CINCO
Chegamos a Londres no dia seguinte – e Harry ainda não falou de seus negócios, de Nova York, ou de qualquer coisa. E eu sei que deveria perguntar na bucha. Sei que deveria dizer casualmente: “Que história é essa que eu ouvi dizer sobre Nova York, Harry?” E esperar para ver o que ele diz. Mas de algum modo... não consigo me obrigar a fazê-lo.
Quero dizer, de cara ele deixou bem claro que não quer falar sobre isso. Se eu começar falando de Nova York, ele pode pensar que eu estive tentando descobrir coisas pelas suas costas. E, afinal de contas, Alicia pode ter entendido errado – ou mesmo ter inventado. (Ela é bem capaz disso, acredite. Quando eu era jornalista financeira, uma vez ela me mandou à sala totalmente errada para uma entrevista coletiva – e tenho certeza de que foi de propósito.) Então, enquanto não tiver certeza absoluta dos fatos, não há sentido em dizer nada.
Pelo menos é o que digo a mim mesma. Mas acho que para ser realmente honesta, o motivo é que eu simplesmente não posso suportar a idéia de Harry se virando para mim, dando um olhar gentil e dizendo: “Ginevra, nós nos divertimos um bocado, mas...”
Então, termino não dizendo nada e sorrindo um bocado – mesmo que por dentro me sinta cada vez mais tensa e arrasada. Ao chegarmos ao meu prédio, eu quero me virar para ele e gemer: “Você vai para Nova York? Vai?”
Mas em vez disso dou-lhe um beijo e digo em tom tranqüilo:
- Você vai poder sair no sábado, não vai?
Acontece que Harry tem de viajar a Zurique amanhã para um monte de reuniões com pessoal de finanças. O que, claro, é muito importante e eu entendo isso muito bem. Mas sábado é o casamento de Neville e Lucy – e isso é ainda mais importante. Ele tem de estar lá.
- Vou dar um jeito. Prometo. – Ele aperta minha mão, eu saio do carro e ele diz que tem de ir logo. E some.
Desconsolada, abro a porta do apartamento e um instante depois Hermione sai de seu quarto, arrastando pelo chão um saco de lixo preto cheio.
- Oi – diz ela. – Você voltou.
- É! – respondo, tentando parecer animada. – Voltei!
Hermione desaparece saindo pela porta, e eu a ouço arrastando o saco preto escada abaixo e saindo pela portaria – depois subindo ao apartamento de novo.
- Então, como foi? – pergunta ela ofegante, fechando a porta.
- Foi bom – digo, entrando no meu quarto. – Foi.. legal.
- Legal? – Os olhos de Hermione se estreitam e ela me acompanha para dentro. – Só legal?
- Foi... bom.
- Bom? Gi, o que há de errado? Vocês não se divertiram de montão?
Realmente eu não estava planejando contar nada a Mione, porque, afinal de contas, ainda não sei dos fatos. Além disso, li numa revista há pouco tempo que os casais devem tentar resolver seus problemas sozinhos, sem recorrer aos outros. Mas quando olho seu rosto caloroso e amigável, simplesmente não agüento. Ouço-me soltando num rompante:
- Harry vai se mudar para Nova York.
- Verdade? – diz Mione, sem entender o que interessa. – Fantástico. Meu Deus, eu adoro Nova York. Fui lá há três anos e...
- Mione, ele vai se mudar para Nova York, mas não me contou.
- Ah – diz Mione, parecendo perplexa. – Ah, certo.
- E eu não quero puxar o assunto porque não deveria saber, mas fico pensando: por que ele não me contou? Será que ele simplesmente... vai? – Minha voz está subindo, tensa. – Será que eu só vou receber um postal do Empire State dizendo: “Oi, eu moro em Nova York agora. Te amo Harry”?
- Não – diz Mione imediatamente. – Claro que não! Ele não faria isso.
- Não faria?
- Não. Definitivamente, não. – Hermione cruza os braços e pensa durante alguns instantes. Depois levanta a cabeça. – Você tem certeza absoluta de que ele não contou? Tipo, talvez quando você estivesse meio adormecida, num devaneio ou alguma coisa assim?
Ela me olha cheia de expectativa e por alguns instantes me concentro, imaginando se ela poderia ter razão. Talvez ele tenha contado no carro e eu simplesmente não estivesse ouvindo. Ou ontem à noite, enquanto eu estava olhando a bolsa Lulu Guinness daquela garota no bar... Mas depois balanço a cabeça.
- Não, tenho certeza de que me lembraria se ele tivesse falado de Nova York. – Afundo na cama, arrasada. – Ele não me disse porque vai me dar um pontapé.
- Não vai, não! Honestamente, Gi, os homens nunca falam das coisas. Eles são assim. – Ela examina uma pilha de CDs e se senta na cama de pernas cruzadas, ao meu lado. – Meu irmão nunca falou nada quando foi em cana por causa de drogas. Nós tivemos de descobrir pelo jornal! E uma vez meu pai comprou uma ilha inteira sem dizer à minha mãe.
- Verdade?
- Ah, sim! E depois esqueceu, também. E só lembrou quando recebeu uma carta vinda do nada, convidando-o para rolar o porco no barril.
- Fazer o quê?
