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11. Cap Onze


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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ONZE

Quando chego de volta no foyer, estou um pouco ofegante. O que não é de se espantar, já que acabei de correr uma meia maratona ao longe de corredores intermináveis, procurando sair deste lugar. Desço o ultimo lance de escadas (não podia arriscar os elevadores caso da brigada finlandesa de repente aparecer) e paro para respirar. Estico minha saia, transfiro minha pasta de uma mão suada para a outra e começo a andar calmamente pelo foyer em direção à porta, como se eu tivesse saído de uma reunião absolutamente comum, totalmente normal. Não olho para a direita nem para a esquerda. Não penso no fato de que eu acabei de aniquilar qualquer chance que eu tinha de me tornar uma alta executiva da City. Só consigo pensar em chegar àquela porta de vidro e sair antes que alguém posa...

- Ginevra! – vem uma voz por trás de mim e eu gelo. Merda. Me pegaram.

- Aalô! – falo enquanto me viro. – Aal... Ah. Ol... Olá.

É Harry Potter

É Harry Potter, em pé bem na minha frente, olhando para mim com aquele olhar estranho que sempre parece ter.

- Este não é o tipo de lugar que eu esperaria encontrar você – diz ele. – Não está buscando um emprego na City, está?

E por que eu não estaria? Ele não acha que sou suficientemente inteligente?

- Na verdade – digo com arrogância – estou pensando numa mudança de carreira. Talvez trabalhar com o sistema financeiro internacional. Ou corretagem de mercado de futuros.

- Verdade? – diz ele. – É uma pena.

Uma pena? O que ele quer dizer? Por que é uma pena? Quando olho para ele, seus olhos verdes encontram os meus e sinto um pequeno tremor bem dentro de mim. Saídas do nada, as palavras de Lilá surgem na minha cabeça. Harry Potter estava perguntando se você tem namorado.

- O que... – limpo minha garganta. O que você está fazendo aqui, afinal?

- Ah, eu recruto pessoal daqui com muita freqüência – diz ele. – São muito eficientes. Sem alma, mas eficientes. – Ele encolhe os ombros, depois olha para a minha pasta lustrosa. – Eles já arranjaram alguma coisa para você?

- Eu... tenho várias opções abertas para mim – digo.- Estou só analisando meu próximo passo.

Que para ser honesta, é passar direto pela porta.

- Compreendo – diz ele e pausa. – Você tirou o dia livre para vir aqui?

- Sim – digo. Claro que sim.

O que ele pensa? Que eu só escapei por duas horas e disse que estava numa entrevista coletiva?

Na verdade não é uma má idéia. Eu poderia tentar isso da próxima vez.

- E então – o que vai fazer agora? – pergunta ele.

Não diga “nada”. Nunca diga “nada”.

- Bem, tenho umas coisinhas para fazer – digo. – Telefonemas para dar, pessoas para ver. Esse tipo de coisa.

- Ah - diz ele acenando com a cabeça. – Sim. Bem. Não vou detê-la. – Ele olha em torno do foyer. – E espero que tudo corra bem para você, quanto ao emprego.

- Obrigada – digo, dando a ele um sorriso profissional.

E depois ele se foi, distanciando-se em direção às portas, e eu fiquei segurando minha pasta volumosa, um pouco desapontada. Espero até ele desaparecer, depois ando devagar até às portas e saio para a rua. E então paro. Para dizer a verdade não estou bem certa do que fazer agora. Eu meio que tinha planejado passar o dia ligando para todo mundo e contando sobre meu fabuloso emprego novo de corretora de mercado de futuros. Mas em vez disso... Bem, paciência. Não vamos pensar nisso.

Mas eu não posso ficar parada na calçada em frente da Willian Green o dia todo. As pessoas vão começar a pensar que sou uma vitrinista ou algo assim. Então, começo a caminhar pela rua, pensando que vou chegar no metrô a tempo e depois poderei decidir o que fazer. Chego numa esquina e estou só esperando os carros pararem para atravessar, quando um táxi para ao meu lado.

- Sei que é uma mulher muito ocupada, com muitas coisas para fazer – vem à voz de Harry Potter e minha cabeça levanta de repente de susto. Lá está ele, com a cabeça inclinada pela janela do táxi, seus olhos verdes franzidos num pequeno sorriso. – Mas se você tivesse uma meia hora de folga, não estaria interessada em fazer umas compras, estaria?

Este é um dia surrealista. Completa e absolutamente surrealista.


