QUATORZE
Um táxi com o motor ligado está esperando na rua, e Ronald me ajuda a entrar. Para ser sincera, estou um pouco desapontada por não ser uma limosine com chofer, mas tudo bem. Isto também é bom. Ser retirada de um táxi por um dos solteiros mais cobiçados da Inglaterra para... quem sabe onde? O Savoy? O Claridges? Dançar no Annabel’s?
Ronald ainda não me contou onde estamos indo.
Ah, Deus, talvez seja um desses lugares malucos onde tudo é servido ob um abafador de prata, com um milhão de facas e garfos, e garçons esnobes observando, só esperando para pegar você fazendo alguma coisa errada. Mas tudo bem. Desde que eu não entre em pânico. Só mantenha a calma e lembre as regras. Certo. Quais são elas mesmos? Talheres: começar pelos de fora e ir passando para os de dentro. Pão; não fatiar o pãozinho, só quebrar em pequenos pedaços e colocar a manteiga em pequenos pedaços e colocar a manteiga em cada um, individualmente. Ketchup: não pedir em nenhuma circunstância.
E se for lagosta? Nunca comi uma lagosta na minha vida. Vai ser lagosta, não vai? E eu não vou saber o que fazer, e será terrivelmente embaraçoso. Porque eu nunca comi lagosta? Por quê? É tudo culpa dos meus pais. Eles deviam ter me levado a restaurantes caros desde criança para que eu desenvolvesse uma habilidade natural com as comidas complicadas.
— Pensei em jantar num lugar gostoso e calmo — diz Ronald, olhando para min.
— Ótimo — digo. — Um jantar gostoso e calmo.
Graças a Deus. Isto provavelmente significa que não vamos enfrentar lagostas e abafadores e prata. Vamos para algum lugar pequeno e escondido que quase ninguém conhece. Algum pequeno clube prive, numa rua discreta. Onde é preciso bater numa porta de aparência normal e sem nome, e que quando se entra está cheio de celebridades sentadas em sofás, comportando-se como pessoas normais. Sim! E talvez Ronald conheça-as todas!
Mas claro que ele conhece todas. Ele é um multimilionário, não é?
Olho pela janela e vejo que estamos passando pela Harrods. E só por um momento meu estômago aperta de dor quando me recordo da última vez que estive ali. Malditas malas. Maldito Harry Potter. Huh. Na verdade, eu queria que ele estivesse passando por nós bem agora, para eu poder fazer um despreocupado aceno com a mão, do tipo estou-com-o-décimo-quinto-homem-mais-rico-da-Inglaterra.
— OK — diz Ronald repentinamente para o motorista. — Pode nos deixar aqui. — Sorri para mim. — Praticamente na entrada.
— Ótimo — digo e alcanço a porta do táxi.
Praticamente na entrada do quê? Quando saio do táxi, olho à volta, imaginando onde estamos indo. Estamos perto do Hyde Park? Viro-me lentamente e vejo uma placa e de repente percebo o que está acontecendo. Estamos indo para o Lanesborough!
Uau. Quanta classe! Jantar no Lanesborough! Mas claro. Onde mais alguém iria numa primeira saída?
— Então — diz Rony, surgindo ao meu lado. — Só pensei que podíamos comer uma coisinha e depois... veríamos.
— Parece bom — digo quando começamos a andar.
Excelente! Jantar no Lanesborough e depois sairmos para alguma discoteca charmosa. Isto está ficando maravilhoso.
Passamos direto pela entrada do Lanesborough, mas isso não me perturba. Todo mundo sabe que os VIPs entram pela porta dos fundos para evitar os paparazzi. Não que eu esteja vendo algum paparazzi por aqui mas provavelmente isto se torna um hábito. Vamos mergulhar por alguma ruela de trás e entrar pela cozinha, enquanto os chefs fingem não nos ver, e depois aparecemos no foyer. Isto é tão legal.
— Estou certo de que você já esteve aqui antes — diz Rony desculpando-se. — Não é a escolha mais original.
