Ela sentiu o cheiro de fumaça na manhã seguinte. Gina se ajoelhou em um córrego, olhando seu reflexo na água. Harry, ela imaginou, queimou a cabana com os corpos dentro. Acidentes acontecem, todos sabem. Nessa floresta, não era o primeiro incêndio que queimava uma habitação até o chão. Ela não se lembrava de muita coisa depois de Lorde Malfoy a olhar com tanto medo em seus olhos, depois que ela tinha atacado a garganta dele, sentido o gosto de seu sangue e o matado. Ela não sentia remorso.
Tinha de ser feito. Lorde Malfoy não mais ameaçaria seu filho. Agora Harry estava livre para criar James sem medo da maldição que um dia o assombrara. Gina tinha cumprido o acordo no fim das contas. E ao fazê-lo, ela havia liberado Harry de sua obrigação para com ela.
Ela sentia o lobo dentro dela, agora consciente do que Harry sentiu a maior parte da vida. Era estranho sentir se compartilhando com outra entidade, e ainda assim, para alguém como ela, não era realmente tão estranho. Uma bruxa, por que não alguém que muda de forma também? Gina imaginava que lidaria muito melhor com a maldição do que Harry.
Ele não havia sido criado em seu reino espiritual. Ela aceitava coisas que ele jamais aceitaria. Entendia coisas que ele jamais entenderia. E tudo terminara como devia.
Mas mesmo quando o pensamento cruzava sua mente, ela admitia que nem tudo terminara como ela esperava. Antes, ela teria tentado se adaptar à vida de Harry, à vida de seu filho, mas agora tudo mudara. Harry e James tinham agora uma chance de normalidade. Ela não estragaria isso para eles. Ela os amava demais.
- Não é tão fácil de rastrear você agora.
Ela se voltou e viu Harry parado atrás dela. Gina havia permitido que ele a rastreasse. Eles tinham que dizer adeus.
- Você está bem? – ela perguntou. – Você tem ferimentos que necessitam de cuidados?
Ele se aproximou dela.
– Não, estou bem. – Harry a alcançou e se agachou ao lado dela, olhando-a nos olhos. – Por que, Gina? Por que você fez o que fez?
- Era o único caminho. – ela respondeu. – Compreendi que se eu não conseguisse quebrar sua maldição, eu deveria tomá-la de você. Lorde Malfoy nos teria matado. Eu fiz o que tinha de ser feito.
- Você deve devolvê-la. – ele disse calmamente. – Não quero isso sobre você. Nós fizemos o que viemos fazer aqui, Devolva-a para mim, Gina.
Ela sacudiu a cabeça.
– Se um de nos deve ser amaldiçoado, que seja eu. Nós fizemos um trato. Você deve cuidar de James. Você deve dar a ele tudo o que eu nunca poderia. Eu quero que a vida dele seja diferente da minha. Eu quero o melhor para vocês dois.
- Com seu próprio sacrifício? – ele perguntou, e lágrimas encheram seus olhos. – Você desistiria de tudo por nós? Por ele, eu compreendo, mas não por mim. Por que por mim, Gina?
Ela não diria a ele que o amava. Isso apenas faria com que se sentisse culpado. Ele devia seguir com sua vida agora.
Talvez no futuro ele se casasse com Lady Cho. Agora ele poderia ter seus próprios filhos para brincar com James. Harry poderia ter o tipo de vida que nasceu para ter. Gina não poderia negar isso a ele ou causar qualquer culpa futura por ele conseguir a felicidade à custa dela.
- Eu lhe falei. – ela disse. – Por James. Mesmo que não estivesse amaldiçoada, ainda sou uma bruxa, Harry. Quero que meu filho seja criado por pais normais. Um bom pai, que eu sei que você será para ele.
- E isso é tudo o que quer de mim? Que eu crie seu filho?
Os olhos dela ficaram ainda mais úmidos.
– Não. – ela respondeu. – Eu quero que você o ame. Eu quero que você ame nosso filho.
Harry subitamente se levantou e virou de costas para ela.
– Você sabe que eu amarei. – ele disse suavemente. – Você sabe que eu já o amo.
- Sim, eu sei disso.
- O que você vai fazer, Gina? Para onde vai? Voltar para Whit Hurch?
