"Eu não quero que você vá... Não quero ficar sozinho de novo"
Laio sorriu, me abraçando e afagando meus cabelos, como sempre fazia.
"Eu sou o oceano filhote, e o oceano sempre vai estar ao seu lado - ele se afastou e sorriu - Eu tenho muito orgulho de você Harry, obrigado por ter sido o meu filho"
"Harry... Eu vou ficar mais forte, por mim e por você, e então, vou te encontrar de novo"
A puxei mais pra mim, beijando seus lábios com ternura
"Eu sei Lucy..."
"Você não pode ficar sozinho Harry. Sozinho, você vai ser derrotado"
"Uma os dois mundos. Encontre os filhotes dos dragões, encontre o filhote de Amaterasu"
"O filhote do Dragão Solar?"
"Sim, ele vai ser um aliado importante pra você"
"Pra onde devo ir?"
"Você ainda não pode voltar, ainda não esta pronto. Vá para o sudeste, você irá encontrar um velho amigo meu lá..."
"Quem?"
"O homem que atende pelo título de mago sagrado, Makarov, o terceiro mestre da Fairu tail..."
"Fairy tail... é um bom nome pra guild..."
Círculo 03 - Uma nova família
–Nee-san! Ande, aqui!
O garoto pequeno e magricela estava preso com correntes nos punhos e nos pés, andando pelo chão de pedra da ilha descalso, sem usar nada além de uma calça suja e em frangalhos. Atrás dele vinham mais alguns, todos no mesmo estado, e uma garota, com incríveis cabelos vermelhos.
–SHOU! NÃO FALE TÃO ALTO! ELES VÃO OUVIR VOCÊ! - Um dos garotos gritou ironicamente, sem parecer ter percebido isso. Ele era muito mais alto que o pequeno que tinha os chamado, embora tivesse a mesma faixa de idade que os outros, onze ou doze anos.
–O único gritalhão aqui é o Wally... - disse uma garotinha, com feições felinas que vinha atrás dele, enquanto Wally recebia olhares de reprovação de todos os outros. Suas pernas e braços também estavam presos por correntes e grilhões que, naqueles braços finos, pareciam grandes demais. Apesar disso, ela andava indiferente a eles, como se já estivesse acostumada.
–Desculpe Miriana - O idiota que tinha gritado disse coçando a cabeça, envergonhado. Depois ele se virou e disse, olhando pra menina que cabelos vermelhos:
–Ande logo Erza, ou seremos encontrados por aqueles caras!
Ela tremeu, e deu um passo a frente. Os olhso lacrimejavam e as correntes balançavam, deixando a mostra os hematomas que formavam no seu pulso. Ela usava uma camisa grande demais pra ela, que caía até o meio das coxas e lhe servia de vestido, estava tão surrada e suja como os outros, a pele branca da bochacha marcada com terra e lágrimas, mas nem isso escondia a beleza do seu rosto. Os olhos cor de chocolate eram calorosos, e os cabelos, mesmo imundos, brilhavam.
–Se eles nos pegarem... - ela disse, a voz tremendo de medo - Eu... Eu sei como tratam as crianças que tentam fugir...
Erza tremeu, lembrando sobre o que as outras crianças comentavam, até os mais velhos. A câmara. Fugitivos eram levados para a câmara, e torturados. Ela não queria, ela...
Seus pensamentos perderam o rumo quando sentiu alguém tocando o seu ombro. Ela se virou, e deu de cara com os olhos escuros de um garoto, a encarando tranquilamente. Os cabelos dele eram tão azuis como os dela eram vermelhos e uma tatuagem marcava o lado direito do seu rosto, passando por cima do seu olho, acentuando mais ainda o olhar dele.
–Tudo bem Erza... Não tenha medo
–Gerard - a garota murmurou, corando levemente, ainda presa nos olhos dele.
–Estamos quase lá, nossa liberdade, nossos futuros e sonhos, estão muito perto - os outros acompanhavam suas palavras sem sequer respirar - Vamos embora daqui.
A garota continuou olhando pra ele, impressionada, e aos poucos, um sorriso encantador alegrou suas feições.
–Hai! - todos concordaram.
O atendente da estação de trem estava certo. Apesar do caís estar abarrotado de barcos, nenhum deles parecia querer me levar até aquele lugar, até a "Torre do paraízo", ou como Llena tinha dito: "A coisa horrível feita de aço que cheira a magia negra". Aquele era um mundo interessante mesmo, a magia ali era explorada de um jeito tão diferente do meu mundo, tão mais inteligente, criativo e versátil. Em vez de apenas feitiços e poções, ali existiam rituais (nada como os Merlinianos, mas ainda sim eram rituais). Haviam objetos que encerravam magias, feitiços trancados em armas, magias que tomavam forma, codígos que destravavam mágias, construções que eram magias. A própria torre do paraízo, não era mais que um feitiço, apesar de ser um feitiço negro com um propósito mais negro ainda... Quem imagina isso?!
Depois de procurar por quase meia hora, encontrei um pescador. Ele me disse que sabia de alguém que, talvez, me deixaria na ilha. Era um velho pirava que amotinou o seu bando e tinha se instalado ali, ninguém se intrometia muito com ele, por ter fama de ser louco e perigoso, mas como nunca tinha incomodado ninguém, resolveram que era melhor não incomoda-lo. Agradesci o pescador, jogando um jewel pra ele, e segui o caminho que tinha me indicado, atravéz do mercado de peixe... Aquilo me trazia boas recordações.
–Então... os pirralhos acharam que poderiam fugir...?!
O mago estalou o chicote, e as crianças tremeram sob o olhar afiado dele. Muitos estavam chorando, alguns tremiam e outros estavam com os olhos fixos no chão, esperando a dor. Apenas um estava diferente, que encarava o mago diretamente, com raiva e desafio queimando nos olhos cantanhos.