— Não seja bobo! — digo quando paramos e nos voltamos para umas portas envidraçadas. — Eu simplesmente adoro...
Espera aí, onde estamos? Isto não é a entrada dos fundos de lugar nenhum. Isto é...
Pizza Express.
Rony está me levando para o Pizza Express. Não acredito. O décimo quinto homem mais rico do país está me levando para uma droga de pizzaria.
— ...pizza — termino a frase baixinho. — Adoro isso.
— Ah, que bom! — diz Rony. — Achei que nós não íamos querer nenhum lugar muito badalado.
— Ah, não. — Faça o que acredito ser uma expressão convincente. — Odeio lugares badalados. É muito melhor comermos juntos uma pizza gostosa num lugar calmo.
— Foi o que pensei — diz Rony, virando-se para me olhar. — Mas agora me sinto um pouco mal. Você se vestiu tão bonita... — ele faz uma pausa em dúvida, olhando para minha roupa. (E é bom que o faça. Não gastei uma fortuna na Whistles só para ser levada a Pizza Express.) — Quero dizer, se você quisesse, poderíamos ir a algum lugar um pouco mais chique. O Lanesborough é logo depois da esquina.
Ele levantava os olhos questionando e eu quase digo "Ah sim, por favor !” quando de repente, num flash inconsciente, percebo o que está acontecendo. Isto é um teste não é? É com escolher três cofres em um conto de fadas. Todo mundo conhece as regras. Você nunca escolhe o dourado que brilha. Ou mesmo o de prata, cuja beleza também
impressiona. O que deve fazer é escolher o pequeno, feinho, de chumbo e então faz-se um clarão de luz e ele se transforma numa montanha de jóias. Então é isto. Rony está me testando, para ver se eu gosto dele por ele mesmo ou se estou apenas atrás de seu dinheiro.
O que, fracamente, eu considero bastante. Quero dizer, quem ele pensa que sou?
— Não, vamos ficar aqui — digo e toco seu braço de leve. É muito mais informal. Muito mais... divertido.
O que é bem verdade mesmo. E eu gosto de pizza. E aquele pão de alho delicioso. Humm. Sabe, agora que estou pensando misto, é uma boa escolha.
Quando o garçom entregar os cardápios, dou uma olhada superficial na lista, mais já sei o que quero. É o que sempre peço quando vou ao Pizza Express. Fiorentina. A que tem espinafre e um ovo. Sei que soa estranho, mas, honestamente, é deliciosa.
— Gostariam de um aperitivo? — diz o garçom, e estou quase dizendo o que geralmente digo, que é “Ah, vamos tomar uma garrafa de vinho”, quando penso em não fazer nada disso.Estou jantando com um multimilionário aqui. Vou mesmo é toar um gim-tônica.
— Um gim-tônica — digo firme e olho para Rony, desafiando-o a ficar chocado. Mas ele sorri pra mim e diz:
— A não ser que queira champanhe?
— Ah — digo completamente aterrorizada.
— Sempre acho que champanhe e pizza são uma boa combinação — diz ele e olha para o garçom. — Uma garrafa de moët, por favor.
Bem, isto faz o gênero. E Rony está de fato agindo bem normal.
O champanhe chega, nós brindamos e tomamos uns golpes. Estou realmente começando a me divertir. Depois vejo a mão ossuda de Rony aproximando-se de mim lentamente sobre a mesa. Em um reflexo completamente sem intenção, afasto meus dedos fingindo coçar minha orelha. Um lampejo de desapontamento passa pelo seu rosto provocando uma tosse sem graça, e realmente fingida olhando para um quadro à minha esquerda.
Ah, Deus. Por que tive que fazer isso? Se vou me casar com o cara, preciso fazer muito mais que segurar sua mão.
