Teddy obedeceu sem contestar, claro. Quem nunca fica interessado quando um amigo diz que vai contar alguma coisa? Ainda mais quando diz com tom sério. Sentou-se na cama e encarou. Guilherme tentou resistir o olhar, mas não conseguiu, acabou fitando o chão, sem graça. O silêncio reinou.
— Hm... – começou Teddy – o que queria me dizer...?
Guilherme levantou o rosto. Mostrava completa preocupação e terror. As pernas dele começaram a tremer e a mão seguiu o ritmo. Guilherme tentava conter tudo que estava acontecendo internamente, mas não conseguia. O pavor mandava e o tremor fazia o trabalho.
— Cara, fica calmo. Parece que tá tendo um ataque aí...
— É... é... – começou Guilherme – eu fico... honrado em saber que você é meu amigo e que você confia em mim... É que...
Guilherme já estava a beiras de cair no chão e começar a tremer. Provavelmente de medo. Continuou a tentar se conter, fechou os olhos e respirou fundo.
— Hm... – voltou Teddy – cara, tudo que eu disse é verdade. Não importa o que você me diga, ou o que você tenha feito e quer revelar, ou qualquer coisa assim. Eu vou tentar te entender, juro que vou. Mesmo que seja uma coisa que me deixe irritado com você, que você tenha feito só para me irritar, juro que, mesmo que fique bravo, vou acabar falando com você no final.
Se isso era completamente verdade ou não. Apenas Teddy saberia responder. Mas Guilherme acabou acreditando.
— Bem, não é mentira o que vou dizer. Mesmo que você não acredite, é verdade. É a mais pura e sincera verdade de toda a minha vida. E eu peço que não ria, por todo amor de Merlin, não ria. É... – Guilherme parou e olhou para Teddy, sustentou o olhar o máximo que pode, tentou com todas as forças do universo não voltar a tremer, reuniu toda energia que havia em seu corpo para não gaguejar e, com a união de todas essas parcelas, revelou.
“Eu sou gay.”
— Você o quê?
Mesmo que Guilherme tenha falado para não rir com toda a seriedade, Teddy riu loucamente, de forma que quase começou a rolar no chão.
— Você não é gay, cara. Não tenho nada contra gays, claro. Mas você não é gay! Simplesmente não é! – argumentou Teddy entre risos e respiros.
— É sério, cara. – Guilherme parecia completamente sem graça, como se soubesse que aquilo ia acontecer. – Não estou mais mentindo sobre isso, não teria porque mentir, também. Afinal, você disse que confia em mim e eu também confio em você, mas se você não acredita em mim...
— Cara, não é que não acredito em você, mas é que isso não é verdade. Não dá para ser verdade.
Teddy realmente não acreditava no que seu amigo acabara de contar, mesmo que ele estivesse com cara séria e sem expressão de riso no rosto.
— Não estou mentindo! – Teddy não parava de rir. Nem ligava para o que o garoto dizia. – Mas é claro que você não liga.
— Não dá para ligar para uma mentira dessas – respondeu Teddy – você não pode ser gay sendo que já pegou muitas meninas deliciosas!
— Sabia que não devia ter levado essa minha encenação muito pra frente como fiz... como sou idiota.
Com uma quantidade de ar sobrenatural, Teddy ainda ria. Não tinha parado uma vez se quer. Levava a mão no estômago como se esse doesse por excesso de riso.
— Então você não acredita, mesmo? – perguntou Guilherme, como se desafiasse o amigo.
— Você ficou tapado ou burro de repente? Claro que não acredito. – e depois dessa breve parada para retomar o fôlego, Teddy voltou a gargalhar.
A agilidade que permite Guilherme ser um apanhador com certeza é grande, porque não deu nem tempo de Teddy começar a voltar a rir que Guilherme levantou e, tão rápido quanto um raio, segurou o rosto de Teddy com as duas mãos e...
Beijou-lhe na boca.
O fato de Teddy estar rindo e, portanto, sua boca estar aberta ajudou. Guilherme conseguiu facilmente tomar conta da boca de Teddy, que estava imóvel provavelmente por causa do choque do gesto de seu amigo. Guilherme parecia querer fazer isso há tempos. Primeiro porque mesmo que Teddy não correspondesse, ele ainda tinha toda a animação e fervor desde o início e segundo porque, depois de começar, só segurava o queixo de Teddy enquanto a outra mão passava por toda extensão do abdômen do amigo por dentro da camisa. Tipo como Mônica fez na balada.
Teddy acabou caindo na real quando o beijo já durava três minutos e Guilherme chutou o pau da barraca apertando os quadris de Teddy com muita vontade.
A reação foi um soco muito forte no rosto de Guilherme, forte demais para uma pessoa magra como Teddy.