–Devemos completamente o "Sistema R" o mais rapidamente possível, e os pivetes ainda pensam em fugir... - ele disse enfaticamente, com um tom de voz meio insano, parecia alheio a tudo que acontecia ao seu redor - A falta de trabalhadores pioraria ainda mais as coisas... Normalmente vocês seriam jogados na câmara de punição de prisioneiros, mas vou ser misericordioso dessa vez, não é óimo?!
Ele olhou pras crianças com um olhar sadico, lambendo os lábios de um jeito que fez Erza tremer e encarar o chão. Como não ouviu nenhuma resposta, ele estalou e chicote mais uma vez, nas costas de uma criança que se agachou e gritou alto, começando a chorar logo em seguida, arrancando um sorriso deformado do rosto dele. Todos os outros se encolheram, alguns tapando o ouvido com lágrimas nos olhos, exceto o garoto de cabelos azuis. O mago percebeu o olhar de raiva dele, e apenas alargou mais o sorriso, como se ele não passasse de um gatinho pequeno eriçando os pelos e miando grosso, pra parecer maior.
–Como atrasos não serão mais tolerados, vocês vão todos se safar do castigo dessa vez, não é ótimo?! - ele sorriu de um jeito demente, como se esperasse que as crianças realmente ficassem felizes com isso - Exceto, é claro, o mandante. Quem de vocês planejou essa pequena... travessura?
Shou sentiu um bolo se formar na garganta, as lágrimas rolar do rosto com mais intensidade, enquanto sua espinha parecia que ia congelar. Ele tinha planejado tudo, o dia, a hora, onde e como fugiriam. Ele tinha chamado as pessoas da sua cela, e reunido aquele pequeno grupo, tinha convencido todos que daria tudo certo, e agora... Eles tinham sido pegos. Ele tentou se levantar, dizer que tinha sido ele e aguentar qualquer castigo que fosse, ele realmente queria proteger seus companheiros, mas o medo travou sua língua, e ele não conseguia mexer sequer um único músculo do seu corpo.
–Fui eu. Eu planejei tudo e instiguei os outros a me acompanharem.
Todos levantaram os olhos, que até então estavam pregados no chão. Perto deles, caídos aos pés daqueles guardas, tremendo e chorando de medo, a imagem daquele garoto era impresionante. Ele estava de pé, perfeitamente firme enquanto assumia erros que não eram dele, sabendo exatamente o que aconteceria. Os olhos cinzentos como uma nuvem de tempestade estavam sérios, a sua mandíbula trabada. Era bobagem dizer que ele não estava com medo. Ele estava morrendo de medo, mas o impressionante era como a colocava de lado, dando o máximo de si para controla-la, em parte por seus companheiros, em parte por seu próprio orgulho. Não queria dar ao cárcere o gostinho de vê-lo tremer e abaixar os olhos para o seu olhar.
–Gerard... - a garotinha ruiva murmurou, ela também estava chorando, e olhava temerosa pra ele.
–Muito bem... - o cárcere com o chicote disse, lançando um olhar rápido para os outros. Seu sorriso se alrgou conforme notou a preocupação nos olhos de Erza, e ele puxou mais pra si - Mas acho mais fácil ter sido essa garota!
Gerard soltou uma exclamação, dando um passo pra frente como se fosse avançar no guarda. Esse apenas acertou um chute no seu estomâgo, o mandando pra trás, onde outros guardas o agarraram pelos braços. Erza se debatia conforme ele a pegou pela nuca e apertou, fazendo a pele do seu pescoço ficar esbranquiçada, e depois vermelha. Sho olhava tudo com os olhos tremendo, enquanto a maioria dos outros prisioneiros encaravam o chão. Enquanto o líder dos guardas a levava arrastada dali, as expressões dela estranhamente se suavisaram, dando lugar para um sorriso tranquilo.
–Erza! - Gerard gritou, tentando se libertar dos guardas;
–Não se preocupe, Gerard - ela disse, enquanto o outro a forçava a andar mais e mais pra frente - Como você disse, nós não precisamos ter medo...
–ERZA!!!
–kukukukuku... - riu em deboche o outro guarda, enquanto Gerard continuava gritando pela garota, e os outros continuavam olhando para o chão, com lágrimas nos olhos - Você vem comigo garoto, e o resto de vocês, sem refeições por três dias. Fiquem gratos com isso, é mil vezes melhor do que ir praquela câmara...
–Quer ir para a torre do paraízo rapaz?! - perguntou o velho pirata, com os olhos baixos, enquanto trançava uma corda - Você deve ser louco, ou não ter amor a vida mesmo... Aquele lugar é amaldiçoado, não me aproximo de lá por nada.
–Tenho certeza que vai abrir uma excessão pra mim - disse, o rosto coberto pelo capuz cinzento. Peguei um galeão, e atirei pra ele, que cresceu os olhos encima do ouro - Não é capitão?
Ele olhou bem pra mim, em seguida mordeu a moeda com força, pra depois voltar a examina-la. Dando-se por satisfeito, ele a guardou no bolso e fez um gesto irritado pra que eu subisse a bordo.
–Vou leva-lo pra lá - ele disse, mas depois estreitou o olhar - Mas não espere que o traga de volta, não ficaria nem um minuto a mais naquele lugar amaldiçoado, nem por todo o ouro da sua sacola.
–Não precisa esperar, só peço que ve leve o mais próximo da ilha que puder.
–Então suba a bordo guri.
O barco o velho pirata não era, como a maioria dos outros, uma canoa. Era um navio de pesca razoavelmente grande, co sala de comando e quarto, além de banheiro e cozinha. Era como uma pequena casa que flutuava. Ele deixou a corda de lado, prendendo o ponto onde parou de trança-la com uma presilha, pra que não desmanchasse, e seguiu a passos mancos e fiemes pra dentro da cabine. Era bem como qualquer um imaginaria, o timão, a carvoaria mais ao fundo da sala, que movia o motor a vapor do barco, o leme e a bússola; quadrante, sextante e uma mesa com um mapa e um compasso marcado pra calibrar as suas rotas. Havia algumas anotações no mapa, sobre onde ele tinha pescado com mais abundância naquela semana, nada realmente importante. O barco rangeu conforme o velho ligava o motor, que rangiu como um animal sendo acordado, e figou completamente o leme para a esquerda, tirando o navio de onde estava sendo atracado. Deixei-o sozinho com seus pensamentos, e voltei pra popa do barco, observando a ilha do horizonte tingida de vermelho pelo sol poente, era um espetáculo que poucos paravam pra admirar.
