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12. Cap Doze


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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DOZE

Quando chego em casa naquela tarde, sinto-me cansada e infeliz. De repente, empregos nível AAA em bancos e a Harrods com Harry Potter parecem estar a quilômetros de distância. A vida real não é divertir-se em volta de Knightsbridge num táxi e escolher malas de 1.000 libras, é? Esta é a vida real. Em casa, num apartamentinho que ainda cheira a curry, uma pilha de cartas desagradáveis do banco e nenhuma idéia do que fazer sobre isso tudo.

Introduzo a chave da fechadura e, quando abro a porta, ouço Mione gritar:

- Gina? É você?

- Sim! – respondo procurando soar alegre. – Onde você está?

- Aqui – diz ela, aparecendo à porta do meu quarto. Seu rosto está todo rosado e há um brilho em seus olhos. – Adivinhe o quê! Tenho uma surpresa para você!

- O que é? – pergunto, pondo a pasta no chão. Para ser sincera, não estou no clima para uma das surpresas de Mione. Ela mudou minha cama de lugar ou algo assim. E tudo o que quero é me sentar, tomar uma xícara de chá e comer alguma coisa. Acabei não almoçando.

- Venha ver. Não... não, feche os olhos primeiro. Vou levar você.

- Está bem – digo, relutante. Fecho meus olhos e deixo que ela me leve pela mão. Andamos pelo corredor e claro, quando nos aproximamos da porta do meu quarto, sem querer começo a sentir um pouquinho de ansiedade. Sempre gosto desse tipo de coisa.


- Dadaaa! Pode olhar agora!

Abro os olhos e dou uma examinada pelo quarto, tentando descobrir que coisa maluca Mione teria feito agora. Pelo menos não pintou as paredes nem mudou as cortinas e meu computador está em segurança, desligado. Então que diabos ela pode ter...

E então eu as vejo. Na minha cama. Pilhas e pilhas de molduras forradas. Tudo feito com perfeição, sem nenhum canto torto, e a fita bem colada no lugar. Não consigo acreditar no que vejo. Deve haver pelo menos...

- Fiz cem – diz Mione atrás de mim. – E vou fazer o resto amanhã! Não estão fabulosas?
Viro e olho para ela incrédula.

- Você... você fez tudo isso?
- Sim! – diz ela orgulhosa. – Foi fácil, uma vez que entrei no ritmo. Fiz enquanto assistia ao programa Morning Coffee. Ah, eu queria que você visse. Eles passaram uma reportagem sobre homens que se vestem com roupas de mulheres! Havia um cara...

- Espera – digo, tentando organizar minha cabeça. – Espera. Mione, não estou entendendo. Você deve ter levado séculos fazendo isto. – Meu olho corre pela pilha de molduras outra vez. – Por que... por que você...

- Bem, você não estava chegando longe com eles, estava? – diz Mione gentilmente. – Eu só pensei que podia dar uma mão.

- Uma mão? – repito num eco fraco.

- Farei o resto amanhã e depois telefonarei para o pessoal da entrega – diz Mione. – Você sabe, é um sistema muito bom. Você não precisa colocar no correio ou nada do gênero. Eles vêm e as recolhem! E depois mandam um cheque para você. Deve dar umas 284 libras. Bem bom, hein?

- Espera aí. – Me viro para ela. – O que quer dizer com isso de me mandarem um cheque? – Mione olha para mim como se eu fosse burra.

- Bem, Gina, elas são suas molduras.

- Mas você as fez! Mione, você deveria receber o dinheiro!

- Mas eu as fiz para você! – diz Mione, e olha para mim. – Eu as fiz para que você pudesse ganhar suas trezentas libras!

Olho para ela silenciosa, sentindo de repente um nó na garganta. Mione fez todas essas molduras para mim. Lentamente, sento na cama, pego uma das molduras e corro meu dedo pelo pano. Está absolutamente perfeita. Poderia ser vendida na Liberty’s.

- Mione, é seu dinheiro. Não meu – digo, por fim. É seu projeto agora.

- Bem, é aí que você se engana – diz Mione, e um olhar triunfante se espalha por seu semblante. – Tenho meu próprio projeto.