Guilherme acabou se afastando com a mão onde recebeu o ataque.
— Demorou para cair na real, hein – disse Guilherme – mas não posso dizer que não gostei de você ser meio lerdinho nessas coisas. Sempre quis saber como era essa sua boca fininha, seu lábio... NOSSA! Sempre quis tocar seu corpo magrinho, não imagina o quanto tenho uma queda por ele... você não sabe como me segurava depois do quadribol...
A cara de Teddy era indescritivelmente espantada, os olhos arregalados e os cabelos mudaram para loiro escuro. O garoto não tinha palavras para colocar, muito menos ações para realizar, simplesmente não conseguia abrir a boca e emitir algum som construtivo.
— Então você é mesmo... gay – pequenas ondas elétricas contendo informações cruzavam as ligações do cérebro de Teddy. – Você é gay! – caiu sentado em sua cama olhando para o nado, tentando raciocinar.
— Demorou para entender, velho. – falou Guilherme, sentando-se na ponta oposta da cama de Teddy.
— E você me beijou, e passou a mão pela minha barriga, e apertou minha bunda e você já me viu nu! CARA, COMO ASSIM?
— Teddy, cara, deixa eu explicar...
— EXPLICAR O QUÊ? VOCÊ MENTIU A VIDA TODA PARA MIM E AGORA QUER SE EXPLICAR? VOCÊ ACHA QUE EU SOU IDIOTA?
— Só me dá uma chance...
— VOCÊ SE APROVEITOU DA SITUAÇÃO! COMO OUSA PEDIR UMA CHANCE?
Teddy gritava sem dó nem piedade, estava mais que irritado, estava magoado. Levantou-se da cama e foi para a porta.
— Não olha mais na minha cara.
— Não faz isso, por favor. – suplicou Guilherme, enquanto Teddy segurava a maçaneta e começava a abrir a porta.
Num átimo, Guilherme sacou a varinha e resmungou um feitiço que fechou a porta, outro que impedia qualquer barulho de sair do quarto e um último para tirar a varinha de Teddy de sua mão.
— Me devolve minha varinha, Guilherme – o nome do amigo nunca saiu com tanto desgosto.
— Eu só quero que você me escute, por favor.
Teddy pareceu não ter ouvido, mas como não tinha varinha e, portanto, não poderia desfazer o feitiço, caminhou para entrar e se trancar no banheiro até Guilherme ceder.
— Teddy – a voz de Guilherme demonstrava choro. E ver um cara do tamanho de Guilherme chorar é, antes de tudo, surpreendente. – Me escuta, por favor. Não me faça sofrer por isso de novo. – Guilherme beirava o desespero e utilizava o rebaixamento, acabara de se ajoelhar para o amigo. – Cara, por favor.
— Você mentiu para mim por sete anos, cara. Sete anos de amizade que eu considerei verdadeira. – replicou Teddy.
— Eu não menti para você, eu só não contei porque sentia que isso que está acontecendo ia acontecer. Diferente de você, que mentiu para si mesmo quando ficava com várias, tendo em mente apenas Victoire. Você que não merece minha amizade, mas mesmo assim eu fiquei aqui, te escutei, te dei um ombro amigo. Mas se você quer sair, saia, toma sua varinha. – e jogou para ele.
Guilherme levantou do chão e guiou-se para a cama. Acabado. Queria apenas dormir, aproveitar que o dia escolar já acabara e dormir deprimido até o jantar.
Teddy sentou ao pé da cama de Guilherme, ao invés de sair.
— É só muito complicado para mim... Muita coisa acontecendo de uma vez só. – aparentemente, o cérebro de Teddy conseguiu enxergar algum ponto de verdade nas palavras do amigo, tanto que até pena acabou sentindo depois do que fez a ele.
— É exatamente o que eu queria explicar, cara – disse Guilherme sentando na cama. – Posso? – Teddy assentiu. – Bom, primeiro de tudo. Aquilo de te beijar, de passar a mão pelo seu corpo e de apertar sua bunda, bom, foi uma encenação, era a única prova que eu podia dar para fazer sua ficha cair. Falar da atração a mais que tenho por magrinhos é verdade e falar que me segurava depois do Quadribol obviamente também e o negócio de lábios finos, isso até em meninas...
“Eu descobri que era gay logo no primeiro ano, mas não contei para ninguém por medo de preconceito ou qualquer coisa do tipo. Daí, no quinto ano todo mundo começou a ficar com alguém, e eu achei que iam desconfiar muito se eu não ficasse com alguém, então comecei a meio que dar em cima de meninas, mas torcia para levar fora, infelizmente isso não acontecia. Elas queriam ficar comigo, e eu tinha que ficar. Mas nunca me senti bem com aquilo, gerava até certa repulsa...”