Entro no táxi, coloco minha pasta volumosa no chão e lanço um olhar nervoso para Harry quando sento. Já estou lastimando um pouco isto. E se ele me pergunta alguma coisa sobre taxa de juros? E se quer falar sobre o Bundesbank ou as perspectivas de crescimento do mercado americano? Mas tudo que ele diz é “Harrods, por favor”, para o motorista.

Quando o táxi dá a partida, mal posso segurar um sorriso que surge no meu rosto. Isto é tão legal. Eu pensei que teria que ir pra casa e ficar toda triste e sozinha e, em vez disso, estou indo para Harrods e outra pessoa está pagando. Quero dizer, não existe nada mais perfeito do que isto.

Enquanto estamos no carro, olho pela janela para as ruas movimentadas. Apesar de ser março, há ainda alguns cartazes de LIQUIDAÇÃO nas vitrines das lojas, deixados desde janeiro, e eu me vejo olhando para as vitrines, pensando se há alguma barganha que eu possa ter perdido. Paramos do lado de fora de uma agência do Lloyds Bank. Olho inocente pela janela, para a fila de pessoas lá dentro e me ouço dizer “Sabe o quê? Os bancos deveriam ter liquidações em janeiro. Todos têm”.

Há um silêncio e quando olho vejo uma expressão de diversão no rosto de Harry.

- Os bancos? – diz ele.

- Por que não? – digo defensivamente. – Eles poderiam reduzir suas tarifas por um mês ou coisa parecida. E o mesmo poderiam fazer as empresas construtoras. Grandes cartazes nas janelas “Preços reduzidos”... – Penso por um momento. – Ou talvez devessem ter saldos em abril, depois do fim do ano fiscal. Os bancos de investimento poderiam fazê-lo também. “Uma seleção de fundos com 50% de desconto.

- Uma liquidação de cotas de fundo fiduciário – diz Harry Potter devagar. – Reduções em todas as tarifas.

- Exatamente – digo. – Todos ficam loucos por uma liquidação. Até as pessoas ricas.

O táxi se movimenta novamente e eu olho para uma mulher num belo mantô branco e fico pensando onde o comprou. Talvez na Harrods. Talvez eu devesse comprar um mantô branco também. Não vou usar nada além de branco todo o inverno. Um mantô branco como a neve e um chapéu de pele branco. As pessoas começarão a chamar-me de a Garota do Mantô Branco.

Quando volto minha atenção para dentro do carro novamente, Harry está escrevendo algo num caderninho. Seu olhar encontra o meu por um momento, depois diz:

- Ginevra, você está falando sério em largar o jornalismo?

- Ah – digo vagamente. – Para ser sincera, tinha esquecido tudo sobre largar o jornalismo. – Eu não sei. Talvez.

- E você realmente acha que trabalhar em banco poderia ser mais adequado a você?

- Quem sabe? – digo, me sentindo um pouco atordoada com seu tom de voz. Está bom para ele. Não tem que se preocupar com sua carreira, pois tem sua própria empresa multimilionária. – Elly Granger está deixando o Investor’s Weekly News – acrescento. – Ela está indo trabalhar na Wetherby’s como gerente de fundos.

- Ouvi falar – diz ele. – Mas você não é nada parecida com Elly Granger.

Verdade? Este comentário me intriga. Se não sou como Elly Granger, com quem pareço afinal? Alguém realmente legal como Kristin Scott Thomas, talvez.

- Você tem imaginação – acrescenta Harry. – Ela não.

Uau! Agora estou realmente pasma. Harry Potter acha que eu tenho imaginação? Caramba. Isto é bom, não é? É um belo elogio realmente. Você tem imaginação. Mmm, sim, eu gosto disso. A não ser...

Espera aí. Não é alguma maneira delicada de dizer que sou burra, é? Ou uma mentirosa? Como “corretora criativa”. Talvez ele esteja tentando dizer que nenhum dos meus artigos é preciso.

Ah, Deus, agora não sei se devo parecer satisfeita ou não.

Para esconder meu embaraço, olho para fora da janela. Paramos num sinal luminoso e uma senhora muito grande, vestindo um jogging de veludo, está tentando atravessar a rua. Ela tem nas mãos várias sacolas de compras e um cachorro pug, e fica se soltando de um ou outro e precisando deixar um deles no chão. É tão frustrante que dá vontade de sair do carro para ajudá-la. De repente, ela solta uma das sacolas e deixa-a cair no chão. A sacola se abre quando cai e três embalagens enormes de sorvete saem dela e começam a rolar pela rua.