A tarde foi-se e veio a noite, e eu ainda estava parado no mesmo lugar, quando o capitão se inclinou ao meu lado, na popa. Ele estalou os ombros e acendeu um cachimbo, baixando um pouco o xapéu de forma que lhe caísse sobre os olhos:
–É lindo não é? - ele me olhou de canto, pra baixo, por que era bem mais alto que eu - Me tornei pirata só pra poder passar os dias e as noites observando isso.
–É verdade - disse, meus pensamentos estavam longe, no tempo que eu via aquele mundão de cima, das costas de Laio - Por que amotinou seu capitão?
Ele não pareceu a vontade pra responder.
–Eu já fiz muitas coisas ruins garoto, já fui um homem muito ruim - ele pareceu um pouco envergonhado - Chegou um momento que não pude viver comigo mesmo, sendo quem era, e então amotinei.
–Matou seu capitão?
Ele me olhou levemente surpreso.
–"Aqueles que ficam pra trás, são deixados pra trás" - murmurei.
Ele me olhou em choque por algum momento, pela primeira vez me avaliando como mais do que uma criança. Acabou que ele deu um trago profundo no cachimbo, e voltou a encarar o horizonte.
–Estranho você saber disso... É filho de um pirata?
–Sou filho de um... homem do mar - ri comigo mesmo - Ele me contou sobre isso.
–Uma criança da sua idade não deveria saber sobre isso, se tivesse um filho não contaria pra ele... - ele pareceu refletir profundamente sobre alguma coisa - Será que eu tenho um filho...?
Ri baixinho e ele riu junto comigo.
–Apesar disso, essa é uma regra curiosa, tem duplo sentido - ele disse como se me explicasse, e não o interrompi, apenas ouvi com atenção - Aqueles que ficam pra trás, são tanto homens perdidos quanto amotinados, já o "deixados pra trás", bem, quer dizer que ou nos matam, ou nos abandonam...
–"Entre ladrões não há heróis" - tornei a recitar, e o capitão riu mais abertamente.
–Exatamente guri, mas o que você esta fazendo sozinho, e ainda mais indo pra um lugar como aquele? Você...
Ele se afastou um passo, como se esperasse que eu pulasse encima dele e tentasse morde-lo.
–Não sou um mago negro - eu disse - Estou apenas numa missão...
–Não é um mago negro... - ele repetiu - Mas ainda sim é um mago. Com sua idade, você deve ser dos bons, pra encarar um trabalho como esse sem uma equipe. Já vieram alguns magos aqui uma vez, cinco pessoas, e eu também os levei até a ilha. Nunca mais os vi.
–O senhor sabia a que guild eles pertenciam?
–Não perguntei - ele sorriu - E também não quero saber a sua. Sabe, na minha profissão, quanto menos se sabe melhor...
Não respondi a isso, e ele tampouco pareceu entusiasmado em continuar a conversar, então apenas continuei observando o horizonte, enquanto ele apreciava o bom gosto do tabaco. Vários minutos depois, ele bateu o cachimbo na lateral do naviu, jogando as cinzas no mar, e tirou uma bússola pequena do bolso, consultando em seguida o relógio de pulso:
–Já estamos quase lá, mais alguns minutos, e você deve ser capaz de poder ver a ilha - ele apontou mais ou menos onde eu devia olhar - E então será uma hora até chegarmos, se não houver nenhum contratempo.
–Tenho certeza que não haverá - murmurei, prestando atenção na ilha, que eu já podia ver a uns bons dez minutos atrás.
O capitão voltou pra cabine imediatamente depois da minha resposta, conferindo a rota e virando leme duas voltas pra esquerda, antes de prensar bastante erva no cachimbo, acender, e dar uma gulosa tragada. Fiquei obserando a ilha, que daquela distância não era mais que um risco negro que manchava o horizonte, uma falha, uma imperfeição. Como tal, deveria ser apagada.
A hora que o capitão estipuou se passou inteira, e ainda navegavamos de encontro a ela, quando ele desligou o motor e voltou ao convés. Eu estava prestando atenção na torre, que hora ou outra era iluminada por um trovão, de forma que só notei que ele falava comigo quando gritou:
–Preste atenção garoto!
–Desculpe...
–Como eu dizia, aqui é o mais longe que eu vou - ele se benzeu - Não quero nem pensar em me aproximar desse lugar, e se você tivesse o mínimo de juízo, voltaria pra cidade agora comigo.
–Sinto muito, tem uma coisa que eu preciso fazer aqui.
Ele deu de ombros.
–Não vou perguntar o que seria, só não podia ficar em paz com minha conciência deixando uma criança tão jovem sem nenhuma opção - ele me olhou profundamente, e se virou, olhando pro mar às nossas costas - Que o Dragão do mar te protega garoto...
–Não se preocupe, os pais sempre protegem seus filhos.
Não esperei pra ouvir sua reação, apenas pulei o casco do navio, enquanto ele vinha correndo atrás de mim. Um trovão ecoou, iluminando a noite e a torre do paraízo, e a última coisa que eu ouvi daquele velho foi uma eclamação surpresa e em seguida uma risada: "Sem dúvida, o filho de um homem do mar" - ele murmurou, enquanto eu seguia em direção a torre do paraízo, correndo sobre a superfície do oceano.
O líder dos magos cegros estalou o chicote nas costas daquele garoto mais uma vez, deixando mais um longo corte na sua coleção. Amarrado a uma armação de madeira, estava a mesma criança de cabelos azulados. Ele estava coberto de cortes e hematomas, desde o rosto até a canela, mas mantinha a boca bem fechada e a expressão séria.
