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17. Cap Dezessete


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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DEZESSETE

Eu nunca tinha trabalhado com tanto empenho num artigo antes. Nunca.

Note bem, nunca tinham me pedido para escrever em tão pouco tempo. Na Successfuí Saving, temos um mês inteiro para escrever nossos artigos e reclamamos disso. Quando Eric Foreman perguntou "Você pode fazê-lo até amanhã?", de início achei que estava trincando. Alegremente respondi "Claro!", e quase acrescentei "Na verdade, eu vou mandá-lo para você em cinco minutos!" Depois, bem a tempo, percebi que estava falando sério. Caramba!

Sendo assim, bem cedo na manhã seguinte, a primeira coisa que faço é ir à casa de Martin e Janice com um gravador e anotar exatamente tudo sobre seu investimento e procurar conseguir muitos detalhes de partir o coração, conforme a orientação do Eric.

— Precisamos de interesse humano — ele me disse pelo telefone. — Nada de suas reportagens financeiras chatas aqui. Faça-nos lamentar por eles. Faça-nos chorar. Um casal trabalhador, comum, que pensou que poderia confiar em algumas poupanças para assegurar sua velhice. Enganados por empresários gananciosos. Como é a casa deles?

— Hã... uma casa de quatro quartos, em Surrey.

— Bem, por Cristo não inclua isto! — berrou. — Quero pessoas honestas, pobres e orgulhosas. Nunca pediram um centavo ao governo, economizaram para si. Confiaram numa instituição financeira respeitável. E tudo o que ela fez foi dar-lhes um chute no traseiro. — Parou e soou como se estivesse palitando os dentes. — Esse tipo de coisa. Acha que consegue fazer?

— Eu... hã... sim! Claro! — gaguejo.

Ah, Deus, pensei quando coloquei o fone no gancho. Ah, Deus, no que eu fui me meter?

Mas é tarde demais para mudar de idéia agora. Portanto, a próxima coisa a fazer é convencer Janice e Martin da importância de aparecer no Daily World. O problema é que não é exatamente o Financial Times, é? Ou mesmo o Times normal. (Ainda assim, como lembro a eles, poderia ser muito pior. Poderia ser o Sun — e eles terminariam espremidos entre uma modelo de topless e uma foto de paparazzi borrada de uma das Spice Girls.)

Por sorte, contudo, eles estão tão perplexos por eu estar fazendo todo este esforço em seu benefício que não parecem se importar para que jornal estou escrevendo. E quando ouvem dizer que um fotógrafo virá tirar uma foto sua ao meio-dia, você pensaria que a rainha está vindo fazer-lhes uma visita.

— Meu cabelo! — diz Janice apavorada, olhando para o espelho. — Será que dá tempo para a Maureen me fazer uma escova?
— Não exatamente. E ele está lindo — digo tranqüilizando-a. — De qualquer modo, eles querem que você esteja o mais natural possível. Só... uma pessoa honesta, comum. — Examino a sala de estar procurando distinguir detalhes pungentes para incluir no meu artigo.

Um cartão de aniversário de seu filho está orgulhosamente colocado em cima da lareira. Mas este ano não haverá celebração para Martin e Janice Longbottom.

— Preciso telefonar para Phyllis! — diz Janice. — Ela não vai acreditar!

— Você nunca foi um soldado ou algo assim? — pergunto a Martin pensativa. — Ou um... bombeiro? Qualquer coisa no gênero. Antes de tornar-se um agente de viagens.

— Não, querida — diz Martin, enrugando a sobrancelha. — Só um cadete na escola.

— Ah, está bem. Isto pode servir.

Martin Longbottom alisa com os dedos o distintivo de cadete que tanto se orgulhava de usar na juventude. Sua vida foi de trabalho árduo e servir aos outros. Agora, nos anos da sua aposentadoria, ele deveria estar aproveitando as recompensas que merece.

Mas os empresários gananciosos o enganaram e o arrancaram de seu ninho de segurança.

O Daily World pergunta...

— Eu tirei cópias de todos os documentos para você — diz Martin. — Toda a papelada. Não sei se terá alguma utilidade...

— Ah, obrigada — digo, pegando a pilha de papéis com ele. — Farei uma boa leitura disso.

Quando o honesto Martin Longbottom recebeu uma carta da Flagstaff Life convidando-o para trocar de fundo de investimento, ele confiou que os homens do dinheiro saberiam o que era melhor para ele.

Duas semanas mais tarde descobriu que eles o tinham traído e perdeu uma bonificação de vinte mil libras.

— Minha esposa está doente em conseqüência disto — disse ele. — Estou muito preocupado.

Humm.

— Janice? — digo olhando para ela casualmente. — Você está se sentindo bem? Não está... mal, ou algo assim?

— Um pouco nervosa, para ser sincera, querida — diz ela olhando em volta, ao desviar o olhar do espelho. — Nunca sou muito boa em tirar fotografias.

— Meus nervos estão em frangalhos — disse a Sra. Longbottom numa voz cansada. — Nunca me senti tão traída em toda minha vida.

— Bem, acho que tenho o suficiente agora — afirmo levantando e desligando meu gravador. — Talvez eu precise sair um pouquinho do que está na fita, só para fazer a história funcionar. Vocês não se importam, não é?

— Claro que não! — diz Janice. — Escreva o que quiser, Gina! Confiamos em você.

— E então o que vai acontecer agora? — pergunta Martin.


— Vou precisar falar com a Flagstaff Life — digo.— Ouvir o que eles têm a dizer em sua defesa.