Ela se aproxima da cama, alcança atrás da pilha de molduras feitas e tira alguma coisa. É uma moldura de fotografia mas não se parece em nada com o estilo Molduras Finas. É forrada com tecido de peles cor de prata, tem a palavra ANJO aplicada em rosa na parte superior e há pequenos pompons prateados nos cantos. É a moldura mais legal e kitsch que já vi.

- Gosta? – questiona ela, um pouco nervosa.

- Adoro! – digo, tirando-o de suas mãos e olhando mais de perto para ela. – Onde a comprou?

- Não comprei em lugar nenhum – diz ela. – Eu a fiz.

- O quê? – Olho para ela. – Você... fez isto?

- Sim. Durante o seriado Neighbours. Foi horrível, na verdade. Beth descobriu sobre Joey e Skye.

Estou completamente boquiaberta. Como Mione de repente passa a ser tão talentosa?
- Então o que acha? – diz ela, pegando a moldura de volta e girando-a com de seus dedos. – Você acha que eu poderia vendê-las?

Se ela poderia vendê-las?

- Mione – digo bem séria. – Você vai ficar milionária.

Passamos o resto da noite bebendo muito e planejando a carreira de Mione como mulher de negócios do estilo Anita Roddick. Ficamos bastante histéricas procurando decidir se ela deve usar Chanel ou Prada quando for apresentada à rainha e, quando deitei na cama, já tinha esquecido de Harry Potter, do banco de Helsinque e do resto do meu dia desastroso.

Mas na manhã seguinte, tudo voltou para mim como um filme de terror. Acordo me sentindo pálida e trêmula e querendo desesperadamente conseguir uma licença por doença. Não quero ir trabalhar. Quero ficar em casa debaixo das cobertas, assistindo aos programas da tarde na televisão e sendo a empresária de uma milionária como Mione.

Mas é a semana mais ocupada do mês, e Philip nunca acreditará que estou doente.

Assim, de algum modo me arrasto para fora da cama, visto umas roupas e vou para o metrô. No Lucio’s compro um cappuccino e um muffin, e um brownie de chocolate. Não me importa se vou ficar gorda. Só preciso de açúcar, cafeína e chocolate, o mais que puder.

Felizmente não está tão cheio e ninguém está falando muito, portanto não preciso me preocupar em dizer a todo mundo no escritório o que fiz ontem no meu dia de folga. Lilá está digitando alguma coisa e há uma pilha de páginas de provas na minha mesa esperando para eu revisar. E então, depois de verificar meus e-mails – nenhum -, eu desmorono miseravelmente na minha cadeira, pego a primeira e começo a ler.

“Equilibrar os riscos e recompensas do investimento no mercado de ações pode ser um negócio perigoso, especialmente para o investidor novato.”

Ah, Deus, como isto é chato.

“Enquanto os lucros podem ser altos em certos setores do mercado, nada é garantido e para o investidor de pouco tempo...”

- Ginevra? – Olho e vejo Philip aproximando-se de minha mesa, segurando um pedaço de papel. Ele não parece muito feliz, e por um terrível instante penso que ele falou com Jill Foxton da William Green e descobriu tudo, e está me dando meus 45 centavos. Mas quando se aproxima mais, vejo que é só algum release sem graça.

- Quero que vá no meu lugar – diz ele. – É na sexta-feira. Eu iria mas vou estar preso aqui como marketing.

- Ah – digo sem entusiasmo, e pego a folha de papel. – Está bem. O que é?

- Feira de Finanças Pessoais em Olympia – diz ele. – Sempre a cobrimos.

Bocejo. Bocejo bocejo bocejo...

- A Barclays estará oferecendo um almoço com champanhe – acrescenta.

- Ah, sim! – digo, mas interessada. – Bem, está bem. Parece bom. O que é exatamente...

Olho para o papel e meu coração pára quando vejo o logotipo da Potter Communications no alto da página.

- É basicamente só uma grande feira – diz Philip. – Todos os setores de fianças pessoais. Palestras, estandes, eventos. Cubra só o que parecer interessante. Deixo isto a seu critério.
- Está bem – digo após uma pausa. – Ótimo.

Isto é, o que me importa se Harry Potter pode estar lá? Vou simplesmente ignorá-lo. Vou mostrar a ele tanto respeito quando ele mostrou por mim. E se tentar falar comigo, vou levantar meu queixo firme ao ar, dar meia-volta e...

