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2. CAPITULO II


Fic: Lorde do Deserto - UA - HH


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Porém, todos os planos de Ginny para as férias e para o novo emprego se dissolveram na manhã seguinte, ao rece¬ber um telefonema de Jacobsville, no Texas.
— Detesto ter de dar a notícia a você — afirmou no aparelho Eb Scott, seu amigo. — Draco foi ferido. Estava fazen¬do um trabalho na Flórida uma semana atrás, colocando um pequeno dispositivo explosivo num barril para detonar a distância, e a coisa estourou no rosto dele.
Ginny empalideceu e sentiu uma vertigem. Apertou o telefone nas mãos e cerrou os olhos. Conseguiu formular com dificuldade sua pergunta seguinte:
— Ele... morreu?
Depois de um silêncio aflitivo, Eb respondeu:
—Não. Mas diz que preferia ter morrido. Draco ficou cego, Ginny.
Ela cerrou os olhos, tentando enxergar aquele homem independente e orgulhoso andando com uma bengala ou com um cão-guia, sozinho... a recolher os pedaços de sua vida.
— Onde ele está?
— O irmão de Hermione, Marc, estava em Miami quando aconteceu. Ele foi buscar Draco e o trouxe para casa, depois que ele recebeu alta do hospital... Eu não soube até que Marc me telefonou, na volta de Miami.
— Draco está sozinho?
— Completamente — informou Eb, irritado. — Não quis vir ficar com Sally e comigo em Jacobsville, e nem mesmo com Cy Parks. Ele não tem família, tem?
— Só a ruim... se é que posso ser chamada de família — disse ela, hesitando a seguir. — Acho que Draco me expul¬saria de lá se eu fosse ficar com ele.
— Para dizer a verdade, Marc disse que ele estava cha¬mando por você quando foi levado ao hospital.
O coração dela deu um salto. Aquilo era inédito. Não conseguia lembrar-se de nenhuma época na vida de ambos em que Draco tivesse precisado dela. Ele a desejara, mas ape¬nas uma vez, e nem sequer estava sóbrio.
— Telefonei para Draco assim que Marc avisou que o le¬vara para casa. Draco disse que não acreditava que você es¬tivesse disposta a cuidar dele, mas que eu podia telefonar, se quisesse. Então estou telefonando.
— Mas que hora inoportuna... Estou a caminho de um novo emprego e tenho ainda uma semana de férias para aproveitar... — disse Ginny, olhando para Hermione, que prestava atenção à conversa. — Ainda não sei como, mas acho que posso apanhar um vôo para Bruxelas e de lá um sem escalas para o Texas.
— Sabia que viria! Vou avisar Draco — disse Eb, contente.
— Obrigada por tudo, Eb.
— O prazer foi meu. Faça uma boa viagem de volta. E Marc disse para avisar Hermione para ter cuidado e não sair sozinha,
— Vou dizer a ela, não se preocupe. Quanto a Draco, a cegueira é... permanente?
— Eles ainda não sabem — ela agradeceu e desligou.
— Draco sofreu um acidente — disse Ginny, sem preâm¬bulos. — Preciso ir para casa hoje... Sinto muito. Não gosto de deixar você sozinha...
Sabendo como Ginny se sentia sobre Draco, Hermione preferia deixar-se raptar por bandidos do que dizer que receava ficar sozinha.
— Não se preocupe comigo. Sei tomar conta de mim mesma — afirmou ela, com mais confiança do que sentia.
— Mas... e o seu trabalho, Ginny?
Ginny olhou para a amiga por um instante, e sua cabe¬ça girou com o raciocínio intenso. Um plano formou-se em sua cabeça.
— Você pode assumir.
— O quê?
— Você pode ir para o Quawi e aceitar o trabalho. Escute antes de protestar. É exatamente do que você precisa. Vai vegetar naquele pequeno escritório em Jacobsville a vida in¬teira? Você já desistiu de boa parte de sua vida por causa de sua mãe. É hora de ver um pouco do mundo real. É a oportunidade da sua vida. Não vai se repetir.
— Mas eu trabalho com advocacia — observou Hermione.
— Não tenho a menor idéia de como organizar festas e es¬crever comunicados para a imprensa. Além do mais, o sheik está esperando uma viúva ruiva!
