isabella rodrigues: que bom que vc tah gostando... eu também amei a fic, por isso perguntei pra Sílvia se ela ia postar essa, como ela disse que naum...
jah que pediu, mais um capítulo entaum...
Bjus...
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— Foi alguma coisa que eu disse? — quis saber Hermione, interrompendo os pensamentos dele. — Sei que sou meio radical. Não tive intenção de ser rude.
— Não foi nada que tenha dito. Se quer saber, admiro muito sua atitude — afirmou ele, com um sorriso. — As mulheres muçulmanas valorizam sua virtude. Mas é algo raro nos dias de hoje.
— É o que dizem. Meus pais eram muito rígidos e profundamente religiosos — respondeu ela, brincando com um botão da blusa. — Você é muçulmano?
— Não.
Hermione ergueu o rosto, buscando respostas no olhar dele.
— Sou católico — disse ele. — Assim como muitos do meu povo. Somos quase igualmente divididos entre muçulmanos, católicos e judeus. Torna a política muito interessante.
— Estou surpresa sobre quanto eu não sabia a respeito desta parte do mundo. Pensei que todos fossem árabes e muçulmanos. Mas já descobri que muitos habitantes aqui no Marrocos são berberes, não árabes.
— Um povo muito orgulhoso de sua herança antiga — concordou ele. — A linguagem berbere não é escrita. Passa de geração a geração verbalmente, e sua história é tecida nos tapetes que vendem, episódio por episódio.
— Gostaria de vê-los — disse ela.
— Amanhã. Vou pedir que Bojo nos leve para dar uma volta pela cidade.
— Já fui, mas não me interessei em olhar os tapetes. Nem percebi o que estava perdendo...
— Pois pode esperar porque vale a pena. Agora, se me desculpar, preciso dar alguns telefonemas e me ausentar. Mas pouco antes das oito passo em seu quarto, está bem?
— Só trouxe um vestido na bagagem. É um vestido mexicano com rendas...
Ele adivinhou-lhe os pensamentos pelo ar de preocupação no rosto.
— E acha que pode me envergonhar por não estar vestindo algo caro?
— Isso — admitiu ela. Ele sorriu.
— Tenho certeza de que o que quer que vista ficará encantador. Estou ansioso por nosso encontro — despediu-se Harry.
Ele a deixou ali na cadeira de balanço e ela observou-lhe a postura elegante ao afastar-se. Esse era um dos pontos em que o país a tinha impressionado muito: a graça com que as pessoas se movimentavam. Ninguém parecia apressado. Era um andar maravilhosamente lento que se adaptava ao estilo de vida e de negócios, sem pressa e sem correrias. Perguntou-se se ninguém ali tinha úlcera. Duvidava muito.
Hermione vestiu-se com mais cuidado do que nunca naquela noite. Fazia vários meses desde que Daryl a convidara para sair e fingira estar apaixonado por ela. Fora uma presa fácil para o conquistador, amando pela primeira vez na vida e envaidecida pelo fato de um belo jovem estar interessado nela. Chegara até a ficar com ela no hospital nos dias que antecederam a morte de sua mãe.
Só depois do funeral ela compreendera o verdadeiro interesse dele.
Daryl fora até a fazenda depois do trabalho, oferecer-se para casar com ela e administrar a herança. Quando Hermione explicara que não havia herança, ele dera a impressão de ficar chocado e zangado. Resmungando algo sobre perder tempo, fora embora e ela nunca mais o vira.
Seu irmão, Marc, tentara preveni-la sobre Daryl, porém ela só ficara zangada com ele, recusando-se a escutar. Era a primeira vez que um homem a fazia sentir-se tão especial e amada. O que magoava mais era que ela fora ingênua o suficiente para acreditar nele. Contudo, a mãe sem¬pre fora tão possessiva e dependente dela que Hermione raramente conseguia sair com alguém quando era adolescente. Mesmo depois que completara vinte anos, a maior parte eram encontros ocasionais e únicos. Marc dissera várias vezes que ela precisava se desligar um pouco da mãe, apesar da doença, porém o coração mole de Hermione fora sua perdição. Quando pedira mais liberdade, a mãe concordara, depois chorara e reclamara por ter sido deixada sozinha. Hermione acostumara-se com esses encontros fúteis até que Daryl chegara.