–Esse garoto não da um pio - um dos magos disse, secando o suór da testa - E já estamos aqui a um bom tempo.
–É verdade - concluiu o outro, com um sorriso insano - Não é como aquela outra, que chorou e gritou o tempo todo, ainda mais quando nós arrancamos o olho dela...
–Verdade! - o segudo mago disse, estalando os chicotes nas costas de Gerard que estava com a expressão travada numa careta de raiva - Aquela foi a melhor!
Depois disso ele segurou o queixo do garoto na mão e apertou, forçando-o a olhar pra ele. Os olhos de Gerard tremiam de ódio por ouvir o que fizeram com Erza, e isso pareceu divertir imensamente o cárcere que o chicoteava:
–Vocês pirralhos imundos não entendem a tarefa sagrada que estão desempenhando?! Quando esta torre estiver terminada, todos nós poderemos ir ao paraízo! -ele jogou os braços para o alto, louvando algum Deus tão insano quanto ele. O rosto do garoto voltou a cair em direção ao chão - Assim nós poderemos reviver o nosso Deus, o último mago negro...
–Cale-se, seu porco... - disse o garoto baixinho, mas sua voz saiu firme, fazendo os guardas lançarem olhares raivosos pra ele.
–O que disse? - ele gritou, estalando o chicote, que abriu um talho no rosto de Gerard - É assim que você se dirige a um servo de Deus?
–Ah, deixa pra lá - o outro mago disse - Ele é apenas um garoto idiota, além disso, precisamos nos juntar a supreensão da baderna dessa tarde. Parece que os prisioneiros armaram uma pequena revolução, e aqueles tolos do conselho também estão aqui...
O Mago negro que o estava torturando deu um sorriso de escárnio, então desferiu uma última chibatada, que abriu um corte na testa do garoto, fazendo um filete de sangue grosso escorrer por cima do seu olho esquerdo.
–Você vai ficar aqui, sem comer ou beber, até aprender a ter respeito por Deus - o homem gritou, largando o chicote numa mesa e dando as costas ao garoto - Até se ajoelhar e implorar de joelhos, você não sairá daqui!
O sistema R, ou torre do paraízo, conseguia ser tão feia por dentro como era por fora. Se fosse comparar, seria quase como voltar para Azkaban, o chão frio de pedras coberto po areia em algumas partes, as paredes úmidas, com archotes e grilhões pendurados a cada poucos metros. Diferente da prisão, que exalava um frio forte e assustador por causa dos dementadores, aquele lugar emanava apenas um cheiro pútrido de uma magia nojenta, com um propósito mais nojento ainda. Por onde eu corria, alguns magos apareciam, e gritavam algo como: "Eu ser punido por desafiar Deus", ou algo assim, eles nunca terminavam de falar por que acabavam engolindo os próprios dentes com um soco na boca.
"Deus... hum..."
Os magos saíram da cela, deixando Gerard ali dentro. Sozinho, no escuro. Aquilo não o assustava, ele sempre estava no escuro.
"Não existe essa coisa de Deus... Um Deus que não pode nem ao menos salvar uma criança com problemas não vale nada mesmo..."
Ele arquejou os ombros, doloridos. Não ligava pra aquilo, estava acostumado, mas só pensar em Erza sendo torturada, no rosto lindo dela sem um sorriso...
"Eu os odeio..."
Alguma coisa se remexeu no interior daquele rapaz, a visão da cela ficou emçada.
"Odeio Deus... Odeio esse mundo..."
O ódio dos humanos me da força...
Gerard olhou ao redor, constatando assustado que não estava mais na câmara de tortura, estava num lugar que parecia ser deserto, e aquela voz vinha de todo canto e de nenhum lugar ao mesmo tempo. Em meio ao vazio, não tinha como delimitar espaço ou direção, ele não sabia pra onde olhar, ou se estava olhando pra uma direção.
Aqueles tolos, eles são tão agradáveis... Eles nem ao menos percebem que eu estou bem aqui...
"Quem esta aí..." - o garoto gritou, até perceber que sua boca estava fechada, e nenhum som tinha saído dela. O grito tinha vindo do interior da sua mente, e ecoado ali dentro. Mesmo assim, a voz etérea pareceu ouvir, e se divertir.
Eles querem me reviver pra me dar um corpo físico...
"QUEM ESTA AÍ?"
...Podem acreditar no que quizer, mas é inútil... Sem ódio verdadeiro, sem raiva queimando o interior da sua alma, eles não podem sequer sentir a minha presença...
"MOSTRE-SE!"
...Você é sotudo menino. Se encontrando em pessoa com o Deus que eles tanto adoram...
"QUEM DIABOS É VOCÊ?" - Gerard gritou, o mais alto que pode, e a voz que conversava com ele explodiu numa risada.
MEU NOME É ZEREF! ÓDIO É O MEU PRÓPRIO SER!
Uma presença antiga e ancestral o envolveu, e Gerard se sentiu mergulhar na escuridão.
Seguir até os andares superiores, onde toda a baderna estava acontecendo, não era difícil. Os magos negros fracos que corriam pra lá serviam como uma trilha de migalhas de pão pra mim, marcando caminho, ao mesmo tempo que se colocavam no caminho no meu abate. Pensei em mata-los, mas não tinha necessidade, não frente ao que eu faria...
"Maldito! Quem é..."
Pulei pra frente e acertei uma joelhada no estomâgo dele, que se curvou e cuspiu sangue no chão. Não parei pra observa-lo, e quanto ouvi o baque do seu corpo tombando inconciente no chão, eu já estava longe. Era todos magos medíocres, de nível E, ou D, no máximo pelas suas assinaturas mágicas, apenas tolos covardes que se escondiam atrás de uma seita pra se sentirem melhor do que os outros. Contra caras como aqueles, não valia nem a pena mostrar a minha magia, um soco, e já era o suficiente. Meu único lamento era manchar o lindo oceano com o sangue podre deles.