Posso fazer isto, digo a mim mesma com firmeza. Posso sentir-me atraída por ele. É só uma questão de autocontrole e, possivelmente também, de ficar muito alta. Assim, levanto minha taça e tomo vários golpes grandes. Posso sentir as bolhas fluindo para minha cabeça, cantando feliz “Vou ser a mulher de um milionário! Vou ser a mulher de um milionário!” E, quando olho de volta para Rony, ele já parece um pouco mais atraente (numa maneira fuinha de ser). O álcool obviamente vai ser a chave de nossa felicidade conjugal.
Minha cabeça está tomada pelo dia feliz do nosso casamento. Eu num vestido
maravilhoso de alguns costureiros famosos; meus pais sentindo-se orgulhosos. Nunca mais problema de dinheiro. Nunca mais. O décimo quinto homem mais rico do país. Uma casa na Belgrávia Sra. Ronald Granger. Só de imaginar, já me sinto quase desmaiar de vontade.
Ah, Deus, tudo isso poderia ser meu. Pode ser meu.
Sorrio o mais suavemente para Rony, que hesita — depois sorri de volta. Ufa. Não estraguei tudo. Ainda esta de pé. Agora só precisamos descobrir que somos completas almas gêmeas com milhares de ciosas em comum.
— Adoro o... — digo
— Você...
Ambos falamos ao mesmo tempo.
— Desculpe — digo. — Continue.
— Não, continue você — disse Rony
— Ah — digo. Bem... Eu só ia dizer o quanto adorei o quadro que você deu a Mione. — Não faz mal cumprimentar seu gosto novamente. — Adoro cavalos — acrescento como boa medida.
— Então deveríamos cavalgar juntos — diz Rony. — Conheço uma cachoeira de aluguel muito boa, perto do Hyde Park. Não é o mesmo que no campo, claro...
— Que idéia maravilhosa! — digo. — Seria muito divertido!
Não há a menor possibilidade de alguém me fazer montar um cavalo. Nem no Hyde Park. Mas tudo bem, só continuarei o plano e depois, no dia, direi que torci meu pé ou algo assim.
— Você gosta de cachorro? — pergunta Rony.
— Adoro cachorro — respondo confiante.
Que é mais ou menos verdade. Não gostara de fato de ter um cachorro — dá trabalho demais e pêlos por toda parte. Mas gosto de ver labradores correndo pelo parque. E o filhote Andrex. Esse tipo de coisa.
Entramos num silêncio e eu tomo uns goles de champanhe.
— Você gosta do seriado EastEnders? — pergunto finalmente. — Ou você é uma pessoa... do tipo Coronation Street?
— Creio que nunca assisti a nenhum dos dois — diz Rony desculpando-se. — Tenho certeza de que são muito bons.
— Bem... são razoáveis — digo. — Às vezes são realmente bons e outras vezes... — diminuo o tom no fim e sorrio para ele. — Você sabe.
— Claro — exclama Rony, como se eu tivesse dito algo realmente interessante.
Dá-se um outro silêncio estranho. Isto está ficando um pouco sem graça.
— Onde você mor na Escócia há boas lojas? — finalmente pergunto. Rony faz uma pequena careta.
— Eu não saberia. Quando posso, não me aproximo de lojas.
— Ah, certo — digo, e tomo um gole bem grande de champanhe. — Não, eu... eu também odeio lojas. Não agüento fazer compras.
— Verdade? — exclama Rony surpreso. — Pensei que todas as mulheres adorassem fazer compras.
— Não eu! — digo. — Eu preferiria mil vezes estar... no campo, cavalgando. Com uns dois cachorros correndo atrás.
— Parece perfeito — diz Rony sorrindo para mim. — Vamos ter que fazer isso algum dia.
Agora está ficando bom! Interesses comuns. Objetivos compartilhados.
Tudo bem, talvez eu não tenha sido totalmente honesta, talvez eles não sejam exatamente meus interesses no presente. Mas poderiam ser. Eles podem ser. Eu posso facilmente começar a gostar de cachorros e cavalos, se precisar.
— Ou... ou ouvir Wagner, claro — digo, casualmente. Ah! De gênio!
— Você realmente aprecia Wagner? — diz Rony. — Não é todo mundo que gosta.