— E como você fazia quando elas queria... hum... transar com você? – perguntou Teddy sério, como se realmente quisesse ouvir as justificativas de Guilherme.
— Bem, - retomou – se você notasse, poderia perceber que só comecei a “transar” com meninas após fazer dezessete anos, logicamente não fazia com nenhuma delas, eu usava feitiços da memória em todas elas para esquecer o que acontecia, sempre funcionou bem.
“E, antes que pergunte, aquela cena que viu na balada semana antes de voltarmos para cá, aquela coisa de passar a mão por todo meu abdômen e me prensar mais contra ela e pegar no meu... você sabe, bem, foi um choque até para mim, porque não sabia o que fazer... então levei-a para um lugar mais escondido e lancei o feitiço...
“Não me orgulho de nada disso, mas não queria sofrer preconceito por causa da minha sexualidade, eu não ia aguentar... ainda mais com os pais que tenho, que são famosos no ramo da magia, como escritores e criadores de feitiços, era muito para eu suportar.”
— Então, só eu sei?
— Bem, sim. Eu tentei contar para um amigo trouxa meu, a gente era bem unido assim, tipo como você é ou era comigo. Mas ele reagiu bem pior que você. Muito pior que você, então acabei enfeitiçando ele, mas apaguei a parte que me conhecia também, não conseguiria mais olhar para ele depois de todas as grosserias que ele me disse.
— Mas eu não entendo, como você virou gay assim, no primeiro ano? Como era antes dele?
— Eu não virei gay, eu nasci gay. Só demorei a perceber e me aceitar assim. Não é tão fácil quanto parece, principalmente porque você é muito diferente de todo mundo. Imagina como é, para um garoto de onze anos, não conseguir comentar com os seus amigos sobre garotas e sobre gostariam de fazer com elas?
— Então como você fez?
— Eu... aprendi rápido, me adaptei ao ambiente... Ouvia as coisas e conseguia associar... Daí tudo ficou meio que mais fácil.
— Só para me deixar claro, você, então, é virgem, mesmo tendo ficado com todas aquelas meninas gostosas? – estava perguntando a mesma coisa novamente, parecia que o cérebro de Teddy havia parado de funcionar ou de guardar memória.
— Sim. – e Guilherme riu da pergunta.
O silêncio reinou no quarto do sétimo ano, novamente. Silêncio desconfortável que ninguém conseguia quebrar. Parecia que aqueles dois haviam acabado de se conhecer e não sabiam como continuar o assunto depois que um dos outros tivesse acabado. Os dois estavam claramente sem graça. Um não sabia o que falar e o outro não sabia onde enfiar a cara de vergonha.
— Você me desculpa, então? – Guilherme conseguiu, enfim, soltar uma pergunta.
— É... desculpo, mais ou menos. Mas não repita isso, certo? Isso de me apertar e passar a mão pelo meu corpo... só... só garotas podem fazer isso, ok?
— Ok. – respondeu Guilherme tristemente, como se não estivesse ok para ele e nunca iria estar. – Você ainda vai me tratar como tratava? Ainda vai confiar em mim como disse? Ainda vai conversar comigo?
— Claro que vou! Aquela hora ali eu só estava confuso e irritado com o que você disse e fez, mas já me esclareceu tudo. – Guilherme pareceu não acreditar – é sério! Mas, me fala, como é esse negócio de ser gay...?
— Como assim? – riu – É como se fosse com meninas, mas, com meninos. Os mesmos sentimentos, tristeza por amor não correspondido. Alegria quando se é correspondido. Excitação pelo outro...
— Esses detalhes eu também passo – respondeu rindo.
Então a amizade voltara ao normal. Como se o que tivesse acabado de acontecer já tivesse esquecido, mas entendido um pelo outro. Como se tivessem entrado em um consenso de não voltar ao assunto, de apenas entender e aceitar.
— Você ainda pode falar sobre as meninas que você acha e bonitas e tal... sobre esse negócio da Victoire... Não tem problema. Vou tentar ajudar...
— Você também pode, mas não sei se vou poder ajudar muito. – disse. – Aliás, você disse que tem alegria quando se é correspondido... então, você já ficou com outro homem?
— Hm, não. Não fiquei, infelizmente.
— Mas você está, apaixonado...? – perguntou maliciosa e intimamente, como sempre fora a amizade dos dois.
— Sim, também estou... e, posso dizer, me encontro no mesmo estado que você... – respondeu Guilherme, não tão feliz assim.
— Por quem? Pode me falar? – Teddy não parecia surpreso com a revelação, na verdade, ele de certa forma já esperava por isso. Afinal, se num único fim de tarde ele confessara o amor por Victoire para o amigo, esse mesmo amigo confessara que era gay para ele e ainda o beijara, qual seria o problema de ele estar de olho em alguém?
