DEZESSEIS
Quando apareço na casa de meus pais naquela tarde, sem nenhum aviso, dizendo que quero ficar por alguns dias, não posso dizer que parecem chocados ou até surpresos.
Na verdade, parecem tão pouco surpresos que começo a pensar se estiveram esperando por esta eventualidade o tempo todo, desde que me mudei para Londres. Será que, a cada semana, ficaram esperando que eu chegasse na porta de casa sem bagagem e com os olhos vermelhos? Certamente estão se comportando tão calmos como uma equipe de médicos atuando num procedimento de emergência que só foi ensaiado na semana passada.
Exceto que certamente a equipe de médicos não ficaria o tempo todo perguntando sobre a melhor maneira de ressuscitar o paciente. Depois de alguns minutos, sinto vontade de ir lá fora e tocar a campanhia de novo enquanto eles decidem sobre seu plano de ação.
— Vá lá para cima e tome um bom Banho quente —diz mamãe, assim que coloco no chão minha bagagem de mão. — Imagino que esteja exausta!
— Ela não precisa tomar um banho se não quiser! — retruca papai. — Quem sabe prefere um drinque! Quer um drinque, minha querida?
— Isto tem cabimento? — pergunta mamãe, enviando-lhe um olhar significativo de "E Se Ela For Uma alcoólatra?" que, supostamente, eu não deveria perceber.
—Não quero um drinque, obrigada — digo. — Mas adoraria uma xícara de chá.
—Claro! — diz mamãe. — Arthur, vá lá e acenda a chaleira. — E envia-lhe um outro olhar significativo. Logo que ele desaparece na cozinha, ela se aproxima mim e diz, numa voz mais baixa,
—Você está bem, querida? Tem alguma coisa... errada?
Ah, Deus, não há nada como a voz preocupada de nossa mãe quando nos sentimos deprimidos para nos cair no choro.
— Bem — digo, numa voz levemente insegura. - As coisas já estiveram melhor. Só estou... numa situação um pouco difícil no momento. Mas vai ficar bem no final. — Encolho um pouco os ombros e o olhar.
— Porque... — ela abaixa a voz mais ainda. — Seu pai não é tão antiquado quanto parece. E eu sei que se fosse o caso de nós cuidarmos de um... um bebê, enquanto você prossegue na sua carreira...
O quê?
—Mamãe, não se preocupe! — exclamo prontamente. — Não estou grávida!
—Eu nunca disse que estava — diz ela e cora um pouco. — Só queria oferecer a você nosso apoio.
Droga, viu como são meus pais? Eles assistem a novelas demais, este é o problema. De fato , e provável que estivessem ansiosos para eu estar grávida. Do meu amante malvado e casado a quem eles poderiam então matar e enterrar no jardim.
E que negócio é esse de "oferecer a você nosso apoio", afinal? Minha mãe nunca diria isto antes de começar a assistir Ricki Lake toda tarde.
—Bem, vamos — diz ela. — Vamos sentar e tomar uma boa xícara de chá.
E assim eu a sigo em direção à cozinha e nós todos sentamos para uma boa xícara de chá. E, devo dizer, é muito bom. Chá quente forte e um biscoito de bourbon com chocolate. Perfeito. Fecho meus olhos e tomo alguns goles, depois abro-os novamente, para ver ambos me observando com uma curiosidade que se percebe no rosto deles. Imediatamente minha mãe muda a expressão para um sorriso e meu pai dá uma tossida — mas consigo ver, eles estão se contendo para não perguntar o que há de errado.
— Então — digo cautelosa, e ambos levantam a cabeça. — Vocês dois estão bem, não é?
— Ah, sim — diz minha mãe. — Sim, nós estamos bem.
Segue-se um outro silêncio.
— Gina? — diz meu pai com voz grave, e mamãe e eu nos viramos para fitá-lo. — Você está com algum tipo de problema que deveríamos saber? Só nos diga se quiser — ele logo acrescenta. — E quero que saiba: estamos do seu lado.
Esta é outra droga que viram na TV também. Meus pais deviam realmente sair um pouco mais.
— Você está bem, querida? — diz mamãe suavemente, e soa tão doce e compreensiva que, involuntariamente me vejo apoiando a xícara na mesa com a mão trêmula dizendo:
— Para falar a verdade, estou numa situação difícil. Não queria preocupar vocês, por isto não disse nada até agora... — Posso sentir as lágrimas correndo no meu rosto.