— Pois diga a ele que tingiu os cabelos, e não mencione que não é viúva — instruiu Ginny, apanhando a mala e caminhando para o armário. — Você pode usar minha pas¬sagem, e dou a você todo o dinheiro extra que tenho.
— Acho uma péssima idéia.
— Pois eu acho uma idéia maravilhosa. Você vai ter uma experiência única na vida — argumentou Ginny. — Pode até achar um solteiro disponível.
— Essa, sim, é uma boa idéia — aplaudiu Hermione. — Posso ser a esposa número quatro, embrulhada dos pés à cabeça no harém de algum árabe.
— Você precisa aprender mais sobre mulheres árabes — disse Ginny, em tom de censura. — Elas vivem pelos valo¬res que costumávamos ter, e possuem um poder próprio. No Quawi elas votam, assim como em vários outros países, e possuem independência financeira. Mas no Quawi exis¬tem muitos homens e mulheres cristãos. Ouvi rumores que representam não somente a maioria, como o próprio sheik é cristão. É de ascendência mista.
— Se me lembro bem, houve rumores sobre o voraz ape¬tite sexual do sheik. Você mesma me contou, ontem.
— Isso foi resolvido numa entrevista internacional, pou¬co depois. O senador Holden disse que o próprio sheik ha¬via começado esses rumores para conseguir que a esposa de Pierce Hutton ficasse a salvo do padrasto. Eles dizem que o sheik nunca se recuperou do caso com Brianne Hutton — informou Ginny, retirando as roupas dos cabides. — A sra. Hutton não é um modelo de beleza, mas possui um sorriso bonito e se veste com muita elegância. Talvez o sheik tenha se sentido atraído por ela porque é morena.
— Ele é bem moreno? — indagou Hermione.
— Não sei. Nunca o vi, e não existem muitas fotografias dele por aí. Mesmo na posse ele usava um bisht cerimonial sobre a túnica, com turbante e um igal; tem conseguido manter o rosto parcialmente escondido da imprensa inter-nacional.
Ginny terminou de arrumar suas coisas, ainda com o pensamento em Draco. Passou para os papéis e a bolsa.
— Talvez ele tenha o rosto cheio de verrugas — sugeriu Hermione.
Ginny não prestava atenção. Seu olhar perscrutava o quarto, procurando seus pertences.
— Se esqueci alguma coisa, mande para mim de volta, sim? Tome — disse ela, entregando o que possuía em di¬nheiro marroquino e falando brevemente com a portaria. — Ele vai chamar Mustafá, com o carro, para me levar ao ae-roporto. Lembre-se, não saia sozinha do hotel. Prometa-me.
— Prometo, Ginny. Você também, tenha cuidado. Espero que Draco esteja bem.
— Está brincando? Sem enxergar? Só vou poder fazer o que ele deixar, e mesmo assim vai ser um inferno. Mas talvez eu possa ajudá-lo a se reintegrar no mundo. Pelo me¬nos ele precisa de mim, e isso nunca aconteceu antes.
— Milagres acontecem quando a gente menos espera — disse Hermione com simpatia.
— Espero que sim. Draco bem que poderia aproveitar esse. Escreva-me! — disse ela, abrindo a porta e saindo apressada.
— Claro.
Depois que o som distante do elevador cessou, o silêncio do quarto pareceu tornar-se denso e oco ao mesmo tempo. Havia programas na televisão, porém eram poucos canais e a maioria em árabe ou francês. Apenas os canais de notícias eram falados em inglês. O quarto era de bom tamanho, mas tornara-se claustrofóbico, diante das circunstâncias. Hermione precisava esticar as pernas. Resolveu dar um pulo até a piscina para refrescar-se. Não custava nada tomar um pouco de sol enquanto tinha tempo.
A tarde foi solitária, embora ela tivesse encontrado ou¬tros turistas e começado a reconhecê-los à vista. Apesar disso, sentou-se sozinha durante as refeições da tarde e da noite. Recolheu-se cedo. Ela imaginou que Ginny estaria a caminho de Bruxelas, procurando embarcar num avião para os Estados Unidos. Também estaria sozinha.
Pensou na excursão que haviam perdido durante o dia, e considerou a possibilidade de combinar com Mustafá para o dia seguinte a excursão que teriam feito às Grutas de Hércules. Depois, poderiam ir até a cidade de Asilah, no litoral, como fora sugerido, pois devia ser um ótimo programa.