— Ah – começou Guilherme, descontraído – Tá ligado o Ricardo, do nosso ano, da Sonserina?
— O de olho claro e cabelo meio castanho claro, alto e que venceu o campeonato de duelos e também é do time de Quadribol?
— Sim, esse lindo mesmo... – Teddy pareceu não ligar para o jeito que Guilherme se referiu ao amado. – E Aquele que namora a linda da Laura do sexto ano – completou Guilherme tristemente.
— Ah, cara... – Teddy colocou uma mão no ombro dele. – Você ficava com várias e é gay... ele pode passar pelo mesmo que você e... – não conseguiu terminar, nem ele próprio colocava esperança no que falava.
— Eu duvido. Ah, porque eu não podia me apaixonar um gay? Seria muito mais simples. Que saco!
— Vem, cara. Vamos descer que você já tá com fome e isso tá te irritando mais. – e levantaram, desfizeram os feitiços e desceram as escadas. Faltando menos de dois degraus para chegarem ao Salão Comunal, Teddy de repente para.
— Que foi, seu louco? – perguntou Guilherme, esbarrando na falsa espécie de estátua.
— É que... eu parei para pensar... – Teddy chegou mais perto do ouvido do amigo e cochichou – eu ainda vou poder ficar sem roupa na sua frente e você não vai me atacar como fez agora pouco, né?
— Olha, - cochichou de volta – poder você pode, mas se cochichar no meu ouvido assim de novo eu não garanto nada. – e riu. Teddy acompanhou depois de perceber que realmente era só uma brincadeira.
Passaram pelo Salão Comunal e desceram para o Grande Salão.
O jantar já estava servido e o local praticamente lotado. Todas as mesas com uma cor diferente e a decoração normal de velas flutuando no teto.
Os amigos sentaram à mesa e começaram a comer. Quando Teddy disse que era a fome que irritava Guilherme era verdade, porque em menos de quinze minutos, o garoto já estava no segundo prato e tudo indicava que ia para o terceiro. Até que alguma coisa que passava atrás de Teddy chamou a atenção dele, e, ironicamente ou não, alguma coisa que passava atrás de Guilherme chamou a atenção de Teddy.
De um lado era Ricardo que saíra da mesa da Sonserina e seguiu caminho até a mesa da Grifinória, e do outro era Victoire passando de mãos dadas com Eduardo, atrás de Guilherme. Teddy não disfarçou, encarou o casal descaradamente e de olhos arregalados, seu transe foi quebrado quando Ricardo encostou a mão em seu ombro.
— E aí, rival, vai continuar no time esse ano? – perguntou ele, estendendo a mão.
— Ah, e você acha que vou perder a chance de jogar um balaço na sua cabeça? – respondeu Teddy, respondendo ao cumprimento.
— E você, ga... Guilherme? Ainda vai tentar ser mais rápido que eu na captura do pomo?
— Sempre fui mais rápido que você, não vai ser esse ano que vou desistir. – respondeu com um sorriso no rosto e estendendo a mão para receber um cumprimento do adversário amante.
Teddy nunca percebera, mas agora que olhou melhor, viu que os olhos de Guilherme brilhavam enquanto observavam seu amado, assim como os de Teddy faziam quando olhavam para Vick. Percebeu, também, um leve tremor na mão do amigo quando esta foi ao encontro da outra e concluiu que aquele sorriso era mais do que apenas uma consequência de uma brincadeira, era um riso natural de alegria, que acontecia quando o coração dispara depois de o cérebro concluir que a pessoa que você daria a vida está vindo em sua direção, era felicidade espontânea, a mais verdadeira e confiável.
Mas então o sorriso oscilou. Uma rápida olha pelo próprio ombro e Teddy percebeu toda a cena. Laura passou a mão pela cintura do namorado e o prensou contra o próprio corpo.
— E ai, gata. – disse Ricardo, olhando para trás e dando um selinho na garota.
Teddy percebeu a ínfima parte do amigo que demonstrou dor, o pequeno enchimento de lágrimas nos olhos, o fraquejo no sorriso, o possível aperto no coração, a dor incomensurável, toda graça da ação se esvair num sopro. Toda razão de continuar a viver se desintegrar, todo motivo de abrir os olhos no outro dia morrer, todo motivo de respirar desaparecer.
Os olhos de Teddy foram ao encontro dos do amigo. Tentou passar a mensagem de “seja forte” mesmo que soubesse que é impossível em momentos como esse. Sabia que se não chorasse ali, Guilherme acabaria chorando deitado em sua cama, sofrendo a dor sair de seu corpo lenta e dolorosamente. Do jeito que ele mesmo já sentira tantas vezes.
