muito elegante.
- Obrigado. – Ele sorriu e deu uma volta. – Casamento da minha irmã hoje.
- Legal. Bom, então... Hoje está meio atrasado, então deve chegar mais ou menos umas quatro e meia ou cinco horas.
- Isso tudo?
- Sim. – Ela disse triste.
- Mas... O casamento começa as seis, minha mãe vai me matar. – Victoria olhou para ele com pena, e ele sorriu. – Tudo bem, eu espero.
- E então, teve novidades?
- Sim. Semana passada fui até a casa deles, e a mãe dela me disse que ela conseguiu um emprego de enfermeira. Era o que ela queria, então, ela deve estar muito feliz.
- Com licença senhor. – Um homem simpático apareceu batendo no ombro de Rony. – O senhor pode me ajudar com a minha mala?
- Claro. – Rony disse simpático e pegou a mala do senhor. Victoria olhou confusa e começou a rir.
- Senhor, ele não trabalha aqui. – Victoria falou rindo.
- Ah meu Deus, me desculpe! – O senhor disse se desculpando.
- Não se preocupe senhor, eu te ajudo.
- Não precisa rapaz, para estar tão elegante assim deve estar esperando alguém muito especial. – Ele sorriu e Rony fechou o sorriso.
- Bernard! Por que a demora? – Uma senhora no mesmo tom simpático apareceu.
- Clarice, você se confundiu querida, ele não trabalha aqui.
- Oh meu Deus, me desculpe meu querido...
- Não se preocupe senhora, eu ajudo com prazer.
- Mas não precisa. Deve estar esperando alguém, e um alguém muito importante. – Ela sorriu olhando para a roupa de Rony. Victoria olhou triste para ele, sabendo o que se passava em sua cabeça.
- Na verdade, estou mesmo. – Rony falou sorrindo.
- E quem é ela? Sua noiva? – A senhora perguntou animada.
- Na verdade não. É uma história muito complicada...
- Ah, mas nosso avião só sairá daqui a meia hora meu rapaz. – O senhor disse encostando o braço no balcão como se tivesse interessado em ouvir a história.
- Bem... Na verdade tem um ano que não a vejo. – Ele sorriu triste. – Cometi um erro, bem, não foi bem um erro só meu, mas eu ajudei...
- Ficou com outra mulher na frente dela? – A senhora perguntou e Rony e Victoria arregalaram os olhos.
- Como sabe?
- Meu querido, sou casada há 58 anos com esse homem aqui, e pode acreditar que já passamos por tudo nessa vida.
- Pode acreditar! – Bernard sorriu e abraçou a esposa.
- Mas... Ela não deu tempo para que eu me explicasse. – Rony disse e Victoria encostou-se ao balcão, como se nunca tivesse ouvido aquela história na vida. – Eu falhei como namorado, mas não consegui ao menos pedir desculpas. Hoje pago pelo que fiz, estou há um ano sem vê-la, e sem ouvir sua voz. Todos os dias desde então venho aqui, nesse mesmo horário, esperar um avião vindo de Londres, e todos os dias imagino ela saindo do avião, e passando por esse corredor aqui. Nós nos abraçaríamos, e eu faria a pergunta que já deveria ter feito há muito tempo. - Rony colocou as mãos no bolso e sentiu a caixinha de veludo.
- Mas... Isso... É lindo! – Clarice sorriu emocionada e Victoria concordou com a cabeça.
- Foi a coisa mais linda que já fizeram por alguém. – Victoria sorriu e Rony sorriu de volta. – Ei Rony! Olha... O avião chegou, parece que não se atrasou tanto. – Ela falou empolgada e os quatro olharam para as pessoas desembarcando do avião e entrando no aeroporto. Rony todos os dias sentia o coração disparar naquele momento, mas dessa vez uma ponta de esperança apareceu. Os quatro olhavam apreensivos, e o casal de idosos sem ao menos saber quem era a garota que Rony falou, sentiam uma enorme ansiedade, esperando que Rony falasse: “é aquela! Ela esta ali!”. Mas nada aconteceu. Rony tirou a mão do bolso e passou pelo cabelo sensualmente partido para o lado, um estilo que ele tinha acostumado a usar desde que entrou para o time de futebol da cidade.
- É... Mais um dia perdido. – Rony encostou-se ao balcão triste.
- Não desanime rapaz. É muito bonito isso que você faz. – Bernard bateu no ombro de Rony que sorriu.
- É, mas de nada adianta. Perdi a mulher da minha vida, estou arrependido, tenho que viver todos os dias com ela somente em meus pensamentos. De que adianta eu fazer tudo isso, sem ela ao menos ouvir?! – Rony falou deitando a cabeça em seu braço encostado no balcão.
- Mas eu ouvi. – Rony sentiu o coração disparar, por um segundo pensou estar sonhando. Ele levantou a cabeça e olhou em direção à voz. Lá estava ela, tão linda quanto antes, com um sorriso triste nos lábios.