Dormiu um sono profundo e sentiu-se estranhamente repousada ao despertar. Colocou um vestido comprido sem mangas, com padrão amarelo e branco, um casaco de tricô para completar a composição, e deixou os cabelos longos soltos sobre os ombros. Desceu, encaminhando-se para a portaria, para ver se encontrava Mustafá.
Em sua pressa, deu um encontrão num homem distin¬to, trajando um terno de seda acinzentado, muito elegante. Ele a segurou pelos ombros para firmá-la quando ela perdeu o equilíbrio. Assim que aprumou o corpo, Hermione deparou com um par de olhos verdes e intensos, com um brilho divertido.
— Desculpe-me... quero dizer, excuse moi, mosier — corrigiu ela, achando que ele tinha cara de francês.
Era um homem elegante e bonito, a não ser pelas cicatri¬zes do lado esquerdo do rosto escanhoado. Os cabelos eram negros e ele tinha uma elegância de movi¬mentos difícil de encontrar em homens tão altos. A pele era mais escura do que a dela, porém mais clara do que muitos dos árabes e berberes que ela encontrara. Hermione chegava apenas até o queixo dele.
— II n'ya pas de quoi, mademolselle — disse ele, com voz profunda. — Não sofri dano algum.
Ela sorriu, apreciando a forma como os olhos a encaravam.
— Da próxima vez, vou olhar melhor por onde ando.
— É hóspede do hotel?
— Por alguns dias. Estou a caminho de um emprego novo no Quawi, mas queria primeiro tirar férias. É lindo por aqui.
— Um emprego novo no Quawi? — interessou-se ele.
— É. Vou trabalhar para o sheik — informou ela, em tom de confidência. — Relações públicas. Estou ansiosa para começar.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois os olhos inteligentes se estreitaram.
— Conhece bem esta parte do mundo?
— É a primeira vez que saio dos Estados Unidos... me sinto tão boba. Todos por aqui falam pelo menos quatro lín¬guas. Eu só falo a minha própria e um pouco de espanhol.
— Incrível — comentou ele, erguendo as sobrancelhas. — Uma americana modesta.
— A maior parte de nós é modesta — comentou ela, sor¬rindo em seguida. — Bem, alguns são rudes e gabolas, mas não se pode julgar um país inteiro por um punhado de pes¬soas que gritam mais alto. E nós, texanos, somos muito modestos, considerando que nosso Estado é melhor do que todos os outros. Ele riu.
— Você é do Texas?
— Sou, sim. Se quer saber, sou uma vaqueira de mão cheia — informou ela. — Se não acredita, posso derrubar e amar¬rar um novilho na hora que você quiser.
Ele riu outra vez, perante tanto entusiasmo. Não conse¬guia lembrar-se de quando conhecera alguém interessante como ela, a não ser uma única vez, muitos anos antes. Estu¬dou-a com cuidado.
— Se não me engano, o Quawi é muito menor do que qualquer um dos seus Estados.
— Pode ser, mas nos Estados Unidos é quase a mesma coisa em todos os lugares a que você vá — observou ela.
— Aqui, a música é diferente, a comida é diferente, as rou¬pas são diferentes, e existe tanta história em qualquer lu¬gar aonde a gente vá que eu poderia passar o resto da vida aprendendo.
— Você gosta de história?
— Adoro. Gostaria de ter ido à faculdade para estudar história, mas minha mãe teve câncer e eu não podia deixá-la sozinha por muito tempo. Só enquanto eu trabalhava, cla¬ro, mas não podia estudar também. Não havia tempo. Nem dinheiro. Ela morreu quatro meses atrás, e eu ainda sinto falta dela — disse Hermione, sorrindo em seguida. — Des¬culpe, não queria mencionar assuntos tristes.
— Gostei que tivesse falado — respondeu ele, com sin¬ceridade.
— Mademoiselle Grandder! — chamou o recepcionista. Levou vários segundos para que ela percebesse que fora confundida com Ginny. Não havia problema com isso, lembrou a si mesma. Desculpou-se, deixando o homem alto com a maleta e dirigindo-se para o balcão da recepção.
— Mustafá já saiu para levar um grupo de hóspedes para as Grutas de Hércules — disse ele, com ar de desculpas.
— Se ainda quiser ir, nosso carro está à sua disposição, e po¬demos pedir que algum outro guia a acompanhe.
— Não sei... — disse Hermione, hesitante.