- Ah, é um antigo negócio cerimonial – diz Mione vagamente. – Meu pai tem que rolar o primeiro porco, porque é o dono da ilha. – Seus olhos se iluminam. – De fato, ele vive procurando gente que queira fazer isso no lugar dele. Não creio que você queira fazer este ano, não é? Você tem de usar um chapéu engraçado e tem de aprender um poema em gaélico, mas é bem fácil...
- Mione...
- Talvez não – diz Mione apressadamente. – Desculpe. – Ela se recosta de novo no meu travesseiro e rói uma unha pensativamente. E de súbito levanta a cabeça. – Espere aí um minuto. Quem contou a você sobre Nova York? Se não foi Harry?
- Cho – falo mal-humorada. – Ela sabia de tudo.
- Cho? – Mione me encara. – Cho, a Vaca do Pernão? Ah, pelo amor de Deus. Ela provavelmente está inventando. Honestamente, Gi, estou surpresa por você ter ao menos ouvido!
Ela parece tão segura que sinto o coração dando um salto alegre. Claro. Essa deve ser a resposta. Eu mesma não suspeitei? Não lhe disse como Cho era?
A única coisa – uma coisinha incômoda – é que eu não tenho certeza de que Mione seja cem por cento sem preconceito nesse caso. Há uma certa história entre Mione e Cho, as duas começaram a trabalhar na Potter Communications ao mesmo tempo – mas Mione foi demitida depois de três semanas e Cho partiu para uma carreira meteórica. Não que Mione realmente quisesse trabalhar em relações públicas, mas mesmo assim.
- Não sei – digo em dúvida. – Será que Cho realmente faria isso?
- Claro que faria! Ela só estava tentando chatear você. Qual é, Gi, em quem você confia mais? Em Cho ou Harry?
- Harry – digo depois de uma pausa. – Harry, claro.
- Então!
- Você está certa – digo, sentindo-me mais alegre. – Está certa! Eu deveria confiar em Harry, não é? Não deveria ficar ouvindo boatos e fofocas.
- Exato.
Hermione pega um punhado de envelopes.
- Aqui estão as suas cartas, por falar nisso. E seus recados.
- Ahh, obrigada! – Pego o maço com uma pontada de esperança. Porque a gente nunca sabe, não é, o que pode ter acontecido enquanto estava fora. Talvez um daqueles envelopes seja a carta de um amigo perdido há muito, ou uma maravilhosa oferta de trabalho, ou a notícia de que eu ganhei uma viagem de férias!
Mas, claro, não é. Só uma conta chata depois da outra. Folheio descartando cada uma antes de largar o maço inteiro no chão, sem nem abrir.
Você sabe, isso acontece sempre. Quando viajo, eu sempre penso que vou voltar e achar montanhas de correspondências empolgantes, com pacotes, telegramas e cartas cheias de notícias cintilantes – e fico sempre desapontada. De fato, eu realmente acho que alguém deveria montar uma empresa chamada correio de ferias.Com, a quem você pagaria para lhe escrever um monte de cartas empolgantes, só para ter alguma coisa a esperar por você quando chegasse em casa.
Pego os recados telefônicos. Mione os anotou muito conscienciosamente:
Sua mãe – o que você vai usar no casamento de Neville e Lucy?
Sua mãe – não use violeta, porque não vai combinar som o chapéu dela.
Sua mãe – Luke sabe que é para usar fraque?
Sua mãe – Luke vem mesmo, não é?
David Barrow – por favor, pode telefonar?
Sua mãe...
Espere aí. David Barrow. Quem é?
- Ei, Mione! – grito. – David Barrow disse quem ele era?
- Não. – Mione aparece no corredor. – Só perguntou se você podia ligar.
- Ah, certo. – Olho de novo o recado. – Como ele parecia?
Mione franze o nariz.
- Ah, sabe como é. Meio sofisticado. Uma voz... macia.
Sinto-me intrigada enquanto digito o número. David Barrow. Parece quase familiar. Talvez seja produtor de cinema ou algo assim!
- David Barrow – diz a voz. E Mione estava certa, ele é bem sofisticado.
- Alô – digo. – Aqui é Ginevra Weasley. Eu recebi um recado para ligar para o senhor?
- Ah, Srta. Weasley. Eu sou o gerente de clientes especiais da La Rosa.
- Ah. – Eu franzo o rosto, perplexa. La Rosa? O que, diabos...
Ah, sim. Aquela butique elegante em Hampstead. Mas eu só estive lá umas duas vezes, e isso foi há séculos. Então por que ele está me ligando?
- Posso dizer primeiro que é uma honra ter uma personalidade televisiva de seu calibre como uma de nossas clientes?
- Ah! Bem, obrigada. – Digo, sorrindo ao telefone. – É um prazer.
Isso é fantástico. Sei exatamente por que ele está ligando. Vão me dar umas roupas grátis, não é? Ou talvez... sim! Querem que eu desenhe uma nova coleção para eles! Bom, sim. Serei estilista. Eles vão chamar de coleção Gina Weasley. Roupas simples, estilosas, usáveis, talvez com um ou dois vestidos de noite...
- Esta é simplesmente uma ligação de cortesia – diz David Barrow, interrompendo meus pensamentos. – Só quero me certificar de que a senhorita está totalmente satisfeita com nosso serviço e perguntar se não tem qualquer outra coisa em que possamos ajudar.
