DEZENOVE
O carro para me levar aos estúdios de televisão chega prontamente às 7:30 da manhã seguinte. Quando a campainha toca, mamãe, papai e eu pulamos, apesar de já estarmos esperando num silêncio tenso há dez minutos.
— Bem — diz papai num tom áspero, olhando para seu relógio. — Eles estão aqui.
Desde ontem, quando contei-lhe sobre os acertos, meu pai havia previsto que o carro não apareceria e que ele teria que me levar aos estúdios ele mesmo. Até planejou um caminho ontem à noite e telefonou para tio Malcolm ficar de sobreaviso. (Para ser sincera, acho que ele estava torcendo para que isso acontecesse.)
— Ah, Gina — diz mamãe numa voz trêmula. — Boa sorte, querida. — Ela olha para mim, depois balança a cabeça. — Nossa pequena Gina, na televisão. Não consigo acreditar.
Começo a me levantar, mas papai estica um braço me contendo.
— Antes de abrir a porta, Gina -— diz ele. — Você tem certeza, não é? Sobre o risco que está correndo. — Ele olha para mamãe, que morde o lábio.
— Estarei bem! — digo, procurando soar o mais calma possível. - Honestamente, pai, já conversamos sobre tudo isso.
Na noite passada, de repente ocorreu a meu pai que, se eu aparecesse na televisão, meu perseguidor saberia onde eu estava. No princípio ele estava inflexível de que eu teria que desmarcar tudo — e custou-me um bocado de persuasão para convencê-lo e à minha mãe de que eu estaria perfeitamente segura nos estúdios da TV.
Estavam até falando sobre contratar um segurança, dá para acreditar? Quero dizer, o que ia parecer, eu chegando lá com um segurança?
Na verdade, eu ia parecer bem superior e misteriosa, não é? Droga. Isso poderia ter sido uma boa idéia.
A campainha toca novamente e eu logo fico em pé.
— Bem — diz papai. — Tenha cuidado.
— Terei, não se preocupe! — digo, pegando minha bolsa. Ando para a porta calma, procurando não demonstrar o quanto estou me sentindo nervosa. Mas por dentro me sinto leve como uma bolha.
Só não posso acreditar como tudo está indo tão bem. Não só estarei na televisão, mas todos estão sendo tão bons comigo! Ontem tive várias conversas ao telefone com uma assistente de produção do Morning Coffee, uma garota realmente muito simpática, chamada Zelda. Repassamos exatamente o que eu iria dizer no programa, depois ela destacou um carro para vir me pegar e quando eu lhe disse que estava na casa dos meus pais, sem nenhuma das minhas roupas à mão, ela falou que eu poderia escolher alguma coisa para usar do guarda-roupa deles. Ora, não é legal? Escolher qualquer roupa que eu goste do guarda-roupa deles! Espero que eles me deixem ficar com ela depois, também.
Quando abro a porta da frente, meu estômago dá um pulo de nervoso. Lá, aguardando na rua, está um homem grande, de meia-idade, vestindo um blazer azul e um chapéu, de pé ao lado de uma limusine. Meu motorista particular! Isto está ficando cada vez melhor.
— Srta. Weasley? — diz o motorista.
— Sim — digo, incapaz de parar de sorrir para ele maravilhada. Estou quase alcançando a maçaneta da porta, mas ele chega antes de mim, abre a porta do carro com um gesto floreado e fica de pé atencioso para me servir, aguardando que eu entre. Deus, isto é como ser uma estrela de cinema ou algo assim!
Olho de volta para a casa e vejo mamãe e papai de pé na porta de entrada, os dois olhando totalmente pasmos.
— Bem, tchau então! — digo, procurando soar casual, como se eu sempre andasse em carros dirigidos por motoristas. —Até mais tarde!
