Disclaimer: Harry e seu mundo não me pertencem, mas se fosse o contrário eu teria feito pior com aquele drama todo do Harry e da Hermione sozinhos. :P
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Fim de novembro de 1997
20 dias.
Parece que anos se passaram e eu simplesmente não consigo entender o que está havendo. Mas sei bem o que aconteceu. E dói lembrar.
Harry estava andando a esmo por um bosque em algum ponto ao sul da Escócia. Estava cansado e sem paciência alguma para o silêncio crítico de Hermione.
Desde o dia em que Ron foi embora, Hermione assumiu uma atitude resoluta e fria. Falava apenas o necessário e evitava ficar com Harry mais que 10 ou 15 minutos. Ele sabia que ela o culpava pelo que havia acontecido. Há dias ela sequer o cumprimentava, não lhe dirigia a palavra e quando o rapaz falava algo, Hermione apenas respondia com um seco sim ou não.
Todas as vezes que tentava falar sobre os horcruxes, ela se mostrava distante e indiferente, quase desinteressada, mas ele não podia culpá-la. Estes eram dias sombrios.
As altas árvores e o vento gelado que soprava, fez Harry lembrar-se da floresta proibida e de todas as vezes que ele e seus amigos se aventuraram por ela. E sentiu-se, mais uma vez, o mais miserável dos bruxos. A culpa pesando e a incapacidade e impossibilidade de desabafar criavam um enorme peso em seu peito. Era como se ele estivesse sozinho, mesmo com a amiga ao lado.
Harry sabia que era difícil para Hermione, tanto quanto para ele, claro que em dimensões diferentes. Ele sabia que ela gostava, quer dizer gostar não era bem a palavra para definir o que ele via acontecer entre seus amigos, mas supunha que era a definição apropriada no momento.
Viu seus amigos num jogo de vai e vem afetivo nos últimos dois anos que o deixava nervoso às vezes. O flerte escandaloso no início do sexto ano deu a Harry a esperança de que se acertariam e parariam de fingir que não havia nada entre eles. Havia e era um sentimento muito grande e intenso. Antes era divertido vê-los inseguros e relutantes; agora era doloroso saber que a relutância em falar sobre o que sentiam um pelo outro os havia separado. E Harry sentia uma pontinha de culpa, ainda que não tivesse acontecido nada entre ele e Hermione.
Agora, ele vagava entre árvores antigas em uma floresta esquecida, fugindo de comensais da morte e sequestradores, tentando descobrir um jeito de destruir o medalhão e achar os outros horcruxes e ao mesmo tempo sentindo uma enorme saudade de seus dois amigos.
Ron não estava por perto e Harry sentia falta do humor ácido, dos papos leves e descontraídos, do apoio incondicional. Sentia falta de seu melhor amigo.
Hermione estava ao seu lado, tentando manter o foco na busca pelas partes da alma de Voldemort, mas Harry sabia bem que ela não estava completamente interessada como antes.
Ron era a parte mais importante do trio, a falta que fazia era enorme, e Harry não tinha a mínima ideia de como seria dali em diante sem ele.
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25 dias
1, 2, 3...não, ele não veio.
1, 2, 3... não, ele não apareceu.
1, 2, 3... não, ele nunca se importou.
1, 2, 3... não, eu nunca mais o verei .
1, 2, 3... onde você se escondeu?
1, 2, 3... dor, abandono, rejeição, desespero.
1, 2, 3... desisto.
1, 2, 3...
Eu deveria mudar, mudar, sair daqui. Fazer o que ele fez. Esse não é o meu lugar. Do outro lado é seguro, é mais seguro. Por que estou aqui? Por quê? Porque eu prometi que iria até o fim. O Harry precisa de mim, mesmo que eu ainda não consiga olhar direito para ele.
25 dias. 25 longos dias e qualquer esperança se esvai lentamente. Poucas coisas importavam agora. Ainda queria sobreviver e procurar seus pais, mas não tinha certeza se conseguiria fazer isso. Energia e resistência se dissipavam a cada dia.