- Bom... obrigada! – digo. – Estou muito satisfeita, obrigada. Quero dizer, eu não sou exatamente uma cliente constante, mas...
- Também para mencionar a questãozinha de sua conta no Cartão La Rosa – acrescenta David Barrow como se eu não tivesse falado. – E para informar que se o pagamento não for efetuado em sete dias, teremos de tomar uma atitude mais drástica.
Olho o telefone, sentindo o sorriso desbotar. Isto não é exatamente um telefonema de cortesia, é? Ele não quer que eu desenhe uma coleção de roupas. Está telefonando para cobrar a conta!
Sinto-me ligeiramente ultrajada. Certamente as pessoas não podem telefonar para a sua casa e exigir dinheiro sem aviso, não é? Quero dizer, obviamente eu vou pagar. Só porque não mandei um cheque no momento em que a conta chegou...
- Faz três meses desde a sua primeira conta – diz David Barrow. – E devo informar que nossa política depois de um período de três meses é entregar as contas atrasadas a...
- Sim, bem – interrompo friamente. – Meus... contadores estão lidando com todas as minhas contas no momento. Vou falar com eles.
- Fico feliz em ouvir isso. Claro, estamos ansiosos para vê-la na La Rosa muito em breve!
- Ah, bem – digo carrancuda. – Talvez.
Desligo o telefone enquanto Mione passa pela porta de novo, arrastando outro saco de lixo.
- Mione, o que você está fazendo? – digo, encarando-a.
- Estou me desentulhando. É fantástico. Dá uma sensação de limpeza! Você deveria tentar. Então... quem era David Barrow?
- Só uma conta estúpida que eu não paguei. Francamente! Telefonar para minha casa!
- Ah, isso me faz lembrar. Espere aí...
Ela desaparece um momento, depois aparece de novo segurando um maço de envelopes.
- Achei isso debaixo da minha cama quando estava fazendo a arrumação, e esse outro maço estava na minha penteadeira... acho que você deve ter deixado no meu quarto. – Ela faz uma careta. – Acho que são contas também.
- Ah, obrigada – digo e jogo-as na cama.
- Talvez... – Mione hesita. – Talvez você devesse pagar algumas delas, não é? Você sabe, só uma ou duas.
- Mas eu paguei! – digo, surpresa. – Eu paguei tudo em junho. Não lembra?
- Ah, sim. É, claro que lembro. – Ela morde o lábio. – Mas o negócio, Gina...
- O quê?
- Bom... isso já faz um tempo, não é? E talvez você tenha contraído algumas dívidas desde então.
- Desde junho? – Dou um risinho. – Mas isso foi só há uns cinco minutos!
Honestamente, Mione, você não precisa se preocupar. Quero dizer... olhe esta aqui. – Pego um envelope ao acaso. – Puxa, o que foi que eu comprei na M&S recentemente? Nada!
- Certo – diz Mione, parecendo aliviada. – Então essa conta tem valor... zero, não é?
- Sem dúvida – digo abrindo o envelope. – Zero! Ou veja bem, dez libras. Você sabe, por uma calcinha, sei lá.
Tiro a conta e olho. Por um momento não consigo falar.
- Quanto é? – pergunta Mione alarmada.
- Está... está errada – digo, tentando enfiá-la de novo no envelope. – Tem de estar errada. Vou escrever uma carta a eles...
- Deixe-me ver. – Mione pega a conta e seus olhos se arregalam. – Trezentas e sessenta e cinco libras? Gina...
- Tem de estar errada. – Mas minha voz tem menos convicção. De repente estou me lembrando da calça de couro que comprei na liquidação em Marble Arch. E daquele roupão. E daquela fase em que passei comendo sushi na M&S todo dia.
Mione me encara por alguns minutos, com o rosto franzido ansiosamente.
- Gina... você não acha que todas essas outras contas são tão altas quanto esta?
Em silêncio pego o envelope da Selfridges e abro. Ao mesmo tempo em que faço isso, me lembro daquele espremedor de frutas cromado, aquele que eu vi e tinha de comprar... nunca nem mesmo usei. E daquele vestido com acabamento em pele. Para onde ele foi?
- Quanto é?
- É... é o bastante – respondo, empurrando-o de volta para dentro, antes que ela possa ver que passa de quatrocentas libras.
Viro-me, tentando ficar calma. Mas me sinto alarmada e meio raivosa. Isso tudo está errado. O fato é que eu paguei meus cartões. Eu paguei. Puxa... qual é o sentido de pagar todos os cartões de crédito se simplesmente brotam dívidas novas em todos? Qual é o sentido? A gente poderia desistir agora mesmo.
- Olhe, Gina, não se preocupe. Você vai ficar bem! Eu simplesmente não vou cobrar o seu aluguel deste mês.
- Não! Não seja boba. Você já foi muito boa comigo. Não quero lhe dever nada. Prefiro dever à M&S. – Olho em volta e vejo seu rosto ansioso. – Mione, não se preocupe! Eu posso segurar a barra durante um tempo. – Bato na carta. – E enquanto isso vou conseguir um limite maior no cheque especial ou alguma coisa assim. De fato, eu acabei de pedir ao banco um aumento no limite, de modo que posso facilmente pedir um pouquinho mais.
Vou telefonar para eles agora mesmo!