— Gina, é você? — vem uma voz da casa ao lado, e Janice aparece do outro lado da cerca no seu robe-de-chambre. Seus olhos aumentam quando vêem o carro e ela olha para minha mãe, que levanta os ombros, como que querendo dizer, "Eu sei, não é inacreditável?"
— Bom dia, Janice — diz papai.
— Bom dia, Arthur — diz Janice estupefata. — Ah, Gina! Nunca vi nada assim. Em todos esses anos... Se Tom pudesse ver você... — ela interrompe e olha para mamãe. — Vocês tiraram alguma fotografia?
— Não! — diz mamãe apavorada. — Não nos ocorreu. Arthur, rápido, vá pegar a máquina.
— Não, espera, vou pegar nossa filmadora! — diz Janice. — Vou levar um segundo. Podíamos ter o carro chegando na rua e Gina saindo da porta da casa... e talvez pudéssemos usar As Quatro Estações como fundo musical e depois cortar direto para...
— Não! — digo apressada, vendo uma centelha de diversão passar pelo rosto do motorista. Deus, isto é embaraçoso. E eu estava indo tão bem na minha aparência displicente e profissional. — Não temos tempo para fotografias. Tenho que chegar no estúdio!
— Sim — diz Janice, de repente parecendo ansiosa. — Sim, você não quer se atrasar. — Olha temerosa para seu relógio como que com medo de o programa já ter começado. — Vai ao ar às onze, não é?
— Às onze horas o programa começa — diz papai. — Programe o vídeo para cinco para as onze, é o que estamos dizendo às pessoas.
— É o que faremos — diz Janice. — Para garantir. — Ela dá um pequeno suspiro. — Não ousarei ir ao banheiro a manhã toda, só para garantir que não vou perder nada!
Faz-se um silêncio de admiração quando entro no carro. O motorista fecha bem a porta, depois dá a volta até a porta do motorista. Aperto o botão para abaixar minha janela e sorrio para meus pais.
— Gina, querida, o que fará depois? — diz mamãe. — Voltará aqui ou retornará para seu apartamento?
Imediatamente sinto meu sorriso hesitar, e olho para baixo, fingindo brincar com os controles. Não quero pensar no depois.
Na realidade, não consigo sequer visualizar o depois. Vou estar na televisão... e só vai até aí. O resto da minha vida está seguramente trancada numa caixa no fundo da minha cabeça e eu não quero lembrar que está lá.
— Eu... não tenho certeza — digo. — Vou ver o que acontece.
— Eles provavelmente a levarão para almoçar depois — diz papai com ar de quem sabe das coisas. — Esses tipos do skowbiz estão sempre almoçando juntos.
— Almoços líquidos — diz Janice e dá uma risadinha.
— No Ivy — diz mamãe. — E lá que os atores se encontram, não é?
— O Ivy saiu de moda! — retruca meu pai. — Eles a levarão para o Groucho Club.
— O Groucho Club! — diz Janice, batendo palmas. — Não é esse que Kate Moss freqüenta?
Isto está ficando ridículo.
— É melhor irmos andando — digo, e o motorista acena concordando.
— Boa sorte, querida — grita papai. Fecho a janela e recosto no banco, enquanto o carro sai ronronando da entrada da casa.
Por algum tempo viajamos em silêncio. Casualmente, fico olhando a todo momento pela janela, para ver se alguém está olhando para mim no meu carro dirigido por motorista e imaginando quem eu sou (aquela garota nova do EastEnders, talvez). Apesar de que estamos passando na pista dupla tão rápido que é mais provável que eu pareça um borrão.
— E então — diz o motorista após algum tempo. — A senhora vai aparecer no Morning Coffee, não é?
— Sim, vou — digo eu, e imediatamente sinto um sorriso de alegria envolver meu rosto. Deus, preciso parar com isto. Aposto que Jeremy Paxman não começa a rir sem sentido toda vez que alguém lhe pergunta se ele vai aparecer no University Challenge. Ele provavelmente só dá um olhar de desprezo, como que para dizer Claro que vou aparecer no University Challenge, seu desmiolado...