Conhecera-o no escritório de advocacia onde trabalhava. Ele pedira que o sr. Kemp fizesse algum tipo de trabalho legal para ele, e durante uma conversa com Hermione ficara sabendo que sua mãe estava acometida de uma doença terminal, e que morava numa fazenda. Ele passou por lá na hora do almoço, e ela o acompanhou até o restaurante. No supermercado, passou a encontrá-lo com freqüência. Ele a convidou para ir a um baile em Houston, mas ela colocou dificuldade. Ele riu e disse que poderiam fazer um piquenique na casa dela, do qual a mãe participaria.
Hermione estava flutuando no ar. Não apenas Daryl a encantara, como também encantara sua mãe. Na verdade, ele tornara as últimas semanas alegres e felizes. Hermione adorava os poucos minutos roubados que passava com Daryl, empolgada com os beijos e carícias. Ele a pediria em casamento na semana em que a mãe morrera, e esta tivera pelo menos a felicidade de saber que sua filha ficaria em boas mãos.
Então, como todos os sonhos, este também terminara abruptamente. A vergonha e humilhação que Hermione sentira só fora aumentada pela recusa de Daryl em se encontrar com ela. As pessoas sentiram pena, mas Hermione não queria pena. Queria uma fuga. A essa altura, Ginny telefonara e perguntara se ela queria ir para o Marrocos.
Hermione afastou os pensamentos depressivos e retornou ao presente. Olhou para sua imagem no espelho. Com os longos cabelos castanhos soltos e o vestido branco ondulando sobre o corpo curvilíneo, adornado com pérolas nas orelhas e no pescoço, sua figura era diferente. Não se podia dizer que fosse um modelo de beleza, mas estava longe de ser feia. Sentia-se vulnerável. Esperava que seu novo amigo tivesse dito a verdade quando garantira que não estava interessado em seduzi-la, porque pela primeira vez ficaria à mercê de suas próprias necessidades represadas. Ele era bem mais atraente que Daryl, e lhe despertava sensações que ela não conhecia. Percebera também que Harry era um homem sofisticado. Provavelmente tinha, em sua esteira, vários corações despedaçados e romances desfeitos. Esperava não acabar como um deles. Já tivera sua cota de sofrimento.
Uma batida na porta soou exatamente quando faltavam quinze minutos para as oito horas. Ela a abriu, para encontrar Harry num belo terno escuro com camisa branca e gravata de seda azul em padrão elegante e discreto. Poderia passar por um modelo de capa de uma revista de moda, e ela sentiu-se inibida em seu vestido de loja de departamentos.
Os olhos verdes detiveram-se nos cabelos longos, dando a impressão de ficarem presos ali. Lentamente, a mão dele ergueu-se e tocou com reverência os fios sedosos, alisando-os, maravilhando-se com o toque sutil e o perfume.
— E você os esconde numa trança... Que desperdício!
— Eu... me acostumei.
— Mas está usando assim por minha causa, não é?
— É — admitiu ela, pouco à vontade.
— Somos estranhos — declarou ele, movendo com delicadeza o queixo dela para cima. — E ainda assim, conhecemos um ao outro por milhares de anos.
— Que engraçado... eu estava pensando exatamente nisso hoje à tarde.
— Talvez seja a mais cruel interferência do destino — comentou ele, enigmaticamente. — Vamos indo. Parece que hoje teremos uma dança do ventre.
Hermione observou-lhe o sorriso malicioso.
— Pervertido...
— Pervertido, não. Sou simplesmente um apreciador da beleza — afirmou ele, estendendo o xale negro sobre os ombros dela. — Pode acreditar, acho você muito mais intrigante do que uma dançarina.
