Fora um erro ir para a cama cedo, concluiu Hermione, quan¬do acordou às cinco horas da manhã e não conseguiu mais dormir. Levantou-se, vestiu uma calça branca e uma blusa de tricô cor-de-rosa, com um casaco de algodão branco, e cal¬çou tênis e meias. Ficou andando pelo quarto e tentando assistir à televisão até que chegasse a hora de poder descer para o lauto café da manhã.
Ela sabia que Harry não estaria presente, porque ele dissera que tinha um compromisso para uma reunião du¬rante o café da manhã, mas o fato de sentar-se à mesma mesa onde na noite anterior tinham escutado a cantora era a melhor coisa, depois da companhia dele.
Ela adorava a pequena fonte interna e o piso de mosai¬cos. Lembrou-se do palácio em Asilah e dos belos tons dos azulejos azuis que o decoravam. Nunca esqueceria aquela visão, nem o passeio de camelo, com Harry tirando foto¬grafias e rindo só de ver o contentamento dela. Ficou sur¬presa pelo fato de um homem que ela conhecia havia tão pouco tempo ter se tornado tão importante em sua vida. O trabalho dela era no Quawi, e inevitavelmente teria de sair dali e deixar Harry.
Ele dissera que não era francês. Perguntou-se onde ele teria nascido. Era um conforto saber que tinha interesses comerciais no Quawi, pois pelo menos o veria de vez em quando. Depois que revelasse as fotografias, teria recordações do tempo que passaram juntos. Comeu um pedaço de melão, entristecida. Não queria pensar numa época em que Harry já não estaria em sua vida.
Ao reparar nas flores frescas nas mesas, recordou-se da mãe, que as adorava. Ainda sentia a perda recente, assim como saudade de Marc. Não estivera com ele desde o en¬terro, quando precisara impedi-lo de ir tomar satisfações de Daryl com os próprios punhos, ao saber o que seu ex-noivo fizera. Para um tipo conservador, seu irmão mais velho fi¬cava surpreendentemente desinibido quando chegava à hora de expressar sua opinião. Usara palavras que ela ja¬mais escutara para descrever Daryl.
Imaginou de que maneira o irmão iria encarar o homem elegante e sofisticado que a atraíra. Ficaria desconfiado, com certeza. Era estranho que um homem como Harry se in¬teressasse por uma moça inocente como ela. Era melhor lem¬brar disso e tomar cuidado. Afinal, ele poderia ser um escroque internacional procurando uma história de "cober¬tura", por exemplo. Entretanto, não se sentia desconfiada e não descartava a idéia de que ele a estivesse usando por interesse pessoal. Sentia-se impotente para parar de vê-lo, fossem quais fossem os motivos dele. Ficara sozinha por muito tempo... tempo demais.
A idéia de que Harry tivesse sido atraído pela pessoa dela em si foi descartada logo. Sentia-se absolutamente de¬solada quando considerava sua falta de sofisticação. Ginny teria sido o tipo ideal para ele, mas a vida tomava rumos estranhos. Esperava que a amiga fosse capaz de lidar com a cegueira de Draco Malfoy. Pelo que ela recordava, mesmo com os dois olhos bons, ele era uma peste. Cego, era de¬mais até para uma enfermeira veterana.
O garçom serviu café e perguntou se ela estava com fome. Com um sorriso tímido, Hermione foi até a mesa e serviu-se de frutas e bolinhos, nada que lembrasse um café da manhã.
Hermione começou a acreditar que o horário combinado jamais chegaria. Andou por mais de uma hora no interior do quarto, penteou duas vezes os cabelos, leu o regulamen¬to do hotel, assistiu às notícias pelo único canal da televi¬são em inglês e observou o movimento do porto pela jane¬la. Por fim, abriu-as de par em par, deixando que o quarto fosse envolvido pelos aromas de Tanger. Em algum lugar além do horizonte ficava o rochedo de Gibraltar, e mais além... a Espanha. Porém a neblina não permitia que se en¬xergasse tudo.