— E então vai aparecer para quê? — pergunta o motorista, interrompendo meus pensamentos.
Estou quase respondendo "Para ser famosa e talvez ganhar umas roupas de graça" quando percebo o que ele quer dizer.
— Uma matéria sobre finanças — digo calma. — Escrevi um artigo no Daily World, os produtores leram e querem que eu vá ao programa.
— Já apareceu na televisão antes?
— Não — admito, um pouco relutante. — Não apareci.
Paramos num sinal e o motorista vira-se para trás para me examinar.
— Ficará bem — diz ele. — Só não deixe que o nervosismo a domine.
— Nervoso? — digo, e dou uma risadinha. — Não estou nervosa! Estou... ansiando por isto.
— Fico feliz em saber — diz o motorista virando-se novamente. — Então ficará bem. Algumas pessoas sentam-se naquele sofá acreditando que estão bem, relaxadas, felizes como um passarinho... depois vêem aquela luz vermelha e se dão conta de que 2,5 milhões de pessoas em todo o país estão assistindo. Umas entram em pânico. Não sei por quê.
— Ah — digo após uma pequena pausa. — Bem... não sou como elas! Estarei bem!
— Bom — diz o motorista.
— Bom — repito, um pouco menos certa, e olho pela janela.
Estarei bem. Claro que sim. Nunca fiquei nervosa na minha vida, e certamente não vou começar...
Dois milhões e meio de pessoas.
Nossa. Quando se pensa nisso — é um bocado, não é? Dois milhões e meio de pessoas, todas sentadas em casa olhando para a tela. Olhando para meu rosto. Esperando para ouvir o que vou dizer a seguir.
Ah, Deus. Está bem, não pense nisso. O importante é lembrar sempre que estou muito bem preparada. Ensaiei durante séculos na frente do espelho, ontem à noite, e decorei quase tudo o que vou dizer.
É preciso ficar num nível muito básico e simples, disse Zelda — porque, aparentemente, 76% da audiência de Morning Coffee é constituída de donas de casa cuidando de seus bebês, portanto com períodos de atenção muito curtos. Ela ficou se desculpando pelo que chamou o "efeito emburrecedor" e dizendo que uma especialista financeira como eu deve sentir-se realmente frustrada com isso e, claro, concordei com ela.
Mas, para ser sincera, estou bastante aliviada. De fato, quanto mais emburrecida melhor, no que me diz respeito. Quero dizer, escrever um artigo no Daily World com todas as minhas anotações a mão foi uma coisa, mas responder a perguntas maliciosas ao vivo, na televisão, é outra. (Um pensamento ameaçador, na verdade — não que eu tenha dito isso a Zelda. Não quero que ela pense que sou uma total idiota.)
Como eu ia falando, vou começar dizendo "Se oferecessem a você uma chance para escolher entre um relógio de parede e 20.000 libras, qual escolheria?" Rory ou Emma responderão: "Vinte mil libras, claro!" e eu direi: "Exatamente, 20.000 libras." Farei uma breve pausa, para deixar esse número entrar na mente do público e depois direi,
"Infelizmente, quando a Flagstaff Life ofereceu a seus clientes um relógio de parede para transferirem suas economias, não lhes informaram que, se fizessem isso, perderiam uma bonificação de vinte mil libras!"
Soa bastante bem, não acha? Rory e Emma farão algumas perguntas fáceis, como "O que as pessoas podem fazer para se protegerem?", e eu darei respostas boas e simples. E já no final, só para manter tudo bem leve, vamos falar sobre todas as diferentes coisas que se poderia comprar com 20.000 libras.
Na verdade, esta é a parte que estou aguardando com mais ansiedade. Já pensei em um monte de coisas. Você sabia que com 20.000 libras pode-se comprar 52 relógios Gucci e ainda sobra para uma bolsa?