— Eu adoro Wagner — insisto. — É meu compositor favorito. — Tudo, rápido — o que o livro dizia? — Adoro os... er... elementos melódios que se entrelaçam no prelúdio.
— No Prelúdio a quê? — pergunta Rony interessado.
Ah, merda. Há mais de um prelúdio? Tomo um gole de champanhe, ganhando tempo, desesperadamente procurando lembrar de alguma coisa mais do livro. Mas a única outra parte que consigo lembrar é “Richard Wagner nasceu em Leipzig”.
— Todos os Prelúdios — digo finalmente. — Acho que todos eles são... fabulosos.
— Certo – diz Rony, parecendo um pouco surpreso.
Ah, Deus. Não foi a coisa certa a dizer, foi? Mude de assunto, mude de assunto.
Por sorte, naquele momento um garçom se aproxima com nosso pão de lho, e nós saímos do tema Wagner. E Rony pede mais champanhe. De algum modo, acho que iremos precisar dela.
O que significa que, quando chego na metade da minha Fiorentina, já bebi quase uma garrafa inteira de champanhe e estou... Bem, francamente, estou completamente bêbada. Meu rosto está formigando, meus olhos estão brilhando e meus gestos estão muito mais descontrolados do que o usual. Mas isto não importa. Na verdade, ficar bêbada é uma boa coisa — porque significa que estou também encantadoramente vivaz e alegre e estou mais ou menos levando a conversa sozinha. Rony também está alto, mas não tanto quanto eu. Ele foi ficando cada vez mais quieto e pensativo. E continua me olhando.
Quando termino meu último pedaço de pizza e me reclino no encosto da cadeira confortavelmente, ele olha para mim em silêncio por um instante, depois leva a mão ao bolso e traz uma caixinha.
— Aqui — diz ele. — Isto é para você
Devo admitir, por um momento o coração parou e eu pensei... Chegou a hora! Ele está me propondo casamento! (Curiosamente, o pensameno que passa pela minha cabeça logo a seguir é “Graças a Deus Poderei Pagar Meu Cheque Especial”. Humm. Quando ele me propuser de verdade, preciso pensar em alguma coisa um pouco mais romântica.)
Mas claro, ele não está propondo, está? Está só me dando um presente.
Eu sabia.
Então abro e encontro uma caixa de couro, tendo dentro um pequeno broche no formato de um cavalo. Muitos detalhes finos, lindamente trabalhado. Uma pequena pedra verde (esmeralda?) nos olhos.
Realmente não é meu tipo de coisa.
- É lindo - digo, meio espantada. - Absolutamente... estupendo.
- É bem bonito, não é? - diz Rony. - Achei que gostaria.
- Eu adorei. - Viro-o entre os dedos (tem selo - bom) depois olho para ele e pisco umas duas vezes com olhos umedecidos. Deus, como estou bêbada. Acho que estou na verdade vendo através do champanhe. - Foi tudo tão gentil de sua parte - murmuro.
Além do mais eu não uso broches própriamente. Quero dizer, onde se deve prendê-los? No meio de um top lindo? Quero dizer, cá pra nós. E os furos sempre deixam enormes buracos em todo lugar.
- Vai ficar lindo em você - diz Rony após uma pausa, e de repente percebo que ele está esperando que eu o coloque.
Aaargh! Vai destruir meu lindo vestido da Whistles! E quem quer um cavalo galopando entre os peitos, afinal?
- Preciso colocá-lo - digo e abro o fecho. Com muito cuidado enfio pelo tecido e aperto fechando, já sentindo-o repuxar o vestido. E agora, estou com aparência de muito idiota?
- Está lindo - diz Rony, encontrando meu olhar. - Mas... você sempre está linda.
Meu estômago dá um nó quando o vejo inclinar-se na minha direção. Ele vai tentar segurar minha mão de novo, não vai? E provavelmente vai me beijar. Dou uma olhada para os lábios de Rony - separados e levemente úmidos - e tenho um tremor involuntário. Ah, Deus. Não estou bem pronta para isto. Quero dizer, obviamente eu quero beijar Rony, claro que sim. De fato, acho-o incrivelmente atraente. Só que... acho que, antes, preciso de um pouco mais de champanhe.