— Obrigada.
— Não disse como elogio. É verdade. Conheço você o suficiente para saber que detesta mentiras tanto quanto eu — afirmou ele, enquanto caminhavam pelo corredor acarpetado, com janelas para o jardim.
Hermione sorriu. Sentia-se segura com ele. Entraram no elevador e depois desceram os degraus que levavam ao jardim interno, onde uma fonte central era cercada por belos mosaicos, as mesas cobertas com toalhas de linho branco e baixela de porcelana, prata e cristal. Vários casais já esta¬vam sentados, e uma bela morena de vestido branco e seu companheiro tomavam lugar no palco, com violões.
— O espetáculo de hoje à noite — informou Harry. — Ela é da península do Yucatán, no México, e tem uma voz linda.
— Você a conhece?
— Pessoalmente, não, mas vim de Madri, onde ela estava se apresentando num hotel.
— Veio de Madri?
Naquele instante aproximou-se um garçom de paletó branco e fez vermelho vivo. Conduziu-os até uma das mesas, onde Harry puxou uma cadeira para Hermione sentar-se, depois acomodou-se em frente a ela. Aguardou até que o garçom se afastasse, para responder:
— Faço negócios pelo mundo inteiro. Poderia dizer que sou uma espécie de embaixador.
— Isso explica os guarda-costas, eu acho. Hoje à tarde eu os vi seguindo você para o interior do edifício e perguntei a Bojo. Ele me explicou que esses homens fazem a segurança de homens de negócios, além de dignitários estrangeiros.
— É verdade — concordou ele, com um suspiro.
— Pois eu gostei muito do passeio de hoje à tarde. Foi gentileza sua oferecer-se para ir comigo. Fiquei sozinha depois que Ginny foi embora. Acho que agora ela deve es¬tar em Bruxelas, esperando o vôo de volta para os Estados Unidos.
— Já esteve em Bruxelas?
— Já. Ginny eu viemos de Bruxelas para Casablanca, depois direto para cá. Na volta, vou passar por Amsterdã... Bem, na verdade agora vou para o Quawi — corrigiu ela, baixando os olhos para o guardanapo. — Harry, você vai sempre para o Quawi?
— Para dizer a verdade, passo boa parte do tempo no Quawi. Faço negócios com o sheik. Muitos negócios.
Os olhos dela se ergueram e foi como se contemplassem sonhos ou fantasias, como se a partir dali sua vida fosse envolver-se em mistério e alegria.
Ele sorriu, os olhos verdes tentando ler a expressão dela.
— Agora o Quawi lhe parece um lugar menos assustador? Como vê, não diremos adieu, e sim au revoir.
— Fico contente.
Os dedos longos tocaram os dela, cuja mão estava sobre a mesa, ao lado do copo.
— Eu também. Embora talvez não esteja lhe fazendo um favor deixando que vá para lá.
— Por que não?
— Você pode descobrir que as aparências enganam. Os olhos de Hermione brilharam.
— Não vá me dizer que é um ladrão de jóias, espião internacional ou coisa parecida.
— Não. Posso garantir que não é esse o caso — disse Harry.
Ela observou a mão dele. Era à esquerda e havia cicatrizes no dorso, finas linhas que contrastavam com a pele cor de oliva.
— Foi do acidente?
Hermione percebeu que um tremor sacudiu levemente o corpo dele. Retirou a mão.
— Foi.
— Desculpe, fui inconveniente — disse ela, assim que percebeu o mal estar dele.
— Você vai ter de saber antes de sair de Tanger — afirmou ele, com ar sério. — Mas prefiro adiar isso até o fim. A franqueza pode ser brutal.
— Nesse caso você deve ser mesmo um assassino cruel — respondeu ela, séria. — Mas compreendo. Você não quer estragar as minhas ilusões...
Ele riu outra vez, apanhado desprevenido.
— Você me faz lembrar dela. A primeira coisa que me atraiu para ela foi um senso de humor que me fazia rir de mim mesmo, algo que nunca tinha me acontecido antes.