Os estúdios do Morning Coffee são em Maida Vale, e quando nos aproximamos dos portões, familiares porque aparecem na abertura do programa, sinto uma certa excitação. Estou mesmo aqui. E vou mesmo aparecer na televisão!
O porteiro acena para nós atrás da barreira, paramos na frente de um par de portas enormes e o motorista abre a porta do carro para mim. Quando saio, minhas pernas estão levemente trêmulas, mas me forço a subir confiante as escadas que levam ao hall da recepção e me aproximo do balcão.
— Estou aqui para o Morning Coffee — digo e dou uma risadinha quando percebo o que acabei de dizer. — Quero dizer...
— Sei o que quer dizer — diz a recepcionista gentil mas cansada. Vê meu nome numa lista, digita um número e diz, "Jane? Ginevra Weasley está aqui". Depois ela aponta uma fila de cadeiras confortáveis e diz, "Alguém estará com você num instante".
Dirijo-me às cadeiras e sento-me em frente a uma mulher de meia-idade com o cabelo preto desgrenhado e um enorme colar de âmbar no pescoço. Está acendendo um cigarro e, apesar de eu na verdade não fumar mais, de repente me sinto com vontade de fumar um também.
Não que eu esteja nervosa ou algo assim. Só estou querendo um cigarro.
— Desculpe-me — grita a recepcionista. — Esta é uma área de não-fumantes.
— Droga — diz a mulher numa voz irritada. Dá uma tragada forte, depois apaga o cigarro num cinzeiro e sorri para mim conspirando. — Você é uma convidada do programa? — pergunta ela.
— Sim — digo. — E você?
A mulher acena que sim. — Promovendo meu novo romance, Pôr-do-Sol Vermelho Sangue. Abaixa a voz para um tom emocionante. — Uma história quente de amor, ambição e morte, passada no mundo implacável dos lavadores de dinheiro da América do Sul.
— Nossa — digo. — Parece realmente...
— Vou lhe dar um exemplar — interrompe a mulher. Leva a mão para uma maleta Mulberry ao seu lado e tira um livro de capa dura de cores bem vivas. — Qual é mesmo seu nome?
Qual é mesmo, como se ela soubesse!
— E Ginevra — digo. — Ginevra Weasley.
— Para Ginny — a mulher diz alto enquanto escreve na página da frente. — Com amor e muito afeto. Assina com um floreio e me entrega o livro.
— Puxa — digo. — Obrigada... — Rapidamente olho para a capa "Elisabeth".
Elisabeth Plover. Para ser sincera, nunca ouvi falar nela.
— Deve estar imaginando como cheguei a saber tanta coisa sobre um mundo tão violento e perigoso — diz Elisabeth. Inclina-se para mim e me olha com grandes olhos verdes. — A verdade é que vivi com um lavador de dinheiro durante três longos meses. Eu o amava e aprendi com ele... e depois o traí. — Sua voz morre para um sussurro trêmulo. — Ainda me lembro do olhar que me deu quando a polícia o levou. Ele soube o que eu tinha feito. Soube que eu era seu Judas Escariotes. E mesmo assim, numa maneira estranha de ser, acho que me amou por isso.
— Uau — digo, impressionada sem querer. — Isso tudo aconteceu na América do Sul?
— Em Hove — diz ela, após uma breve pausa. — Mas os lavadores de dinheiro são iguais no mundo todo.
— Ginevra ? — diz uma voz, antes que eu pense numa resposta, e nós duas olhamos e vemos uma garota de cabelos escuros e macios, vestindo uma calça jeans e uma camisa preta de gola, vindo em nossa direção em passos rápidos. — Sou Zelda. Nos falamos ontem?
— Zelda! — exclama Elisabeth, levantando-se. — Como tem estado, minha querida? —Abre os braços e Zelda fixa o olhar nela.