— Que é isto? — diz mamãe numa voz de pânico. — Ah, Deus, você não está usando drogas, está?
— Não, não estou usando drogas! — exclamo. - Só estou... E só que eu... Eu — Tomo um bom gole de chá. Anda, Ginevra, simplesmente diga.
Fecho os olhos e comprimo minhas mãos bem forte em torno da caneca.
— A verdade é... — digo lentamente.
— Sim? — diz mamãe.
— A verdade é... —Abro os olhos. — Estou sendo perseguida. Por um homem chamado... chamado Derek Smeath.
Faz-se silêncio até ouvir-se um longo assobio quando meu pai respira fundo.
—Eu sabia! — diz minha mãe numa voz aguda e frágil. — Eu sabia! Eu sabia que havia algo errado!
— Nós todos sabíamos que havia algo errado! – diz meu pai e apóia os cotovelos
fortemente sobre a mesa. — Há quanto tempo isto está acontecendo, Gina?
— Ah, ahn... há meses — digo, olhando dentro do meu chá. — Está só... incomodando, na verdade. Não é tão sério ou algo assim. Mas eu simplesmente não conseguia mais lidar com aquilo.
— E quem é esse Derek Smeath? — pergunta papai. — Nós o conhecemos?
— Creio que não. Eu o conheci... eu o conheci através do trabalho.
— Claro que sim! — diz mamãe. — Uma garota jovem e bonita como você, com uma carreira de sucesso... Eu sabia que isto iria acontecer!
— Ele é jornalista também? — pergunta papai e eu balanço a cabeça.
— Trabalha para o Endwich Bank. Faz coisas como... como ligar e fingir que é responsável pela minha conta no banco. Ele é realmente convincente.
Há um silêncio enquanto meus pais digerem isto e eu como outro chocolate com bourbon.
—Bem — diz mamãe, finalmente. — Acho que devemos ligar para a polícia.
—Não! — exclamo, cuspindo restos pela mesa toda. — Não quero a polícia! Ele nunca me ameaçou ou algo assim. Na realidade, não é um invasor de forma alguma. Ele só é um saco. Achei que se eu desaparecesse por um tempo...
— Entendo — diz papai e olha para mamãe. — Bem, isto faz sentido.
— Então o que sugiro — digo, entrelaçando minhas mãos apertadas no meu colo — é que se ele telefonar, vocês digam que viajei para o exterior e vocês não têm um número de onde estou. E... se alguém mais ligar, digam a mesma coisa. Até Mione.
— Tem certeza? — diz mamãe, franzindo a sobrancelha. — Não seria melhor ir à polícia?
— Não! — digo rápido. — Isto só o faria sentir-se importante. Só quero desaparecer por um tempo.
— Está bem — diz papai. — Da minha parte, você não está aqui.
Ele estende sua mão por cima da mesa e aperta minha mão. E quando vejo a preocupação em seu rosto, me odeio pelo que estou fazendo. Sinto-me tão culpada que, por um instante, acho que poderia simplesmente cair no choro e dizer-lhes tudo, de verdade.
Mas... não posso fazer isto. Simplesmente não posso contar aos meus pais, gentis e amorosos, que sua filha tida como tão bem-sucedida com seu dito emprego de alto nível é, na realidade, uma desorganizada, uma... fraude, com dívidas até o pescoço.
E assim, jantamos (empadão da Cumberland Waitrose) e assistimos juntos a uma adaptação de Agatha Christie. Depois, subo as escadas em direção ao meu antigo quarto, visto uma camisola velha e vou para a cama. E quando acordo na manhã seguinte, me sinto feliz e descansada como não me sentia há semanas.
Acima de tudo, olhando para o teto de meu velho quarto, sinto-me segura. Isolada do mundo, embrulhada em lã de algodão, como num casulo. Ninguém pode me pegar aqui. Ninguém nem sabe que estou aqui. Eu não vou receber nenhuma carta malcriada e não vou receber visitas desagradáveis. E como um santuário.
Toda a responsabilidade foi tirada dos meus ombros. Sinto-me como se tivesse quinze anos novamente, sem ter nada com que me preocupar exceto meu dever de casa (e eu nem tenho nenhum).