- Como estão indo as páginas? – diz Philip.

- Ah, muito bem – digo eu e pego a de cima de novo. – Devo acabar logo. – Ele faz um pequeno aceno com a cabeça e se afasta, e eu começo a ler novamente.

“... para o pequeno investidor, os riscos vinculados a essas ações podem superar o potencial de lucro”.

Ah, Deus, isto é maçante. Eu nem consigo me concentrar no significado das palavras.

“Portanto cada vez mais investidores estão exigindo a combinação de desempenho do mercado de ações com um alto nível de segurança. Uma opção é investir num fundo especializado, que automaticamente acompanha as 100 maiores empresas do momento, continuamente...”

Hum. Na verdade, isto me faz pensar. Pego minha agenda, abro e ligo para o novo número direto de Elly na Wetherby’s.

- Eleanor Granger – ouço sua voz, soando um pouco distante e com eco. Deve ser uma linha defeituosa.

- Oi Elly, é Gina – digo. – Ouça, o que aconteceu com as barras de chocolate Tracker? Elas são realmente deliciosas, não são? E eu não como uma há...

Há um tipo de som arranhado na linha, e eu olho para o fone surpresa. À distância, posso ouvir Elly dizendo “Desculpe. Estarei...”

- Gina! – sussurra ela no fone. – Eu estava no viva voz! Nosso chefe de departamento estava no meu escritório.

- Ah, Deus! – digo, horrorizada. – Desculpe! Ele ainda está aí?

- Não – diz Elly e suspira. – Deus sabe o que pensa de mim agora.

- Ah, bem – digo, segura. – Ele tem senso de humor, não tem?

Elly não responde.

- Ah, bem – digo novamente, com menos certeza. – De qualquer modo, você está livre para um drinque na hora do almoço?

- Não exatamente – diz ela. – Desculpe, Gina, eu realmente preciso desligar. – E põe o fone no gancho.

Ninguém gosta mais de mim. De repente sinto-me um pouco fria e tremendo, e me encolho mais ainda na cadeira. Ah, Deus, odeio o dia de hoje. Odeio tudo. Quero ir para caaasa.

Quando chega sexta-feira devo dizer, que me sinto muito mais alegre. Isto basicamente porque:

1. É sexta-feira.
2. Estou passando o dia todo longe do escritório.
3. Elly telefonou ontem e pediu desculpas por ter sido tão rude, mas alguém mais entrou no escritório justo quando estávamos falando. E ela vai estar na Feira de Finanças Pessoais.
E mais...
4. Tirei completamente o incidente Harry Potter da minha cabeça. Quem se importa com ele, afinal?

E então, quando fico pronta para sair, sinto-me viva e positiva. Visto meu novo cardigã cinza sobre uma saia preta curta e minhas botas novas Hobbs – camurça cinza escuro – e, diga-se de passagem, estou linda nelas. Deus adoro roupas novas. Se todo mundo pudesse só usar roupas novas, todos os dias, acho que depressão deixaria de existir.
Quando estou quase saindo, uma pilha de cartas chega na minha caixa de correio. Muitas delas parecem contas, e uma é mais uma carta do Endwich Bank. Mas tenho uma nova solução inteligente para essas cartas desagradáveis: simplesmente as coloco dentro da gaveta da minha cômoda e fecho. É o único jeito de não ficar estressada com isso. E realmente funciona. Quando fecho a gaveta e saio pela porta da frente, já esqueci delas.

A entrevista já está em andamento quando chego lá. Quando dou meu nome ao assessor de imprensa, na recepção, recebo uma sacola de cortesia grande e brilhante com o logotipo do HSBC do lado. Dentro, encontro um release com uma foto de todos os organizadores da entrevista levantando copos de champanhe uns para os outros como se estivessem brindando (ah é, como se nós realmente fôssemos usar isso na revista), um tíquete para dois drinques no estande da Pimm’s da Sun Alliance, um bilhete de rifa para ganhar 1.000 libras (investidas em cotas de fundo fiduciário de minha escolha), um grande pirulito anunciando a Eastgate Insurance e um crachá com meu nome escrito e a palavra IMPRENSA em cima. Há também um envelope branco com a entrada para a recepção de champanhe da Barclays, e eu ponho isso cuidadosamente na minha bolsa. Depois prendo meu crachá bem à vista na minha lapela e começo a andar pela arena.