A batida na porta provocou-lhe um sobressalto. Não pre¬cisou verificar para saber a hora, pois Harry sempre che¬gava um pouco adiantado.
Abriu a porta e lá estava ele. Usava calça branca com uma camisa vermelha de linha e paletó branco. Estava elegante e informal, embora Hermione não acreditasse que ele pos¬suísse algum traje informal, como jeans ou camisetas, no guarda-roupa. Tratava-se de um homem cosmopolita e so¬fisticado. Fazia forte contraste com os homens que conhe¬cera até então, de jeans e botas, que passavam o dia colhen¬do feno. Recordou o irmão domando cavalos no curral, depois da morte súbita do pai, segurando-se à sela como se estivesse colado.
— Está linda, mademoiselle — comentou ele com um sor¬riso cativante.
— Estava pensando algo parecido sobre você... Aposto que nunca cavalgou um cavalo selvagem em toda a sua vida — comentou ela.
— Por que diz isso?
— E que você se veste tão bem... Meu patrão é o único homem que conheço que usa terno, mas ele é advogado. Todos os homens em Jacobsville usam jeans, camisa espor¬te e botas.
— Ah... os caubóis — disse ele, enquanto saíam para o corredor.
— Isso mesmo. Acho que nunca vi nosso capataz de terno. A comparação o irritou. Parecia que ela acreditava que ele fosse uma espécie de modelo de bela estampa, sem ap¬tidões físicas.
—Você cavalga? — indagou Harry.
Hermione sorriu.
— Cavalgo. Sei montar como um macaquinho. Meu ir¬mão Marc me colocou em cima de um pônei aos três anos de idade, para horror da minha mãe — recordou ela, sor¬rindo. — Peguei o jeito na hora. Tive uma égua belga que era só minha, e adorava passear com ela.
Entraram no elevador.
— Acredito que o sheik tenha um belo estábulo de cava¬los árabes puros — comentou ele.
— Acho que ele não me deixaria montar um, não é?
— A maioria são garanhões, usados apenas para procriar e perigosos de lidar. Além deles, claro, existem as éguas e os potros para montaria.
— Claro...
Hermione lembrou-se dos cavalos que precisaram vender porque não tinham mais condições de sustentá-los... inclu¬sive a bela égua belga.
Harry reparou e a observou curiosamente.
— Você gosta muito de cavalos, mas falar deles a deixa triste. Por quê?
— Bem, eu estava pensando em nossa fazenda. Os cava¬los eram usados para lidar com o gado. A maior parte era quarto-de-milha.
— Já ouvi falar do famoso quarto-de-milha texano.
— Você nunca me disse onde nasceu — lembrou ela. As portas do elevador abriram-se no andar térreo.
— Hoje vamos apreciar o passeio, amanhã trataremos disso.
Foi uma verdadeira aventura seguir Bojo e Harry pelo Socco, o mercado de tapetes. O guia conhecia os locais onde poderiam conseguir os melhores preços. Hermione sentou-se numa loja, fascinada, enquanto o vendedor explicava a diversidade dos padrões berberes. Eram um pouco como hieróglifos, pensou ela, observando-os de perto. Havia uma variedade enorme, não apenas de tapetes de lã. Havia tam¬bém de seda e de algodão. Hermione apaixonou-se por um tapete de algodão verde-claro, com figuras berberes.
A despeito de seus protestos, Harry comprou-o para ela, pedindo que anotasse o endereço da fazenda, para que o mercador o enviasse para lá. Hermione explicou que a ca¬seira recebia a correspondência quando ela não estava. Jun¬to com o capataz, seu marido, dirigiam as coisas para Marc, que se ausentava por períodos prolongados.
— Agora tem uma lembrança típica do Marrocos — dis¬se ele, enquanto caminhavam.