Não ria, digo a mim mesma. Seja madura. Não ria. Eu aperto meus lábios um no outro, mas não consigo evitar que um pequeno risinho escape.

Olho para Harry e seus lábios também estão apertados um no outro.

E então a mulher começa a caçar seu sorvete pela rua, segurando o cachorro, e é isso aí. Não consigo parar de rir. E quando o pug alcança o sorvete antes da senhora e tenta tirar a tampa com os dentes, acho que vou morrer de rir. Olho para Harry e não consigo acreditar. Ele também está rindo sem parar, limpando as lágrimas dos olhos.

Deus, eu achei que Harry Potter jamais risse.

- Meu Deus – consigo dizer finalmente. – Sei que não se deve rir das pessoas. Mas quero dizer...

- Aquele cachorro! – Harry começa a rir de novo. – Aquele maldito cachorro!

- Aquela roupa! – Tenho um pequeno arrepio quando começamos a nos mover novamente, passando pela mulher de rosa. Ela está se curvando por cima do sorvete, seu traseiro enorme cor-de-rosa virado para cima. - Sinto muito, mas joggings de veludo rosa deveriam ser banidos deste planeta.

- Concordo plenamente – diz Harry, acenando sério. – Joggings de veludo cor-de-rosa estão proibidos de hoje em diante. Junto com as gravatas.

- E os suspensórios – digo sem pensar, e fico vermelha. Como eu pude mencionar suspensórios na frente de Harry Potter? – E pipoca doce – logo acrescento.

- Certo – diz Harry. – Então estamos banindo joggings cor-de-rosa, gravatas, suspensórios, pipoca doce...

- E fregueses sem trocado – surge a voz do motorista do táxi vinda da frente.

- É justo – diz Harry , encolhendo os ombros. – Pessoas sem troco.

- E fregueses que vomitam. Esses são os piores.

- Está bem...

- E fregueses que não sabem para que raio de lugar estão indo.

Harry e eu trocamos olhares e começamos a rir novamente.

- E fregueses que não falam a maldita língua. Levam você à loucura.

- Certo – diz Harry. – Então... a maioria dos fregueses, na verdade.

- Não me entenda mal – diz o motorista. – Não tenho nada contra estrangeiros... – Ele pára em frente à Harrods. – Aqui estamos. Vão fazer compras, não é?

- É sim – diz Harry, tirando sua carteira.

- E então, o que estão procurando?

Olho para Harry com ar de expectativa. Ele não me disse o que vamos comprar. Roupas? Um novo creme pós-barba? Vou precisar ficar cheirando seu rosto? (Eu não me importaria com isso, na verdade.) Móveis? Alguma coisa chata como uma mesa de trabalho nova?

- Malas - diz ele, e entrega uma nota de 10 libras ao motorista. – Guarde o troco.

Malas! Malas, valises, malas de mão e coisas assim. Enquanto ando pela seção, vendo as malas Louis Vuitton e malas de couro, estou bem horrorizada. Bastante chocada comigo. Malas. Porque nunca pensei em malas antes?
Devo explicar. Há muitos anos, tenho meio que funcionado sob um ciclo de comprar informal. Um pouco como um sistema de rotação de colheitas do fazendeiro. Exceto que, em vez de trigo-milho-cevada-descanso, o meu é muito mais do tipo roupas-maquiagem-sapatos-roupas. (Eu geralmente não ligo para o descanso.)

Comprar é na verdade muito parecido com lavrar um campo. Não se pode continuar comprando a mesma coisa – é preciso variar um pouco. Do contrário você se chateia e deixa de se divertir.

E eu pensei que a minha vida de compras era tão variada quando a de todo mundo. Pensei que tinha coberto todas as áreas. Para ser sincera, eu estava bem blasé quanto a isso. Mas olha o que estou perdendo esse tempo todo. Olha o que estou negando a mim mesma. Sinto-me tremer um pouco quando percebo as oportunidades que tenho jogado fora ao longo dos anos. Malas, malas de mão, caixas de chapéus com monograma... Com as pernas fracas, entro num canto e sento num pedestal acarpetado, perto de uma frasqueira de couro vermelha.

Como posso ter negligenciado as malas por tanto tempo? Como posso ter levado a vida feliz, ignorando um setor inteiro de compras?

- E então, o que acha? – diz Harry, aproximando-se de mim. – Alguma coisa que valha a pena comprar?