— Sinto muito — diz ela — nós já... — Ela para. quando seu olhar cai sobre minha cópia de Pôr-do-Sol Vermelho Sangue. —Ah, sim, tem razão, Elisabeth. Um de nossos pesquisadores virá procurá-la num instante. Enquanto isso, sirva-se de um café. — Ela abre um sorriso, depois vira-se para mim. — Ginevra, está pronta?
— Sim! — digo ansiosa, pulando da cadeira. (Devo admitir, sinto-me bastante lisonjeada por ver Zelda vir me encontrar pessoalmente. Quero dizer, ela obviamente não faz isso com todos.)
— Prazer em conhecê-la — diz Zelda apertando minha mão. — Que bom tê-la no programa. Agora, como sempre, estamos completamente enlouquecidos, portanto se estiver bom para você, pensei que podíamos ir direto para o cabelo e a maquiagem e conversar no caminho.
— Claro — digo, procurando não parecer ansiosa demais. — Boa idéia.
Cabelo e maquiagem! Isto é superlegal!
— Houve uma pequena mudança de planos que eu preciso colocar você a par — diz Zelda. — Nada para se preocupar... Já tem alguma notícia de Bella? — acrescenta dirigindo a palavra à recepcionista.
A recepcionista balança a cabeça e Zelda murmura algo que parece "Sacana imbecil".
— Está bem, vamos — diz ela, encaminhando-se na direção de um par de portas giratórias. — Temo que tudo esteja mais louco do que o normal hoje. Um de nossos funcionários nos deu um bolo, portanto estamos procurando um substituto, e aconteceu um acidente na cozinha... — Ela empurra a porta giratória e agora estamos andando por um corredor acarpetado de verde, cheio de gente. — E ainda temos o Heaven Sent 7 hoje no programa — acrescenta por cima do ombro. — O que significa que a mesa telefônica fica congestionada com os fãs telefonando, e que nós precisamos achar espaço no vestiário para sete egos enormes.
— Certo — digo mostrando desinteresse. Mas de repente não consigo respirar. Heaven Sent 7? Mas quero dizer... Eles são realmente famosos! E eu vou aparecer no mesmo programa que eles! Vou conhecê-los e tudo, não vou? Talvez depois a gente saia para um drinque e nos tornemos muito bons amigos. Eles todos são um pouco mais novos que eu, mas isto não importa. Serei como sua irmã mais velha.
Ou talvez eu saia com um deles! Deus, sim. Aquele bonitinho com o cabelo preto. Nathan. (Ou é Ethan? Seja lá o nome que for.) Ele vai me notar depois do programa e, tranqüilamente, vai me convidar para jantar sem os outros. Iremos a algum restaurante pequeno e, no início, tudo será bem calmo e discreto, mas depois a imprensa vai descobrir e nos tornaremos um desses casais muito famosos que vão às premières o tempo todo. E eu vou usar...
— Bem, é aqui — diz Zelda, e eu olho encantada.
Estamos na entrada de uma sala revestida de espelhos e refletores. Três pessoas estão sentadas em cadeiras na frente dos espelhos, usando robes, e a maquiagem está sendo feita por garotas bem na moda usando jeans; outra está secando o cabelo no secador. Ao fundo toca uma música, há um nível de conversa amigável, e no ar há uma mistura de cheiros de spray de cabelo, pó-de-arroz e café.
É basicamente minha idéia de céu.
— Então — diz Zelda, levando-me na direção de uma garota com cabelo vermelho. — Chloe vai fazer sua maquiagem e depois vamos encaminhá-la ao guarda-roupa. Está bem?
— Tudo bem — digo, incapaz de impedir um sorriso maravilhado espalhando-se pelo meu rosto quando vejo a coleção de maquiagem de Chloe. Há zilhões de escovas, potes e tubos espalhados pela bancada à nossa frente, todos de marcas muito boas como Chanel e MAC.
Deus, que emprego fantástico. Eu sempre soube que deveria ter me tornado uma maquiadora.