Não tinha certeza se apreciaria o passeio sozinha.
— Desculpe — disse o homem alto aproximando-se. — Eu havia planejado ir até as grutas. Será que poderia parti¬lhar a companhia da senhorita?
Ela olhou para ele com certo alívio.
— Seria ótimo... quero dizer, se quiser mesmo ir.
— Quero, sim. Teria o maior prazer — respondeu ele, olhando para o recepcionista e falando com rapidez, numa linguagem que ela não compreendeu.
Conversaram por alguns instantes e o recepcionista riu. Hermione começava a perguntar-se se o fato de aceitar im¬pulsivamente poderia trazer algum problema. Afinal, não sabia nada sobre o estranho...
— O cavalheiro é bastante confiável, mademoiselle — as¬segurou o recepcionista quando a viu com expressão preo¬cupada. — Asseguro-lhe que não sofrerá coisa alguma na companhia dele. Posso chamar Bojo, outro dos nossos guias com o carro para a frente do hotel?
Hermione olhou para o companheiro, que assentiu.
— Então está bem. Mas a sua maleta...
O homem a entregou para o recepcionista com outro co¬mentário breve na mesma língua melodiosa e intrigante, de¬pois voltou-se para Hermione, com um sorriso:
— Vamos?


O Mercedes fornecido pelo hotel era dirigido por um ára¬be alto, de barba e bigode; depois de acomodá-los com to¬das as cerimônias, assumiu seu lugar ao volante e entrou na corrente de tráfego. Assim como o motorista do táxi na chegada de Ginny e Hermione a Tanger, mantinha a janela abaixada e falava com outros motoristas e pedestres que passavam por eles. O estranho disse a ela que instruíra Bojo para levá-los primeiro às Grutas de Hércules, que ela queria conhecer, depois, se tivessem tempo, poderiam ir até Asilah.
— Bojo nasceu em Tanger. Ele conhece metade da popu¬lação e é parente da outra metade — disse o homem alto, recostando-se no banco com os braços cruzados.
— É como se eu estivesse de volta a Jacobsville — disse Hermione, compreensiva. — As cidades pequenas são sim¬páticas. Acho que eu não seria feliz numa cidade grande, onde a gente não conhece quase ninguém.
— Ainda assim você saiu de uma cidade pequena para morar e trabalhar num país... bem exótico — disse ele, numa afirmação que soava como pergunta.
Hermione sorriu ao olhar para as ruas estreitas à frente deles, cheias de tamareiras e pedestres usando roupas de cores vivas.
— Quando minha mãe morreu, como não tenho paren¬tes, parecia ter chegado a um beco sem saída. Não tinha fu¬turo onde eu morava.
— Então não é casada?
— Eu? Não, nem nunca fui — respondeu ela, distraída. — Tive um namorado, quase ficamos noivos. Ele pensou que eu ia herdar muito dinheiro e terras quando minha mãe mor¬resse, mas acontece que a propriedade estava hipotecada por completo, e só tivemos dinheiro para pagar um funeral sim¬ples. Ele simplesmente desapareceu depois do enterro. Ouvi dizer que está namorando a filha de um banqueiro.
O rosto de seu companheiro endureceu por um instante. Ele a observava atentamente, porém Hermione não se dava conta.
— Certo...
— Ele foi bom para mim — afirmou ela, dando de om¬bros. — E pelo menos tive alguém comigo no final da doença de minha mãe. Antes, eu mal tinha tempo para namorar. Mamãe ficou doente por algum tempo, e só eu tomava con¬ta dela. Meu irmão ajudava tanto quanto podia, claro, mas ele trabalha para o governo e viaja a maior parte do tempo.
— E não havia ninguém mais que pudesse ter ajudado? Um amigo íntimo, talvez?
— Só minha amiga Ginny, mas ela morava em Houston. Mora em Houston. Eu morava na fazenda de minha família com mamãe. Só depois que ela morreu é que meu irmão conseguiu pagar a hipoteca e recuperar a posse das terras. Temos um capataz que mora lá e ganha por parcerias.
— Essa amiga... Ela viajou com você para cá? — quis sa¬ber ele.
— Sim, mas precisou voltar para casa inesperadamente — disse Hermione, começando a achar que estava fornecen¬do informações demais a um estranho.
— E sua amiga deixou você completamente sozinha e à mercê de desconhecidos? — provocou ele.