- Espere aí, neste minuto!
- Por que não?
Pego o telefone de novo, procuro um antigo extrato bancário e rapidamente digito o número do Endwich.
- Veja bem, não há um problema de verdade – digo em tom tranqüilizador. – Só é preciso um pequeno telefonema.
- Seu telefonema está sendo transferido para a Central de Atendimento do Endwich – diz uma voz minúscula na linha. – Por favor, memorize o seguinte número para uso futuro: 0800...
- O que está acontecendo? – pergunta Mione.
- Estou sendo transferida para um sistema central – digo, enquanto as Quatro Estações começam a tocar. – Provavelmente eles vão ser bem rápidos e eficientes. Isso é fantástico, não é? Fazer tudo pelo telefone.
- Bem-vindo ao Endwich Bank! – diz uma nova voz de mulher no meu ouvido. – Por favor, digite o número da sua conta.
Qual é o número da minha conta? Merda! Não faço idéia.
Ah, sim. No extrato bancário.
- Obrigada! – diz uma voz quando termino de apertar os números. – Agora, por favor, digite sua senha pessoal.
O quê?
Senha pessoal? Eu não sabia que tinha uma senha pessoal. Sinceramente! Eles nunca me disseram...
Na verdade... talvez isso me faça lembrar de alguma coisa.
Ah, meu Deus. Como é que era? 73- não sei o quê? 37- não sei o quê?
- Por favor, digite sua senha pessoal – repete a voz em tom agradável
.
- Mas eu não sei a porcaria da minha senha pessoal! – digo. – Depressa, Mione, se você fosse eu, o que escolheria como senha pessoal?
- Aaah! Bem... eu escolheria... é... 1234?
- Por favor digite sua senha pessoal – diz a voz, agora com uma tensão clara.
- Tente o número do cadeado da minha bicicleta – sugere Mione. – É 435.
- Mione, eu preciso do meu número. Não do seu.
- Você pode ter escolhido o mesmo. Nunca se sabe!
- Por favor, digite...
- Certo! – grito, e digito 435.
- Sinto muito – entoa a voz. – esta senha é incorreta.
- Eu sabia que não ia dar certo.
- Poderia funcionar – diz Mione na defensiva.
- Deveriam ser quatro dígitos, de qualquer modo – digo, tendo um súbito clarão de memória. – Eu tive de telefonar e registrar... e eu estava parada na cozinha... e... é! É! Eu tinha acabado de comprar meu sapato Karen Millen novo, e estava olhando a etiqueta de preço... e esse foi o número que eu usei!
- Quanto ele custou? – pergunta Mione, empolgada.
- Foi... 120, com desconto ficou em 84,99!
- Digite! 8499!
Agitada, eu digito 8499 – e, para minha descrença, a voz diz:
- Obrigada, você está falando com a Endwich Banking Corporation. Para controle de débito, digite 1. Para hipoteca, digite 2. Para cheque especial e cobranças bancárias, digite 3. Para...
- Certo! Consegui. – E solto o ar com força, sentindo-me um pouco como James Bond decifrando um código para salvar o mundo. – Eu preciso falar com controle de débito? Ou cheque especial e cobranças bancárias?
- Cheque especial e cobranças bancárias – diz Mione, cheia de conhecimento.
- Certo. – Digito o 3 e um momento depois uma voz alegre e cantarolante me atende.
- Olá! Bem-vinda à Central de Atendimento do Endwich. Eu sou Dawna, em que posso ajudá-la, Srta. Weasley?
- Ah, oi! – digo meio perplexa. – Você é de verdade?
- Sim – diz Dawna, e ri. – Eu sou de verdade. Em que posso ajudá-la?
- Hmm... é. Eu estou telefonando porque preciso aumentar o limite do cheque especial. Algumas centenas de libras, se não tiver problema. Ou, você sabe, mais, se puder...
- Sei – diz Dawna em tom agradável. – Há um motivo específico? Ou só uma necessidade geral?
Ela parece tão gentil e amigável que eu me sinto começando a relaxar.
- Bom, o negócio é que eu tive de investir um bocado na minha carreira recentemente, e chegaram algumas contas, e meio que... me pegaram de surpresa.
- Ah, certo – diz Dawna cheia de simpatia.
- Bom, não é que eu esteja com problemas. É só uma coisa temporária.
- Uma coisa temporária – repete ela, e ouço-a digitando ao fundo.
- Acho que andei deixando as coisas crescerem um pouquinho. Mas o negócio é que eu paguei tudo. Achei que poderia relaxar um pouco!
- Ah, certo.
- Então você entende? – Dou um sorriso aliviado para Mione, que me oferece os polegares para cima, em troca. Meu Deus, assim está melhor. Só um telefonema rápido e fácil, exatamente como nos anúncios. Nenhuma carta agressiva, nenhuma pergunta capciosa...
- Entendo perfeitamente – está dizendo Dawna. – Acontece com todos nós, não é?
- Então... eu posso ter o aumento no limite? – digo alegremente.
- Ah, eu não estou autorizada a aumentar seu limite em mais de cinqüenta libras – diz Dawna. – A senhora terá de entrar em contato com o diretor de recursos de cheque especial de sua agência. Que é... deixe-me ver... em Fullham... o Sr. John Gavin.
Olho para o telefone, consternada.