— Ela?
— Uma mulher que conheci. Morena como você, com uma personalidade muito cativante. Pensei que se tratava de uma pessoa única. Fiquei encantado quando descobri que a Terra pode abrigar outra mulher parecida com ela.
— Ginny acha que sou completamente maluca.
— Você possui uma mente criativa — disse ele, reclinando-se na cadeira para examiná-la melhor. — Ficaria surpresa com quantas pessoas dizem apenas o que é esperado delas, por causa do medo de ofender. Detesto esse tipo de gente.
Devia detestar mesmo, pensou Hermione, alguém muito importante. Queria perguntar sobre os outros aspectos da vida dele, sobre o trabalho. Estava curiosa a respeito de Harry, que não parecia disposto a discutir o passado.
Ela olhou para o cardápio e sorriu.
— Está em francês. Em todos os lugares onde vamos, o cardápio é em francês — resmungou ela.
— Acho que preciso começar a traduzir os cardápios para você. Vamos começar já.
Harry leu o seu e foi explicando pacientemente os termos, pedindo para que ela repetisse a pronúncia. Hermione optou por melão com presunto, seguido por um prato principal de carneiro ao molho marroquino. Ele pediu peixe e uma garrafa de vinho branco.
— Nunca tomei vinho antes — declarou Hermione. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Prefere outra bebida?
— Acho que já é tempo de aprender alguma coisa sobre vinhos — disse ela, dando de ombros. — Se o sheik não é muçulmano, provavelmente tem uma adega e espera que eu saiba tudo sobre vinhos.
— É possível. Mas dificilmente se erra com um bom vinho branco, como um Riesling ou um Chardonnay. Embora eu prefira um Alsace ou um Gewrtztraminer. Foi um gosto adquirido.
— Nunca vou aprender tudo isso.
— Claro que vai. Toda noite você prova um vinho diferente. Quando for embora do Marrocos será uma verdadeira conhecedora.
— Você é muito sofisticado.
— Fui educado na Europa. A gente amadurece rapidamente num ambiente sofisticado. Mas não nasci tão rico que possa ignorar o ambiente de onde vim — declarou Harry com expressão séria. — A verdadeira praga do século vinte é a pobreza, Hermione. E a avareza é sua irmã de sangue.
— Você também acha isso?
O garçom chegou com o vinho.
— Este é um Riesling. Nem muito encorpado nem muito leve — informou ele, depois que o garçom os serviu.
— Na medida — disse ela, provando e apreciando o sabor. — Tínhamos uma pequena vinha, mas nosso capataz passou com o trator em cima.
— Um bárbaro.
— Era exatamente assim que o chamávamos. Remus, o Bárbaro. Não havia uma flor a salvo no quintal se ele estivesse no trator. E um grande cavaleiro, mas tem um fraco para passar o aparador de grama nos canteiros de flores e em árvores novas.
— E esse é o homem que toma conta da fazenda para vocês?
— Bem, ele é ótimo com os cavalos e o gado.
— E suponho que você o adore.
— Se quer saber a verdade, tive uma paixão por ele quando era menina — admitiu ela. — Mas passou faz tempo.
Os olhos de Harry se estreitaram. Não falou mais até que as frutas fossem servidas, junto com um café para Hermione e água gasosa para ele.
— Então você gosta de flores — comentou ele.
— Adoro flores. Minhas roseiras já ganharam prêmios, e também cultivo vários outros arbustos de flores.
Harry brincou com a salada.
— Meu pai cultiva orquídeas. Ele as chama de netas e todas têm nome — relembrou ele com ar de afeição, perdido em recordações. — Quando eu era pequeno, tinha ciúme delas. Na verdade, ele mandou um criado para a cadeia, por aguar uma planta doente, que veio a morrer. Um homem muito vingativo, meu pai.
— Posso imaginar como ele se sentiu. Tenho uma queda por roseiras doentes. Tenho o dom de fazer com que fiquem boas — disse ela.