São pelo menos nove horas quando acordo e levanto da cama e, quando faço isso, me lembro que a muitos quilômetros dali, em Londres, Derek Smeath está esperando que eu chegue para uma reunião daqui à meia hora. Sinto uma leve dorzinha no estômago e por um instante penso em telefonar para o banco e dar alguma desculpa. Mas, mesmo quando estou pensando nisso, sei que não vou fazê-lo. Nem quero lembrar da existência do banco. Quero esquecer tudo isso.
Nada disso existe mais. Nem o banco, nem o VISA. nem a Octagon. Tudo eliminado da minha vida, num piscar de olhos.
O único telefonema que dou é para o escritório, pois não quero que eles me demitam na minha ausência. Telefono às 9:20 — antes de Philip chegar — e falo com Mavis, na recepção.
— Alô, Mavis? — digo grasnando. —Aqui é Ginevra Weasley. Pode dizer ao Philip que estou doente?
— Ah, coitada! — diz Mavis. — É bronquite?
— Não estou bem certa—resmungo. —Tenho uma hora no médico mais tarde. Preciso ir. Tchau.
E pronto. Um telefonema e estou livre. Ninguém suspeita de nada, por que deveriam? Sinto-me leve de alívio. E tão fácil escapar. Tão simples. Eu devia ter feito isto há muito tempo.
No fundo da minha mente, como um pequeno gremlin mau, está a consciência de que não poderei ficar aqui para sempre. De que, mais cedo ou mais tarde, as coisas começarão a me pegar.
Mas, pelo menos, não vai ser agora. Não por um bom tempo ainda. E por enquanto não vou pensar nisso. Só vou tomar uma boa xícara de chá, assistir ao programa Morning Coffee e esvaziar minha cabeça completamente.
Quando entro na cozinha, papai está sentado à mesa, lendo o jornal. Há um aroma de torrada no ar e o rádio está ligado ao fundo. Exatamente como quando eu era mais jovem e morava em casa. A vida era simples, naquela época. Era tão fácil. Nenhuma conta, nenhuma exigência, nenhuma carta ameaçadora. Uma enorme onda de nostalgia me domina e me afasto para encher a chaleira, piscando levemente.
— Notícia interessante — comenta papai, apontando para o Daily Telegraph.
— Ah, é? — digo, introduzindo um saquinho de chá numa caneca. — Do que se trata?
— A Scottish Prime assumiu o controle da Flagstaff Life.
— Ah, sim — digo vagamente. — Isso mesmo. Acho que já tinha ouvido falar que isto ia acontecer.
— Todos os investidores da Flagstaff Life vão receber bonificação. A maior já recebida, aparentemente.
— Minha nossa — digo, procurando parecer interessada. Pego um exemplar da Good Housekeeping, abro e começo a ler meu horóscopo.
Mas alguma coisa está perturbando minha mente. Flagstaff Life. Por que soa tão familiar? Com quem eu estava falando sobre...
— Martin e Janice da casa ao lado! — exclamo de repente. — Eles têm Flagstaff Life! Já há quinze anos.
— Então vão se dar tem — diz papai. — Quanto mais tempo, mais dinheiro a receber, aparentemente.
Ele vira a página com um estalo e eu me sento à mesa com minha caneca de chá e a Good Housekeeping aberta num artigo sobre como fazer bolos de Páscoa. Não é justo, me percebo pensando ressentida. Por que eu não posso receber um pagamento de bonificação? Por que o Endwich Bank não muda de dono? Aí eles poderiam me pagar uma bonificação suficientemente grande para saldar minha dívida com o cheque especial. E, de preferência, demitir Dereh Smeath ao mesmo tempo.
— Algum plano para hoje? — diz papai olhando para mim.
— Não exatamente — digo e tomo um gole de chá. Algum plano para o resto da minha vida? Não exatamente.
Finalmente, passo uma manhã agradável e sem desafios ajudando mamãe a separar uma pilha de roupas para um bazar, e às 12:30 entramos na cozinha para fazer um sanduíche. Quando olho para o relógio, o fato de que eu deveria estar no Endwich Bank três horas atrás passa num flash pela minha cabeça — mas muito longe, como um som distante.