— Agora, sobre a sua parte — continua Zelda quando me sento numa cadeira giratória. — Como disse, adotamos um formato um pouco diferente do que havíamos comentado previamente...
— Zelda! — vem a voz de um homem de fora. — Bella está na linha para você!
— Ah, merda — diz Zelda. — Olha, Ginevra, tenho que ir atender esta chamada, mas voltarei logo que puder, está bem?
— Claro! — digo feliz, enquanto Chloe joga uma capa em volta de mim e puxa meu cabelo para trás numa ampla faixa atoalhada. Ao fundo, o rádio toca minha música favorita de Lenny Kravitz. Isto não poderia ser mais perfeito.
— Vou só limpar e tonificar, e depois cobrir com uma base — explica Chloe. — Se puder fechar os olhos...
Fecho meus olhos e, depois de alguns segundos, sinto um líquido frio e cremoso sendo massageado no meu rosto. E a sensação mais deliciosa do mundo. Eu poderia ficar sentada ali o dia inteiro.
— E então — diz Chloe após um tempo. — O que você vai fazer no programa?
— Errm... finanças — respondo bastante vaga. — Uma parte sobre finanças.
Para ser sincera, me sinto tão relaxada que mal consigo lembrar o que estou fazendo aqui.
— Ah, sim — diz Chloe, espalhando eficientemente a base pelo meu rosto. — Estavam falando mais cedo sobre alguma coisa financeira. — Ela pega uma palheta de sombras para os olhos, mistura duas cores, depois pega uma escova. — Então você é uma especialista em finanças?
— Bem — digo, e encolho os ombros indicando modéstia. — Você sabe.
— Uau — diz Chloe, começando a aplicar sombra nas minhas pálpebras. — Não entendo nada de dinheiro.
— Nem eu! — opina uma garota de cabelo escuro do outro lado da sala. — Meu contador desistiu de tentar me explicar aquilo tudo. Quando diz a palavra "taxa anual", minha mente turva.
Estou quase respondendo solidariamente, "Eu também!" e começando um papo gostoso feminino. Mas justo a tempo percebo que poderia não soar muito bem. Em princípio, sou uma especialista financeira, afinal.
— É tudo bem simples, na verdade — acabo dizendo, e abro um sorriso confiante. — Quando se pega o gancho dos três princípios básicos.
— Verdade? — diz a garota de cabelo preto e pára com o secador na mão. — Quais são eles, então?
— Ah — digo, limpando a garganta. — Erm, bem, o primeiro é... — Paro e esfrego o nariz. Deus, minha mente está completamente vazia.
— Desculpe, Ginevra — diz Chloe — vou precisar interromper. — Graças a Deus por isso. — Agora, eu estava pensando num vermelho-cereja para os lábios. Está bem para você?
Com toda essa conversa, não prestei muita atenção ao que ela estava fazendo no meu rosto. Mas quando olho bem para minha imagem no espelho, não consigo acreditar. Meus olhos estão grandes; de repente tenho bochechas incrivelmente salientes... sinceramente, pareço uma pessoa diferente. Por que não uso maquiagem assim todos os dias?
— Uau! — exclamo. — Está fantástico!
— Está mais fácil porque você está muito calma — observa Chloe, levando a mão ao estojo preto. — Recebemos algumas pessoas aqui realmente tremendo de nervosas. Até celebridades. Quase não conseguimos fazer sua maquiagem.
— Verdade? — digo e me inclino para a frente, pronta para ouvir mais fofocas do meio. Mas a voz de Zelda nos interrompe.
— Me desculpe, Ginevra! — exclama ela. — Certo, como estamos indo? A maquiagem parece boa. E o cabelo?
— Está bem-cortado — diz Cbloe, pegando uns chumaços do meu cabelo e depois deixando-os cair novamente. - Só vou fazer uma escova para dar mais brilho.