Hermione tinha os olhos fechados. O silêncio na tenda era perturbador. Harry estava em algum lugar, longe da frieza injusta dela. Ela sabia que não era correto agir como se a culpa de tudo que aconteceu fosse dele. Na verdade, se ela fosse a pessoa sensata de sempre, não deveria estar se portando dessa forma, sendo tão dura com o amigo. Havia tantas coisas em jogo, mas no momento nada realmente importava, certo? Respirou fundo, lembrando que há 25 dias trocara de cama, porque...
O tempo passava cada vez mais devagar e os dias estavam ficando mais frios. A falta de comida e de um lugar melhor para se abrigarem fazia com que Harry e Hermione mal se falassem. Mas é claro que esses não eram os únicos motivos. Hermione não conseguia olhar para o amigo sem a sensação de que ele tinha uma ponta de responsabilidade pela “fuga” do ruivo. Ela jamais os vira brigar daquela forma e nunca imaginou que veria. Tudo que foi dito ainda ecoava pelas paredes de lona e atormentavam a garota que no momento estava sentada, fingindo ler algum livro que nem sequer sabia o título.
Inútil!
Hermione fechou o livro e o colocou sobre o criado-mudo e, mais uma vez, encolheu-se no canto, sentindo uma dor inexplicável, desconhecida até ali.
Quando Ron começou a namorar Lavender, ela sentiu raiva, desprezo e até mesmo nojo de estar no mesmo lugar que ele. Foram dias difíceis, especialmente porque ela não entendia a mudança de comportamento dele. Mas o tempo passou e ela acostumou-se, ainda que de mau grado, com a oportunidade perdida. Oportunidade que tanto havia esperado para sair da proteção estranhamente formada por suas dúvidas e inseguranças, ainda que esse pensamento fosse meio... contraditório.
De qualquer forma, ela não sentiu a dor física que experimentava agora. Não sabia como reagir à sensação dolorosa que a simples lembrança do ruivo provocava. Era como se tudo houvesse se reduzido a ele e ao que ele representava. E Hermione sabia que era muito, mas não conseguir controlar tudo que sentia a estava deixando irada, o que acabava por criar aqueles momentos estranhos em que ignorava Harry como se ele fosse Draco Malfoy a insultando; e ela tinha plena consciência de que estava sendo injusta com o amigo, mas por hora não sabia bem como evitar esse comportamento.
Nos primeiros dias, durante as horas em que Harry ficava na entrada da barraca, Hermione levantava-se, tentando não fazer barulho algum, e deitava-se na cama onde Ron dormia. Vários dias haviam se passado, mas o cheiro dele permanecia ali, irresistível, forte, doloroso. Era como tê-lo por perto com a certeza de que jamais o veria novamente. Era uma tortura ingrata, da qual ela não conseguia fugir.
O espelho quebrado do outro lado da tenda refletia um olhar cansado, cheio de dúvida, dor e culpa. Em momentos como esse, ela gostaria de ter uma resposta lógica e completa para lidar com todos os sentimentos que a perseguiam desde a noite em que Ron havia ido embora. Mas não havia resposta lógica quando a única coisa que ela podia fazer era sentir. Sentir saudade. Sentir raiva. Sentir pena. Sentir vergonha. Sentir medo.
Hermione fechou os olhos e tentou controlar a confusão de sentimentos que se assomavam.
Sentia saudade de seus pais. Queria poder estar em casa, apenas os observando fazer coisas simples. Sentia saudade dos amigos da escola. Sentia saudade de quando podia andar livremente em qualquer lugar. Sentia saudade de quem não devia sentir.
Sentia raiva e era apenas dele. Raiva por ter sido deixada para trás. Raiva por ele não ter confiança em si próprio. Raiva por não conseguir acreditar, como dizia a Sra. Granger, no que estava escrito na testa dela. Mas, sobretudo, ela sentia raiva de si mesma por não ter dito nada antes.