Toda minha vida em Londres parece remota e irreal agora. É aqui que pertenço. Longe da multidão enlouquecida, em casa com meus pais, vivendo um período calmo e sem complicações.
Após o almoço, passeio pelo jardim com um dos catálogos de compra por correio de minha mãe e vou me sentar no banco sob a macieira. Um instante depois, ouço uma voz do outro lado da cerca e olho. É Martin da casa ao lado. Humm. Não estou me sentindo muito inclinada a conversar com o Martin no momento.
— Olá, Gina — diz ele suavemente. — Você está bem?
— Estou bem, obrigada — respondo logo. E não gosto de seu filho, sinto vontade de acrescentar. Mas depois, é provável que achem que eu estava negando, não é?
— Gina— diz Janice, aparecendo ao lado de Martin, com uma espátula nas mãos. E me dirige um olhar de apavorada. — Soubemos de seu... perseguidor — murmura ela.
— É criminoso — comenta Martin irritado. — Essas pessoas deveriam estar atrás das grades.
— Se houver alguma coisa que possamos fazer — diz Janice. — Qualquer coisa. E só nos informar.
— Estou bem, realmente — digo eu, levemente mais suave com eles. — Só quero ficar aqui por um tempo. Sair disso tudo.
— Claro que sim — diz Martin. — Garota esperta.
— Eu estava dizendo ao Martin esta manhã — diz Janice — que você deveria contratar um segurança.
— Cuidado nunca é demais — diz Martin. — Não nos dias de hoje.
— O preço da fama — diz Janice, balançando a cabeça penalizada — Preço da fama.
— Bem — digo eu, procurando me afastar do assunto do meu perseguidor. — Como estão passando?
— Ah, estamos os dois bem — diz Martin. — Eu suponho. — Para minta surpresa, há uma alegria levemente forçada na sua voz. Faz-se uma pausa e ele olha para Janice, que franze a sobrancelha e balança ligeiramente a cabeça.
— De qualquer modo vocês devem estar contentes com as notícias — digo alegre. — Sobra a Flagstaff Life.
Faz silêncio.
— Bem — diz Martin. — Estaríamos.
— Ninguém poderia saber — diz Janice, encolhendo os ombros. — E uma dessas coisas. Foi jogar com a sorte.
— O que é? — digo confusa. — Pensei que vocês estavam recebendo alguma bonificação enorme.
— Parece... — Martin coca o rosto. — Parece que não no nosso caso.
— Mas... mas por quê?
— Martin telefonou para eles esta manhã — diz Janice. — Para ver quanto nós estaríamos recebendo. Eles estavam dizendo nos jornais que os investidores antigos estariam recebendo milhares de libras. Mas... — Ela olha para Martin.
— Mas o quê? — digo, sentindo uma pontada de alarme.
— Aparentemente não temos mais direito — diz Martin estranho. — Desde que mudamos nosso investimento. Nosso fundo antigo teria se qualificado, mas... — Ele tosse. — Quero dizer, vamos receber alguma coisa, mas serão apenas umas 100 libras.
Olho para ele estupefata.
— Mas vocês só trocaram...
— Duas semanas atrás —diz ele. — Esta é a ironia. Se tivéssemos segurado só um pouquinho mais... Ainda assim, o que está feito está feito. Não tem cabimento lamentar sobre isto. — Ele encolhe os ombros indicando resignação, e sorri para Janice, que sorri de volta.
E eu desvio o olhar e mordo meu lábio.
Porque uma sensação fria e desagradável está me subindo. Eles tomaram a decisão de trocar seu investimento baseados na minha orientação, não foi? Eles me perguntaram se deveriam trocar de fundos, e eu disse vá em frente. Mas agora que estou pensando nisso... eu já não tinha ouvido um boato sobre essa fusão? Ah, Deus. Eu já sabia? Eu poderia ter evitado isso?
— Nós não poderíamos jamais ter sabido que essas bonificações iriam acontecer — diz Janice e deita sua mão confortadora sobre o braço dele. — Eles mantêm essas coisas em segredo até o último minuto, não é assim, Gina?