Eu já tinha derrotado uns trinta e poucos magos e guardas, e percorrido uns sete andares daqueke lugar, quando uma explosão de magia chamou a minha atenção. Fiquei estático, e depois corria ainda mais do que antes, a magia não era como a dos mago negro, ela era jovem, forte e saudável, e tinha traços infantis, misturado com dor e um pouco de raiva, mas principalmente dor. Fui em direção a ela, que estava no meio de toda a rebelião.
Depois de alguns minutos, cheguei até o andar superior, e correndo por entre o que parecia ser uma murada de vigia, achei o pátio de andar inferior. Os prisioneiros estavam atacando guardas com paus, pedras e as próprias correntes dos grilhões, alguns usavam espadas e lanças que tinham conseguido com os guardas mortos. mesmo as crianças estavam lutando, se esquivando dos ataques e batendo nas pernas dos soldados, que eram altos e fortes. Havia alguns magos vestidos de branco, com o símbolo do conselho ERA nas costas. Eles davam conta dos poucos magos que chegavam, mas não pareciam se preocupar com os prisioneiros, que caíam um após o outro. A batalha estava razoavelmente equilibrada, e a maioria das pessoas no chão estavam incapacitadas, poucos estavam mortos. A causa desses poucos mortos, no entanto, parecia ser justamente a criança que tinha despertado sua magia, uma garotinha. Com uma espada curta que ela tirara de um guarda desacordado, e um escudo improvisado, ela parecia fazer mais estragos na linha inimiga que qualquer um dos outros.
"Ela é bonita... não acha?"
Arian abriu os olhos, olhando o campo de batalha atravéz dos meus, e rindo baixinho atravéz da minha garganta.
"Ela tem olhos firmes, lutando dessa forma, com essa idade..."
"...não pode ser a primeira vez. Não importa..."
"...o quanto uma pessoa se identifique com uma arma..."
"...essa naturalidade de movimento só vem atravéz de muito treino."
Nos olhamos e rimos um para o outro. Completar as falas um do outro, daquele jeito meio idiota, era algo que sempre faziamos, e só notavamos depois de ter feito. Não era realmente algo que eu tivesse controle, nós pensavamos juntos, por isso era natural falarmos juntos.
Por fim ele voltou a encara-la, eu quase podia ver sua expressão seria e divertida a seguind com o olhar.
"Ela é alguém interessante, com certeza..."
–Temos que chegar ao setor oito! - ouvi ela gritando, de cima da murada que estava, onde ninguém parecia ter me notado - Todos dêem o seu melhor!
–Mas isso é loucura! - gritou um outro prisioneiro, um adulto, era estranho vê-lo respondendo a uma criança, mas era natural naquela situação - Tem muitos guardas vindo dessa direção!
–Mas... - a expressão dela amoleceu, antes dela evitar o golpe de um guarda e corta-lo na canela, fazendo ele cair de joelhos, enquanto ela perfurava seu pescoço com a espada. Incríve... - Temos que salvar o Gerard! De qualquer jeito!
Um dos garotos ali tremeu da cabeça aos pés por um momento, e eu só reparei por acaso, por que estava passando os olhos por ele. O estranho foi que não me pareceu medo, os olhos dele estavam firmes demais pra ser... Era algo diferente...
–Ei! Simon! - disse um garoto, de cabelos preto e sorriso de encrenqueiro, segurando o ombro do tal de Simon - Você esta com medo?
Ele deu um tapa na mão do encrenqueiro, que assustado com a reação murmurou algo como: "Foi brincadeira", a que o outro não deu atenção. Ele caminhou a passos firmes e decididos na direção da ruiva, embora indubitavelmente tremesse um pouco. Estreitei os olhos, tentando imaginar o que ele pretendia fazer.
–Erza! - ele chamou a garota, que no momento tinha acabado de matar um outro guarda de um jeito que eu categorizava como "Artistico", ela era realmente uma grande espadachim - Você sente algo pelo Gerard?
A ruiva pareceu desconcertada, e abaixou o escudo de madeira, gaguejando confusa. Amaldiçoei aquele idiota por distrai-la numa hora como aquelas, por que logo os magos e guardas restantes chegariam ali.
–O... O que... Assim de repente, essa realmente não é a hora - ela murmurou corada até a raíz dos cabelos, evitando olhar diretamente pra ele. Senti uma emanação de magia se aproximando... Eles estavam quase ali.
–A verdade Erza... é que eu... eu amo...
Um feitiço o atingiu em cheio bem no rosto, o mandando pra longe dali. Erza caiu de lado com o choque, largando a espada, e olhou pra trás, gritando o nome do garoto. Várias outras crianças, e até mesmo os adultos que estavam lutando deram um passo pra trás, olhando assustado os magos negros que estavam tomando o campo. Eram poucos, mas eram claramente mais fortes que os anteriores, e usavam um capuz negro e pontudo, que só tinha dois buracos, por onde eles enchergavam. Os jatos negros que eles mandavam partiam os escudos de madeira, e mandavam as pessoas tombando pra trás. Os magos do conselho não conseguiam fazer pontaria pra atacar, por que a maioria dos prisioneiros estava correndo assustada dali, gritando. Me preparei pra pular dali, quando Erza novamente chamou minha atenção, ela tinha ficado, e mais que isso, estava tentando reunir os outros junto dela.
–´Não desistam pessoal! - Erza gritou em meio a massa de pessoas que fugiam, entre elas, até mesmo alguns magos do conselho - Se desistirmos agora, tudo terá sido em vão...
Um homem trombou com ela, e a derrubou no chão, sem que sequer notasse ou parasse de correr. Quando ela se levantou, tinha um corte profundo na testa, que sangrava e manchava o tapa-olho que ela estava usando. Mas pessoas passaram correndo, impedindo que ela ficasse de pé ou se defendesse corretamente, seus próprios companheiros... Trinquei o maxilár, acho que era de agir, enfim.
