DEZ
Na segunda-feira de manhã acordo cedo, me sentindo um pouco vazia por dentro. Meu olho bate numa pilha de sacolas ainda fechadas no canto do meu quarto e depois, rapidamente, desvia de novo. Sei que gastei dinheiro demais no sábado. Sei que não deveria ter comprado dois pares de botas. Sei que não deveria ter comprado aquele vestido roxo. Ao todo, gastei... Na verdade, não quero pensar em quanto gastei. Pense em outra coisa rápido, digo a mim mesma. Outra coisa. Qualquer coisa serve.
Tenho consciência de que no fundo da minha mente, batendo lento como uma batida de tambor, existem dois monstros: Culpa e Pânico.
Culpa Culpa Culpa Culpa.
Pânico Pânico Pânico Pânico.
Se eu deixar, eles tomam conta de mim. E, se isso acontecer, vou ficar completamente paralisada de tristeza e medo. Por isso, o truque que aprendi é simplesmente não ouvir. Desligo esta parte da minha mente – e então nada mais me preocupa. É simples autodefesa. Minha mente é muito bem treinada para isso.
Outro truque meu é me distrair com diferentes pensamentos e atividades. Então eu levanto de manhã, ligo o rádio, tomo um banho de chuveiro e me visto. Os golpes surdos ainda estão no fundo da minha cabeça, mas, devagarzinho, devagarzinho, vão se
enfraquecendo. Quando entro na cozinha e preparo uma xícara de café, quase já não os ouço. Um alívio me inunda, como aquela sensação que se tem quando um analgésico finalmente nos livra da dor de cabeça. Posso relaxar. Ficarei bem.
Na saída paro no hall de entrada para verificar minha aparência no espelho (Top> River Island, Saia: French Connection, Meia-calça: Pretty Polly Velvets, Sapatos: Ravel) e estico minha mão para pegar meu mantô (Mantô: liquidação da House of Fraser).
Nesse momento a correspondência cai pela porta, e eu me encaminho para pegar. Há uma carta escrita à mão para Mione e um cartão-postal das Maldivas. E para mim, há dois envelopes com janela de aparência ameaçadora. Um do VISA, outro do Endwich Bank.
Por um momento meu coração pára. Por que outra carta do banco? E VISA. O que eles querem? Não podem simplesmente me deixar em paz?
Cuidadosamente coloco a correspondência de Mione na mesinha do hall de entrada e enfio minhas duas cartas no meu bolso, dizendo a mim mesma que vou lê-las no caminho para o trabalho. Uma vez que eu chegue no metrô, abrirei ambas e as lerei, por mais desagradáveis que sejam.
Esta é realmente minha intenção. Honestamente. Quando estou andando pela calçada, juro que minha intenção é ler as cartas.
Mas depois viro na rua seguinte e vejo uma caçamba do lado de fora da casa de alguém. Uma grande caçamba amarela, já meio cheia de coisas. Os operários estão entrando e saindo da casa, jogando na caçamba pedaços velhos de madeira e estofado. Muito lixo, tudo misturado.
E uma idéia me surge à cabeça.
Meus passos diminuem quando me aproximo da caçamba e paro, olhando atenta para ela como se estivesse interessada nas palavras gravadas nela. Espero ali, como coração disparado, até os operários terem voltado para dentro da casa e ninguém estar olhando. E então, num movimento rápido, pego as duas cartas no meu boldo e as jogo para dentro da caçamba.
Foram-se.
Quando estou ali de pé, parada, um operário esbarra em mim ao passar com dois sacos de emboço e os joga dentro da caçamba. Agora elas realmente se foram. Enterradas debaixo de uma camada de emboço, sem nunca terem sido lidas. Ninguém jamais vai encontrá-las.
Foram-se para sempre.
Rapidamente dou meia-volta e começo a andar novamente. Meus passos já estão mais leves e eu me sinto flutuando.
Em pouco tempo já estou me sentindo totalmente inocente, livre da culpa. Claro, não é culpa minha se eu nunca li as cartas, é? Não é culpa minha se eu nunca as recebi, é? Enquanto caminho para a estação do metrô, honestamente, sinto-me como se essas cartas jamais tivessem existido.
Quando chego no trabalho, ligo meu computador, clico eficientemente para um documento novo e começo a digitar meu artigo sobre pensões. Talvez, se eu trabalhar muito mesmo, me ocorre naquele instante, Philip me dê um aumento. Ficarei até tarde todas as noites e vou impressioná-lo com minha dedicação ao trabalho e ele vai perceber que estou consideravelmente desvalorizada. Talvez até me promova a editora associada ou algo assim.
“Hoje em dia”, digito alegre, “nenhum de nós pode confiar no governo para cuidar da nossa velhice. Portanto, o planejamento da aposentadoria deveria ser feito o mais cedo possível, de preferência logo que se começa a receber um salário.”
- Bom dia, Lilá – diz Philip entrando no escritório em seu, sobretudo. – Bom dia, Gina.
Hah! Agora está na hora de impressioná-lo.
- Bom dia, Philip – digo eu, num jeito amigável e ao mesmo tempo profissional. Depois, em vez de recostar-me na cadeira e perguntar-lhe como foi seu fim de semana, volto para meu computador e começo a digitar novamente. Na realidade, estou digitando tão rápido que a tela está cheia de um monte de tipos parecendo borrões. Devo dizer que não sou a melhor digitadora do mundo. Mas quem se importa? Pareço muito profissional, isto é o que importa.
