QUINZE
Em toda minha vida, nunca me senti tão mal quanto agora que estou acordando na manhã seguinte. Nunca.
A primeira coisa que sinto é dor. Faíscas de dor explodindo quando tento mexer minha cabeça; quando tento abrir os olhos; quando tento desvendar algumas coisas
básicas como: Quem sou eu? Que dia é hoje? A esta hora, eu já deveria estar em algum outro lugar?
Durante algum tempo fico deitada, quieta, ofegante com o esforço de simplesmente estar viva. De fato, meu rosto está ficando vermelho e estou quase começando a
hiperventilar, então me forço a relaxar e respirar pausadamente. Inspiro... expiro, inspiro... expiro. E depois com certeza voltarei ao normal e eu me sentirei melhor.
Inspiro... expiro, inspiro... expiro.
Tudo bem... Ginevra. E isto mesmo. Sou Ginevra Weasley, não sou? Inspiro... expiro, inspiro... expiro.
Que mais? Jantar. Jantei com alguém na noite passada. Inspiro... expiro, inspiro... expiro.
Pizza. Comi pizza. E com quem eu estava mesmo? Inspiro... expiro... inspiro...
Ronald.
Expiro.
Ah, Deus. Ronald.
Folhear o talão de cheques. Tudo arruinado. Tudo minha culpa.
Uma onda familiar de desespero me inunda e fecho os olhos, procurando acalmar minha cabeça latejante. Ao mesmo tempo, me recordo que na noite passada, quando voltei para o meu quarto, achei a meia garrafa de uísque com que a Scottish Prudential havia me presenteado, ainda sentada à minha penteadeira. Abri — apesar de não gostar de uísque — e bebi... bem, certamente alguns bons goles. O que poderia talvez explicar por que estou me sentindo tão mal agora.
Lentamente faço um enorme esforço para ficar na posição sentada e ouvir algum barulho de Mione, mas não consigo ouvir nada. O apartamento está vazio. Só eu.
Eu e meus pensamentos.
Que, para ser sincera, não consigo agüentar. Minha cabeça está latejando e eu me sinto pálida e trêmula — mas preciso ir andando: distrair-me. Vou sair, tomar uma xícara de café em algum lugar quieto e procurar me refazer.
De algum modo consigo sair da cama, cambalear até minha cômoda e me olhar no espelho. Não gosto do que vejo. Minha pele está verde, minha boca está seca e meu
cabelo está grudado na pele em partes. Mas pior que tudo é a expressão do meu olhar: vago, miseravelmente repugnante. Na noite passada eu recebi uma chance, uma oportunidade fantástica, numa bandeja de prata. E joguei tudo no lixo. Deus sou um desastre. Não mereço viver.
Dirijo-me à King's Road, para me perder no alvoroço anônimo. O ar está frio e fresco e, enquanto ando pela rua, é quase impossível esquecer a noite passada. Quase,
mas não propriamente.
Entro na Aroma e peço um cappuccino grande, e procuro tomá-lo normalmente. Como se tudo estivesse bem e eu fosse só mais uma garota que sai num domingo para umas compras. Mas não consigo. Não consigo fugir dos meus pensamentos. Eles estão girando dentro da minha cabeça como um disco que não pára, tocando ininterruptamente.
Se pelo menos eu não tivesse pego seu talão de cheques. Se pelo menos eu não tivesse sido tão burra. Tudo estava indo tão bem. Ele realmente gostava de mim. Nós estávamos de mãos dadas. Ele estava planejando me chamar para sair de novo. Ah, Deus, se pelo menos eu pudesse voltar atrás, se pelo menos eu pudesse começar tudo de novo...
Não pense nisso. Não pense sobre o que poderia ter sido. E intolerável demais. Se eu tivesse agido certo, provavelmente estaria sentada aqui tomando café com Ronald, não é? Provavelmente estaria a caminho de me tornar à décima quinta mulher mais rica do país.