— Como vão, meninos? – se enturmou Laura.
— Ah, estamos bem – respondeu Teddy pelos dois. Sabia que se Guilherme ousasse falar naquele momento acabaria desabando. E ver Guilherme desabar significa duas coisas. A primeira é que a coisa realmente ficou séria, porque Guilherme era forte. A segunda era que Teddy teria de arranjar um jeito de deixá-lo melhor, mesmo sabendo que nunca obteria sucesso em sua tentativa, exceto se aquela visão fosse excluída do mundo. – e... precisamos ir... temos que... que fazer lição de astronomia e de poções, os professores passaram MUITA coisa.
Teddy se levantou e Guilherme o seguiu sem ousar levantar a cabeça para nem mesmo se despedir de Ricardo. Teddy se despediu com um rápido aperto de mão e um leve aceno para Laura.
Conseguiram chegar às escadas sem que notassem muitas coisas. Mas a coisa piorou quando chegaram em frente ao quadro da Mulher Gorda. Guilherme estava calado, respirar parecia ser um luxo. Teddy sabia que o amigo provavelmente queria ficar sozinho, mas Teddy não o deixaria na mão sabendo o que estava por vir.
Passaram pelo Salão Comunal num instante e no outro já abriam a porta do quarto. Guilherme caiu na cama, abraçou o travesseiro e desabou em lágrimas, estava de costas para Teddy, não queria mostrar para o amigo como estava, mesmo que ele tivesse feito. Tentava chorar sem emitir som algum, mas não obtinha o que queria, pelo menos não completamente. As vezes soltava umas espécies de gemidos de dor misturados com lágrimas que cortavam o coração de Teddy. Afinal, quem podia imaginar que o alegre e sorridente Guilherme acabaria ali, daquele jeito, por causa de um amor?
Teddy acabou cedendo, mesmo sem que Guilherme tenha dito uma única palavra, e saiu do quarto, deixando-o sozinho. Enquanto descia os degraus da escada para se juntar à multidão animada com o fim do jantar e o início do fim de semana, encontrou dois companheiros de quarto dele.
— É, caras, será que podiam deixar Guilherme sozinho um pouco? – disse Teddy, evasivamente – ele não está bem... Sabe, comeu demais e tal...
— Ah, certo, certo. – Disseram, encarando os próximos degraus e agradecendo pelo companheiro ter dado o aviso.
Teddy atravessou o salão e sentou-se na poltrona voltada para a janela, dando visão a noite macabra de Hogwarts. Relaxou os ombros, fechou os olhos e esvaziou a mente, nada melhor do que isso depois de ver aquela cena, que por sorte não ficou muito tempo em sua mente. Na verdade, a mente de Teddy ficou vagando pelo não-ser um bom tempo, até que sentiu alguém sentando em seu colo.
— Olá, lindinho – era Marina, uma aluna do quinto ano.
— Oi. – respondeu Teddy, tentando ser o mais seco que conseguia. “Interesseira! Vai pedir o que para mim hoje?”
— Ai, Teddy, não fala assim comigo. Sou tão legal com você. – respondeu a garota, fazendo beicinho e acariciando os cabelos do menino.
— Não estou para papo hoje, Marina. Saia do meu colo, agora! – Teddy sabia que a garota apenas queria ficar com ele, não no sentido de estar no mesmo lugar, claro. Ele também sabia que ela era a garota mais galinha de toda Grifinória e, provavelmente, de Hogwarts.
Teddy ia começar a gritar com a garota quando Victoire passou ao seu lado, incontrolavelmente seus olhos seguiram o corpo da garota até ela desaparecer nas escadas para seu dormitório.
— Então você prefere aquela garota a mim? – perguntou completamente indignada.
— E se preferir? Algum problema? Até onde sei a vida é minha e eu prefiro quem eu quiser.
— Mas ela é sua prima! E eu ouvi rumores de que ela tá namorando o Eduardo da Lufa-Lufa...
E o raio atingiu a árvore dando origem ao mais nervoso e assassino incêndio.
— Ouviu?! Quem te disse isso? – Teddy tentou não parecer realmente surpreso, mas seus olhos acabaram se arregalando, então não funcionou como deveria.
— Sei lá quem me disse! Não importa quem disse! Só importa você! Vem cá. – e Marina fez beicinho querendo beijar Teddy.
Mas Teddy estava raciocinando para tentar retribuir qualquer coisa. Acabou se levantando e deixando a garota cair de bunda no chão. Voltou para o quarto e estava com os nervos à flor da pele. Por que tinha que ser tão fraco? Tão devagar?