E agora, claro, sinto-me como uma fraude. Por que ele não escolheu comprar uma camisa branca de boa qualidade, ou uma echarpe de cachmere? Ou até mesmo um creme para as mãos? Eu poderia orientá-lo com autoridade e até citar os preços. Mas malas! Sou uma iniciante em malas.

- Bem – digo, brincando para ganhar tempo. – Depende. Tudo parece ótimo.

- Parece, não é? – Ele segue meu olhar pela seção. – Mas qual você escolheria? Se tivesse que comprar uma dessas malas, qual seria?

Não dá. Não posso blefar.

- Para ser sincera – digo -, este não é o meu campo de ação.

- O que não é? – diz ele, soando incrédulo. – Comprar?

- Malas – explico. – Não é uma área à qual eu tenha dedicado muito tempo. Eu deveria, eu sei, mas...

- Bem... não importa – diz Harry, sua boca torcendo-se num sorriso. – Como uma leiga. Qual você escolheria?

Bem, isto é diferente.

- Humm – digo, e me levando numa maneira profissional. – Bem, vamos olhar mais de perto.

Deus estamos nos divertindo. Nós alinhamos oito malas numa fila e demos a elas pontos pela aparência, peso, qualidade do tecido, número de bolsos no interior e eficiência das rodinhas. (eu texto isto desfilando pela seção, puxando a mala atrás de mim. A esta altura o vendedor já desistiu e nos deixou fazendo isso.) Depois olhamos para ver se ela têm uma mala de mão combinando e damos pontos também.

Os preços não parecem importar para Harry . O que é uma coisa danada de boa, pois eles são absolutamente astronômicos e, à primeira vista, tão assustadores que me fazem querer fugir. Mas é incrível como rapidamente 1.000 libras podem começar a parecer uma soma bem razoável para uma mala, especialmente quando o baú Louis Vuitton com monograma custa umas dez vezes isso. De fato, após um certo tempo, me vejo pensando seriamente que eu também deveria investir numa mala de qualidade para substituir minha maleta de lona velha e muito usada.

Mas hoje o dia é para as compras de Harry, não minhas. E, estranhamente, é quase mais divertido escolher para outra pessoa do que para si mesmo. No fim, a escolha ficou entre uma mala de couro verde-escura, com excelentes rodinhas, e uma mala de couro de boi do mais pálido bege, que é um pouco mais pesada, mas o seu interior é forrado de um tecido sedoso lindíssimo e é basicamente tão bonita que não consigo parar de olhar para ela. Ela tem uma mala de mão combinando e uma frasqueira e elas também são lindas. Deus, se fosse eu, ia...

Mas então, não sou eu quem vai decidir, certo É Harry quem está comprando a mala. Ele é quem tem que escolher. Sentamos no chão, um ao lado do outro, e olhamos para elas.

- A verde seria mais prática – diz Harry finalmente.

- Mmm – eu digo sem compromisso. – Suponho que sim.

- É mais leve, e as rodinhas são melhores.

- Mmm.

- E a pele provavelmente iria arranhar numa questão de minutos. O verde é uma cor mais adequada.

- Mmm – digo, procurando parecer que concordo com ele.

Ele me dirige um olhar inquisitivo e diz:

- Certo. Bom, acho que fizemos nossa escola, você não acha? – E, ainda sentado no chão, chama o vendedor.

- Sim, senhor? – diz o vendedor, e Harry acena para ele.

- Gostaria de comprar uma dessas malas bege-claras, por favor.

- Oba! – digo eu, e não consigo parar um sorriso de alegria que inunda meu rosto. – Você está comprando a que eu mais gostei!

- Regra da vida – diz Harry, levantando –se e limpando as calças com as mãos. – Se eu me dei ao trabalho de pedir a sugestão de alguém, então devia ouvi-la.

- Mas eu não disse qual...

- Não precisou – diz Harry , estendendo a mão para me levantar do chão. – Os seus “Mmms” entregaram tudo.

Sua mão é surpreendentemente forte em torno da minha e quando ele me levanta, sinto um friozinho no estômago. Ele tem um cheiro gostoso, também. Alguma loção pós-barba que não reconheço. Por um momento, nenhum de nós dois diz nada.

- Certo – diz Harry finalmente. – Bem, acho que é melhor eu pagar por isso.

- Sim- digo, sentindo-me ridiculamente nervosa. – Imagino que sim.

Ele se afasta para o balcão de saída e começa a falar com o vendedor, e eu fico perto de uma exposição de porta-ternos de couro, sentindo-me de repente um pouco estranha. Quero dizer, a compra já acabou. O que vem depois?