— Alguns males, porém, não podem ser curados nem pela mão mais iluminada de amor — declarou ele, observando-a.
Traços de amargura apareceram no rosto moreno. Tratava-se de um homem de muitos contrastes. Ela observou as mãos finas movimentarem-se com delicadeza e precisão.
— Você não gosta das minhas cicatrizes — disse ele.
— Não é isso. Eu estava observando como você usa suas mãos. Todos nesta parte do mundo parecem mover-se de forma graciosa, sobretudo os homens. No meu país não é assim.
Harry relaxou e voltou a atenção para sua salada de frutas. A culpa era sua por enganá-la. Por isso ficava de mau humor às vezes. Precisava parar com as mentiras. O que era, era. Nada no mundo iria modificar isso.
— Nos movemos como vivemos, sem pressa — declarou ele, com simplicidade.
— Aposto que vocês não têm o mesmo índice de problemas vasculares que nós nos Estados Unidos.
— Provavelmente é verdade. Você vai para um país muito diferente do seu próprio, muito menos sofisticado do que o Marrocos. Várias conveniências modernas não existem lá, e mesmo a eletricidade é uma aquisição recente. O povo do Quawi era em grande parte nômade até o início do século passado. Quando foi dividido entre os europeus, muitas famílias resistiram e foram dizimadas. É preciso uma boa dose de tolerância para se adaptar a um cenário tão arcaico.
— Acha que eu deveria voltar para o Texas? — Harry queria dizer sim, para que ela aproveitasse a chance enquanto ainda era tempo. Mas encarou-a e sentiu como se uma parte dele estivesse do outro lado da mesa. Não conseguiu dizer nada.
— Sei que é um risco — disse ela, contente por ele não ter respondido. — Mas já adoro o Marrocos. Acho que vou me dar muito bem no Quawi, se o sheik for paciente com minha ignorância sobre costumes locais.
— Acho que vai descobrir que ele é paciente em tudo.
— Espero que sim. É como um salto de fé. Um passo no desconhecido. Ginny disse que eu estava vegetando no Texas, e acho que ela tinha razão. Eu nunca tive uma aventura de verdade em toda a minha vida. Nunca cheguei a compreender que o mundo era tão grande e os povos tão diferentes. Jamais esquecerei este lugar, aconteça o que acontecer.
— Nem eu — disse ele, em voz baixa.
Segurava a taça com tanta força que pareceu a Hermione que o cristal iria quebrar-se. Ela imaginou o que o tornava tão intenso, e se o jeito dele seria mesmo esse.
A cantora ergueu-se no pequeno palco e começou a cantar uma canção de amor em espanhol. Hermione suspirou e fechou os olhos, para apreciar ainda mais.
— Entende o que ela canta? — quis saber Harry.
— Entendo. E uma música sobre um homem e uma mulher que se apaixonam loucamente mas não podem se casar porque ele vai para a guerra. Estão se despedindo. É muito triste.
— Você entende espanhol — disse ele, sorrindo.
— Entendo. Falo mal, mas leio e entendo se não falarem rápido demais.
— E uma de minhas línguas favoritas — afirmou ele.
A mão de Harry procurou a dela, enquanto escutavam a cantora. Os dedos entrelaçaram-se. Hermione parou de prestar atenção no que a letra da música dizia; o contato com ele a deixava zonza.
O espetáculo não foi dos mais demorados e a cantora agradeceu e saiu do palco. Hermione retornou à realidade quando Harry soltou a mão dela para pegar o cartão de crédito e quitar a conta. Ela reparou que o cartão era dou-rado. Ele devia ser um homem rico. Talvez estivesse acostumado com mulheres que o acompanhavam por causa do dinheiro.