Jogou-se na cama e se forçou a esquecer o que ouvira e tentou dormir. Por sorte, conseguiu. Acordou apenas no outro dia, depois dois tapas nas suas costas e um projétil voador que Teddy só identificou depois de sair da tontura que ele causara, era um travesseiro.
— Ai cara, é assim que você acorda seu melhor amigo? – perguntou Teddy passando a mão no lugar onde sua cabeça doía.
— Queria o quê? Um beijinho na bochecha e eu te chamando de meu amor com um sussurro no ouvido? – disse Guilherme rindo. Teddy ergueu a cabeça para xingar o amigo, mas não o fez quando percebeu que ele tinha feito a barba, sua marca registrada desde que o garoto começou a ter barba.
— Você fez a barba? – perguntou, incrédulo. – Por qual milagre?
— Hm... Não me zoe, sério. Mas foi por causa do Ricardo e tal, ouvi dizer que ele não curte barba... e... ah! Não me olhe assim, me deixa sem graça! Idiota – o ‘assim’ era um olhar meio estilo “mentira que você fez isso por causa dele” e meio malicioso do tipo “o que mais você faria com ele?”.
— Não fiz nada, velho. – e riu. – Desculpa, é que é engraçado ver você mudar assim por causa de uma pessoa... não estou acostumado a isso... só estou estranhando um pouco, mas me acostumo... – olhou em volta, o quarto só era habitado pelos dois. – Que horas são? O quarto está vazio.
— São duas horas, dorminhoco. Se arruma que vamos para Hogsmead em meia hora. O café e o almoço já foram servidos e você estava dormindo. Só vai poder comer lá.
— Eu dormi tudo isso? – arregalou os olhos. Levantou da cama e foi para o banheiro tomar banho, deixou a porta aberta para ainda poder falar com Guilherme. – Pode entrar, só não me ataca, firmeza?
— Sem graça – respondeu Guilherme puxando uma cadeira e colocando o mais perto da porta do banheiro sem entrar completamente. – mas sabe, acho que foi bom você não ir ao café da manhã...
— Eu tava brincando, cara, pode entrar se quiser. – respondeu com um muxoxo de debaixo do chuveiro – por quê? O que aconteceu?
— Eduardo... pediu a mão de Victoire em namoro – replicou lenta e inseguramente Guilherme – e... ela aceitou...
Um silêncio completamente desconfortável reinou no quarto dos meninos da Grifinória. Guilherme não devia ter contado, mas ele tinha que contar, porque era melhor saber por um amigo do que pela própria Victoire, o amigo queria falar, tentar colocá-lo para cima ou dar algum conselho, mas não sabia o que proferir.
Minutos se arrastaram parecendo horas até que uma voz que beirava a insanidade e exalava ira quebrou o silêncio.
— Como foi?
— Bem... – Guilherme tinha medo do que falar, não sabia do que Teddy era capaz caso soubesse – ele se ajoelhou em frente dela, no meio do Grande Salão, e pediu a mão dela. Todas as casas cercaram-nos e Vick aceitou... Ele foi bem corajoso.
O chuveiro fechou e Guilherme sentiu que corria risco de vida, mas estava paralisado para se mexer.
— É, de fato, ele foi... – respondeu Teddy se enrolando na toalha. – teve mais coragem que eu, obviamente. – saiu de debaixo do chuveiro e foi possível ver sua expressão. Nada legal. Toda a alegria do sábado já tinha desaparecido, pelo menos não apresentava caráter choroso, era um avanço.
Saiu do banheiro enrolado e se vestiu, colocou roupas que normalmente usava para sair, calça, camisa vermelha e tênis. Virou-se para seu amigo e forçou um sorriso.
— Não precisa tentar forçar, cara. – aconselhou Guilherme – Não faz bem pra você, sério.
Teddy deu de ombros e saiu do quarto, Guilherme acabou seguindo-o. Desceram até a entrada e se reuniram no pátio em frente ao castelo, junto com os outros alunos.
Como de costume, havia o grupo do terceiro ano que ia a primeira vez para lá e estavam eufóricos. Chegava a ser nostálgico Teddy lembrar de sua primeira vez. Tinha o grupo dos alunos do quarto ano, que junto com os do terceiros representavam a maior porcentagem dos alunos de Hogwarts que iam para lá. O quinto ano estava pouco, provavelmente culpa dos NOMs, o sexto estava em baixa quantidade, não tinha nenhuma justificativa forte para tal. E apenas alguns do sétimo ano, provavelmente por causa de cansaço de visitar o mesmo lugar, ou eles eram aplicados e estavam fazendo a lição.
De longe Teddy avistou sua amiga Gabriela.
— Oi, Gaby – cumprimentou Teddy com um beijo na bochecha. – tudo bem?