Normalmente, claro, a regra é jogar fora seu crachá logo que se recebe. Mas a vantagem de ser IMPRENSA num evento como este é a farta distribuição de material grátis. A maioria é só folheto antigo e chato sobre planos de poupança, mas alguns dão presentes e lanchinhos de graça também. Assim, depois de uma hora, já ganhei duas canetas, uma faca para cortar papel, uma minicaixa de chocolates Ferrero Rocher, um balão de hélium escrito Sabe & Prosper do lado e uma camiseta com um desenho na frente, patrocinada por alguma empresa de telefone celular. Além disso, ganhei dois cappuccinos, um pain au chocolat, uns salgadinhos (da Somerset Savings), um minipacote de Starties e meu Pimm’s da Sun Alliance. (Ainda não escrevi uma palavra no meu caderno, ou fiz uma única pergunta, mas não importa. Sempre posso copiar alguma coisa do release.)

Já vi que algumas pessoas estão carregando uns reloginhos de mesa de prata bem legais e eu não me importaria de ganhar um, portanto, estou andando por aí, tentando descobrir quem é que está distribuindo, quando uma voz diz:

- Gina!

Olho e vejo Elly! Ela está de pé no estande da Wetherby’s, com dois caras de terno, acenando para que eu me aproxime.

- Oi! – digo feliz. – Como vai você?

- Bem! – diz ela e sorri para mim. – Realmente estou indo bem. - E ela parece ótima, devo confessar. Está usando um tailleur vermelho vivo (Karen Millen sem dúvida) e sapatos de bico quadrado muito bonitos, e o cabelo está preso atrás. A única coisa de que não gosto são os brincos. Por que de repente ela está usando brincos de pérola? Talvez seja só para combinar com o estilo dos outros.

- Deus, não posso acreditar que você é de fato um deles! – digo, abaixando um pouco a voz. – Daqui a pouco vou entrevistar você! – Inclino minha cabeça com um ar sério como Martin Bashir, no Panorama. – “Sra. Davis, poderia me dizer os objetivos e os princípios da Wetherby’s?”

Elly dá uma pequena risada depois apanha algo dentro de uma caixa ao seu lado.

- Vou dar a você isto – diz ela e me dá um folheto.

- Ah, obrigada – digo ironicamente e enfio o folheto dentro da minha bolsa. Eu suponho que ela precise fazer este teatro na frente de seus colegas.

- Na verdade é bem agradável trabalhar na Wetherby’s – continua Elly. – Você sabe que estamos lançando uma série inteiramente nova de fundos no mês que vem? Acho que são cinco ao todo. Crescimento do Reino Unido, Perspectivas do Reino Unido, Crescimento Europeu, Perspectivas Européias e...

Por que exatamente ela está me dizendo isto?

- Elly...

- E Crescimento dos Estados Unidos! – termina ela triunfante. Não há um pingo de humor nos seus olhos.

- Certo – digo depois de uma pausa. – Bem, isto parece... fabuloso!

- Eu poderia arranjar de nosso pessoal de RP lhe telefonar, se desejar – diz ela. – Para você ter um pouco mais de informações.

O quê?

- Não – digo logo. – Não, está bem. Então, erm... o que você vai fazer depois? Quer sair para um drinque?

- Não vou poder – diz ela desculpando-se. – Vou ver um apartamento.

- Vai se mudar? – pergunto, surpresa. Elly mora no apartamento mais charmoso de Camden com dois caras que estão numa banda e conseguem para ela milhares de shows de graça e coisa assim. Não posso entender por que ela quereria se mudar.

- Na verdade, estou comprando – diz ela. – Estou procurando em Streatham, Tooting... Só quero escalar os degraus da vida.

- Certo – digo com uma voz fraca. – Boa idéia.

- Você devia fazer o mesmo, sabe Gina – diz ela. – Não pode ficar num apartamento de estudante para sempre. A vida real precisa começar um dia! – Ela olha para um dos seus colegas de terno e ele dá uma risadinha.

Não é um apartamento de estudante, penso indignada. E de qualquer modo, quem define “vida real”? Quem diz que “vida real” é um apartamento melhor e horríveis brincos de pérola? Isto está mais para “vida chata entediante de merda”.