Sentia pena de si e esse era o pior dos sentimentos, simplesmente porque não conseguia controlar a sensação de que precisava de ajuda, de que não conseguiria dar um passo à frente na busca aos horcruxes, de que seria um peso morto. Passava horas pensando na própria sorte e em como tinha certeza de que não sobreviveria ao que o futuro lhe reservava.
Sentia vergonha de olhar para Harry e pensar que ainda o culpava. Sentia vergonha de olhar para o amigo e pensar coisas terríveis. Sentia vergonha das palavras que queria cuspir, como se ele fosse o único culpado por tudo que estava acontecendo em sua vida. Julgava aquela a pior das sensações porque, por um minuto, ela desejava poder ter a coragem de fugir e largar tudo para trás. Mas era muito tarde.
E sentia medo. Medo de morrer, de não ver os pais novamente, de perder algum amigo, de perder... Suspirou e decidiu sair da barraca. O ar de repente ficou muito abafado e a sensação de que alguém estava apertando sua garganta a apavorou.
Assim, ela sorriu pela primeira vez em dias quando uma rajada de vento devolveu sua parca tranquilidade.
- Pensei que não ia sair daí. – Harry disse, segurando uma sacola cheia de mantimentos.
- Você me assustou. – Hermione olhou para a sacola. – Onde conseguiu isso?
- Achei dinheiro no bolso de trás da minha mochila. Não sei como foi parar ali, mas resolvi ir à cidade e comprei algumas coisas. Sei que não é muito, mas deve servir por alguns dias.
Pela primeira vez em dias, Hermione sorriu para o amigo e Harry percebeu que era um sorriso sincero. Ficou feliz com a leve mudança no comportamento da amiga. Entrou na barraca e colocou tudo que comprou na cozinha.
- Você acha que isso dura quantos dias?
- Bom, acho que uns 3 ou 4 dias. Você gastou o dinheiro todo?
- Não! Aliás, é uma boa quantia, 50 libras. Não é muito, mas dá pra gente se virar. Queria saber como aquele dinheiro foi parar ali. Só sei que não foi pela generosidade dos meus tios. – Os dois riram, abraçando a sensação boa que era rir sem preocupação.
- Então temos esperança de sobreviver por mais um tempo. – Ela falou, um tom leve e divertido que foi totalmente surpreendente para ambos.
- Suponho que sim. Já, já é natal e eu queria mesmo era um daqueles almoços da Sra. Weasley e... – Harry parou de falar, alarmado com a escolha que fez.
- Por que parou de falar?
- É que... bom, eu...
- Harry, não me proteja do que eu mesma não consigo me proteger. Além do mais, falar da Sra. Weasley é sempre bom. Tenho a sensação de que ela vai querer prender a gente quando nos vir de novo. – Harry parecia aliviado.
- Ela vai ficar de olho, perseguir, encurralar. Acho que é isso que uma mãe faz pra proteger um filho, né? – Ele abaixou o olhar, sentindo um repentino bolo na garganta e lágrimas nos olhos. Por que diabos estava quase chorando?
Hermione ouviu a mudança na voz do amigo. Não ousou se aproximar ou perguntar nada. Apenas sentou-se do outro lado da mesa e colocou a mão sobre a dele:
- Você vai poder perguntar isso pra ela. Vamos ver como ela vai se sair quando responder. – Hermione disse, tentando mudar o tom da conversa. Ela não entendia como essas mudanças aconteciam tão rápido.
- Tomara. Ainda tenho muito que agradecer a ela.
- Eu também.
Harry abriu um refrigerante, pegou dois copos e serviu. Seguiram em silêncio. Um silêncio diferente do dos outros dias.
O Ron tinha razão. Nada como ter a certeza de uma barriga cheia. Harry riu.
- O que foi? – Hermione perguntou.
- Nada, estava lembrando o... o...
- Harry?
- Estava lembrando o teste pro time de Quadribol ano passado. Um dos momentos mais absurdos que eu já passei na escola. Especialmente depois de perceber o que você fez pelo...
Harry parou de falar, olhos arregalados. Quase, quase falou o nome do amigo. Ele fez uma promessa de que não faria isso. Era doloroso demais, mas sabia que era pior ainda para Hermione.