- Mas eu já escrevi para ele!
- Então está tudo bem, não é? Bom, existe mais alguma coisa que eu possa fazer pela senhora?
- Não. Acho que não. Mesmo assim, obrigada.
Desligo o telefone desconsoladamente.
- Banco estúpido. Central de atendimento estúpida.
- Então eles vão lhe dar o dinheiro?
- Não sei. Tudo depende desse tal de John Gavin. – Ergo os olhos e vejo o rosto ansioso de Mione – Mas tenho certeza de que ele vai dizer sim – acrescento às pressas. – Ele tem de rever minha ficha. Vai ficar tudo bem!
- Acho que se você não gastar nada durante um tempo, vai voltar facilmente nos trilhos, não é? – diz ela cheia de esperança. – Puxa, você está ganhando um monte de dinheiro na televisão, não é?
- É – digo depois de uma pausa, não querendo dizer que depois do aluguel, das corridas de táxi, refeições e roupas para o programa, não sobra tanto assim.
- E tem o seu livro também...
- Meu livro?
Por um momento eu a encaro inexpressiva. E de repente, com um novo ânimo no coração, lembro. Claro! Meu livro de auto-ajuda! Eu vinha pensando em fazer alguma coisa sobre isso.
Bom, graças a Deus. Esta é a resposta. Só preciso escrever meu livro bem rápido e receber um cheque belo e polpudo – e aí vou pagar todos esses cartões e tudo vai ficar feliz de novo. Rá. Eu não preciso de nenhum cheque especial estúpido. Vou começar agora mesmo. Esta tarde!
A verdade é que estou bem ansiosa para começar o livro. Tenho um monte de temas importantes que quero abordar, como pobreza e riqueza, religião comparativa... talvez filosofia... bom, eu sei que os editores só pediram um livro simples de auto-ajuda, mas não há motivo para não abordar questões mais amplas também, não é?
De fato, se a coisa andar realmente bem, eu posso fazer palestras. Meu Deus, isso seria fantástico, não é? Eu poderia virar uma espécie de guru de estilo de vida e percorrer o mundo, e as pessoas correriam para me ver e pediriam meu conselho para todo tipo de coisas...
- Como ele está indo? – pergunta Mione, aparecendo na minha porta enrolada numa toalha, e eu dou um pulo, cheia de culpa. Estive sentada diante do computador durante um bom tempo, mas na verdade nem o liguei.
- Só estou pensando – digo, esticando rapidamente a mão para trás do computador e apertando o botão. – Você sabe, concentrando os pensamentos... e deixando as energias criativas formarem um padrão coerente.
- Uau – Mione me olha num ligeiro espanto. – Isso é incrível. É difícil?
- Na verdade, não – falo depois de pensar um pouco. – É bem fácil.
O computador irrompe num tumulto de som e cor, e nós duas olhamos para ele, hipnotizadas.
- Uau – diz Mione de novo. – Você fez isso?
- Hmm... é – digo. O que é verdade. Quero dizer, eu apertei o botão de ligar.
- Meu Deus, você é tão inteligente, Gina – sussurra Mione. – Quando acha que vai terminar?
- Ah, em pouco tempo, espero. Assim que eu pegar o pique.
- Bom, vou deixar você à vontade, então. Só queria pegar um vestido emprestado para esta noite.
- Ah, tudo bem – digo interessada. – Aonde você vai?
- À festa de Venetia. Quer ir também? Ah, anda, venha! Todo mundo vai!
Por um momento fico tentada. Estive com Venetia algumas vezes, e sei que ela dá festas incríveis na casa dos pais em Kensington.
- Não – digo finalmente. – Melhor não. Tenho trabalho a fazer.
- Ah, bem. – O rosto de Mione se desanima por um instante. – Mas posso pegar um vestido emprestado, não posso?
- Claro. – Eu franzo o rosto por um momento, me concentrando. - Por que não usa meu novo vestido Tocca com seu sapato vermelho e meu xale English Eccentrics?
- Excelente! – diz Mione, indo ao meu guarda-roupa. – Obrigada, Ginax. E... posso pegar uma calcinha emprestada? – acrescenta casualmente. – E uma meia-calça e maquiagem?
Viro na cadeira e olho-a atentamente.
- Mione. Quando você desentulhou seu quarto, você ficou com alguma coisa?
- Claro que fiquei! – diz ela, meio na defensiva. – Você sabe. Umas coisinhas. – Ela me encara. – Tudo bem, talvez eu tenha ido um pouco longe.
- Você ainda tem alguma roupa de baixo?
- Bem... não. Mas eu me sinto tão bem, e tão positiva com relação à minha vida que... não importa! É feng shui. Você deveria tentar.
Olho enquanto Mione pega o vestido e a roupa de baixo e remexe na minha bolsa de maquiagem. Então sai do quarto e eu estico os braços diante do corpo, flexionando os dedos. Certo. Ao trabalho. Ao livro.
Abro um arquivo, digito “Capítulo Um” e olho com orgulho. Capítulo Um! Isso é tão legal! Eu comecei! Agora só preciso de uma frase de abertura realmente memorável e marcante.
Fico imóvel durante um tempo, concentrando-me na tela branca à minha frente, depois digito com agilidade:
As finanças são
Paro e tomo um gole de Diet Coke. Obviamente a frase certa precisa de uma certa preparação. Você não pode esperar que ela pouse direto na sua cabeça.