Minha garganta está muito apertada para eu responder. Agora consigo me lembrar de tudo. Foi Cho quem primeiro mencionou a fusão. No dia anterior à minha vinda para cá. E depois Philip disse alguma coisa sobre isso no escritório. Algo sobre acionistas com vantagens indo bem. Exceto... que na verdade eu não estava ouvindo. Acho que estava fazendo minhas unhas naquele momento.
— Eles calculam que nós teríamos recebido vinte mil libras se tivéssemos permanecido com eles — diz Martin, inconsolável. — Fico doente só de pensar. Mas , mesmo assim, Janice está certa. Não poderíamos ter sabido. Ninguém sabia.
Ah, Deus. É tudo minha culpa. Se pelo menos eu tivesse usado meu cérebro e pensado pelo menos uma vez na vida...
— Ah, Gina, não fique com essa cara desconcertada! — diz Janice. — Isto não é culpa sua! Você não sabia! Ninguém sabia! Nenhum de nós poderia...
— Eu sabia — ouço-me dizer miserável.
Há um silêncio de surpresa.
— O quê? — diz Janice quase sem voz.
— Eu não sabia exatamente — digo, olhando para o chão. — Mas ouvi uma espécie de boato sobre isso um tempo atrás. Eu deveria ter dito algo quando me perguntaram. Deveria tê-los avisado para aguardarem. Mas eu simplesmente... não pensei. Eu não me lembrei. — Forço-me a olhar para eles e encontrar o olhar espantado de Martin. — Eu... realmente sinto muito. Foi tudo minha culpa.
Faz-se um silêncio, durante o qual Janice e Martin se olham e eu curvo os ombros, me odiando. Dentro, posso ouvir o telefone tocando e passos de alguém que se encaminha para atender.
— Compreendo — diz Martin finalmente. — Bem... não é para se preocupar. Essas coisas acontecem.
— Não se culpe, Gina —diz Janice gentilmente. — Foi nossa decisão trocar de fundos, não sua.
— E lembre-se, você tem estado sob muita pressão recentemente — acrescenta Martin, mostrando compreensão com sua mão sobre meu braço — E esse negócio desagradável de perseguição.
Agora eu realmente acho que vou chorar. Não mereço a bondade dessas pessoas. Acabei de levá-las a um prejuízo de vinte mil libras, só por ser preguiçosa demais para me manter em dia com os acontecimentos que deveria saber. Sou uma jornalista econômica, pelo amor de Deus.
E de repente, ali de pé no jardim dos meus pais, caio na maré mais baixa de minha vida. O que tenho a meu favor? Nada. Nem uma única coisa. Não consigo controlar meu dinheiro, não consigo fazer meu trabalho e não tenho um namorado. Feri minha melhor amiga, menti para meus pais e agora arruinei meus vizinhos. Eu devia desistir e ir para um mosteiro budista ou algo assim.
— Gina?
A voz de meu pai nos interrompe e eu olho para ele surpresa. Ele vem caminhando pela grama na nossa direção, com uma expressão perturbada no rosto.
— Gina, não fique alarmada — diz ele —, mas acabei de falar com aquele camarada, Derek Smeath, ao telefone.
— O quê? — digo, sentindo meu rosto esvaziar-se de horror.
— O perseguidor? — exclama Janice, e papai acena sobriamente que sim.
— Um camarada bem desagradável, eu diria. Estava realmente bem agressivo comigo.
— Mas como ele sabe que Gina está aqui? — diz Janice.
— Obviamente só estava jogando com a sorte — diz papai. — Eu fui bastante civilizado, simplesmente disse a ele que você não estava aqui e que eu não tinha idéia de onde estava.
— E... e o que ele disse? — pergunto numa voz estrangulada.
— Veio com uma história de uma reunião que você teria marcado com ele. — Papai balança a cabeça. — O camarada está obviamente enganado.
— Você deveria trocar o número do seu telefone — aconselha Martin. — Ficar fora da lista.
— Mas de onde ele estava telefonando? — pergunta Janice, elevando a voz alarmada. — Ele pode estar em qualquer lugar! — Ela começa a olhar agitada pelo jardim como se esperando que ele surgisse por trás de um arbusto.
— Exatamente — diz papai. — Portanto, Gina, acho que talvez você devesse entrar agora. Nunca se sabe com esses tipos.