- Eu sei, acho que fui injusta com o Cormac, mas você não reclamou de verdade, não é? – Parece que ela não percebeu.
- De jeito nenhum. Cara chato, não sei por que você resolveu ir com ele à festa do Slughorn. – Será que disfarcei direito?
- Você sabe bem o porquê. No fim eu me senti um pouquinho, mas bem pouquinho mesmo, mal por tê-lo usado. Porque foi isso que eu fiz.
- Eu não acho, mas também não vou opinar. Vai que você me confunde qualquer dia desses.
Harry e Hermione continuaram conversando por um bom tempo. A amizade inabalada, mas machucada, parecia estar se curando. Eles tinham apenas um ao outro e ficar como estavam não era a melhor solução, Hermione pensou horas mais tarde quando se preparava para dormir.
Pegou sua bolsinha e dela tirou uma mochila cheia de objetos que trouxe de casa. Fotos, livros, roupas, brinquedos. Tirou o ursinho de pelúcia que o Sr. Granger deu a ela quando foi à escola pela primeira vez na vida. Ela sorriu. Os livros favoritos do pai e da mãe estavam ali. Fotos de várias épocas diminuíam a saudade que sentia. E no meio delas, havia uma que ela não esperava encontrar porque, bom, não era dela.
Harry estava ao fundo, tentando não se irritar com as pessoas olhando para ele como se houvesse chifres em sua testa; Seamus e Dean cochichavam em um canto; Ginny estava ao lado de Hermione, olhando para trás. E ao lado dela estava Ron, olhando com uma ternura que ela não conseguiu perceber naquele dia e nem depois, quando Colin lhe entregou a foto.
Lembrava-se daquele dia. Logo após o Natal em Grimmauld Place, ela usava o perfume que ele lhe dera, e os dois conversavam sobre alguma coisa que ela não lembrava mais. Apenas agora percebia a atenção que Ron lhe dedicara. E ela nem notou quando ele se apoiou na mesa e ouviu o que ela dizia com o maior interesse do mundo. Mas por que essa foto estava lá?
Hermione não entendia como uma foto tão antiga estava misturada às suas. Resolveu não pensar demais e a descartou. Assim, quando a colocou na pilha com as outras, percebeu que havia algo escrito atrás.
Pessoas importantes. Amigos queridos. Hermione.
Ela piscou várias vezes. Por quê? Por que ele escreveu o nome dela ali? Ela não podia deixar que o coração e a cabeça a levassem para onde já estavam levando. Não queria ir por esse caminho de esperança de novo. Não, não podia. A mágoa que ainda sentia era grande demais para ser deixada de lado assim, por causa de seu próprio nome.
Mas a foto é dele. Você sabe que não pode ignorar o que está escrito ali. E sabe que não falo do que leu.
Maldita voz! Por que diabos ela sempre volta?
Não interessam as entrelinhas. Não há nada ali além do que está de fato escrito.
Bobagem. Sai desse poço. Aceita o que você está pensando. O que está aí no seu coração. Pelo menos assim você não vai ficar toda triste.
Hermione olhou para a foto por mais um tempo. Talvez ela pudesse acreditar, mas jamais saberia a verdade. Afinal, ela não sabia se o veria novamente e não tinha a mínima vontade de criar expectativas.
Mesmo assim, resolveu que estava na hora de entender e tentar superar a dor que ainda sentia. Harry precisava dela e não era hora de decepcionar seu melhor amigo.
xOx
Nada que eu diga vai ser suficiente para justificar esse hiato gigante. Então, eu apenas peço desculpas e espero que não tenham nos abandonado aqui.
Não vou dar previsão, mas espero não demorar tanto com os próximos capítulos, que provavelmente serão três.
Logo, logo chegaremos ao fim dessa jornada maluca em BTF. Vamos acompanhar como será! :D
Obrigada pelo tempo dispensado em ler o capítulo e comentários salvam o planeta do aquecimento global! \o