— Que defesa? — diz Martin. — Não há defesa para o que eles nos fizeram!

— Eu sei — digo e sorrio para ele. — Exatamente.

Quando volto para casa e subo para o meu quarto, estou cheia de adrenalina, feliz. Tudo o que preciso fazer é conseguir uma declaração da Flagstaff Life e posso começar a escrever a matéria. Não tenho muito tempo: o artigo precisa estar pronto até as 14:00 se vai estar na edição de amanhã. Deus, isto é excitante. Por que o trabalho nunca tinha parecido tão estimulante antes disso?

Rapidamente pego o fone e disco o número da Flagstaff — só para ouvir da telefonista que todas as perguntas da imprensa são tratadas fora da empresa. Ela me dá um número que me parece bastante familiar e eu faço uma careta para ele por um instante, depois disco.

— Alô - diz uma voz suave. — Potter Communications.

Ah, Deus, claro. De repente sinto-me um pouco trêmula. A palavra "Potter" me bateu fundo no estômago como um soco. Eu havia esquecido completamente de tudo a respeito de Harry Potter. Para ser sincera, tinha me esquecido de tudo a respeito do resto da minha vida. E, francamente, não quero me lembrar disso.

Mas está bem não preciso falar com ele pessoalmente, não é?

— Olá — digo. —Aqui é Ginevra Weasley. Ermm... Eu só queria falar com alguém sobre a Flagstaff Life.


— Deixe-me verificar... — diz a voz. — Sim, é cliente de Harry Potter. Vou colocá-la em contato com sua assistente... — E some antes que eu possa dizer alguma coisa.

Ah, Deus.

Ah, Deus, não posso fazer isto. Não posso falar com Harry Potter. Minhas perguntas estão escritas num pedaço de papel, na minha frente, mas olho para elas e não as consigo ler. Estou relembrando a humilhação que senti naquele dia na Harrods. Aquele soco horrível no meu estômago quando ouvi o tom de superioridade na voz dele e de repente percebi o que pensava de mim. Uma brincadeira. Uma nada.

Tudo bem, eu consigo fazer isto, digo a mim mesma com firmeza. Consigo fazer isto. Só serei muito séria e profissional, farei minhas perguntas e...

— Ginevra! — surge uma voz no meu ouvido. — Como vai! Aqui é Cho.

— Ah! — digo surpresa. — Pensei que iria falar com Harry. E sobre a Flagstaff Life.

— Sim, bem — diz Cho. — Harry Potter é um homem muito ocupado. Tenho certeza de que posso responder qualquer pergunta que você tenha para fazer.

— Ah, claro — digo e faço uma pausa. — Mas eles não são seus clientes, são?

— Tenho certeza de que isto não importa neste caso — diz ela e dá uma risadinha. — O que você queria saber?

— Certo — digo e olho para minha lista. — Foi uma política deliberada da Flagstaff Life convidar seus investidores a saírem dos fundos com lucros logo antes de anunciarem as bonificações? Algumas pessoas perderam muito dinheiro, você sabe.

— Certo... — diz ela. — Obrigada, Camilla, vou querer salmão defumado com alface.

— O quê? — digo.

— Desculpe, sim, estou ouvindo — diz ela. — Só estou tomando nota... Creio que vou precisar de um tempo para te dar esta resposta.

— Bem, eu preciso de uma resposta logo! — digo. — Meu prazo é de algumas horas apenas.

— Entendi — diz Cho. De repente sua voz fica abafada. — Não, salmão defumado. Está bem, então frango chinês. Sim. — O abafado desaparece. — Então, Ginevra, tem outras perguntas? Olha, não seria melhor eu lhe mandar nosso último kit da imprensa? Ele deve responder qualquer outra dúvida. Ou você poderia enviar suas perguntas por fax.

— Está bem — digo bruscamente. — Está bem, eu farei isso. — E coloco o fone no gancho.
Por um momento olho para a frente num silêncio melancólico. Sua estúpida, metida a superior. Nem se dá ao trabalho de levar a sério as minhas perguntas.

Depois, aos poucos, percebo que esta é a forma que sempre sou tratada quando telefono para as assessorias de imprensa. Ninguém jamais tem pressa em responder minhas perguntas, tem? As pessoas sempre me deixam esperando, dizem que vão me telefonar mais tarde e não se preocupam. Eu nunca me importei com isso — na verdade, até gostei de ficar esperando no telefone ouvindo a música "Greensleeves" (pelo menos é melhor que trabalhar). Nunca me importei antes se as pessoas me levavam a sério ou não.

Mas hoje eu me importo. Hoje o que estou fazendo realmente parece importante, e eu quero ser levada a sério.

Bem, vou mostrar a ela, penso com raiva. Vou mostrar a todos eles, incluindo Harry Potter. Vou mostrar-lhes que eu, Ginevra Weasley, não sou uma piada.

Com uma repentina determinação, pego a máquina de escrever de meu pai. Coloco papel, ligo meu gravador, respiro profundamente e começo a datilografar.








































Ginevra Weasley
THE PINES
43 ELTON ROAD
OXSHOTT
SURREY



MENSAGEM DE FAX PARA ERIC FOREMAN
DAILY WORLD

DE REBECCA BLOOM


28 de março de 2000

Prezado Eric

Envio, em anexo, meu artigo de 950 palavras sobre a Flagstaff Life e as bonificações perdidas. Espero sinceramente que você goste.


Atenciosamente


Ginevra Weasley
Jornalista Econômica




















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