Ela o encarou com um sorriso malicioso.
— Vai me oferecer um doce e pedir que vá até sua casa com você?
— Se quer saber a verdade, detesto doces... e você me parece esperta demais para ser apanhada dessa forma.
— Isso já não sei. Sou sensível a chocolates. Poderia ficar muito cordata a alguém com o bolso cheio de bombons Godiva com recheio.
— Um fato útil para se manter em mente, mademoiselle... Grandder — respondeu ele com suavidade.
Ela o encarou, sem vontade de iniciar uma amizade com mentiras.
— Mademoiselle Granger — corrigiu ela. — Hermione Granger.
Ele segurou a mão que ela ofereceu e levou-a aos lábios. Ela sorriu.
— Mademoiselle Granger, enehanté — corrigiu ele, estrei¬tando os olhos em seguida. — Eu achei que o recepcionista a houvesse chamado de mademoiselle Grandder.
Ela sorriu.
— É Ginny Grandder, minha amiga e companheira de quar¬to. O irmão adotivo dela foi ferido num acidente e ela tomou um avião para lá hoje de manhã — informou Hermione, mordendo o lábio. — Provavelmente eu não devia estar falando sobre isso, mas o caso é que ela quer que eu faça algo que não acho muito ético e minha consciência está me matando.
— Por favor, continue — pediu ele, com um gesto da mão. — Continue. Muitas vezes ajuda conversar sobre os proble¬mas com um estranho imparcial. Somos estranhos, n'est ce pas?
— Somos. Acredito que não conheça ninguém no Quawi, certo?
Ele ergueu as sobrancelhas expressivamente.
— Bem, o caso é que Ginny conseguiu um trabalho, um emprego com o sheik de lá, e agora que não pode mais, pe¬diu para eu tomar o lugar dela sem dizer a ninguém quem eu era.
— Você desaprova?
— Acho que ela não estava raciocinando bem, ou então não teria proposto uma coisa dessas. Não gosto de mentir. Nem sou boa nisso. Além do mais, Não acho que possa pas¬sar por uma mulher do tipo executivo, e viúva. Não sou sofisticada e não sei planejar festas ou receber dignitários estrangeiros. Tudo o que sei é na área de advocacia. Traba¬lhava para uma firma de advogados, em Jacobsville.
Um meio sorriso desenhou-se no rosto do estranho.
— Impressionante.
— O que é impressionante?
— Deixe para lá. Quer dizer que acha que o trabalho está alem de sua capacidade?
— Com certeza. Pretendo terminar minhas férias aqui e voar para Amsterdã, depois ir para casa — declarou ela, em tom de quem toma uma decisão.
— Acredita em destino, Srta. Granger?
— Não sei,
— Eu, sim. Acho que devia ir ao Quawi.
— E mentir?
— Não. E dizer a verdade — aconselhou ele, cruzando as pernas num gesto elegante. — Conheço o sheik, ou melhor, sei como ele é. É um homem justo e só admira a honestida¬de. Use a passagem de sua amiga. Aceite o emprego.
— Ele não vai me dar o trabalho. Foi muito rigoroso com as qualificações de Ginny, e entre elas, por algum motivo, estava o fato de ter sido casada...
— Diga a verdade e aceite o emprego. Ele vai concordar. Acontece que eu sei que a necessidade dele de um assisten¬te é pessoal e imediata. O sheik não vai querer perder tem¬po tentando encontrar outra pessoa com as qualificações de madame Grandder.
— Mas eu não tenho essas qualificações.
— Conhecer pessoas? Você e eu somos estranhos, e no entanto estamos aqui partilhando uma excursão.
— Isso foi só porque eu quase derrubei você — lembrou ela. — Não posso fazer disso um hábito, só para conhecer pessoas.
— Pois eu acho que você será uma ótima assistente.
— Como eu disse antes, não sei falar outra língua que não espanhol.
— Pode aprender a falar árabe.
— O pior é que não sou muçulmana.
— Nem o sheik — argumentou ele, inclinando-se para frente. — O Quawi é uma nação incomum em sua mistura de culturas. Existem tanto judeus e cristãos quanto muçul¬manos, numa história colonial peculiar. E nos últimos dois anos, tornou-se um aliado tanto dos Estados Unidos quan¬to da Grã-Bretanha. Contratos de petróleo são tentações lucrativas para democracias poderosas. Quantos amigos o Quawi ganhou com suas novas riquezas...