As finanças são a coisa mais
Meu Deus, eu gostaria de estar escrevendo um livro sobre roupas. Ou maquiagem. O Guia de Gina Weasley para o Batom.
Mas não estou. Então, concentre-se.
As finanças são algo que
Minha cadeira é bem desconfortável. Tenho certeza de que não pode ser saudável ficar sentada numa cadeira que range como esta, horas a fio. Vou ficar com lesão por esforço repetitivo ou algo assim. Verdade, se vou ser escritora, deveria investir numa daquelas ergonômicas que giram e sobem e descem.
As finanças são muito
Talvez vendam cadeiras assim pela Internet. Talvez eu devesse dar uma olhadinha rápida. Já que o computador está ligando e coisa e tal.
De fato – sem dúvida seria irresponsabilidade não fazer isso. Puxa, a gente precisa se cuidar, não é? “Mens sana em saudável sana”, ou sei lá como é.
Estendo a mão para o mouse, clico rapidamente no ícone da Internet e procuro “cadeiras de escritório” – e logo estou alegremente percorrendo a lista. Já anotei algumas boas possibilidades, quando de repente pouso num site incrível que nunca vi antes, cheio de material de escritório. Não só envelopes chatos e brancos, mas coisas hi-tech realmente espantosas. Tipo arquivos cromados chiquérrimos, porta-canetas legais e placas personalizadas muito lindas para pôr na porta.
Percorro todas as fotografias, absolutamente hipnotizada. Puxa, eu sei que não deveria gastar dinheiro neste momento – mas isto é diferente. É investimento na minha carreira. Afinal de contas, este é o meu escritório, não é? Deveria ser bem equipado. Precisa ser bem equipado. De fato, mal posso acreditar como tenho sido míope. Como, afinal, eu esperava escrever um livro sem o equipamento necessário? Seria como escalar o Everest sem barraca.
Estou tão ofuscada pela quantidade de coisas que quase não consigo me decidir. Mas ali estão algumas necessidades que eu absolutamente preciso comprar.
Por isso clico numa cadeira giratória ergonômica estofada em roxo para combinar com meu iMac, além de um Dictaphone que escreve as coisas direto no computador. E então me pego acrescentando uma garra de aço bem legal, que prende as anotações enquanto você está digitando, um jogo de pastas laminadas – que devem ser úteis – e um mini picotador de papel. Que é totalmente essencial, porque não quero que o mundo inteiro veja meus rascunhos, certo? Estou brincando com a idéia de uma mobília modular para a recepção – só que eu não tenho realmente uma área de recepção no meu quarto -, quando Mione entra.
- Oi! Como está indo?
Dou um pulo cheia de culpa, rapidamente clico no ENVIAR sem nem mesmo me importar com quanto era o valor total, desconecto da Internet e levanto a cabeça no momento em que o meu Capítulo Um aparece na tela.
- Você realmente está trabalhando duro – diz Mione, balançando a cabeça. – Deveria fazer uma pausa. Quanto já fez?
- Ah... um bocado.
- Posso ler? – E, para meu horror, ela vem na minha direção.
- Não! – exclamo. – Bem... é uma obra inacabada. É... material sensível. – Rapidamente fecho o documento e me levanto. – Você está linda, Mione. Fantástica!
- Obrigada! – Ela sorri para mim, e quando gira com meu vestido a campainha toca. – Ahh! Deve ser Fenny.
Fenella é uma das estranhas primas ricas de Mione, da Escócia. Só que, para ser justa, não é mais tão estranha. Ela costumava ser tão esquisita quanto o irmão, Rony, e passar o tempo todo cavalgando e atirando em peixes, ou sei lá o que eles fazem. Mas recentemente se mudou para Londres e conseguiu um trabalho numa galeria de arte, e agora só vai a festas. Mione abre a porta da frente e eu ouço a voz aguda de Fenella – e um punhado de vozes de mulheres seguindo-a. Fenny não pode andar um metro sem uma enorme nuvem de gente guinchando em volta. Ela é uma espécie de versão socialite de um deus da chuva.
- Oi! – diz ela, entrando no meu quarto. Está usando uma saia de veludo rosa realmente linda, da Whistles, que eu também tenho, mas combinou com uma desastrosa blusa de lurex com gola pólo. – Oi, Gina! Você vem com a gente?
- Hoje não. Tenho de trabalhar.
- Ah, bem. – A cara de Fenella se desanima como a de Mione, depois se anima. – Então posso pegar seu sapato Jimmy Choos emprestado? Nós calçamos o mesmo número, não é?
- Tudo bem. Está no guarda-roupa. – Hesito, tentando ser educada. – E quer uma blusa emprestada? É que eu acabei de comprar uma que combina com sua saia. Casimira rosa com continhas. Realmente bonita.
- É mesmo? Ahh, sim! Eu enfiei essa blusa pólo sem nem pensar. – Enquanto ela tira a blusa, uma loura de roupa preta entra e ri para mim.
- Oi, é... Milla – digo, lembrando seu nome bem a tempo. – Como vai?
- Bem – diz ela, e me lança um olhar esperançoso. – Fenny disse que eu podia pegar emprestado seu xale English Eccenrics.