— Está bem — digo quase sem voz. Quase não consigo acreditar que isto está acontecendo. Olho para o rosto gentil e preocupado de papai e de repente sinto vontade de desmoronar em lagrimas. Ah, por que não contei a ele e a mamãe a verdade? Por que me deixei entrar nesta situação?
— Você parece bastante aturdida, querida — diz Janice e me acaricia batendo de leve no ombro. —Vá e tome uma boa xícara de chá.
— Sim — digo eu. — Sim, acho que irei.
E papai me leva gentilmente em direção à casa, como se eu fosse alguma espécie de inválida.
Isto está ficando fora de controle. Agora, não só me sinto um fracasso absoluto, como não me sinto mais segura. Não me sinto isolada e segura, sinto-me exposta e nervosa. Sento-me no sofá ao lado de minha mãe, tomando chá e assistindo a Countdown, e toda vez que há um barulho lá fora, dou um pulo de nervoso.
E se Derek Smeath está a caminho daqui? Quanto tempo ele levaria para vir de Londres até aqui dirigindo? Uma hora e meia? Duas, se o trânsito estiver ruim?
Não faria isso. E um homem ocupado.
Mas poderia.
Ou mandar os agentes da polícia atrás de mim. Ah, Deus. Homens ameaçadores em jaquetas de couro. Meu estômago está apertado de medo. Estou começando a me sentir como se tivesse mesmo um perseguidor.
Quando o intervalo de anúncios começa, minha mãe pega um catálogo cheio de material de jardinagem. — Olhe esta linda banheira de passarinho — diz ela. — Vou comprar uma para o jardim.
— Ótimo — murmuro, incapaz de concentrar-me.
— Eles também têm umas jardineiras fantásticas — diz ela. — Você poderia colocar umas nas janelas do seu apartamento.
— Sim — digo. — Talvez.
— Devo escrever que estou encomendando duas? Não são caras.
— Não, não precisa.
— Pode pagar com cheque, ou VISA... — acrescenta ela, virando a página.
— Não, realmente, mãe — digo, com a voz já levemente irritada.
— Você poderia simplesmente telefonar para seu cartão VISA e pedir que entreguem...
— Mãe, pára! — grito. — Não quero, está bem?
Minha mãe me olha com uma expressão surpresa e meio reprovadora e vira para as páginas seguintes de seu catálogo. E eu olho para ela de volta, cheia de um pânico sufocante. Meu cartão VISA não funciona. Meu cartão Switch não funciona. Nada funciona. E ela não tem a menor idéia.
Não pense nisso. Não pense nisso. Pego um exemplar antigo do Radio Times na mesa de café e começo a folheá-lo sem ver nada.
— Foi uma pena o que aconteceu com os pobres Martin e Janice, não é? — diz minha mãe olhando para mim. — Imagina, trocar de fundo duas semanas antes da fusão! Que azar!
— Eu sei — murmuro, olhando para uma página de listas. Não quero ser lembrada sobre o que aconteceu com Martin e Janice.
— Parece uma terrível coincidência — diz mamãe balançando a cabeça. — Que a empresa tenha lançado esse novo fundo logo antes da fusão. Você sabe, deve haver muitas pessoas que fizeram exatamente o mesmo que Martin e Janice, que perderam tudo isso. Lastimável, realmente. — Ela olha para a televisão. — Vejam, está começando de novo.
A música alegre do Countdown começa a tocar e aplausos chocalham ruidosamente da televisão. Mas não estou ouvindo, nem prestando qualquer atenção às vogais e consoantes. Estou pensando sobre o que minha mãe acabou de dizer. Uma terrível coincidência — mas não foi exatamente uma coincidência, foi? O banco escreveu mesmo para Janice e Martin, sugerindo que eles trocassem de fundo. Chegaram a oferecer um incentivo, não foi? Um relógio de parede.
Por que fizeram isso?
De repente sinto-me alerta. Quero ver a carta da Flagstaff Life e descobrir exatamente quanto tempo antes da fusão eles a mandaram.
— "TÉRMINO" — diz mamãe, olhando para a tela. — São sete. Oh, há um S. Pode ser "TÉRMINOS"?
— Só vou... dar um pulo no vizinho — digo e me levanto. — Não vou demorar nada.
Quando Martin abre a porta de entrada, percebo que ele e Janice também estavam na frente da televisão assistindo a Countdown.