— Você faz tudo isso parecer fácil demais — disse ela.
— É a verdade.
Ele examinou-lhe o rosto oval. Ela era atraente, mas não uma beleza estonteante. Entretanto, suas feições eram harmoniosas e os olhos muito expressivos. A boca era perfeita. Ele sorriu e lamentou-se pelo que jamais poderia experimen¬tar outra vez. Os cabelos o fascinavam, pelo tom de castanho com mechas dourados, obviamente compridos e definitivamente naturais. Ela o fazia lembrar... Brianne Martin.
Hermione também o examinava. Imaginava como ele ad¬quirira as cicatrizes no rosto. Havia outras nas costas da mão esquerda, do mesmo lado.
Ele percebeu a curiosidade dela e tocou levemente o rosto.
— Foi um acidente, quando eu era bem mais novo. Exis¬tem outras cicatrizes, escondidas.
— Desculpe, eu não quis ficar reparando — disse ela, sorrindo com simpatia. — Não são feias, sabia? Você fica parecendo um pirata.
— Mademoiselle?
— Está faltando um tapa-olhos e um cutelo, além de um papagaio, claro... e uma daquelas camisas brancas e bufantes, que deixam o peito de fora.
O prazer dele foi externado no brilho intenso dos olhos e na gargalhada espontânea que escapou de repente. Hermione teve a impressão de que ele ria muito raramente.
— Claro, e um navio de velas negras — completou ela.
— Um de meus ancestrais foi um berbere — disse ele. — Não exatamente um pirata, mas um revolucionário.
Ela fitou os olhos verdes e sentiu um vazio na boca do estômago. Reparou então que o fôlego parecia faltar-lhe. Nenhum homem a fizera sentir-se tão feminina.
— Eu sabia. Já cavalgou um camelo?
— Por que pergunta isso agora?
Em resposta Hermione apontou para uma pequena ma¬nada, à entrada de um hotel, em cujo estacionamento esta¬vam entrando.
— Eu gostaria mesmo de cavalgar um antes de voltar para casa.
— Não são usadas selas, sabia? — comentou ele, enquanto o motorista estacionava o carro e saía para abrir a porta.
— Nem estribos?
— Também não.
Ela olhou para os animais.
— São tão bonitos, os camelos... Parecem cavalos sobre pernas-de-pau.
— Blasfêmia! — bradou ele. — Comparar uma mera bes¬ta de carga com algo tão elegante como os cavalos árabes.
— Você pratica equitação? — indagou ela, com as sobran¬celhas arqueadas.
— Naturalmente — respondeu ele, observando os came¬los com desprezo. — Mas não de terno.
Um Harmonia, ainda por cima, pensou ele, sem falar.
Hermione tocou-lhe de leve a manga. Não costumava to¬car pessoas, mas sentia-se segura ao lado dele. Não era um estranho, ainda que devesse parecer assim.
— Por favor... eu nem quero ir muito longe. Só quero saber como é a sensação de cavalgar um camelo.
Foi como ligar diretamente os olhos castanhos às terminações nervosas dele. Os dedos não estavam tocando sua pele, ainda assim o calor passava através do tecido, e o fôlego se acelerou. Uma tensão pouco familiar instalou-se no corpo inteiro.
— Muito bem — concordou ele por fim, afastando-se do toque perigoso.
Hermione afastou a mão como se ele a tivesse queimado. Reparou que ele não gostava de ser tocado. Não se esque¬ceria disso. Sorriu enquanto se aproximavam do treinador dos camelos.
— Obrigada.
— Você provavelmente vai cair e quebrar o pescoço — resmungou ele.
O homem falou com o sujeito que alugava camelos no mesmo dialeto que ela não havia entendido, sorrindo e ges¬ticulando com as mãos como o outro. Ambos olharam para ela, sorrindo de uma orelha à outra.
— Venha — disse o homem alto a Hermione.

Acenava na direção de um bloco de madeira colocado ao lado de um dos camelos bem tratados. Havia um cobertor sobre uma das duas corcovas e uma pequena corda trança¬da para segurar.
— Não tenho muita certeza...
O homem alto a ergueu nos braços, sorrindo da surpresa dela, e colocou-a no dorso do camelo. Em seguida entregou a corda única de rédea nas mãos de Hermione.