Os olhos da menina se encontravam inchados e vermelhos. A expressão triste era eminente e ela dava pequenas tremidas com a mão. Claramente não estava tudo bem, mas será que Teddy podia perguntar o que acontecera?
— Ah, a gente vai levando. – sua voz estava chorosa, deprimida, triste.
— O que houve?
— Hm, certas decepções com a vida. – e olhou tristemente para Victoire, que estava abraçada com Eduardo.
Qualquer um entenderia a relação. Ou Gabriela gostava de Eduardo, mas nunca falara com ele, por medo. Ou, como as linhas estavam andando naquela semana, ela era lésbica e gostava da Vick. Teddy apoiava, particularmente, a primeira hipótese, porque, caso a segunda estivesse certa, Teddy teria que magoar uma amiga sua caso conseguisse atingir seu objetivo.
— Hm, relaxa. No final acaba dando tudo certo, você vai ver.
Gabriela não colocava fé no que ouvia, nem mesmo Teddy no que falava, mas não custava tentar. Afinal, esperança é a última que morre, dizem por aí.
Seguiram o caminho para Hogsmead. Eduardo e Victoire estavam, abraçados, em frente a Teddy. Não é mentira dizer que o garoto sentiu vontade de vomitar daquela cena. Parecia que eles faziam questão de mostrar a todos que estavam namorando, querendo se achar melhor que os outros.
A cada beijo que via, os lábios de Teddy salivavam de vontade de sentir os lábios de sua amada nos dele, e uma dor no estômago acontecia a cada vez que realizava que não podia tê-los.
— Cara, para de encarar os dois se beijando. – sussurrou Guilherme – você está dando muita bandeira.
Teddy caiu na real e apertou o passo para ultrapassar os dois, não aguentaria muito mais aquela cena deplorável. Guilherme e Gabriela alcançaram-no e juntos formaram o trio mais triste e sem graça da história de Hogwarts que ia para Hogsmead.
Seguiram o caminho normal para o três vassouras, como sempre faziam quando iam para a primeira visita do ano. Pediram três cervejas amanteigadas e sentaram-se numa mesa bem no fundo, escondida de todos, mas que, ironicamente, podia ver quase todo o bar claramente.
Vick e Eduardo entraram praticamente segundos depois de Teddy e seus amigos. “Perseguição, só pode. Ela quer me irritar”. Os pombinhos tomaram lugar no outro extremo da sala, tentando ser reservados, mas mesmo assim, era possível que os olhos de Teddy, agora mais vermelhos que sangue, conseguissem enxergar a maior falta de senso de pudor.
— Você está fazendo de novo... – comentou Gabriela.
Teddy olhou para aqueles olhos azuis e percebeu que a garota fazia jus à casa que pertencia, provavelmente apenas observando sabia que Teddy estava apaixonado pela “prima”. A resposta foi tida como certa quando Gabriela, em resposta ao olhar do amigo, acenou levemente.
— Não ligo. – disse seco.
— Sou sua amiga, mas não sou Guilherme, que já está acostumado com essas suas frescuras! Me trate direito, assim como lhe trato! – exigiu a garota, que, quando brava, fazia com que as pupilas dos olhos dela aumentassem e tomassem quase toda extensão possível do olho, quase como um lobisomem.
— Ora, você diz como se não soubesse como é ver aquela cena, principalmente você senhorita Gabriela. – ironizou Teddy.
— Você precisa melhorar muito suas ironias para conseguir me atingir, garoto! – Ela já aumentava a voz, atraindo a atenção de todos – E o que diz respeito a minha vida, cuido eu, obrigado!
— Nossa! – Teddy bateu com a mão espalmada na mesa, fazendo com que as taças de cerveja amanteigada pulassem. – ENTÃO ME DESCULPE POR ME PREOCUPAR COM VOCÊ, QUERIDA!
— NÃO É QUE VOCÊ NÃO POSSA SE PREOCUPAR COMIGO, QUERIDO, SÓ QUE TEM COISAS QUE NÃO SOU OBRIGADA A COMPARTILHAR.
— Será que os dois podiam... – lançou Guilherme, tentando apartar aquela discussão.
— CALADO! – responderam em uníssono.
— VOCÊ NÃO COMPARTILHA, MAS QUER QUE EU COMPARTILHE AS MINHAS? NOSSA, QUE IRÔNICA A VIDA É, NÃO É MESMO? – desconsiderando Guilherme, Teddy levou a discussão a frente.
— NUNCA LHE COBREI NADA, VOCÊ QUE QUIS FALAR!
— EU SÓ FALAVA PORQUE ACHAVA QUE SE IMPORTAVA COMIGO! MENTIU TODOS ESSES ANOS, FOI?