- Você vai à recepção de champanhe da Barclays? – pergunto, como um último suspiro, achando que talvez possamos ir e beber juntas, nos divertirmos. Mas ela faz uma leve careta e balança a cabeça.

- Talvez eu dê um pulo – diz ela. – Mas, eu vou estar muito ocupada aqui.

- Tudo bem – digo. – Bem, eu... vejo você mais tarde.

Me afasto do estande e começo a andar lentamente em direção ao canto onde a recepção está acontecendo, sentindo-me um pouco desanimada. Sem querer, uma parte de mim começa a pensar que talvez Elly esteja certa e eu errada. Talvez eu devesse estar pensando em coisas do tipo mudar para um apartamento melhor e fundos de crescimento, também. Ah, Deus, talvez haja alguma coisa errada comigo. Estou perdendo o gene que faz você crescer e comprar um apartamento em Streatham e começar a visitar shoppings de decoração todo fim de semana. Todos estão indo em frente sem mim, para um mundo que não compreendo.

Mas, quando chego perto da entrada da recepção, sinto meu moral levantar. Qual o moral que não levanta à idéia de champanhe de graça? Está acontecendo numa tenda enorme, com um grande cartaz. Há um conjunto tocando música e uma garota enrolada numa faixa na entrada, distribuindo chaveiros Barclays. Quando ela vê meu crachá, abre um amplo sorriso, me entrega uma pasta para imprensa em papel branco lustroso e diz:

- Espera um momento. – Depois, vai até um pequeno grupo de pessoas, murmura no ouvido de um homem de terno e volta. – Alguém estará logo com você – diz ela. – Enquanto isso, vou pegar uma taça de champanhe para você.

Entende o que quero dizer sobre ser IMPRENSA? Em todo lugar que você vai, recebe tratamento especial. Aceito uma taça de champanhe, empurro a pasta branca para a imprensa para dentro da minha sacola e tomo um gole. Ah, é delicioso. Geladinha, seca e borbulhante. Talvez eu fique aqui por umas duas horas, eu acho, só bebendo champanhe até não ter mais ninguém. Eles são ousarão me mandar embora, sou IMPENSA. Na verdade, talvez eu...

- Ginevra. Que bom que você pôde vir.



Olho e sinto-me gelar. O homem vestindo o terno era Harry Potter. Harry Potter está de pé na minha frente, olhando direto para mim, com uma expressão que não consigo decifrar muito bem. E de repente me sinto mal. Tudo o que planejei sobre fingir ser fria e distante não vai funcionar porque só de ver seu rosto fico quente de humilhação, tudo de novo.

- Oi – murmuro olhando para baixo. Por que estou até dizendo Oi para ele?

- Eu esperava que você viesse – diz ele numa voz baixa e séria. – Eu queria muito...

- Sim – interrompo. – Bem, eu... não posso conversar, preciso circular. Estou aqui para trabalhar, você sabe.

Estou procurando parecer digna, mas há uma hesitação em minha voz, e posso sentir meu rosto enrubescendo enquanto ele me olha. Por isso, me viro antes que ele possa dizer qualquer outra coisa e me afasto na direção do outro lado da tenda. Não sei exatamente para onde estou indo, mas preciso continuar andando até descobrir alguém com quem falar.

O problema é que não reconheço ninguém. Só vejo grupos de pessoas, do tipo que trabalha em banco, rindo alto juntos e falando sobre golfe. São todos altos, de ombros largos, e eu nem consigo cruzar um olhar com nenhum deles. Deus, isto é embaraçoso. Sinto-me como uma criança de seis anos numa festa de adultos. No canto vejo Moira Channing, do Daily Herald, e ela me dá um meio-sorriso de reconhecimento mas certamente não vou falar com ela. Tudo bem, só continue andando, digo a mim mesma. Finja que está indo para algum lugar. Não entre em pânico.

E então vejo Harry Potter do outro lado da tenda. Ele levanta a cabeça quando me vê e começa a vir na minha direção. Ah, Deus, rápido. Rápido. Preciso descobrir alguém com quem falar.

Certo, que tal este casal em pé? O cara é de meia-idade, a mulher bem mais nova, e eles também não parecem conhecer muitas pessoas. Graças a Deus. Sejam quem forem, só vou perguntá-los se estão gostando da Feira de Finanças Pessoais e se estão achando útil, e fingir que estou tomando nota para meu artigo. E quando Harry Potter chegar, estarei envolta demais na conversa até para percebê-lo. Tudo bem vá.