Erza tentou se levantar, mas uma outra pessoa trombou contra ela, acertando o joelho na sua cabeça. Ela caiu, tonta, enquanto homem tropeçou e rolou pelo campo de terra batida, se levantando e voltando a correr logo em seguida. Ela não se ergueu de imediato, sua cabeça girou, e as coisas à sua volta ficaram indistintas. Ela estava pra gritar mais alguma coisa, quando sentiu alguma coisa sufoca-la, aquele mesmo sentimento de mais cedo, aquele mesmo poder bruto que lhe pulsava do beito, e percorria seus músculos... Como se uma parte dela se levantasse, e rugisse em ameaça...
Erza estava quase caindo de cansaço, já havia matado muitos guardas, e o cheiro de sangue a deixava tonta. Nunca tinha matado ninguém, agora já tinha mato muitos pessoas, nem tinha completado treze anos ainda... jovem demais pra matar alguém...
O pior era que não era apenas magos e soldados. Magos haviam começado a aparecer, e eles estavam tendo que recuar. Isso a assustava por que estava a levando cada vez mais longe de Gerard. Ela tinha que salva-lo, não importa como. Vários dos magos que a tinham ajudado estavam caídos, os poucos prisioneiros que sabiam alguma magia, estavam esgotados. Apenas uns poucos estavam de pé, tentando segurar a orda furiosa de magos e ataques, dando uma chance pras crianças fugirem. A maioria delas já tinha largado as armas e voltado pras suas armas, se escondendo e chorando no canto, como ratos acuados no escuro.
Mas ela não podia, por mais que estivesse com medo, machucada e cansada, ela tinha que salvar Gerard. Ele a tinha salvo, e ela devia isso a ele. Ele tinha lhe mostrado que ela podia se levantar, e lutar, mesmo estando com medo, e era exatamente isso que ela estava fazendo. Se o deixasse morrer, seria como se nada disse tivesse valor, ela voltaria a ficar imóvel de medo, voltaria a não conseguir se mover e não conseguir lutar, voltaria a ser um pequeno camundongo acuado por um gato. Um dos magos estava bem a sua frente, era sua chance. Ela travou os pés no chão, e correu até ele, com a espada em riste mirando o seu coração. Já tinha treinado com espadas antes, sabia como balancear uma arma, como poderia ser confotável uma empunhadura de couro, e como fazer uma lâmina ficar tão bonita que desse até pena de mancha-la de sangue. Seu pai era ferreiro, e tinha lhe ensinado tudo. Tinha lhe ensinado a segurar o peso de um martelo pesado, pra depois poder segurar com leveza uma espada. Tinha lhe ensinado a bater com força no metal incandecente, pra só depois cortar o inimigo com suavidade, e tinha lhe ensinado a aguentar o calor de uma fornalha, pra só depois estar preparada ao calor de uma batalha. Aqueles ensinamentos estavam gravados a fogo na sua mente, e ela nunca se permitiu esquece-los. Já estava perto, perigosamente perto, o mago percebeu sua aproximação, e apontou seu cajado pra ela. Era o fim, ela o viu brilhando, e um jato negro disparar na sua direção, ela estaria morta antes que conseguisse arquitetar esse pensamento.
Então fechou os olhos, esperando a dor, mas ela nunca veio.
Pouco depois, abriu os olhos, e viu o velho de joelhos a sua frente, com os braços estendidos e o peito chamuscado, sangrando de várias partes do corpo. Uma onda de medo a percorreu conforme ela o reconheceu, de forma que nem notou o mago negro ser atingido por um feitiço dos magos de ERA.
–Rob-oji-chan!
O velho sorriu ao ouvir a voz da menina.
–Mesmo um velhote como eu pode ser de alguma utilidade... Fico feliz com isso...
As lágrimas escorreram do único olho a mostra de Erza, deixando um rastro entre a sujeira e o sangue seco do seu rosto encardido. Seus ombros tremeram e ela não conseguiu falar, por que uma onda de dor e medo travou sua garganta como se ela estivesse engasgada com o próprio choro.
–Mesmo que eu já tenha perdido a minha magia a muito tempo - o velho Rob continuou, apesar do corpo todo machucado, ele sorria de uma maneira que ela nunca tinha visto. Era, de certa forma, o sorriso gentil de sempre, mas tinha um quê de desafio nele, arrogância, como se desafiasse a todos a fazerem o seu pior. Era o sorriso de alguém orgulhoso, que o fez parecer muito mais do que só um velhinho, o fez parecer com um mago - Você, Erza-chan, ainda tem muitas possibilidades pra você... Esta tudo no seu coração.
Erza se lembrou daquele dia, quando conversaram. O velho Rob estava falando de magia pra ela, e tinha dito exatamente aquilo, que estava tudo no seu coração. Era preciso apenas acreditar.
"Orações, vidências, fé religiosa, pode pensar em tudo isso como um tipo de magia - ele havia dito - Milagres só podem ser entendidos por aqueles que realmente crêem. Só aqueles que acreditam que essa magia existe, só os que acreditam em si mesmos e em seu próprio poder, só esses podem ser chamados de "magos"...
"Magia... parece maravilhoso!" - Erza havia dito, abrindo um sorriso radiante - "Eu vou ser uma maga um dia! E vou voar pelo céu com uma vassoura. Quando eu fizer isso...
–...Eu queria levar o senhor pra você, oji-chan - Erza murmurou, as lágrimas escorrendo dos olhos dela para o peito daquele velho, pingando encima de um símbolo desenhado sobre o peito dele. O símbolo de uma fada. Os cabelos dela estavam mais vivos do que antes, caindo diante do seu rosto sujo, a própria poeira parecia parecia se afastar, como se uma brisa a rodeasse.
O velho sorriu satisfeito, deixando finalmente seu corpo cansado descansar. Ele sentiu o abalo no vento, sentiu toda a alma daquela garota, que ele via como sua neta, se agitar, e abraçar aqueles sentimentos dentro dela. Quando essa força toda explodiu, um arrepio passou pela coluna o antigo mago.