- Aquela echarpe que você estava usando na outra noite - diz Rony. - Estava sinplesmente deslumbrante. Olhei para você nela e pensei...
Agora posso ver sua mão dirigindo-se para a minha.
- Minha echarpe Denny and George? - Interrompo vivaz, antes que ele diga mais alguma coisa. - Sim, linda, não é? Foi da minha tia, mas ela morreu. Foi muito triste, mesmo.
Simplesmente continue falando, penso. Continue falando rapidamente e gesticule muito.
- Mas de qualquer modo, ela me deixou sua echarpe - continuo depressa. - Portanto sempre me lembrarei dela por causa disso. Pobre tia Erminitrude.
- Sinto muito mesmo - diz Rony, parecendo sem ação. - Eu não sabia.
- Não. Bem... sua lembrança permanece através de boas obras - digo e abro um leve sorriso. - Ela era uma mulher muito caridosa. Muito... generosa.
- Existe alguma espécie de fundação em seu nome? - pergunta Rony. - Quando meu tio morreu...
- Sim! - respondo agradecida. - Exatamente isso. A... a Fundação Erminitrude Bloom para... violinistas - improviso ao visualizar um cartaz de uma noite musical. - Violinistas em Malawi. Aquela era sua causa.
- Violinistas em Malawi? - repete Rony
- Ah, sim! - ouço-me murmurar. - Há uma escassez desesperadora de músicos clássicos lá. E a cultura é tão enriquecedora, independentemente das circunstâncias materiais.
Não consigo acreditar que estou surgindo com todo esse disparate. Olho apreensiva para Rony e para minha total descrença, ele parece realmente interessado.
- Então, o que exatamente a fundação pretende fazer? - pergunta ele.
Ah, Deus. Em que estou me metendo aqui?
- É... financiar seis professores de violino por ano - respondo após uma pausa. - Claro, eles precisam de treinamento de especialista, além de violinos especiais para levarem para lá. Mas os resultados valerão a pena. Eles irão ensinar as pessoas como fazer violinos também, portanto eles ficarão auto-suficientes e não dependerão do ocidente.
- Verdade? - A sobrancelha de Rony franze. Eu disse alguma coisa que não faz sentido?
- De qualquer modo. - Dou uma risadinha. - Chega de falar de mim e de minha família. Você viu algum filme bom recentemente?
Isto é bom. Podemos falar sobre filmes e depois a conta virá, e depois...
- Espera - diz Rony. - Diga-me, como está indo o projeto até agora?
- Ah- digo. - Ahn... muito bem. Considerando que não me mantive a par de seu progresso recentemente. você sabe, essas coisas são sempre...
- Eu realmente gostaria de contribuir com alguma coisa - diz ele me interrompendo.
O quê?
Ele gostaria de fazer o quê?
- Você sabe a quem devo dirigir o cheque? - diz ele, alcançando o bolso da jaqueta. É à Fundação Weasley?
Enquanto olho, paralisada de surpresa, ele tira um talão de cheques do Coutts.
Um talão de cheques cinza pálido do Coutts.
O décimo quinto homem mais rico do país.
- Não... não estou bem certa - ouço-me dizer, como se fosse de uma grande distância. - Não sei bem as palavras exatas.
- Bem, farei o cheque pagável a você, então, está bem? - diz ele. - E você poderá passá-lo adiante. - Alegre ele começa a escrever:
Pagar a Ginevra Weasley
A quantia de 5...
Quinhentas libras. Deve ser. Ele não daria só cinco míseras...
mil libras,
R. Granger
Não consigo acreditar no que estou vendo. Cinco mil libras, num cheque, nominal a mim. Cinco mil libras que pertencem a tia Erminitrude e aos professores de violino de Malawi.
Se eles existissem.
