Sombra e Medo
Fazia exatamente uma semana que ele estava ali, embora em sua mente tudo aquilo parecesse um único dia, um longo e interminável dia no inferno. Sim, durante aquele período, Sirius Black descobriu que o inferno é mais frio do que se imagina.
Não era fácil contar a passagem do tempo, porque mesmo quando era dia, a presença dos dementadores deixava tudo escuro. Durante a noite a escuridão era ainda pior. Porém, mais fácil do que tentar distinguir a tênue diferença entre noite e dia, era controlar o tempo pelas refeições. Em Azkaban eram servidas duas refeições ao dia - uma no início da manhã e a outro no final da tarde. A refeição da manhã era a única que incluía pão; um pedaço ínfimo de pão mofado, mas servia para anunciar que um novo dia começara.
Além da escuridão e do frio, o que habitava Azkaban era o desespero. Durante o sono, muitos prisioneiros gritavam ao reviverem, em sonhos, seus piores pesadelos. Outros, já enlouquecidos pela longa permanência naquele local, gritavam mesmo acordados, ou se debatiam, arrancavam os cabelos, arranhavam as paredes até que suas unhas se desprendessem da carne.
Sirius não via nada daquilo, deduzia tudo a partir do que ouvia. Mas não havia nada de consolador em escutar o sofrimento alheio, já que ele próprio convivia com seu medo, sua frustração e seu desespero. Dia após dia. Todos os dias.
Quando o trouxeram, ele estava arrasado. Tinha acabado de ser condenado por um crime que não cometera, tivera a varinha destruída e todos acreditavam que ele traíra os Potter. Porém, o pior de tudo foi ser carregado por quatro dementadores. Perto deles, o ar se tornava absurdamente frio, tudo ficava escuro e enevoado. No entanto, o pior são as lembranças que os dementadores fazem uma pessoa reviver.
Ao ser carregado para Azkaban, Sirius voltou, em devaneios, a sua infância....
Sirius cambaleava, a velha casa dos Black parecia mais escura do que nunca.
Pelo cabelo, seu pai o arrastava sem cerimônia; ele tentava fingir indiferença, mas a dor começava a vencê-lo. Ao chegarem ao porão, o Sr. Black atirou o filho, que rolou por alguns metros até parar de borco.
-“Agora você vai aprender a não me desrespeitar mais, peste!” – gritou o homem, brandindo a varinha.
Sirius tentou levantar-se, não seria vencido facilmente. Não dessa vez.
-“Crucio!” – disse seu pai, fazendo com que o garoto caísse uma vez mais.
A dor que o invadiu foi a pior que ele já sentira na vida. Tinha a sensação de que mil facas penetravam seu corpo.
Tão de repente quanto começara, a dor cessou. Ofegando, Sirius girou o corpo, ainda no chão, para encarar o pai. O garoto estava acostumado a ser castigado, mas nunca daquela forma, nunca com uma maldição tão terrível.
-“Você sempre foi um fraco! Mas vai crescer, vai aprender a ser um verdadeiro Black. Crucio!”
A dor recomeçou, mas a sensação foi ainda pior, já que Sirius tinha o corpo enfraquecido pelo primeiro ataque. Ele mordeu os lábios com toda a força para não gritar, não podia demonstrar fraqueza.
-“Sabe, Sirius, talvez você nunca mude.” – começou seu pai, andando ao redor do filho – “Mas eu me sentiria culpado se não tentasse formar seu caráter.”
O garoto o seguiu com o olhar. Queria responder, não tinha forças.
-“E a dor,” – continuou o Sr. Black – “é a melhor mestra!”
Uma terceira onda de dor invadiu o corpo de Sirius. Dessa vez, o grito lhe escapou agudo e rouco, o que fez seu pai soltar uma forte risada. Quando acabou de torturá-lo, seu pai saiu do porão sem uma palavra, deixando-o para trás.
Aos poucos, a visão de Sirius foi clareando e ele percebeu que acabara de ser jogado em uma cela úmida, escura e imunda de Azkaban. O que acontecera no trajeto do tribunal para lá ele não sabia, já que aquela infeliz lembrança o atormentara por todo o caminho. Passando a mão pelos cabelos, ele notou que estava encharcado de suor. Imediatamente, sentiu frio. Buscando aquecer-se, ele se enroscou em um canto, ao lado da parede de pedras nuas.
Ele podia sentir que os dementadores haviam se afastado um pouco, já que a lembrança cessara. Porém, o frio e a sensação de infelicidade ainda o dominavam. À beira do desespero, ele procurou evitar o pensamento de que ainda ficaria muito tempo por lá.
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