"Liberdade vem do coração, você já estava livre desde aquele sorriso. Nunca pensei que veria um sorriso tão puro como aquele num lugar como esse..." - o velho pensou, não tinha mais força pra se manter de pé, e a conciência estava se esvaindo conforme o poder bruto pulsava do corpo daquela garota, era uma magia poderosa, por que os sentimentos que a permeavam eram poderosos também. Apesar daquilo, não parecia opressiva, era como o sorriso dela, uma energia radiante que iluminou aquele lugar esquecido por Deus...
Erza sentiu sua magia rugindo dentro dela, mas era diferente de antes, ela não estava rugindo em desafio. Ela não estava querendo se libertar do seu corpo e correr entre a torre, lutando cotra inimigos. Quando a sua magia pulsou dentro dela, pareceu muito com um... comprimento. Mais que isso, era quase como se ela se curvasse...
Foi tendo esse pensamento incoerente que ela finalmente sentiu, a onda monstruosa de magia que praticamente jorrou daquele lugar, e então, vendo o que estava vendo, sentindo o que estava sentindo, aqueles pensamentos estranhos fizeram todo o sentido.
Era como se ela fosse uma simples loba, entre uma matilha, curvando a cabeça à passagem do Alfa.
O Alfa, no caso, era alguém que parecia ter saído do nada. Ela não olhou em volta pra procurar a reação dos outros magos e prisioneiros que ainda estavam ali, mas se tivesse feito teria visto assombro absoluto em suas feições. Seus olhos estavam pregados naquela pessoa, que parecia caminhar em meio aos magos inimigos. Por onde ele passava, os magos negros simplesmente iam caindo, um ao um, um após o outro, como se não fossem nada a mais que lixo, e ele nem se dignasse a olhar pra eles. Durante o tempo todo, o olhar dele estava fixo em algo além dela, orbes verdes que brilhavam como esmeraldas era a única coisa que ela pode ver por baixo do grande capuz que lhe escondia o rosto, além disso, ela pode notar os traços do seu queixo e da sua boca, e engoliu em seco quando ele arqueou os lábios, num rosnado.
O mago cinzento, que tinha aparecido do nada, simplesmente parou, enquanto todos os magos negros lançavam maldições na sua direção, maldições que ele parecia se esquivar sem ter sequer que se mexer. Erza sentiu o poder dele aumentar, praticamente triplicar, e então sumir de uma vez, conforme ele se abaixava e batia com as mãos no chão, ao mesmo tempo.
Um eco profundo passou por aquele andar da torre, acompanhado logo depois por um segundo de silêncio. Os magos ficaram em alerta, mas nada aconteceu, até que a ruiva, que estava concentrada na sua expressão, notou o canto do seu lábio se virar num sorriso ferino.
E então, justamente quando os magos negros e guardas iam voltar a reagir, um tremor sacudiu a torre, enquanto o próprio chão parecia se remodelar, tremeluzir a agitar como se fosse líquido. Ele circulou em volta do garoto, formando uma espécie de redemoinho. Os magos negros gritaram, enquanto iam afundando no chão de pedra, eles tentaram disparar feitiços, mas nenhum teve resultado naquela situação. Alguns prisioneiros, vendo o chão daquela forma, correu pra dentro da torre, descendo para os andares superiores, ou subindo para os próximos, enquanto apenas uma meia dúzia, fora ela e os magos do conselho, ainda estavam ali. Eles observaram como os magos negros afundaram, até que a cabeça dele estivesse a ponto de submergir, e então o mago Alfa, como Erza acabou pensando nele, se levantou, e o chão voltou a ficar sólido, deixando a cabeça dos magos negros gritando ofensas e ameaças em nome de seu Deus.
A garota não notou exatamente quando, mas de repente, ele estava na sua frente, perto dela, muito, muito perto. Os olhos verdes cruzaram com os seus, e ela não conseguiu desviar, ou não quiz, ela nunca soube dizer exatamente depois. Sua magia se curvou novamente, estremecendo levemente em contato com aquele poder insano que emanava dele, que estava, lentamente, voltando a dormir. O Alfa se abaixou, e a levantou no colo, da forma como ela sabia que os maridos levantavam suas esposas, e isso a fez corar. Ela notou que ele sorriu levemente por baixo do capuz.
–Não se preocupe, eu vim resgatar vocês...
A voz dele eram arranhada, como um rosnar, mas também era profunda, como um eco. Era solene, e mesmo soando baixa, parecia que todos o tinham ouvido.
–Quem é você? - um mago do conselho disse, ele usava óculos, e parecia pronto pra ataca-lo caso fosse perigoso.
O cinzento o olhou profundamente, como se avaliasse se deveria dizer quem era, ou simplesmente sair correndo dali. O que Erza nunca ficou sabendo é que ele realmente estava considerando aquilo.
–Eu vim ajudar, peguem os feridos e os tragam até a praia, arrumem o barco que estiver em melhor estado, e o deixem pronto pra zartar. Coordene os prisioneiros que se sentirem dispotos a ajudar a pegar o que for útil desse lugar, e a isso me refiro alimentos, livros ou itens mágicos que virão a ser analisados pelso cavalheiros do conselho...
Ele disse tudo de uma vez só, olhando firmemente para todos os magos, mas tinha um leve desdém na sua vóz. O motivo se tornou claro um pouco depois, quando um dos magos riu, e deu um passo a frente.
–Quem você pensa que é, apenas uma criança - o mago do conselho que tinha falado inicialmente olhou repreensivo para o companheiro, mas esse não parece ter notado - Pra nos dar ordens? Você garoto...
–Eu... - o mago que a carregava no colo, que só agora ela tinha notado, não poderia ser muito mais velho que ela, disse, e sua voz imediatamente calou o mago branco do conselho - Sou Fenrir da Fairy tail, o "lobo-de-fogo-gelado" Faça o que eu disse, imediatamente.
A maioria dos magos brancos estava olhando pra ele surpreso, um em expectativa, e os outros com raiva, como o mago que tinha o inquirido. O da frente, no entanto, que tinha falado primeiro, apenas ajeitou os óculos no rosto:
–Vocês ouviram o que ele disse, se apressem...