Bem, apenas nos despediremos educadamente, não é? Harry deve precisar voltar para o escritório. Ele não pode ficar por aí fazendo compras o dia todo. E se me perguntar o que eu vou fazer depois, falo para mim mesma, realmente direi que estou ocupada. Vou fingir que tenho alguma reunião importante marcada ou algo assim.

- Tudo resolvido – diz ele voltando. – Ginevra, estou incrivelmente grato por você ter me ajudado.

- Ótimo! – digo feliz. – Bem, preciso ir...

- Por isso eu estava pensando – diz Harry, antes que eu continue. – Você que almoçar?

Este está se transformando no meu dia perfeito. Compras na Harrods e almoço no Harvey Nichols. Quero dizer, o que poderia ser melhor do que isso? Vamos direto para o restaurante do quinto andar. Harry pede uma garrafa de vinho branco gelado e levanta seu copo para um brinde.

- À mala – e sorri.

- Mala – replico feliz e bebo um gole. Acho que é o vinho mais delicioso que já tomei.
Harry pega seu cardápio e começa a ler e eu pego o meu também, mas, para ser sincera, não estou lendo uma palavra. Estou só sentada, num torpor de felicidade, como uma criança feliz. Estou olhando com prazer todas as mulheres bonitas entrando para almoçar aqui, reparando nas suas roupas e imaginando onde aquela garota lá comprou suas botas cor-de-rosa. Agora, por alguma razão, estou pensando sobre aquele cartão gentil que Harry me enviou. E estou imaginando se foi só gentil ou... ou se era algo mais.

A este pensamento, meu estômago gira tão forte que quase fico tonta, e rapidamente tomo outro gole de vinho. Bem, um golão realmente. Depois tiro os óculos, conto até cinco e digo casualmente.

- Obrigada por seu cartão, por sinal

- O quê? – diz ele me olhando. – Ah, não há de quê. – Ele pega seus óculos e toma um gole de vinho. – Foi bom encontrar você naquela noite.

- É um lugar ótimo – digo.- Ótimo para andar pelas mesas e falar com as pessoas.

Logo que digo isto, sinto-me corar. Mas Harry apenas sorri e diz:

- É verdade. – Depois ele coloca os óculos na mesa e diz:

- Você sabe o que vai querer?

- Ahã... – digo olhando rápido para o cardápio. – Acho que vou comer... erm... bolinhos de peixe. E salada de rúcula.

Droga. Acabei de ver lula. Eu devia ter pedido isso. Bem, agora é tarde demais.

- Boa escolha – diz Harry, sorrindo para mim. – E mais uma vez obrigada por me acompanhar hoje. É sempre bom ter uma segunda opinião.

- Nenhum problema – digo suavemente e tomo um gole de vinho. – Espero que aproveite bem a mala.

- Ah, não é para mim – diz ele após uma pausa. – É para Romilda.

- Ah, certo – digo amável. – Quem é Romilda? Sua irmã?

- Minha namorada – diz Harry, e vira-se para chamar um garçom.

E eu olho para ele sem conseguir me mover.

Sua namorada. Fiquei ajudando ele a escolher uma mala para sua namorada.

De repente não sinto mais fome. Não quero bolinhos de peixe nem salada de rúcula. Nem mesmo quero estar aqui. Minha felicidade infantil está se desvanecendo e, por dentro, me sinto fria e meio tola. Harry Potter tem uma namorada. Claro que tem.

Alguma garota inteligente e bonita chamada Romilda, que tem unhas feitas e viaja para todo lugar com malas claras. Sou uma boba, não sou? Eu deveria saber que havia uma Sacha em algum lugar do cenário. Quero dizer, é óbvio.

Exceto... Exceto que não é tão óbvio assim. Na realidade, não é nada óbvio. Harry não mencionou sua namorada a manhã toda. Por quê não? Por que ele não disse que a mala era pra ela desde o início? Por que ele me deixou sentar no chão ao lado dele na Harrods e rir enquanto eu andava pra cima e pra baixo testando as rodinhas? Eu não teria me comportado assim se soubesse que estávamos comprando uma mala para sua namorada. E ele devia saber disso. Devia saber.

Um sentimento frio toma conta de mim. Está tudo errado.

- Tudo bem? – diz Harry olhando de volta para mim.

- Não – ouço-me dizer. – Não, não está. Você não me disse que a mala era para sua namorada. Nem me disse que tinha uma namorada.