Mas em vez disso... o quê?
Tenho dívidas até o pescoço. Tenho uma reunião com o gerente do meu banco na segunda-feira cedo. Não tenho a menor idéia do que farei. Nenhuma idéia mesmo.
Miseravelmente, tomo um gole de café e desembrulho meu pequeno chocolate. Não estou em clima de chocolate, mas o coloco na boca assim mesmo.
A pior coisa — a pior de todas — é que eu estava mesmo começando a gostar de Ronald. Talvez ele não seja uma dádiva de Deus no quesito beleza, mas é muito gentil, e até engraçado ao seu modo. E aquele broche foi mesmo carinhoso.
E o cuidado dele em não contar a Mione o que tinha me visto fazer. E a maneira que ele acreditou em mim quando contei que gostava de cachorros e de Wagner e os malditos violinistas do Malawi. O jeito dele tão completamente e absolutamente sem malícia.
Ah, Deus, agora eu realmente vou começar a chorar.
Abruptamente, enxugo meus olhos, esvazio minha xícara e me levanto. Lá fora na rua eu hesito, depois começo a andar rápido outra vez. Talvez a brisa sopre estes pensamentos insuportáveis para longe da minha cabeça. Talvez eu me sinta melhor daqui a pouco.
Mas ando muito e ainda não me sinto melhor. Minha cabeça está doendo e meus olhos estão vermelhos. Um drinque ou algo assim realmente poderia me fazer bem. Só alguma coisinha, para me fazer sentir um pouco melhor. Um drinque, um cigarro, ou...
Olho e estou na frente da Octagon. A loja que mais amo neste mundo. Três andares de roupas, acessórios, móveis, presentes, cafés, sucos naturais e um florista que faz você querer encher sua casa de flores.
Minha bolsa está comigo.
Só alguma coisinha para me alegrar. Uma camiseta ou algo assim. Ou até mesmo sais de banho. Eu preciso comprar alguma coisa para mim. Não vou gastar muito. Só vou entrar e...
Já estou empurrando a porta de entrada. Ah, Deus, o alívio. O calor, a luz. É a este lugar que eu pertenço. Este é meu hábitat natural.
Só que, mesmo quando me dirijo para as camisetas, não estou tão feliz quanto deveria. Examino as prateleiras procurando recriar a alegria que geralmente sinto ao comprar para mim um pequeno presente — mas, de algum modo, hoje me sinto um pouco vazia. Ainda assim, escolho um top curtinho com uma estrela prateada no meio e o coloco sobre meu braço, dizendo a mim mesma que já me sinto melhor. Depois vejo uma prateleira de robes. Um robe novo me faria bem, de fato.
Quando passo o dedo num lindo robe de flanela branco, ouço uma vozinha no fundo da minha cabeça, como um rádio baixo. Não faça isto. Você está com dívidas. Não faça isto. Você está com dívidas.
Sim, bem, talvez eu esteja.
Mas, francamente, o que isso importa agora? Já é tarde demais para fazer alguma diferença. Já estou devendo, posso muito bem ficar devendo um pouco mais. Quase
barbaramente, tiro o robe da prateleira e coloco-o sobre meu braço. Depois pego os chinelos de flanela combinando. Não faz sentido comprar um sem o outro.
O balcão de saída fica bem à minha esquerda, mas eu o ignoro. Ainda não terminei. Dirijo-me à escada rolante e subo para o andar de artigos para casa. Está na hora
de comprar um edredom novo. Branco, para combinar com meu robe novo. E um par de almofadas com uma manta de pele fantasia.
Toda vez que acrescento alguma coisa à minha pilha, sinto um pequeno arrepio de prazer, como no momento de soltar fogos. E, por um instante, tudo está bem. Mas depois, aos poucos, a luz e os brilhos desaparecem e fica só a escuridão fria novamente. E então eu procuro alucinadamente em volta por alguma coisa mais. Uma enorme vela aromatizada. Um conjunto de gel de banho e creme hidratante. Jo Malone.