- Eu emprestei para a Mione – digo, fazendo um rosto de quem lamenta. – Mas que tal... um xale púrpura com lantejoulas?
- Sim, por favor! E Binky perguntou se você ainda tem aquela saia preta de enrolar.
- Tenho – digo pensativa. – Mas na verdade tenho outra saia que eu acho que vai ficar ainda melhor nela...
Passa-se cerca de meia hora antes que todo mundo pegue emprestado o que queria. Por fim saem do meu quarto, gritando que vão devolver tudo de manhã, e Mione entra, totalmente estonteante com o cabelo preso no alto e caindo em gavinhas louras.
- Gi, tem certeza de que não quer ir? Rony vai estar lá, e eu sei que ele gosta de ver você.
- Ah, certo – digo, tentando não parecer pasma demais diante da idéia. – Então ele está em Londres?
- Só por alguns dias. – Mione me olha, meio lamentando. – Você sabe, Gi, se não fosse o Harry... Eu acho que Rony ainda gosta de você.
- Tenho certeza de que não – digo rapidamente. – Isso foi há séculos. Séculos!
Meu único encontro com Rony é um acontecimento que eu estou tentando ferozmente não lembrar de novo. Nunca mais.
- Ah, bem – diz Mione, dando de ombros. – Vejo você depois. E não trabalhe demais!
- Não vou – respondo, e dou um suspiro cansado do mundo. – Ou pelo menos vou tentar.
Espero até a porta da frente bater atrás dela, e os táxis lá fora se afastarem. Então tomo um gole de chá e volto ao primeiro capítulo.
Capítulo Um
As finanças são muito
Na verdade, não me sinto mais no clima para isso. Mione está certa. Eu deveria fazer uma pausa. Puxa, se eu ficar aqui sentada, depois de uma hora vou me sentir toda doída e perder o fluxo criativo. E o fato é que eu comecei bem.
Levanto-me e me espreguiço, depois vou até a sala de estar e pego um exemplar da Tatler. Vai passar EastEnders daqui a um minuto, e depois pode ser Changing Rooms ou algo assim, ou aquele documentário sobre veterinários. Vou assistir a isso – e depois volto a trabalhar. Puxa, eu tenho toda uma noite pela frente, não é? Preciso entrar no pique.
Preguiçosamente abro a revista e estou examinando a página de programação em busca de algo interessante, quando de repente meus olhos param, com surpresa. É uma foto pequena de Harry, com a legenda O Melhor de Potter, página 74! Por que, afinal, ele não me disse que ia sair na Tatler?
É sua nova foto oficial, eu o ajudei a escolher a roupa para tirá-la (camisa azul, gravata Fendi azul-escura). Ele está olhando para a câmera, parecendo sério e empresarial – mas se você olhar atentamente os olhos, há um sorriso minúsculo lá dentro. Enquanto observo seu rosto familiar, sinto uma pontada de afeto e percebo que Mione está certa. Eu deveria simplesmente confiar nele, não é? Puxa, o que Cho, a Vaca do Pernão, sabe sobre qualquer coisa?
Vou para a página 74, e é uma matéria sobre os principais empreendedores da Grã-Bretanha. Examino a página... e não posso deixar de notar que alguns dos empreendedores têm fotos com suas companheiras. Talvez haja uma foto minha, com Harry! Afinal de contas, alguém deve ter tirado uma foto de nós dois juntos numa festa ou coisa assim, não é? Pensando bem, uma vez nós fomos fotografados pelo Evening Standard no lançamento de alguma revista nova, mas nunca saiu no jornal.
Ahh! Aqui está ele, número 34! E é só ele, naquela mesma foto oficial, sem nenhum vislumbre meu. Mesmo assim, sinto uma pontada de orgulho quando vejo a foto (muito maior do que alguma das outras, ha!) e uma legenda dizendo: A busca implacável de Potter pelo sucesso derrubou concorrentes logo no bloco de largada.
Então a matéria começa: “Harry Potter, dinâmico proprietário e fundador da Potter Communicatons, blá-blá-blá...”
Percorro rapidamente o texto, sentindo uma antecipação agradável quando chego à seção intitulada “Estatísticas Pessoais”. É aqui que eu serei mencionada! “Atualmente namorando a personalidade da TV Ginevra Weasley”. Ou talvez “Parceiro da conhecida especialista em finanças Ginevra Weasley.” Ou então...
Harry James Potter
Idade: 34 anos
Formação: Cambridge
Estado civil: solteiro
Solteiro?
Harry disse a eles que era solteiro?
Uma raiva dolorosa começa a subir dentro de mim enquanto vejo o olhar confiante e arrogante de Harry. De repente estou cheia de tudo isso. Já não aquento mais me sentir insegura, paranóica e imaginando o que está acontecendo. Pego o telefone e golpeio o número de Harry.
- Sim - digo, assim que a mensagem termina. – Sim, bem. Se você é solteiro, Harry, eu sou solteira também. Certo? E se você está indo para Nova York, eu estou indo para... a Mongólia. E se você...
De súbito minha mente fica vazia. Merda, e estava indo tão bem.
- ...se você é covarde demais para dizer essas coisas pessoalmente, então talvez seja melhor para nós dois se nós simplesmente...
Eu estou realmente lutando. Deveria ter anotado tudo antes de começar.