As ruas estreitas era ladeadas por altos muros de adobe. Ele a conduziu por um beco que terminava num portão grande de ferro trabalhado. Atrás havia um jardim florido.
— Essa é uma das casas de luxo para alugar aos estran¬geiros que vem passar as férias — mencionou o nome do hóspede atual, um famoso cantor de ópera, observando o espanto dela. — Gosta dele?
— Adoro ópera.
— Também adoro. Música é um dos poucos prazeres que me restam — afirmou ele, com ar sério.
— O que aconteceu para tornar você tão amargo? — per¬guntou ela, sem pensar.
— Nada que deva preocupá-la, mademoiselle — respon¬deu Harry, em tom formal.
— Desculpe, não tive intenção de ser intrometida — parece que atingira ali um ponto fraco. Harry era um homem extremamente reservado. Precisava se lembrar disso e parar de fazer tantas perguntas. Fosse o que fosse, de¬via ser algo doloroso.
Ele odiava a ideia de contar tudo a ela. Odiava lembrar-se de suas deficiências, sobretudo com aquela mulher. Num curto espaço de tempo, acostumara-se a ela. Não fazia a me¬nor ideia sobre como Hermione poderia reagir ao seu passa¬do secreto, nem queria pensar no assunto ainda. Deixou que ela fosse na frente para juntar-se a Bojo, que observou o rosto dos dois e sugeriu que almoçassem.
Saíram do bairro dos mercadores e entraram num restau¬rante, onde Hermione sentiu apetite apenas para comer uma salada. Harry mal pronunciou uma palavra enquanto re¬mexia a comida no prato. Enquanto comiam, o celular de Bojo tocou. Ele atendeu e falou brevemente, com seriedade, desligando em seguida. Ele e Harry conversaram numa língua que ela não compreendeu.
Hermione imaginou que depois daquilo iriam diretamente para o hotel.
Foi exatamente o que aconteceu.
— Não saia do hotel sob nenhuma circunstância — reco¬mendou ele, com firmeza, enquanto os dois se despediam, no saguão. — Não acredite em ninguém que fale por mim. Se receber uma mensagem qualquer, pode saber que não é da minha parte. Quero que me prometa isso.
A julgar pela expressão dele, algo corria mal. Hermione recordou os homens no sedã preto e os tiros, e ficou preo¬cupada.
— Acho que não gostaria de me explicar por que está tão preocupado, certo?
— Eu devia ter colocado você num avião de volta para os Estados Unidos — disse ele, ignorando a pergunta. — Agora essa possibilidade já não existe. Sua segurança está ligada à minha, e estou correndo grave perigo. Lamento tudo isso muito mais do que posso dizer.
Os olhos dela se arregalaram. Harry parecia tenso como uma corda esticada. Daria qualquer coisa para dissolver aquela expressão.
— Quer dizer que é mesmo um ladrão internacional? Que excitante! Quem está nos perseguindo? A Interpol?
A despeito do nervosismo, Harry riu.
— Não. Não é a Interpol... Hermione, quero que fique com medo. Pode salvar sua vida.
— Desculpe, mas não costumo ter medo. Cresci numa fazenda e trabalho para um advogado criminal. Vai me dar um colete à prova de balas e uma arma? — continuou ela. Parou e franziu a testa. — Pensando bem, pode pular essa parte da arma. Marc diz que raramente viu alguém atirar tão mal... Harry!
Ele colocara as mãos nos ombros dela e pressionara leve¬mente para interrompê-la. O tom foi autoritário, quando falou:
— Sei que tem boa intenção, mas não é o momento ade¬quado para brincar. Fique séria!
O toque foi elétrico. Hermione ergueu os olhos castanhos para ele, os lábios entreabertos. Sentia como se tivesse realmen¬te levado um choque. Percebeu o calor do corpo dele, o hálito de menta. Jamais reagira tão intensamente a um ho¬mem. As palmas das mãos se apoiaram contra o peito dele, pressionando, enquanto ela erguia o rosto para o olhar es¬curo e turbulento que a hipnotizava.