— Está bem — diz Zelda. — E depois vamos levá-la ao guarda-roupa. — Ela olha para algo na sua prancheta e depois senta-se numa cadeira giratória ao meu lado. — Está bem, então, Ginevra, precisamos falar sobre sua parte.
— Excelente — digo, num tom profissional como o dela. — Bem, preparei tudo exatamente como você queria. Realmente simples e direto.
— Sim — diz Zelda. — Bem, é isto. Tivemos uma conversa na reunião de ontem, e você ficará feliz em ouvir que, afinal, não precisaremos ser tão básicos. — Ela sorri. — Você poderá ser tão técnica quanto desejar! Gráficos... números...
— Ah, certo — digo, surpresa. — Bem... que bom! Ótimo! Apesar de que talvez eu mantenha o assunto um pouco simplificado.
— Queremos evitar falar simplificadamente para o público. Quero dizer, eles não são débeis mentais! — Zelda abaixa a voz levemente. —Além disso, fizemos uma nova pesquisa de audiência ontem e, aparentemente, 80% sentem-se diminuídos com alguns ou todos os conteúdos do programa. Basicamente, precisamos retificar esse equilíbrio. Por isso tivemos uma mudança total de planos para sua parte! — Ela sorri para mim. — Em vez de uma entrevista simples, pensamos em ter um debate acalorado.
— Um debate acalorado? — repito, procurando não parecer tão alarmada quanto estou me sentindo.
— Claro! — diz Zelda. — O que queremos é realmente uma discussão apaixonada! Opiniões sendo emitidas, vozes se elevando. Esse tipo de coisa.
Opiniões? Mas eu não tenho nenhuma opinião.
— E então está bem? — diz Zelda franzindo a testa para mim. — Você parece um pouco...
— Estou bem! — Forço-me a um sorriso vivo. — Só . . . estou ansiosa para chegar o momento! Um debate acalorado. Ótimo! — Limpo minha garganta. — E... com quem estarei debatendo?
— Um representante da Flagstaff Life — diz Zelda triunfante. —Frente a frente com o inimigo. Será um grande show!
— Zelda! — surge uma voz de fora da sala. — Bella novamente!
— Ah, por Deus do céu! — diz Zelda, levantando-se de um pulo. — Ginevra, estarei de volta num segundo.
— Certo — consigo responder. — Vejo você num minuto.
— Tudo bem — diz Chloe com uma expressão alegre. — Enquanto ela está lá, deixe-me colocar aquele batom. — Ela pega uma escova comprida e começa a pintar meus lábios, e eu olho para minha imagem no espelho, tentando ficar calma; tentando não entrar em pânico. Mas meu coração está batendo forte e minha garganta está tão apertada que não consigo engolir. Nunca fiquei com tanto medo em toda minha vida.
Não posso falar num debate acalorado! Simplesmente não posso. Não tenho nenhuma opinião, não tenho nenhum número, não sei nada...
Ah, Deus, por que eu quis aparecer na televisão?
— Ginevra, pode tentar manter seus lábios quietos? — diz Chloe com uma expressão intrigada. — Eles estão tremendo muito.
— Desculpe — murmuro, olhando minha imagem como um coelho congelado. Ela está certa, estou tremendo toda. Ah, Deus, isto não é bom. Preciso me acalmar. Pensar zen. Pensar em coisas alegres.
Num esforço para me distrair, focalizo na minha imagem no espelho. Ao fundo posso ver Zelda em pé no corredor, falando num telefone com uma expressão furiosa no rosto.
— Hã — posso ouvi-la dizendo num tom áspero. — Hã. Mas o problema, Bella, é que pagamos a você uma taxa para ficar disponível. Que diabos eu devo fazer agora? — Ela procura, vê alguém e levanta uma mão cumprimentando. — Tudo bem, Bella, entendo que...