— Enrole as pernas na corcova — instruiu ele. — E segu¬re bem. Eu disse ao nosso amigo aqui para andar com você devagar até o alto da colina e voltar. Sem galopar.
Ela apanhou sua pequena câmera da pochete ao redor da cintura e abaixou-se para entregar a ele.
— Será que você podia...
— Claro — respondeu ele, sorrindo.
Partiram, com os risos de Hermione saudando o estranho andar ondulado do camelo. Acenou aos motoristas sorriden¬tes que passavam por ela, enquanto o homem conduzia o ca¬melo pela pista ao lado da rua. Durante todo o passeio, o ho¬mem alto os observou e tirou fotografias. Não parecia muito um homem de ação, e ela não conseguia imaginá-lo monta¬do num camelo. Parecia mais um homem de negócios. Pro¬vavelmente detestava pêlos de camelo e areia, tanto quanto lama. Ela sonhara com um homem de ação correndo pelo deserto num garanhão branco. Seu companheiro, por mais charmoso que fosse, não seria páreo para uma história de Rodolfo Valentino, na época do cinema mudo. Era um pou¬co decepcionante nesse ponto. Mas precisava parar de viver fantasias, lembrou a si mesma. Concentrou-se em agarrar a pequena corda para neutralizar o balanço.
Quando voltaram, o marroquino fez com que o camelo ficasse de joelhos e apanhou a câmera que o homem alto estendia para que ele segurasse. Em seguida ele esticou as mãos e ergueu Hermione nos braços longos, fazendo uma pausa para voltar-se de frente para a câmera.

— Sorria — recomendou ele em voz baixa.
Os olhos de ambos se encontraram, próximos demais um do outro. O coração de Hermione disparou, os lábios se en¬treabriram e ela se concentrou em aproveitar aquele instan¬te. Talvez fosse o início de uma grande amizade.
— Gostou?
— Foi maravilhoso — comentou ela, animada.
Estava consciente do tecido macio do paletó dele e do escrutínio dos olhos verdes. Não conseguiu respirar en¬quanto ele a segurava nos braços.
Sentiu o hálito dele contra o rosto, e outra vez um arre¬pio diferente percorreu-lhe o corpo. Ele a abaixou de repente e afastou-se para pegar a câmera. Hermione parou de obser¬vá-lo, sem graça. Sentiu como se tivesse feito uma coisa muito errada. Nem tinha idéia do quê.
Ele voltou em pouco tempo, entregou-lhe a câmera e sor¬riu educadamente, como se nada tivesse acontecido.
— As grutas são por esse caminho. Vamos indo. Hermione foi à frente, deixando que ele a seguisse. Havia um quiosque de lembranças na entrada e ela hesitou, a aten¬ção captada por um pequeno objeto, um círculo de pedra, com um domo incrustado e o que parecia ser um fóssil no interior. Fascinada, ela o apanhou, achando que era sedoso ao toque.
— Sua primeira lembrança? Permita, por favor... — disse ele, pagando a jóia.
— Mas...
Ele ergueu uma das mãos para impedir que ela continuas¬se o protesto.
— Uma ninharia... — disse ele, conduzindo-a para a en¬trada. — Cuidado, vá devagar. Esta é uma caverna viva. Vai descobrir paredes de calcário, onde, por séculos, os homens vieram até aqui para moer grãos.
Hermione entrou, sentindo imediatamente uma umidade fria. Misturaram-se a outros turistas. Havia uma abertura na direção do mar que parecia muito com o mapa da África. As paredes possuíam esferas em baixo-relevo... os moinhos, pensou ela. Apertou sua lembrança nas mãos e apanhou a câmera outra vez, fotografando as paredes. Quando seu acom¬panhante não estava olhando, fotografou-o também. Apre¬ciava a companhia dele como nunca apreciava a de alguém em toda a sua vida. E nem ao menos sabia o seu nome.
Aproximou-se. Ele observava o movimento das ondas através da abertura da caverna, com as mãos nos bolsos e uma expressão sombria no rosto. Voltou-se quando perce¬beu a aproximação de Hermione.
— Não sei seu nome — murmurou ela.
— Pode me chamar... monsieur Souverain — disse ele, com voz profunda e um brilho divertido nos olhos.
— Tem um primeiro nome, ou isso é segredo?
— Harry.
— Harry — repetiu ela, sorrindo.
O brilho nos olhos dele tornou-se mais pronunciado.