- Tome-o - diz Rony, e me entrega o cheque. Como num sonho, vejo-me pegando o cheque.
Pagar a Ginevra Weasley a quantia de 5 mil libras.
Leio as palavras outra vez, lentamente, e sinto uma onda de alívio tão forte que me faz querer cair em lágrimas. A quantia de cinco mil libras. Mais do que minha divida no cheque especial e no cartão VISA juntos. Este cheque resolveria todos os meus problemas de uma só vez. E, tudo bem, não sou exatamente uma violinista do Malawi, mas Rony nunca saberia a diferença, não é? Ele nunca iria apurar. Ou, se o fizesse, eu poderia surgir com alguma história.
De qualquer modo, o que são cinco mil libras para um multimilionário como Tarquin? Ele provavelmente nem iria perceber se paguei ou não. Uma ninharia de cinco mil libras, quando ele tem vinte e cinco milhões! Se vocÊ transforma numa fração de sua riqueza é... Bem, é de rir, não é? É o equivalente a uns cinqüenta centavos para as pessoas normais. Por que estou hesitante?
- Gina?
Rony está me olhando, e eu percebo que minha mão está ainda a muitos centímetros do cheque. Vamos, pegue, oriento a mim mesma com firmeza. É seu. Pegue o cheque e guarde-o na bolsa. Com um esforço heróico, estico mais a minha mão, querendo segurar o cheque. Estou chegando mais perto... mais perto... quase lá... meus dedos estão tremendo do esforço...
Não dá, não consigo. Eu simplesmente não poso fazer isso. Não posso pegar seu dinheiro.
- Não posso ficar com ele - digo rápido. Afasto minha mão e sinto-me enrubescer. - Quero dizer... não tenho certeza se a fundação já está aceitando doações.
- Ah, está bem - diz Rony, parecendo um pouco surpreso.
- Vou informar-lhe a quem dirigir o cheque quando tiver mais detalhes - digo e tomo um grande gole do champanhe. - É melhor rasgá-lo.
Quando ele lentamente rasga o papel, não consigo olhar. Olho para minha taça de champanhe, sentindo vontade de chorar. Cinco mil libras. Teria mudado minha vida. Teria resolvido tudo. Rony pega a caixa de fósforos da mesa, põe fogo nos pedaços de papel no cinzeiro, e nós dois observamos enquanto queimam.
Depois ele coloca os fósforos na mesa, sorri para mim e diz:
- Me dá licença um minuto.
Levanta-se da mesa e dirige-se para o fundo do restaurante enquanto eu tomo outro gole de champanhe. Depois apóio minha cabeça nas mãos e dou um soluço. Ah, bem, penso, procurando ser filosófica. Talvez eu ganhe cinco mil libras numa rifa ou algo assim. Talvez o computador de Derek Smeath estrague e ele seja forçado a cancelar todas as minhas dívidas e a começar tudo de novo. Talvez algum completo estranho pague minha conta do VISA por engano.
Talvez Rony volte do banheiro e me peça para casar com ele.
Levanto meus olhos, e eles recaem com uma curiosidade inócua no talão de cheques do Coutts que Rony deixou sobre a mesa. É o talão de cheques do décimo quinto homem mais rico do país. Uau. Imagino como deve ser por dentro. Ele provavelmente faz cheque enormes o tempo todo, não é? Ele provavelmente gasta mais dinheiro num dia do que eu gasto num ano.
Num impulso, puxo o talão de cheques na minha direção e abro. Não sei exatamente o que estou procurando, estou apenas esperando encontrar alguma quantia exageradamente grande. Mas o primeiro canhoto é só de 30 libras. Patético! Folheio o talão um pouco e acho 520 libras. Pagável a Arrundel & Son, seja lá quem for. Depois, um pouco mais tarde, há um de 7.515 libras para o American Express. Bem, agora sim! Mas, na realidade, não é a leitura mais excitante do mundo. Este poderia ser o talão de cheques de qualquer pessoa. Poderia quase ser meu.