Tomo um gole de champanhe, me aproximo do homem e abro um sorriso radiante.

- Como vai – digo. – Ginevra Weasley, Successful Saving.

- Muito prazer – diz ele, virando-se para mim, e estende a mão. – Derek Smeath do Endwich Bank. E esta é minha assistente, Erica.

Ai, meu Deus.

Não consigo falar. Não consigo apertar sua mão. Não consigo correr. Meu corpo todo está paralisado.

- Como vai – diz Erica com sorriso amável. – Sou Erica Parnell.

- Sim – digo após uma extensa pausa. – Sim, olá.

Por favor não reconheça meu nome. Por favor não reconheça meu nome.

- Então você é jornalista? – diz ela olhando meu crachá e franzindo a testa. – Seu nome parece bastante familiar.

- Sim – consigo dizer. – Sim, você... talvez tenha lido alguns dos meus artigos.

- Espero que sim – diz ela e, despreocupada, toma um gole de champanhe. – Nós recebemos todas as revistas financeiras no escritório. Muito boas, algumas delas.

Pouco a pouco o sangue volta a circular pelo meu corpo. Vai ficar tudo bem, digo a mim mesma. Eles não têm a menor idéia de quem sou.

- Vocês jornalistas precisam ser especialistas em tudo, parece – diz Derek, que desistiu de tentar apertar minha mão e em vez disso está bebendo seu champanhe.

- Sim, é verdade – replico e arrisco um sorriso. – Ficamos conhecendo todas as áreas de finanças pessoais, de negócios bancários a cotas de fundo fiduciário e seguro de vida.

- E como vocês adquirem todo esse conhecimento?

- Ah, simplesmente aprendemos ao longo do caminho – digo suavemente.

Sabe do que mais? Isto está bem divertido, agora que estou relaxada. Vocês não sabem quem eu sou! Sinto vontade de cantar. Vocês não sabem quem eu sou! E Derek Smeath não é nada ameaçador em carne e osso. Na realidade, é um pouco aconchegante e amável, como um bom tio de seriado de TV.

- Muitas vezes pensei – diz Erica Parnell – que eles deviam fazer um documentário instrutivo sobre um banco. – Ela me dá um olhar de expectativa e eu aceno com vigor.

- Boa idéia! – digo. – Acho que seria fascinante.

- Você devia ver alguns dos personagens com que temos de lidar! Pessoas que não têm absolutamente nenhuma idéia sobre suas finanças. Não é, Derek?

- Você ficaria pasma – diz Derek. – Absolutamente estupefata. A que ponto as pessoas chegam só para evitar pagarem suas contas garantidas! Ou até mesmo falar conosco!

- Verdade? – digo, como se estivesse surpresa.

- Não acreditaria! – diz Erica. – Às vezes penso...

- Ginevra! – Uma voz explode atrás de mim e viro chocada para ver Philip segurando uma taça de champanhe e sorrindo para mim. O que ele está fazendo aqui?

- Ah, ótimo! – digo, e tomo um gole de champanhe. – Este é Derek e Erica... este é meu editor, Philip Page.

- Endwich Bank, hein? – diz Philip olhando para o crachá de Derek Smeath. – Então você deve conhecer Martin Gollinger.

- Nós não somos do escritório central, lamento – diz Derek, dando um pequeno risinho. – Sou o gerente da filial de Fulham.

- Fulham! – diz Philip. – Fulham da moda.

E de repente um sininho de aviso toca na minha cabeça. Dong-dong-dong! Preciso fazer alguma coisa. Preciso dizer alguma coisa, mudar o assunto. Mas é tarde demais. Sou um espectador na montanha, observando os trens colidirem no vale abaixo.

- Ginevra mora em Fulham – Philip está dizendo. – Qual é seu banco, Ginevra?

Provavelmente você é um dos clientes do Derek! – Ele ri alto de sua própria piada, e Derek ri educadamente também.

Mas eu não consigo rir. Estou congelada no meu lugar observando a expressão de Erica Parnell mudar. À medida que a percepção surge lentamente. Ela encontra meu olhar, e sinto um frio subir pela minha espinha.