Meu Deus. Agora já fiz. Não fui nada ponderada. Mas por alguma razão, nem me importo.

- Entendo – diz Harry após uma pausa. Ele pega um pedaço de pão e começa a quebrá-lo com os dedos, depois olha para mim. – Sacha e eu já estamos juntos há algum tempo – diz gentil. – Sinto muito se eu dei... alguma impressão diferente.

Ele está agindo com ar de superioridade. Não posso agüentar isso.

- Não é este o problema – digo, sentindo meu rosto queimas de vermelho beterraba. – É só... está tudo errado.

- Errado? – diz ele, parecendo encantado.

- Você devia ter me contado que estávamos escolhendo uma mala para sua namorada. – esclareço obstinadamente olhando fixo para a mesa. – As coisas teriam sido... diferentes.

Faz-se silêncio e eu levando meus olhos, para ver Harry e me olhando como se eu estivesse louca.

- Ginevra – diz ele. – você está levando isto muito a sério. Eu só queria sua opinião sobre as malas. Fim da história.

- E você vai contar para sua namorada que pediu meu conselho?

- Claro que vou! – Eu acho que ela vai até se divertir com isso.
Olho para ele em silêncio, sentindo-me ficar mortificada. Minha garganta está apertada e há uma dor crescendo no meu peito. Se divertir. Romilda vai se divertir quando ouvir sobre mim.

Bem, claro que vai. Quem não ia se divertir ao ouvir sobre a garota que passou sua manhã inteira andando para cima e para baixo na Harrods, escolhendo malas para outra mulher? A garota que entendeu tudo errado. A garota que foi tão burra que pensou que Harry Potter poderia gostar dela de fato.

Engulo fundo, sentindo-me doente de humilhação. Pela primeira vez percebo como Harry Potter me vê. Como todos eles me vêem. Sou apenas uma comédia, não sou? Sou a garota fútil que faz tudo errado e faz as pessoas rirem. A garota que não sabia da fusão do SBG com o Rutland Bank. A garota que ninguém jamais pensaria em levar a sério. Harry não se preocupou em me dizer eu estávamos escolhendo uma mala para sua namorada porque eu não importo. Ele só estava pagando o almoço porque não tem nada mais para fazer e provavelmente pensa que eu poderia fazer alguma coisa divertida como deixar cair meu garfo, da qual ele possa rir quando voltar para o escritório.

- Sinto muito – digo numa voz trêmula e me levanto. – Não tenho tempo para almoçar afinal.

- Ginevra, não seja boba! – diz Harry. – Olha, sinto muito se você não sabia sobre minha namorada. – Ele levanta suas sobrancelhas num ar questionador e eu quero bater nele. – Mas ainda podemos ser amigos, não podemos?

- Não – respondo com dificuldade, ciente de que minha voz está grossa e meus olhos estão ardendo. – Não, não podemos. Amigos se tratam com respeito. Mas você não me respeita, não é, Harry? Você só me vê como uma piada. Uma ninguém. Bem... – Engulo em seco. – Bem, eu não sou.

E antes que ele consiga dizer alguma coisa mais, eu me viro, rapidamente, saio do restaurante, um poço cega das lágrimas de decepção.















PG N I F irs t Ba nk V is a
7 Camel Square
Liverpool L1 5NP


Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD

20 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley,

PGNI First Bank Visa Cartão No. 1475839204847586

Agradecemos seu pagamento de 10 libras que recebemos hoje.

Creio que enfatizamos várias vezes que o pagamento mínimo exigido era de fato 105,40 libras.

O saldo vencido atualmente é, portanto, de 95,40 libras. Aguardo ansioso receber seu pagamento logo que possível.

Se não recebermos a quantia satisfatória dentro de sete dias, precisamos adotar uma outra medida.

Atenciosamente

Peter Johson
Direto de Conta de Clientes














BANK OF LONDON
London House
Mill Street EC3R 4DW

Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD

20 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley,

Pense nisso…

Que diferença um empréstimo pessoal faria em sua vida?

Um carro novo, talvez. Melhorias na casa. Um barco para os finais de semana. Ou, talvez, apenas paz de espírito por saber que todas essas contas podem ser facilmente resolvidas.

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0100 45 46 47 48

e nós faremos o resto.

Pense nisso...

Aguardamos ansiosamente seu telefonema.

Atenciosamente

Sue Skepper
Diretora de Marketing

PS: Por que esperar? Pegue o fone agora – e disque 0100 45 46 47 48. Não pode ser mais fácil.





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