— Olha — digo, meio envergonhada. — Eu estava pensando... nós poderíamos conversar um pouquinho?
— Claro! — diz Martin. — Entre! Quer um sherry?
— Hã? — digo, um pouco surpresa. Quero dizer, não que eu seja contra bebida, claro, mas ainda não são cinco horas. — Bem, está bem então.
— Nunca é cedo demais para um sherry! — diz Martin.
— Eu aceito um também, obrigada, Martin — surge a voz de Janice vinda da sala de estar.
Quem diria. Eles são um casal de alcoólatras!
Ah Deus, talvez isto também seja culpa minha. Talvez seu infortúnio financeiro os tenha levado a buscar abrigo no álcool e na televisão.
— Eu só estava pensando — digo nervosa enquanto Martin entorna um sherry marrom-escuro num copo. — Só por curiosidade, será que eu poderia dar uma olhada naquela carta que vocês receberam da Flagstaff Life sugerindo que trocassem de fundo? Eu estava procurando descobrir quando eles a enviaram.
— Chegou no dia exato em que nos encontramos — diz Martin. — Por que quer vê-la? — Ele levanta os óculos. — A sua saúde.
— Tintim. — Saúdo e tomo um gole. — Só estava pensando...
— Venha até a sala — ele interrompe e me leva pelo hall. — Aqui está ela, minha querida — acrescenta ele e entrega a Janice seu sherry. — Vamos virar os copos!
— Sssh — retruca ela. — Está na hora do jogo de números! Preciso me concentrar.
— Pensei que eu poderia investigar isto um pouco — sussurro para Martin enquanto o relógio Countdown bate. — Sinto-me tão mal quanto a isto.
— Cinqüenta vezes 4 é duzentos — diz Janice de repente. — Seis menos 3 é 3, vezes 7 é 21 e continue contando.
— Muito bem, amor! — diz Martin enquanto revira tudo no aparador entalhado em carvalho. —Aqui esta a carta — diz ele. — E então, você quer escrever algum artigo ou algo assim?
— Possivelmente — digo. — Você não se importaria, não é?
— Me importar? — E encolhe os ombros. — Não, acho que não.
— Sssh! — diz Janice. — Está no desafio do Countdown.
— Está bem — sussurro. — Bem eu só... eu só vou levar isto, posso?
— Explicar! — diz Janice. — Não, explorar.
— E... obrigada pelo sherry. — Tomo um gole grande e estremeço com seu gosto exageradamente doce, depois tiro meus óculos e saio da sala na ponta dos pés.
Meia hora depois, sentada no meu quarto, já li a carta da Flagstaff Life várias vezes e tenho certeza de que há alguma coisa suspeita com relação a ela. Quantos investidores devem ter trocado de fundo depois de receberem esta oferta vagabunda do relógio de parede e perderam a bonificação a que teriam direito? Mais precisamente, quanto a Flagstaff Life deve ter economizado? De repente eu realmente quero saber. E mais que isso, eu realmente quero escrever a respeito. Pela primeira vez na minha vida, estou realmente interessada numa história da área financeira.
E eu não quero simplesmente escrevê-la para a porcaria da Successful Saving tampouco.
O cartão de Eric Foreman ainda está na minha bolsa com o número de seu telefone direto impresso na parte de cima. Olho para ele por um instante, depois me dirijo ao telefone e bem rápido teclo o número antes que eu mude de idéia.
— Eric Foreman, Daily World — vem sua voz ressoando do outro lado da linha.
Ah, Deus. Eu estou realmente fazendo isto?
— Olha — digo nervosa. — Não sei se você se lembra de mim. Ginevra Weasley, da Successful Saving. Nos encontramos na entrevista coletiva da Administradora de Bens Sacrum.
— Isso mesmo, nos encontramos sim — diz ele alegremente. — Como vai você, meu anjo?
— Estou bem — respondo, e aperto minha mão forte em torno do fone. — Muito bem. Ahn... eu só estava pensando, vocês ainda estão publicando aquela série intitulada "Devemos Confiar nos Homens do Dinheiro?"?
— Estamos sim, sempre que possível — responde Eric Foreman. — Por quê?
— É que... — engulo. — E só que eu acho que tenho uma história que poderia lhes interessar.
|