Fecho-o e empurro-o de volta para o lugar dele e olho para cima. Quando faço isso, meu coração pára de bater. Rony está olhando direto para mim.
Ele está em pé no bar, sendo orientado para o outro lado do restaurante por um garçom. Mas não está olhando para o garçom. Está olhando para mim. Quando nossos olhos se encontram, meu estômago faz um pequeno balanço. Que droga.
Droga. O que será que ele viu exatamente?
Rapidamente tiro minha mão do seu talão de cheques e tomo um gole de champanhe. Depois olho e finjo vê-lo pela primeira vez. Dou um sorriso e depois de uma pausa ele sorri de volta. Depois desaparece novamente e eu afundo na cadeira, meu coração batendo forte.
Tudo bem, não entre em pânico, oriento a mim mesma. Apenas comporte-se com naturalidade. Ele provavelmente nem mesmo a viu. E se viu, não é o maior crime do mundo, é, olhar seu talão de cheques? Se ele me perguntasse o que eu estava fazendo, eu diria que estava... verificando se ele preencheu o canhoto corretamente. Sim. É o que direi que estava fazendo se ele perguntar.
Mas ele não pergunta. Retorna à mesa, silenciosamente guarda no bolso o talão de cheques e diz educadamente,
- Você já terminou?
- Sim - digo. - Já sim, obrigada.
Estou procurando soar o mais natural possível - mas tenho consciência de que minha voz está cheia de culpa, e meu rosto está quente.
- Está bem - diz ele. - Bem, já paguei a conta... portanto vamos?
E terminou. É o fim do encontro. Com uma cortesia impecável, Rony me leva até a porta do Pizza Express, pára um táxi e paga ao motorista pela passagem de volta a Fulham. Não me atrevo a perguntar-lhe se gostaria de voltar ou sair para um drinque em algum outro lugar. Há uma frieza na minha coluna que me impede de pronunciar as palavras. Assim, nos beijamos no rosto e ele me diz que teve uma noite encantadora, e eu agradeço a ele novamente pela noite maravilhosa.
Durante todo o caminho de volta a Fulham sinto o meu estômago tenso, imaginando o que ele viu exatamente.
Quando o táxi pára em frente à nossa casa, digo boa noite ao motorista e apanho minhas chaves. Estou pensando que vou entrar e preparar um banho quente de banheira e, calmamente, procurar entender o que aconteceu lá de fato. Será que Rony realmente me viu bisbilhotando seu talão de cheques? Talvez ele tenha apenas me visto colocá-lo de volta no seu lugar. Ou, quem sabe, não tenha visto nada.
Mas então por que de repente ficou tão frio e distante? Deve ter visto alguma coisa, suspeitado de alguma coisa. E depois, deve ter percebido a maneira que fiquei vermelha e não consegui olhar nos seus olhos. Ah, Deus, por que sempre tenho de parecer tão culpada? Eu nem estava fazendo nada. Só estava curiosa. Isto é um crime tão grave assim?
Talvez eu devesse ter dito alguma coisa logo, ter feito uma piada sobre isso. Ter transformado num incidente leve e divertido. Mas que tipo de piada se pode fazer sobre bisbilhotar o talão de cheques de alguém? Ah, Deus, eu sou tão burra. Por que fui tocar no maldito talão? Eu devia ter ficado sentada apenas, quieta, tomando meu drinque.
Mas em minha defesa... ele o deixou sobre a mesa, não deixou? Ele não pode ser tão reservado sobre isso. E eu não sei que ele me viu examinando o talão sei? Talvez ele não tenha visto. Talvez eu só esteja paranóica.
Quando introduzo minha chave na fechadura, na verdade estou me sentindo bem positiva. Tudo bem, então Rony não estava tão amável no final, mas devia estar se sentindo doente ou algo assim. Ou talvez não estivesse querendo me pressionar. Amanhã vou mandar um bilhete para ele agradecendo e sugerindo uma saída para assistira Wagner juntos. Excelente idéia. E vou estudar um pouco sobre os Prelúdios para que, se ele me perguntar qual outra vez, eu saiba exatamente o que quer dizer. Sim! Assim tudo vai ficar bem. Nunca precisava ter me preocupado.