Uma bolsa de pot-pourri feita a mão. A medida que acrescento cada peça, sinto um arrepio — e depois escuridão. Mas os arrepios estão ficando menores a cada vez. Por que será que o prazer não permanece? Por que não me sinto mais feliz?
— Posso ajudá-la? — diz uma voz, interrompendo meus pensamentos. Uma jovem vendedora, usando a roupa da Octagon — blusa branca e calças de linho —, aproximou-se e está olhando para minha pilha de coisas no chão. — Quer que eu separe alguns enquanto você continua comprando?
— Ah — digo sem expressão, e olho para as coisas que acumulei. Já é mesmo muito até agora. — Não, não se preocupe. Só vou... só vou pagar estas coisas.
De algum modo, nós duas conseguimos arrastar todas as minhas compras pelo chão de madeira até o caixa elegante de granito no meio da loja e a vendedora começa a passar tudo. O preço das almofadas foi reduzido, eu nem tinha percebido e, enquanto ela está verificando o preço exato, uma fila começa a se formar atrás de mim.
— São 370,56 libras — diz ela finalmente e sorri para mim. — Como gostaria de pagar?
— Erm... cartão Switch — digo e pego minha bolsa. Enquanto ela está passando o cartão, olho para minhas sacolas de compra e fico imaginando como vou levar tudo isto para casa.
Mas imediatamente meus pensamentos vão embora. Não quero pensar na minha casa. Não quero pensar em Mione, Rony, ou a noite passada. Ou qualquer coisa
relativa a isso.
— Sinto muito — diz a garota, desculpando-se — mas há algum problema com seu cartão. Não autorizam a compra. — Ela o devolve. — Tem algum outro?
— Ah — digo, levemente sem jeito. — Bem... aqui está meu cartão VISA.
Que vergonha. E afinal, o que há de errado com meu cartão? Me parece bom. Preciso reclamar com o banco sobre isto.
O banco. Encontro amanhã, com Dereh Smeath. Ah, Deus. Não pense nisto. Rápido, pense em alguma outra coisa. Olhe para o chão. Dê uma olhada pela loja. Uma fila de pessoas, razoavelmente grande, já se formou atrás de mim e ouço tosses e pigarros. Todos estão me aguardando. Quando olho para a mulher atrás de mim, sorrio sem graça.
— Não — diz a moça. — Este também não serve.
O quê? Eu me viro em estado de choque. Como pode meu cartão VISA não servir? É meu cartão VISA, pelo amor de Deus. Aceito no mundo inteiro. O que está acontecendo?
Não faz nenhum sentido. Não faz nenhum...
Meus pensamentos param no meio e uma sensação fria ruim começa a tomar conta de mim. Todas essas cartas. Essas cartas que tenho guardado na gaveta da minha cômoda. Certamente elas não podem...
Não. Não diga que cancelaram meu cartão. Eles não podem ter feito isto.
Meu coração começa a disparar de pânico. Sei que não tenho sido muito boa em pagar minhas contas mas preciso do meu cartão VISA. Preciso dele. Eles não podem simplesmente cancelá-lo, assim sem mais nem menos. De repente sinto-me tremer um pouco.
— Há outras pessoas esperando — diz a garota, apontando para a fila. — Portanto, se não puder pagar...
— Claro que posso pagar — digo com firmeza, consciente de que meu rosto já está queimando de vermelho. Com as mãos tremendo, procuro na bolsa e acabo achando
meu cartão prateado da Octagon. Estava escondido sob os outros, portanto não devo tê-lo usado por algum tempo. —Aqui — digo. — Porei todas as compras nele.
— Está bem — diz a garota num tom rude e, num golpe, pega o cartão.