— Vamos indo. Podemos conhecer Asilah, se você quiser...
— Eu gostaria muito — disse ela, hesitando em seguida. — Eu... não estou desviando você de algum compromisso de negócios importante, estou?
Ele riu.
— Não tenho nenhum compromisso importante hoje nem amanhã — declarou, rindo. — Talvez, como você, eu esteja de férias.
— Aposto que não faz isso muitas vezes.
Os dois subiram os degraus de pedra para retornar ao estacionamento.
— Por que diz isso?
— Porque você age como um homem de negócios vicia¬do em trabalho. Imagino que esteja na cidade para realizar algum projeto grandioso que envolva todos os tipos de pes¬soas importantes.
— Estava mesmo, mas o negócio não deu certo antes mesmo que eu saísse do avião. Agora estou trabalhando em outros com o qual espero obter mais sucesso.
Hermione não notou que ele a observava às ocultas en¬quanto falava; olhava ao redor, maravilhada.
— Eu não esperava nada disso quando saí do Texas — confidenciou ela. — É tão excitante ver como as pessoas são amigáveis e educadas... É quase como estar em casa, a não ser pela forma de vestir e pelo som do árabe e do berbere.
— Você não sabe nada sobre o Marrocos? — indagou ele, abrindo a porta do carro para ela.
— Tudo que os nossos repórteres na televisão falam é sobre assuntos políticos e escândalos, ou então a tragédia mais recente. Não nos informam coisa alguma sobre outros países, a menos que alguém muito importante seja assassi¬nado lá.
— É o que tenho notado.
— Foi por isso que Ginny e eu viemos até o Marrocos. Para ver como é. E agora que fomos apresentados decente¬mente, estou contente em conhecê-lo, sr. Souverain — dis¬se ela, estendendo a mão.
— Posso dizer o mesmo, Hermione — respondeu ele. Aceitou a mão, e levou a palma até a boca, encarando-a diretamente enquanto os lábios tocavam a pele de forma suave e sensual. Seu nome soava estranho, misterioso, exci¬tante. A sensação da boca masculina em sua pele a deixou inquieta, embora não de uma forma desagradável. Puxou os dedos com rapidez exagerada, rindo para que ele não per¬cebesse que se sentia vulnerável e exposta.
Harry não disse nada até estarem confortavelmente instalados no assento de couro e o veículo colocar-se em movimento. Os olhos, entretanto, ainda pareciam curiosos. Sorriu.
— Gostaria de ouvir alguma coisa sobre a história de Tanger?
— Adoraria...
— Os berberes foram os primeiros a chegar aqui... — começou ele.
Passaram por fábricas de rolhas e olivais ao longo da estrada que seguia pela costa até Asilah, e Hermione riu ao observar os camelos brincando na água rasa da praia.
— Eles adoram nadar e tomar sol — informou Harry.
— Mais ou menos como turistas num feriado.
— São muito bonitos, mas não são tão grandes como eu imaginava. Acho que no cinema é diferente.
— Assistiu ao O Vento e o Leão, com Sean Connery?
— Várias vezes, na verdade — disse ela.
— Pois o palácio dos Raissouli é em Asilah.
— Ele existiu de verdade?
— Foi um revolucionário que tentou destituir o monar¬ca. Mas falhou.
— Meu Deus, pensei que tudo não passasse de ficção.
— Bem, em relação à história, a maior parte era; mesmo assim gostei do filme. Em meu país, os filmes estrangeiros constituem boa parte da diversão e entretenimento.
O país dele. Com certeza, a França. Hermione sorriu.
— Nunca estive na França.
— É belíssima. E antiga. Como a maior parte da Europa, aliás — disse ele, deixando passar o engano. — A casbá de Tanger data da época da conquista romana, ou até antes.
— Adorei tudo aqui. Cada estrada e cada vilarejo, as lo¬jas e o povo que anda por essas ruas estreitas — comentou ela. — É quase um conto de fadas.
— Você gosta de lugares exóticos — afirmou ele, estrei¬tando os olhos.
— Eu nunca tinha saído do Texas antes. Nem mesmo até a fronteira do México. Nunca viajei para lugar nenhum. E entre todos os lugares, vir conhecer a África... Sinto que estou vivendo um sonho.
— Engraçado... é exatamente como estou me sentindo... — declarou ele.
Sorria enquanto seu olhar examinava a praia.

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Continua...

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