Ele colocou o cartão sobre a nota e adicionou uma polpuda gorjeta em dinheiro. Hermione imaginou que ele a acompanharia até seu quarto e se despediriam. Não mencionara nenhum plano para o dia seguinte, mas provavelmente eles não a incluiriam. Hermione tinha um histórico de poucos encontros com cada pessoa. Nunca soubera flertar, jamais tivera conversas brilhantes e era apenas bonitinha. Ficava deprimida em pensar que presumira muita coisa depois que ele a encontrara no balanço. A atenção de Harry a deixara embriagada de esperança, porém ele parecia carregar um peso nos ombros e seus olhos não encontraram os dela depois que o garçom voltou com o cartão.
Ele afastou-lhe a cadeira com a cortesia habitual e ofereceu o braço enquanto subiam os degraus que levavam ao saguão.
— Preciso ir — disse ele sem encará-la. — Tenho um encontro de negócios esta noite ao qual não posso faltar.
— Compreendo... Foi um dia maravilhoso. Obrigada. Talvez a gente se veja por aí, no hotel.
Ele parou imediatamente e encarou-a com expressão sombria.
— Já se cansou da minha companhia?
— Pensei que você tivesse se cansado da minha.
— Se tivesse acontecido isso, estaria fazendo um favor a você.
— Não pode me contar o que o está perturbando? — inda¬gou ela, enchendo-se de coragem.
— Não — respondeu ele, consultando o relógio. — Amanhã vamos com Bojo ao mercado de tapetes. Mas não muito cedo. Tenho uma reunião de manhã. Podemos nos encontrar às dez horas, no saguão?
— Dez horas. Estarei esperando — respondeu ela, contente.
— É sempre tão entusiasta a respeito das coisas?
— Sempre. Acho que deve ser porque tínhamos tão pouco. Marc e eu crescemos numa época de sacrifícios pela fazenda, e aprendemos a não esperar muito. Tendemos a apreciar as coisas mais do que as pessoas comuns, eu acho.
— Também cresci na pobreza — confidenciou ele. — Por isso preciso fazer o que puder para que meu povo escape dela. A chave é a educação, Hermione. É preciso que haja escolas, bons professores e a última tecnologia, sobretudo computadores.
Ela sorriu.
— Para que possam competir no mercado mundial.
— Exatamente. Enquanto viver, nunca mais quero ver uma criança morrer de fome.
Ela imaginou uma cena dolorosa da infância de Harry e enterneceu-se.
— Tanta compaixão nesses olhos bonitos... — disse ele. — O Quawi tem sorte por atrair um espírito tão suave.
— É exatamente isso. Estão esperando Ginny, uma pessoa sofisticada, viajada e organizada.
— Organização pode ser aprendida. Acho que o sheik vai se divertir... ensinando você.
— Ele tem um harém? — indagou Hermione, preocupada. Harry explodiu numa gargalhada.
— Não, ele é um governante moderno.
— Graças a Deus!
— Isso quer dizer que não tem desejo algum de partilhar a cama dele, então?
— Pare com isso. Serei uma secretária, não um escândalo. Ele olhou para o porteiro, que fez um gesto. Foi como se algum entendimento tivesse passado entre os dois.
— Não saia do hotel sozinha — recomendou.
— De noite, nem pensar.
— Nem de dia. Preciso deixar você no elevador, porque Bojo está me esperando na porta com a limusine. Até amanhã.
Ele levou a mão de Hermione aos lábios numa breve despedida e partiu.
— Até amanhã.
Harry afastou-se com seu andar elegante. Ela o observou com um suspiro. Em pouco tempo, ele passara a fazer parte de sua vida, que parecia alterada. Esperava não vir a lamentar no futuro ter passado as férias com um homem que sabia mais sobre mulheres do que ela sobre o Estado do Texas. Porém sentia prazer na companhia dele, isso não podia negar.
Subiu para o quarto e despiu-se. Era cedo, mas foi para a cama assim mesmo. O dia seguinte chegaria mais cedo se tosse dormir logo. Pensou por alguns instantes na pobre Ginny, que àquela altura devia estar a meio caminho de casa.
Apagou a luz e fechou os olhos, apoiando o rosto sobre a mão que a boca firme de Harry havia beijado.
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Continua...
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