- ...se nós déssemos como terminado. Ou talvez seja isso que você acha que já fez – termino, respirando ofegante.
- Gina? – De repente a voz profunda de Harry está no meu ouvido, e eu pulo de medo.
- Sim? – digo, tentando parecer digna.
- Que besteira é essa que você está vomitando na minha secretária eletrônica? – pergunta ele calmamente.
- Não é besteira! – respondo indignada. É a verdade!
- “Se você é solteiro, eu sou solteira também?” O que é isso, letra de música?
- Eu estava falando de você! E do fato de que você disse ao mundo inteiro que é solteiro.
- Eu fiz isso? – pergunta Harry, parecendo divertido. – Quando fiz isso?
- Está na Tatler! – digo furiosa. – Deste mês! – Pego a revista e abro. – “Os principais empreendedores da Grã-Bretanha. Número 34, Harry James Potter.”
- Ah, pelo amor de Deus. Aquela coisa.
- É, aquela coisa! Aquela coisa! E diz que você é solteiro. Como acha que eu me sinto vendo você dizer que é solteiro?
- A revista coloca isso como uma citação minha, não é?
- Bem... não – digo depois de uma pausa. – Não cita você exatamente. Mas, puxa, eles devem ter telefonado e perguntado se você...
- Eles telefonaram e perguntaram. E eu disse: “sem comentários”.
- Ah. – Sou silenciada um momento, tentando pensar com clareza. Tudo bem, talvez ele não tenha dito que era solteiro, mas não sei se gosto de “sem comentários”. Não é isso que as pessoas dizem quando as coisas estão indo mal de verdade? – Por que você disse “sem comentários”? – pergunto enfim. – Por que não disse que estava me namorando?
- Minha querida. – Harry parece meio cansado. – Pense bem. Você quer nossa vida privada jogada em toda a mídia?
- Claro que não. – Torço as mãos num nó complicado. – Claro que não. Mas você... – paro.
- O quê?
- Você contou à mídia quando estava namorando Romilda – digo numa voz miúda.
Romilda é a ex-namorada de Harry.
Não consigo acreditar que falei isso.
Harry suspira.
- Gi, Romilda contou à mídia sobre nós. Ela deixaria a Hello! Fotografar a gente no banho se eles estivessem interessados. Para ver o tipo de mulher que ela era.
- Ah – digo, enrolando o fio do telefone no dedo.
- Eu não estou interessado nesse tipo de coisa. Meus clientes podem fazer o que quiser, mas eu, pessoalmente, não posso pensar em nada pior. Daí o “sem comentários”. – Ele faz uma pausa. – Mas você está certa. Eu deveria ter pensado. Deveria ter avisado você. Desculpe.
- Tudo bem – digo sem jeito. – Acho que eu não deveria ter me apressado nas conclusões.
- Então tudo bem? – E há uma nota calorosa, provocadora, na voz dele. – Estamos de novo nos trilhos?
- E quanto a Nova York? – digo, odiando-me. – Isso também foi um equívoco?
Há um silêncio longo e horrível.
- O que você ouviu dizer sobre Nova York? – pergunta Harry finalmente. E, para meu horror, ele parece prático e distante.
Ah, meu Deus. Por que eu não pude manter a boca fechada?
- Na verdade, nada – gaguejo. – Eu... não sei. Só...
Paro debilmente e, durante o que parece horas, nenhum de nós diz nada. Meu coração está batendo forte e estou agarrando o fone com tanta força que minha orelha começa a doer.
- Gi, eu preciso falar umas coisas com você – diz Harry finalmente. – Mas agora não é a hora.
- Certo – digo, sentindo uma pontada de medo. – Que... tipo de coisas?
- Agora não. Nós falamos quando eu voltar, certo? No sábado. No casamento.
- Certo – digo de novo, toda animada para esconder o nervosismo da voz. – Certo! Bem, eu... vejo você no sábado, então...
Mas antes que eu possa falar mais, ele se foi.
ADMINISTRANDO SEU DINHEIRO
UM GUIA COMPLETO PARA
AS FINANÇAS PESSOAIS
Ginevra Weasley
DIREITOS RESERVADOS: Ginevra Weasley
Importante: Nenhuma parte deste manuscrito
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expressa da autora
PRIMEIRA EDIÇÃO (REINO UNIDO)
(ORIGINAIS NÃO REVISADOS)
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO UM
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As finanças são muito
Endwich Bank
AGÊNCIA FULHAM
3 Fulham Road
Londres SW6 9JH
Srta. Ginevra Weasley,
Apto. 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD
11 de setembro de 2001
Cara Srta. Weasley,
Depois de minha carta de 8 de setembro, realizei um exame cuidadoso de sua conta. Seu atual limite de cheque especial excede em muito o que normalmente é aprovado pelo banco. Não posso ver qualquer necessidade para esse nível de dívida elevado, nem qualquer tentativa genuína feita para reduzi-la. A situação é praticamente desastrosa.
Qualquer privilégio especial que a senhorita tenha desfrutado no passado não continuará existindo no futuro. Certamente não aumentarei seu limite como a senhorita requisitou, e eu pediria, com urgência, que marcasse uma reunião comigo para discutir a situação.
Atenciosamente
John Gavin
Diretor de Recursos de Cheque Especial
ENDWICH – PORQUE NOS IMPORTAMOS
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