–Mas... Capitão, ele...
–Ele é um mago rank S - ele disse - e também é o mago que salvou as vidas de todos os membros do conselho, e as nossas, se você não se lembra, na batalha contra Lullaby e o mago negro, Eligor. Mostre o devido respeito...
Ele apenas deu dois passos pra trás, curvando a cabeça e resmungando ofensas que tolamente considerava inaudíveis. Erza estava olhando pra ele como se fosse de um outro planeta, e ele, sua vez, olhava o mago branco de óculos com um novo interesse.
–Fenrir-sama - o líder tornou a dizer, fazendo um leve aceno de cabeça, que foi respondido igualmente pelo garoto - Tanto quanto eu tenho certeza que diz ser quem é, peço que me mostre sua identificação, apenas por via de norma...
–Eu entendo... - ele se voltou pra garota - Você pode tirar a minha roupa?
Ela corou feito um tomate.
–O... O que...?
–Tirar a minha roupa - o garoto disse, com um sorriso de canto, embora as faces dele também tenham ficado coradas - A marca da guild esta no meu braço direito...
Ela levou quase um minuto, mas entendeu o que ele disse. Soltando os braços, que estavam enlaçados no seu pescoço - embora ela não tivesse ideia de como eles foram parar lá - Erza levantou sua capa cinzenta, e notou que por baixo havia uma outra, muito branca. Embaixo desse segundo manto, ele usava apenas uma camiseta cavada feita de um tecido resistente, por isso seus braços estavam nús. Fenrir se voltou para os magos brancos, que acompanhavam a cena dos dois como se fosse uma novela, e deixou a marca da guild visível no seu braço, tatuada numa cor que ela não sabia distinguir se era verde ou azul.
–Muito bem - o líder dos magos brancos disse, se voltando para os seus próprios homens - Vocês sabem o que fazer, peguem os prisioneiros e os levem até a praia, em seguida cuidados dos mantimentos e os itens a serem levados daqui... Espere, Fenrir-sama?
Fenrir voltou a cabeça ao líder dos magos brancos.
–Não é melhor deixar as coisas aqui, um novo grupo da ERA pode voltar aqui depois, e...
–Pegue o que deve se salvo, ou destruído, agora - ele disse, e sua voz soou como se fosse um presságio - Não vai haver um depois.
O líder dos magos de ERA ajeitou os óculos no rosto novamente, olhando curioso praquele garoto, que já descia as escadas com a ruiva no colo, enquanto a maioria dos outros, ainda resmungando, se abaixava pra conferir quais dos prisioneiros estavam vivos.
Se vendo sozinha com ele, Erza corou novamente, enquanto ele descia as escadas com as feições tranquilas. O fato de não poder ver nada menos que os olhos e a parte inferior do seu rosto, ainda que meio jogada nas sombras, não ajudava a conter o arrepio que lhe passava na espinha.
–Como você está...? - ele perguntou por fim, Erza pensou no que deveria responder, escolheu por uma resposta simples, direta e com poucas palavras, se tinha uma coisa que seus instintos gritavam pra que ela não fizesse era irrita-lo.
–Eu estou bem...
Ele desceu mais alguns degraus, cruzou um andar todo andando lentamente, e só quando estava a beira da escada que levava ao quinto andar, se seu senso de direção estivesse correto, é que ele respondeu, com um sorriso de canto:
–Mentirosa...
Ela não soube o que responder.
–Você perdeu amigos, e despertou a sua magia hoje. Não tem como você estar bem...
Quando ele falou em "amigos", imediatamente Gerard, Shou, Miriana e os outros lhe vieram a cabeça. Ela se sacudiu e fenrir franziu uma sobrancelha pra ela.
–Eu tenho que ir buscar os meus amigos! Eles devem estar em apuros, eles...
–Não se preocupe, não há mais magos negros na torre, eles estão todos mortos ou presos...
–Você os matou?
–Sim - ele respondeu sem demonstrar nenhum sentimento.
–Eu também matei... muitos deles... Eu não queria ter que mata-los...
–As vezes temos que fazer coisas que não queremos pra proteger as pessoas ou as coisas que amamos - ele sorriu ao olhar pra ela - Se você não matar seus inimigos, não pode proteger seus amigos.
Ela pensou nas suas palavra, faziam um certo sentido, mas ainda sim, não tornava mais fácil aceitar o que ela tinha feito, nem a aplacar a ânsia que estava sentindo. Se não estivesse de estomâgo vazio, já teria vomitado tudo que estivesse nele.
–Sobre meus amigos...
–Os magos do conselho vão cuidar disso, entretando, eles só vão trazer os que ainda estiverem vivos. Não temos tempo pra cuidar dos mortos, temos que levar os feridos pra cidade os mais rápido possível.
Ela não ficou satisfeita com isso, mas tampouco ousou falar contra ele. Por fim, algo que ele tinha lhe voltou a mente.
–Eu despertei a minha magia?
–Sim.
O assunto curiosamente morreu ali, e ela tentou achar um outro tema que pudesse manter ele falando, por que ficar em silêncio, sendo carregada daquela forma, era estranhamente incomôdo. Estranhamente por que não era ser carregada que a incomodava, era não saber o que dizer e sentir que o estava entediando.
–Pra onde você esta me levando?
–Para o navio.
–Pra que?
Ele sorriu maldosamente pra ela.
–Pra consumarmos nossa união...
Ele corou e tentou escapar do colo dele, que apenas riu e a segurou mais firme.
–É brincadeira, eu só vou tratar dos seus machucados.
–Você vai... - ela olhou pros frangalhos queestava usando, e sentiu o rosto arder. Quando olhou pra ele, notou que ele tambem estava corado, apesar de só metade do seu rosto ser visível.
O último pensamento dela foi que aquilo ia ser muito vergonhoso, antes que eles chegasse a praia, e a visão do oceano arrancasse as palavras da sua garganta e lágrimas dos seus olhos.