— ORA, COMO OUSA? – Gabriela sacou a varinha. Teddy puxou a dele no mesmo instante.
— OS TRÊS, PARA FORA, AGORA! – era Madame Rosmerta com sua voz aumentada magicamente ordenando-os a sair do local.
Com uma rápida olhada em volta, Teddy percebeu o que causara. Todo o bar, inclusive Vick e Eduardo, olhavam para eles sem crer no que viam. De olhos arregalados e boca aberta. Como se os dois estivesses fazendo algo impróprio no bar, algo mais que apenas uma discussão de moral.
Sem contestar os três saíram o bar seguiu-os com os olhos e, quando a porta fechou, a conversa voltou normalmente, como se nada houvesse acontecido.
— Foi mais legal quando a dona da casa de chá nos expulsou com azarações. – comentou Teddy, montando um leve sorriso.
— Ou aquela vez que o dono da Dedosmel nos afugentou com o bode dele. – riu Gabriela.
— Ou quando o dono do Cabeça de Javali literalmente nos chutou porta a fora conjurando uma grande bota. – gargalhou Guilherme.
Sim, aquilo fora uma atuação, uma ótima atuação da parte dos dois.
— Da próxima vez não quero ficar de fora, certo? – comentou Guilherme – quando percebi o esquema de vocês já estavam no auge da discussão, vocês são sem graça, sempre me excluindo das coisas boas da vida.
Os três riram da cena que se seguiu a esta fala. Guilherme tentou formar um bico misturado com uma cara de choro, mas acabou saindo uma careta estilo rosto de dragão, o que não é exatamente algo que se deva sentir pena, claro.
— Só vocês para me fazer rir depois do que presencio hoje no café da manhã. – comentou Gabriela depois de os três andarem até um lugar meio que deserto, onde se sentaram cada um em uma pedra.
— Então você... – começou Guilherme, raciocinando. – gosta do Eduardo?
— Ah, é o que parece... – respondeu a garota, dando de ombros. – Gosto dele desde que o vi jogando Quadribol e... eu acho ele bonito, é. – Teddy fechou a cara quando ouviu esse leve, e desnecessário, comentário. – Ah, deixa de ser fresco. Só está assim porque ele está namorando Vick, e porque ele conseguiu fazer duas coisas que você tem medo: se declarar para ela no meio de todos e beijá-la.
— Como foi que você percebeu tudo isso? – perguntou Guilherme, impressionado com todas as conclusões e afirmativas que a amiga fizera sem que Teddy tivesse tido que contar para ela.
— Bem, cresci tento que responder charadas para poder dormir num colchão. A gente acaba aprendendo a raciocinar bem rápido... Veja, uma borboleta, onde será que ela vai? – e se levantou e foi segui-la.
— Estranha, mas genial, não acha? – perguntou Guilherme admirado com a grande mudança de atitudes da menina.
— É, realmente, ela é. – respondeu Teddy fitando o local onde Gabriela estava antes de começar a perseguir a borboleta. – Bora comprar uns doces na Dedosmel?
Guilherme concordou com a cabeça. Os dois se levantaram e seguiram o caminho até a trilha que levava a Hogsmead.
Segundos antes de entrar na loja de doces, os ouvidos de Teddy captaram uma espécie de gemido misturado com grito que arrepiou a espinha.
— Ouviu isso? – apurou os ouvidos para ver se ouvia de novo. – Já venho!
E saiu sem nem mesmo esperar a primeira resposta necessária.
Apertou o passo e em poucos minutos já estava na origem do barulho. Era numa floresta que rodeava Hogsmead, extensão daquela em que ladrilhava o caminho de Hogwarts para Hogsmead. Adentrou a floresta e deixou os ouvidos atentos.
Mais um barulho.
...
Mais um grito reprimido.
...
Mais uma explosão.
Atravessou um vão formado por árvores, passou algumas gramíneas e chegou onde partiam os barulhos.
Era de um homem, com vestes de Hogwarts.
Vestes verdes.
Alto, olhos e cabelos claros, corpo magro como o de Teddy.
Ricardo!
Os olhos do garoto estavam vermelhos, provavelmente de choro, corpo contraído, provavelmente de dor, varinha da mão, fuligem no rosto.
Todas consequências do ambiente que estava. Tudo destruído, falhas no chão, buracos nas árvores, galhos caídos, folhas queimadas e cortadas, animais caídos feridos, copas de árvores incompletas, cortes nos braços, partes de vestes chamuscadas.
— Cara! O que você fez? – exclamou Teddy.
— Laura terminou comigo por causa de outro. – respondeu, mesmo sem saber quem estava ouvindo, mesmo sem saber que tinha alguém ouvido.
“E eu a deixei por alguém também.”