— Meu Deus, como você é forte... — sussurrou ela, sem se dar conta.
As mãos passaram para os braços, e ali os dedos encon¬traram músculos firmes e rígidos. Ele parecia irresistivel¬mente atraente, e ela aproximou-se.
Harry sentiu o toque dos seios contra a frente da cami¬sa leve e quase perdeu o fôlego. Seus olhos baixaram, e a expressão de seu rosto animou Hermione. Colou o corpo ao dele, sentindo as pernas se tocarem. Pela primeira vez em sua vida, encontrava-se subjugada por sua própria necessidade física.
Entretanto, ao mover-se, ocorreu algo devastador.
Um som que lembrava um gemido escapou dos lábios dele. O corpo todo estremeceu. Os olhos se arregalaram de puro terror ao encontrarem os dela. Harry resmungou e empur¬rou-a tão rápido que Hermione quase perdeu o equilíbrio.
— Fiz alguma coisa errada? — perguntou ela, com em¬baraço evidente.
Ele tinha dificuldade para respirar. Uma das mãos segu¬rava seu flanco. Não conseguia falar. Sentia uma dor enor¬me na virilha e nas coxas. Aquilo era... impossível!
— Preciso ir... imediatamente! Lembre-se do que eu dis¬se. Fique no hotel!
O tom lembrava mais uma ordem do que um pedido, pensou Hermione, arrepiada.
Harry partiu imediatamente, fazendo um sinal para Bojo, que o seguiu sem perder tempo.
Hermione conseguiu entrar no elevador e foi para o quar¬to, grata por a pequena cena não haver sido testemunhada por outros hóspedes. O recepcionista falava no telefone e o saguão estava deserto. Harry literalmente a jogara para longe, como se o contato entre ambos o desagradasse.
Ela fechou a porta e apoiou a cabeça contra a madeira po¬lida. Agora que o ofendera sendo oferecida, ele nunca mais se aproximaria dela. Devia fazer as malas, partir para o Quawi e esquecer sua estadia em Tanger.
Harry entrou na limusine e fez com que Bojo o levasse de volta ao próprio hotel, pouco adiante na mesma rua. Foi direto para o quarto, entrou no banheiro, fechou a porta, ligou o chuveiro e despiu-se. Pela primeira vez em muitos anos, forçou-se a encarar a própria nudez de corpo inteiro.
Cerrou os dentes enquanto observava os danos que a explosão da mina havia causado. As cicatrizes não passavam de linhas brancas contra sua pele azeitonada. No abdômen, entretanto, estavam as piores. Essas ele não podia mostrar para ninguém, para nenhuma mulher, jamais. Os médicos haviam sentenciado que ele jamais funcionaria como homem; agora, pela primeira vez em muitos anos, ele questionava o que sempre aceitara como verdade.
Fechou os olhos e imaginou o corpo de Hermione, inocente e rosado, pressionado contra o dele sem tecidos entre am¬bos. Novamente percebeu um novo despertar do próprio corpo. Abriu os olhos e olhou no espelho. Enquanto obser¬vava, seus pensamentos o excitaram.
— Mon Dieu! — exclamou ele, admirando com reverên¬cia o poder de sua ereção.
Nove anos. Nove longos, intermináveis e agonizantes anos de impotência, confirmada por todos os especialistas. Era permanente. Agora ele ficara excitado por uma virgem. Não apenas isso, mas a única mulher no planeta que não poderia seduzir.