Somente quando estamos aguardando em silêncio pela autorização que começo a pensar se realmente paguei minha conta da Octagon. Enviaram-me uma carta malcriada algum tempo atrás, não foi? Alguma coisa a respeito de uma dívida pendente. Mas tenho certeza de que paguei tudo, séculos atrás. Ou pelo menos, uma parte. Não paguei? Tenho certeza que eu...
— Vou precisar dar um rápido telefonema — diz a vendedora, olhando para sua máquina. Ela pega o fone próximo à caixa registradora e disca um número.
— Olá — diz ela. — Sim, se eu puder dar-lhe um número de conta...
Atrás de mim, alguém suspira alto. Posso sentir meu rosto ficando cada vez mais quente. Não ouso olhar em volta. Não ouso me mover.
— Entendo — diz a vendedora finalmente e coloca o fone no gancho. Olha para mim e, só de ver a expressão de seu rosto, meu estômago dá um nó. Sua expressão não é mais de desculpar-se ou polida. É claramente hostil.
— Nosso departamento financeiro deseja que a senhora entre em contato com eles urgentemente — diz ela num tom áspero. — Vou dar-lhe o número.
— Está bem — digo, procurando parecer calma. Como se isto fosse um pedido razoavelmente normal. — Está bem, vou fazer isto. Obrigada. — Estendo minha
mão para receber meu cartão. Não estou mais interessada nas minhas compras.
Tudo o que desejo fazer é sair daqui o mais rápido possível.
— Sinto muito, creio que sua conta foi bloqueada — diz a vendedora, sem abaixar a voz. — Vou ter que ficar com seu cartão.
Olho para ela sem acreditar, sentindo meu rosto pinicar de choque. Atrás de mim há um sussurrar quando todos ouvem isto e começam a cutucar-se uns aos outros.
— Portanto, a não ser que tenha outro meio de pagar... — ela acrescenta, olhando para minha pilha de coisas no balcão. Meu robe de flanela. Meu edredom novo. Minha vela aromática. Uma enorme, notável pilha de coisas. De repente a visão daquilo tudo faz-me sentir enjoada.
Num estado de torpor, balanço minha cabeça. Sinto- me como se tivesse sido pega roubando.
— Elsa — chama a vendedora. — Você pode cuidar disso, por favor? A cliente não vai fazer a compra afinal. - Ela aponta a pilha de coisas e a outra vendedora empurra a pilha pelo balcão, para fora do caminho, com o rosto deliberadamente sem expressão. — Próximo, por favor.
A mulher atrás de mim dá um passo à frente, evitando meu olhar embaraçada, e, lentamente, eu me viro para o outro lado. Nunca me senti tão humilhada em toda a
minha vida. O andar inteiro parece estar olhando para mim — os clientes, os vendedores, todos sussurrando e se cutucando. Você viu? Viu o que aconteceu?
Com as pernas cambaleantes me afasto, sem olhar para os lados. Isto é um pesadelo. Só preciso sair, o mais rápido possível. Preciso sair da loja e ir para a rua e ir...
Ir para onde? Para casa, eu suponho.
Mas não posso voltar e encarar Mionee ouvi-la continuar falando sobre o quanto Rony é gentil. Ou até pior, arriscar dar de cara com ele. Ah, Deus. Só de pensar fico
enjoada.
O que vou fazer? Para onde vou?
Tremendo, começo a andar pela calçada, desviando o olhar das vitrines que parecem estar zombando de mim. O que posso fazer? Para onde posso i r? Sinto-me vazia; quase desmaiando de pânico.
Paro numa esquina, esperando o sinal luminoso mudar e olho sem expressão para uma vitrine de coletes de cashmere à minha esquerda. E de repente, ao ver um colete de golfe vermelho Pringle, sinto lágrimas de alívio brotarem em meus olhos. Há um lugar para onde posso ir. Um lugar para onde sempre posso ir.
A casa de meus pais.
|