Abro a porta, desabotoando meu mantô e então meu coração dá um nó. Mione está me esperando no hall. Ela está sentada na escada, me esperando e com uma expressão estranha no rosto.
- Ah, Gina- diz ela, e balança a cabeça repreensiva. - Acabei de falar com Rony.
- Ah, bem - digo, procurando parecer natural, mas ciente de que minha voz parece um guincho amedrontado. Viro-me para o outro lado, pego meu mantô e lentamente desfaço minha echarpe, ganhando tempo. O que exatamente ele disse a ela?
- Acho que não tem sentindo perguntar a você por quê? - diz ela após uma pausa.
- Bem - gaguejo, sentindo-me enjoada. Deus, um cigarro iria bem.
- Não estou culpando você, ou algo assim. Só achei que deveria... - Ela balança a cabeça e suspira. - Você não poderia tê-lo rejeitado de um modo mais gentil? Ele parecia bastante chateado. O pobre estava mesmo entusiasmado, você sabe.
Isto não está fazendo sentido. Rejeitá-lo mais gentilmente?
- O que exatamente... - umedeço os lábios secos. - O que exatamente ele disse?
- Bem, ele só estava telefonando realmente para dizer que você esqueceu seu guarda-chuva - diz Mione. - Aparentemente um dos garçons veio correndo atrás de vocês com ele. Mas claro perguntei-lhe como tinha sido a saída...
- E... o que ele disse?
- Bem - diz Mione, e encolhe um pouco os ombros. - Ele disse que vocês tinham se divertido muito, mas que você tinha deixado claro que não queria vê-lo novamente.
- Ah!
Deslizo para o chão me sentindo meio fraca. Então foi isso. Rony me viu mesmo folheando seu talão de cheques. Acabei com minhas chances com ele completamente.
Mas ele não disse a Mione o que eu tinha feito. Protegeu-me. Fingiu que tinha sido decisão minha não continuar. Foi um cavalheiro.
Na verdade, ele foi um cavalheiro a noite toda, não foi? Foi gentil, charmoso e educado comigo. E tudo o que eu fiz a noite toda foi contar-lhe mentiras.
De repente tenho vontade de chorar.
- Só acho uma pena - diz Mione. - Quero dizer, sei que você escolhe e tudo mais, mas ele é um cara tão gentil. E gosta de você há séculos! Vocês dois ficariam perfeito juntos. - Ela me lança um olhar adulador. - Não há a menor chance de você sair com ele de novo?
- Eu... honestamente acho que não - digo numa voz arranhada. - Mione... estou um pouco cansada. Acho que vou para a cama.
E, sem encontrar seus olhos, levanto-me e lentamente caminho pelo corredor em direção ao quarto.
BANK OF LONDON
London House
Mill Street EC3R 4DW
Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD
23 de março de 2000
Prezada Srta. Ginevra Weasley
Muito obrigada por sua inscrição para um Empréstimo Fone Fácil no Bank of London.
Infelizmente "comprar roupas e maquiagem" não foi considerado um objetivo adequado para um empréstimo tão substancial e não segurado, e sua inscrição foi rejeitada pela nossa equipe de crédito.
Muito obrigada por considerar o Bank of London.
Atenciosamente
Margaret Hopkins
Consultora de Empréstimos
Endwich Bank
AGÊNCIA FULHAM
3 Fulham Rd
Londres SW6 9JH
Srta Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD
24 de março de 2000
Prezada Ginevra Weasley
Estou escrevendo para confirmar nosso encontro às 9:30 na segunda-feira, 27 de março, aqui em nosso escritório de Fulham. Por favor, dê meu nome na recepção.
Aguardo ansiosamente revê-la.
Subscrevo-me
Atenciosamente
Derek Smeath
Gerente
ENDWICH - PORQUE NOS IMPORTAMOS
|