Ironia das ironias, pensou ele. Existia uma pequena pos¬sibilidade de que ainda fosse viril, e ironicamente não po¬dia usufruir disso. Jamais desonraria uma virgem, ainda que fosse por esse motivo. Além disso, existia a dúvida. Mesmo que pudesse ainda ter uma ereção, será que poderia ser man¬tida por tempo suficiente para ter uma relação sexual com¬pleta? Ao longo dos anos, existiram explosões fantasiosas de prazer, mas com nenhuma mulher ele obtivera aquela reação. Mas naturalmente ele não tentara nada. Acreditara nos médicos, e jamais tocara uma mulher durante longos nove anos. Jamais testara a verdade. E agora que aparecera essa possibilidade, o que aconteceria? Ainda que cedesse à sua luxúria e a mantivesse com ele, estaria em perigo ali no Marrocos com seus inimigos.
O que Bojo ficara sabendo o deixara furioso. Seu pior inimigo acabava de ser libertado de um presídio em Moscou. Vários dos velhos companheiros mercenários dele ha¬viam desaparecido também. Não era preciso muito para concluir que a vingança estava em fase de planejamento. Era necessário sair logo do Marrocos, e tirar Hermione dali tam¬bém. Ela se tornara o elo fraco da corrente, por ser objeto de seu apreço. O homem que a tivesse poderia pedir qual¬quer preço. Harry faria qualquer coisa para salvá-la. E não apenas porque ela o lembrava tanto Brianne...
Só se apresentavam duas alternativas. Poderia contar tudo a Hermione e deixar que ela tomasse a decisão. Ou poderia mandá-la para casa antes que se metesse em assuntos pe¬rigosos, ou nutrisse esperanças e expectativas que ele ja¬mais seria capaz de cumprir. Hermione fora magoada emocionalmente. Harry não tinha intenção de ser a causa de mais sofrimento. Por outro lado, sabia que ela carregava o poder de transformá-lo outra vez num homem inteiro. Cer¬tamente não era muito para pedir ao destino. Poderia protegê-la. Afinal, deixar que ela fosse para casa aumentaria ainda mais o risco. Além do quê, não queria que ela fi¬casse perto do homem pelo qual tivera uma paixão. Ainda que de adolescente.
Com determinação, entrou embaixo do chuveiro.
Hermione chegou a tirar a mala do armário, assim que su¬biu ao quarto, num acesso de autopiedade humilhada. Po¬rém recobrou a razão pouco depois de abrir a mala sobre a cama. Como poderia deixar Harry agora, justamente quando estavam se tornando mais íntimos? Não tinha de¬sejo verdadeiro de partir, a despeito do comportamento estranho dele. Não podia entender por que ele ficara tão protetor em relação a ela, e depois a empurrara com uma espécie de repulsa, quando ela se aproximara demais. Cer¬tamente nenhum homem em seu estado normal repeliria a aproximação de uma jovem atraente. Harry era sofistica¬do e experiente. Gostaria de saber o que fizera de errado.
Nunca se comportara com tanta ousadia antes. Afinal, ele era estrangeiro, e podia estar acostumado a um comporta¬mento feminino mais submisso. Procurando uma desculpa para não ir, resolveu que não podia deixar de conversar com ele, pelo menos mais uma vez, para tentar compreender o que fizera de errado para ofendê-lo. Guardou a mala vazia no armário e passou o resto do dia na piscina, aproveitan¬do o sol do Mediterrâneo.
Na manhã seguinte, desceu para o café alguns minutos mais tarde que de hábito, esperando que as pessoas não reparassem nas olheiras escuras pela falta de sono. Ficara acordada a maior parte da noite, pensando em várias for¬mas de abordar o assunto com Harry. Se ele voltasse. Senão... bem, seguiria com sua vida. Iria para o Quawi, e começaria sua existência em nova direção. Mas rezou para voltar a ver Harry.
Forçou-se a encher seu prato, em vez de ficar pensando em Harry. Como aquelas pessoas fascinantes, precisava aprender que a vida transcorria por si mesma, não precisa¬va ser controlada por ninguém. Pessoas sempre ficavam magoadas. Sabia disso melhor do que qualquer um. Não deveria ter esperado tanto de um encontro casual, de qual¬quer forma. Forçou-se a sorrir para os garçons e expressar alegria. Não fazia sentido deixar os outros se sentindo mal só porque estava triste.