- Ginevra Weasley – diz ela, numa voz bem diferente. – Eu achei que conhecia esse nome. Você mora na Burney Road, Ginevra?

- Muito bem! – diz Philip. – Como soube disso? – E toma outro gole de champanhe.
Cale-se, Philip, penso ansiosamente. Cale-se.

- Afinal, mora ou não mora? – Sua voz é doce mas fria. Ai, meu Deus, agora Philip está me olhando, aguardando minha resposta.

- Sim – digo, numa voz estrangulada, consciente de que meu rosto está em brasa.

- Derek, você percebeu quem ela é? – diz Erica num tom de prazer. – Esta é Ginevra Weasley, uma de nossas clientes. Acho que você falou com ela outro dia. Lembra-se? – Sua voz endurece. – Aquela do cachorro morto?

Faz-se silêncio. Eu não ouso olhar para o rosto de Derek Smeath. Não ouso olhar para nada exceto o chão.

- Mas que coincidência! – diz Philip. – Alguém quer mais champanhe?

- Ginevra Weasley – diz Derek Smeath. E seu rosto fica branco. – Não acredito.

- Sim! – digo, tomando o pouco que resta de meu champanhe. – Hahaha! É uma cidade pequena. Bem, preciso ir andando e entrevistar alguns outros...

- Espere! – diz Erica, sua voz soando como um punhal. – Estávamos querendo ter uma pequena reunião com você, Ginevra. Não é mesmo, Derek?

- Claro que sim – confirma Derek Smeath. Olho para ele, encontro seu olhar e sinto um repentino pingo de medo. Este homem não parece mais um tio simpático de seriado de TV. Ele é como um assustador inspetor de provas que acabou de pegar você colando. – Isto é – acrescenta ele, severamente –, presumindo que suas pernas estejam ambas intactas e que você não esteja sofrendo de nenhuma alergia terrível?

- O que é isto? – diz Philip num tom alegre.

- Como vai a perna, por falar nisso? – diz Erica docemente.

- Bem – murmuro. – Bem, obrigada. – Sua sacana imbecil.

- Bom – diz Derek Smeath. – Então, digamos segunda-feira às 9:30, está bem? – Ele olha para Philip. - Não vai se importar se Ginevra for nos encontrar para uma reunião rápida na segunda-feira de manhã, não é?

- Claro que não! – diz Philip.

- E se ela não aparecer – diz Derek Smeath – saberemos onde achá-la, não é? – Ele me dirige um olha lancinante, e sinto meu estômago contrair de medo.

- Ginevra vai aparecer! – diz Philip. – E se ela não for, vai ter problema! – Ele dá um sorriso brincalhão, levanta sua taça e se afasta. Meu Deus penso em pânico. Não me deixe sozinha com eles.

- Bem, aguardo ansioso encontrar você – diz Derek Smeath. Faz uma pausa e me dá um olhar lacrimejante. – E se me lembro bem de nossa conversa ao telefone, no outro dia, até lá já estará recebendo uma certa quantia em dinheiro.

Merda. Pensei que ele tinha esquecido aquilo.

- Isto mesmo – digo após uma pausa. – Claro. O dinheiro de minha tia. Bem lembrado! Minha tia me deixou algum dinheiro recentemente – explico a Erica Parnell.

Erica Parnell não parece impressionada.

- Bem – diz Derek Smeath. – Então espero você na segunda-feira.

- Certo – confirmo e sorrio para ele mais confiante ainda. – Já estou ansiosa!

O C T A G O N
Talento... estilo... visão
Departamento de Serviços Financeiros
Oitavo andar
Tower House
London Road
Winchester SO44 3DR


Srta. Ginevra Weasley
Número do Cartão 7854 4567
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD

20 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley
ÚLTIMO AVISO

Em acréscimo à minha correspondência de 3 de março, há ainda um importante saldo de 245, 57 libras no seu Cartão Octagon. Caso o pagamento não seja efetuado dentro dos próximos sete dias, sua conta será bloqueada e uma ação posterior será adotada.

Fiquei feliz por saber que encontrou o Senhor e aceitou Jesus Cristo como seu salvador, infelizmente, isto não influi no problema.

Aguardo ansioso o recebimento de seu pagamento em breve.

Atenciosamente

Grant Ellesmore
Gerente de Finanças de Clientes

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