Uma mulher oriental e dois homens aparecem no corredor, e Zelda acena com a cabeça para eles desculpando-se. Não consigo ver seus rostos, mas estão usando sobretudos bonitos e segurando pastas, e um dos homens tem um arquivo inchado de tanto papel. O manto da mulher oriental é bem bonito, fico pensando. E está com uma maleta de pele de pônei Fendi. Quem será ela?
— Hã-hã — Zelda está dizendo. — Hã-hã. Bem, se você puder sugerir um tema alternativo para ligações...
Ela levanta as sobrancelhas para a mulher oriental, que encolhe os ombros e vira para outro lado para olhar para um cartaz na parede. E quando faz isso, meu coração quase pára de funcionar.
Porque a reconheço. É Cho. É Cho, da Potter Communications, em pé, a cinco metros de distância de mim.
Quase tenho vontade de rir da incongruência disso tudo.O que ela está fazendo aqui? O que Cho Sacana Pernas Compridas está fazendo aqui, pelo amor de Deus?
Um dos homens se vira para dizer algo a ela e quando vejo seu rosto, acho que o reconheço também. E outro do grupo da Potter C, não é? Um desses tipos jovens ansiosos com rosto de bebê.
Mas que diabos eles estão fazendo aqui? O que está acontecendo? Certamente não pode ser...
Eles não podem estar todos aqui por causa de...
Não. Ah, não. De repente me sinto com frio.
— Harry! — vem a voz de Zelda do corredor, e meu estômago começa a se agitar. — Estou muito feliz por você ter podido vir. Sempre adoramos ter você no programa. Sabe, não tinha a menor idéia de que você representava a Flagstaff Life, até Sandy dizer...
No espelho, posso ver meu rosto perdendo a cor.
Isto não está acontecendo. Por favor diga-me que isto não está acontecendo.
— A jornalista que escreveu o artigo já está aqui — Zelda está dizendo — e já a informei do que está acontecendo. Acho que vai ser um excelente programa o debate entre os dois!
Ela começa a andar pelo corredor e, pelo espelho, vejo Cho e o jovem ansioso
começarem a segui-la. Depois o terceiro homem de sobretudo começa a aparecer. E apesar de meu estômago estar doloridamente agitado, não consigo evitar. Lentamente giro minha cabeça quando ele passa pela porta.
Encontro os olhos graves e verdes de Harry Potter e ele encontra os meus e, por alguns segundos mais, nós nos olhamos. Depois, repentinamente ele desvia o olhar e se distancia descendo o corredor. E eu sou deixada olhando sem ação minha imagem pintada, sentindo-me doente de pânico.
ITENS PARA ENTREVISTA NA TELEVISÃO
CONSELHOS FINANCEIROS SIMPLES E BÁSICOS
1. Prefere relógio/vinte mil libras? Óbvio.
2. Flagstaff Life enganou clientes inocentes. Cuidado.
Ermm. . .
3. Sempre tenha cuidado com seu dinheiro.
4. Não coloque tudo num só investimento, diversifique.
5. Não perca por engano.
6. Não
COISAS QUE SE PODE COMPRAR COM
VINTE MIL LIBRAS
1. Um bom carro, por exemplo, um BMW pequeno
2. Colar de pérolas e brilhante da Asprey's mais um grande anel de brilhante
3. 3 vestidos de noite de alta-costura, por exemplo, de John Galliano
4. Um excelente piano Steinway
5. 5 lindos sofás de couro da loja Conran
6. 52 relógios Gucci, mais uma bolsa
7. Flores entregues todo mês durante quarenta e dois anos
8. 55 filhotes de labrador com pedigree
9. 80 coletes de cashmere
10. 666 sutiãs lindos da marca Wonderbras
11. 454 potes de creme hidratante Helena Rubinstein
12. 800 garrafas de champanhe
13. 2.860 pizzas da Fiorentina
14. 15.384 tubos de batatas Pringles
15. 90.909 pacotinhos de Pólos
16.
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