Ocupou-se em beliscar as iguarias e, quando ergueu os olhos, lá estava Harry com um buque de rosas brancas, em frente à sua mesa. Encarou-a por um instante antes de curvar-se e oferecer as flores.
— Desculpe-me — disse ele, com simplicidade. Nenhum dos dois dormira, e ao olhar um para o outro, perceberam o ocorrido. Ele sentou-se e segurou-lhe os de¬dos frios.
— Nunca tive a intenção de ser rude com você. Ou de magoá-la.
Os olhos castanhos continham uma indagação.
— Não está bravo comigo?
— Nunca fiquei bravo com você, Hermione — assegurou ele, beijando-lhe a palma da mão. — Não era raiva.
O coração dela deu um salto. Era correspondida. Sentiu o rosto corar enquanto o examinava.
— Estou tão contente... Pensei que tivesse feito alguma coisa para você. Que tivesse sido ousada demais...
— Ousada?
— Eu praticamente me atirei em cima de você, e sabia que não gosta muito de ser tocado. Eu sabia disso, e devia... Por que está rindo?
A vida era bela. Harry sentia-se jovem e cheio de vida, masculino por inteiro. Olhou para aquela mulher tão incons¬ciente de seus atrativos e sorriu.
— Adoro quando você me toca — disse ele, com voz rou¬ca. — Na verdade, nunca apreciei tanto um toque.
— É mesmo?
— Sim. Algum dia conto com detalhes essa história. O que gostaria de fazer hoje?
— O que você quiser — respondeu Hermione.
— Qualquer coisa?
Ela inclinou-se para a frente, fingindo segredar.
— Podemos roubar dois camelos e abrir uma agência de turismo.
— Que idéia... — ele riu. — Mas, enquanto isso, que tal vi¬sitar o Museu Forbes? A construção, originalmente um pa¬lácio, agora está à venda, mas acredito que podemos dar uma olhada. Malcom Forbes deu uma grande festa há cerca de três anos, amplamente divulgada pela televisão.
— Eu assisti. Ouvi as histórias. Aquela casa?! — excla¬mou ela. — Ah, eu adoraria ir lá.
— Termine seu café e vamos indo, então — incentivou ele — com um sorriso.
Hermione recuperou seu apetite e terminou de comer as frutas. Seus olhos recaíram sobre as rosas, e com a mão li¬vre ela acariciou algumas pétalas.
— Muito obrigada. Adoro flores.
— Eu reparei — disse ele, chamando o garçom a seguir e dando uma instrução.
O tom de comando produziu obediência imediata e o homem afastou-se com as flores.
— Aonde ele está levando as minhas rosas? — indagou ela.
— Ele vai colocá-las num vaso, que a camareira levará até o seu quarto. Gosto da idéia de minhas flores velarem seu sono.
Hermione corou. Harry notou que ela se sentia lison¬jeada com facilidade. Talvez fosse por causa do noivado terminado tão abruptamente, talvez por sentir atração pela primeira vez. Qualquer que fosse o motivo, despertava cha¬mas nele que não sentira por nove anos. Queria aquela mulher. Nada era mais importante para ele, no momento.
Foram até o litoral visitar a Mansão Forbes, de mãos da¬das, fazendo com que ela se sentisse um tesouro guardado. A todos os lugares aonde iam, Bojo os acompanhava de perto, e também os dois guarda-costas que ela vira em Asilah. Dessa vez não havia príncipe algum à vista... Seu companheiro tornava-se um mistério maior a cada instan¬te, mas não conseguiria ficar sem a companhia dele. Pela primeira vez em sua vida, estava se apaixonando.
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Continua... |