Ela tinha de ser honesta com ele sobre sua vila.
– Não vou voltar para lá. Não tenho amigos lá, Harry. Nenhuma pessoa na vila me teria me oferecido porto seguro caso tivesse ido para lá. Encontrarei outra vila. Você não precisa se preocupar comigo.
- Então, nosso trato está encerrado, e isso é tudo entre nós?
Por mais que doesse, ela tinha de deixá-lo partir.
– Sim.
- Você não quer nada mais além do que pediu?
- Sim.
- Você quer que eu me vá agora? Partir e me esquecer de você?
A garganta dela se fechou por um momento.
– Sim. – ela conseguiu sussurrar.
- E quanto a meus irmãos? Você quebrou apenas a minha maldição. E a deles?
Gina não sabia.
– Acredito que seja o destino de cada irmão terminar sua própria maldição. Você encontrou um modo. Talvez eles encontrem também.
Ela viu os punhos fechados ao lado dele.
– Eles não se surpreenderão por eu ter arranjado uma mulher para fazer por mim o que nenhum deles foi capaz de fazer por si mesmo.
O coração dela quase partiu com essas palavras.
– Não Harry. – ela o advertiu. – O trato foi cumprido. Pegue o dom que eu lhe dei, mantenha sua promessa e vá agora.
Harry lutou contra a raiva, a dor e a insatisfação de como sua maldição fora quebrada. Passá-la para outro nunca entrou em sua mente. Não exceto no medo de passá-la aos próprios filhos se alguma vez tiver algum. Ele pensou enquanto estava procurando por Gina que ela devia amá-lo para fazer o que fizera. Para suportar o fardo dele. Para tomar seus pecados sobre ela. Mas ela havia feito isso por James, e embora Harry ainda a respeitasse mais do que qualquer mulher que conhecera, ela partira seu coração.
Ele pensara que seu coração já havia sido partido, mas compreendeu agora que aquele amor que havia sentido antes era apenas uma emoção pálida que ele era capaz de sentir naquele tempo. Ele nem mesmo sabia o que era amor... não até agora. Gina o ensinara o que era amar. Gina e James. E ela ensinara a Harry quão verdadeiramente doloroso era amar e não correspondido.
Poderia ir embora como ela desejava que fizesse? Poderia deixá-la com sua maldição e pegar tudo o que era mais precioso para ela? Não. Ele não poderia. Nem mesmo se fosse o desejo dela.
- Você vai me devolver. – ele disse.
- Não significa nada para mim. – ela disse atrás dele. – É apenas mais um modo de ser diferente de todo mundo. Vá. Como eu lhe disse. Quero que vá embora. Você me deu o que eu pedi, e eu dei o que você me pediu. Compartilhamos prazer. Agora acabou.
Maldita! Nenhuma chicotada o machucou mais do que essa facilidade dela em mandá-lo embora. Ele queria contar para ela que a amava, mas como poderia quando ela continuava retalhando seu orgulho? Como poderia se dar a ela quando ela não dava nada em troca? Como poderia ser tão altruísta? Mas ele podia, Harry compreendeu. O que era o amor se não confiança? Ele se voltou para encará-la.
Seus olhos se encontraram.
- Eu amo você, Gina. – ele disse.
O rosto dela empalideceu por um momento. Lágrimas borbulharam em seus olhos, mas ela rapidamente as afastou.
– Você não precisa dizer isso. – ela sussurrou. – Por favor, não diga isso.
- Tenho de dizer se é como me sinto. – ele disse. – O orgulho que se dane. O mundo todo que se dane que não me importo. Eu amo você.
Ela afastou os olhos dele.
– É o feitiço. – ela disse. - Aquele feitiço. O feitiço que lancei sobre você na noite em que retornou para casa. Deve ter funcionado afinal. Vai passar. – ela assegurou a ele.
- Não quero que passe. – ele atacou. Harry sabia que não era nenhum feitiço que o fizera se apaixonar por Gina. – Eu amo você por quem você é, Gina, não por causa de um feitiço que lançou sobre mim. Eu amo sua bondade. Eu amo seu fogo. Eu amo tudo em você.
As mãos dela tremiam, ele percebeu, quando ela afastou o cabelo do rosto.
– Você não deve. – ela disse. – Não agora. É tarde demais.
Harry não sabia se ele apenas desejava ouvi-la dizer que o amava que a ouviu dizer as palavras em sua mente ou se ela realmente as havia falado para ele de verdade. Mas não, os lábios dela não se moveram, exceto para tremer levemente.
Ele fechou os olhos e novamente ouviu a voz dela. Eu me apaixonei por você. Eu o amo mesmo agora, quando você está sentado em minha frente com os olhos de um lobo. Então tenha piedade da tola que me tornei. Esqueci que era apenas um acordo entre nós.
Seus olhos se abriram e se encontraram com os dela. Os de Gina tinham agora um suave brilho azul.
- Você me ama. – ele disse. – Eu me lembro agora. Eu me lembro de você me dizendo.
Ela sacudiu a cabeça, mas ele viu mais do que o brilho nos olhos dela. Ele viu a verdade.
- Por que você não pode me dizer, Gina?
- Não agora. – ela disse e sua voz soou estranha – Não quando você tem sua vida como ela deve ser. Não quando você pode dar a James tudo o que quero para ele. Não vou arruinar tudo. Não vou!
- Não. – ele concordou. Harry sabia o que estava acontecendo com ela. A emoção trouxera o lobo à superfície. Ele o tomaria de volta. – Você não vai arruinar tudo – ele disse se aproximando dela. – Você não vai arruinar tudo me negando a única coisa que eu mais quero. Você.
Ele a atacou antes dela conseguir fugir. – Ela lutou e sua força o surpreendeu. – Eu chamo para mim seu fardo. – ele disse. – Eu chamo para mim os pecados de seu passado e os pecados daqueles antes de você.
- Não! – ela gritou, mas ele continuou.
- Eu chamo para mim sua fera! – Ele colocou sua boca contra a dela e afastou seus lábios. A força que espirrou da boca dela para a dele o jogou para trás. Ainda assim, eles estavam unidos pela luz azul, tão brilhante que ele teve que apertar os olhos por causa dela. Ele sentiu que a luz estava fluindo dela para dentro dele; então estava fluindo de volta para fora. A luz ficou cada vez mais brilhante e então subitamente nenhuma luz fluía nem da boca dele ou da de Gina. Ambos caíram para trás como se a força os segurasse de repente os soltasse.
A luz azul tomou forma. Era um lobo. A fera olhou de um para o outro antes de escapar para a floresta.
Harry tremeu incontrolavelmente por um tempo; então se acalmou e sua respiração voltou ao normal. Gina estava caída no chão, sem se mover. Ele se arrastou até ela, erguendo-a nos braços.
- Gina?
Vagarosamente, ela abriu os olhos. Eles estavam verdes como a floresta ao redor.
- Ele se foi. – ela sussurrou. – Ele me deixou e deixou você. Não o sinto mais.
Harry levou um momento para se recuperar. A fera tinha partido.
– Mas por quê?
Ela se aproximou e tocou o rosto dele.
– Você não precisava mais dele. Você está completo.
Ele não entendeu.
– Completo?
- A fraqueza dentro de você que o impedia de ser tudo o que podia ser, você a derrotou. Você quebrou sua própria maldição, Harry.
A paz subitamente fluiu dentro dele. Era estranho ficar sem o lobo, mas ele não se sentia vazio. Ele se sentia completo, como Gina dissera. Completo pela primeira vez em sua vida. Apenas uma coisa poderia fazê-lo ainda mais feliz do que era nesse momento. Ele se curvou e a beijou.
Gina se afastou dele.
– Ainda sou uma bruxa, Harry. – ela disse.
Ele a beijou novamente.
– Posso viver com isso. – ele disse contra a boca dela. – Além disso, você não é uma boa bruxa.
Ela riu e o puxou para baixo de volta a seus lábios. Eles ficaram assim por um tempo. Nos braços um do outro. Finalmente Harry se afastou, se sentou e a puxou para o lado dele.
- Vamos para casa, Gina. – ele disse. – Vamos ver nosso filho.
Último capitulo, segunda eu posto o epílogo. Essa foi a mais longa ate agora. Bom, espero que vocês tenham gostado.
Bjos e até o epílogo |