“A melkor ooçao é ferquantemente o esqema de sua compaamia ocupacionoa, ms se sso não fr posivle, uma grde vareiedade de pensao peronanlas lans stá no mercdo deles, indo de...” paro, pego um folheto e examino rapidamente, como se estivesse avaliando alguma informação crucial.
- Foi bom o seu fim de semana, Gina? – diz Philip.
- Sim, obrigada – digo olhando por cima do folheto como que surpresa por ter sido interrompida enquanto estou trabalhando.
- Estive por perto de sua casa no sábado – diz ele. – Na Fulham Street. A Fulham da moda.
- Certo – digo meio distraída.
- É um lugar interessante para se estar, estes dias, não é? Minha mulher estava lendo um artigo sobre isso. Cheio de garotas na moda, todas vivendo de renda.
- Suponho que sim – digo com um ar vago.
- É assim que teremos de chamá-la – diz ele, e dá uma pequena gargalhada. “A garota da moda do escritório.”
Garota da moda? Do que ele está falando?
- Certo – digo e sorrio para ele. Afinal, ele é o chefe. Ele pode me chamar do que...
Ah, meu Deus, espera aí. Espera-aí. Philip não acha que sou rica, acha? Ele não acha que tenho uma herança ou algo assim ridículo, acha?
- Gina – diz Lilá, olhando para mim de seu telefone. – Tenho uma ligação para você. Alguém chamado Ronald
Philip dá um pequeno sorriso, como que para dizer, “O que mais?” e dirige-se em passos lentos para sua mesa. Olho para ele frustrada. Isto está tudo errado. Se Philip pensa que tenho algum tipo de renda de família, nunca me dará um aumento.
Mas o que poderia ter dado a ele esta idéia?
- Gina – diz Lilá me chamando e apontando para meu telefone tocando.
- Ah – digo. – Sim, tudo bem. – Pego o fone e digo “Olá. Aqui fala Ginevra Weasley”.
- Gina – surge a voz fina e inconfundível de Ronald. Parece um pouco nervoso, como se estivesse se preparando para este telefonema há séculos. Talvez estivesse. – É tão bom ouvir sua voz. Sabe, tenho pensado muito em você.
- Verdade? – digo, procurando não cooperar nada. Quero dizer, sei que ele é primo de Mione e tudo mais, mas sinceramente...
- Eu gostaria... eu gostaria muito de passar um pouco mais de tempo na sua companhia – diz ele. – Posso levá-la para jantar?
Ah, Deus. Como devo responder a isto? É um pedido tão inofensivo. Quero dizer, não é como se ele dissesse “Posso dormir com você?” Ou mesmo “Posso beijar você?” Se eu disser “Não” para um jantar é o mesmo que dizer “Você é tão insuportável, que não consigo nem mesmo partilhar uma mesa com você por duas horas”.
O que é bem próximo da verdade, mas não posso dizer isso, posso? E Mione tem sido tão doce comigo recentemente que se eu recusar seu querido Rony, sumariamente, ela vai ficar realmente muito chateada.
- Suponho que sim – digo, ciente de que não estou parecendo encantada demais e também sabendo que talvez devesse simplesmente abrir o jogo e dizer “Eu Não Gosto de Você”. Mas, de algum modo, não posso fazer isto. Para ser sincera, é muito mais fácil simplesmente ir jantar com ele. E depois, não pode ser tão ruim assim.
De qualquer modo, não preciso ir de verdade. Ligo no último minuto e cancelo. Fácil.
- Estou em Londres até domingo – diz Rony.
- Vamos no sábado à noite então! – digo alegre. – Logo antes de você ir embora.
- Às sete horas?
- Que tal oito? – sugiro.
- Está bem – diz ele. – Às oito horas. – E desliga, sem mencionar um lugar. Mas como eu na verdade não vou encontrá-lo, isto não parece realmente importar. Coloco o fone no gancho, dou um suspiro impaciente e começo a digitar novamente.
“A melhor opção para muitos é ouvir a opinião de um consultor financeiro independente, que poderá orientá-lo nas suas necessidades específicas de pensão e recomendar os planos adequados. Novo no mercado este ano é o...” – paro e pego um folheto. Qualquer folheto velho. “Plano de Aposentadoria ‘Últimos Anos’ Sun Assurance, que...”
- E então , aquele cara estava te convidando para sair? – pergunta Lilá Brown.
- Sim, na verdade, ele estava – respondo parecendo desinteressada. Sem querer, sinto uma pequena sacudidela de prazer. Porque Lilá não sabe como Ronald é, sabe? Até onde ela sabe, ele é incrivelmente bonito e inteligente. – Vamos sair no sábado à noite. – Dou um sorriso indiferente e começo a digitar outra vez.
- Tá certo – diz ela passando um elástico em volta de uma pilha de cartas. – Sabe, outro dia Harry Potter estava me perguntando se você tinha namorado.
Por um instante não consigo me mexer. Harry Potter quer saber se eu tenho namorado?
- Verdade? – digo, procurando parecer normal. – Quando... quando foi isso?
- Ah, outro dia mesmo – diz ela. – Eu estava numa reunião na Potter Communications e ele me perguntou. Só casualmente. Você sabe como.
- E o que você disse?
- Eu disse que não – diz Lilá e me dá um sorriso. – Você não gosta dele, não é?
- Claro que não – digo e reviro meus olhos.
Mas devo admitir, fico bem alegre quando volto para meu computador e começo a digitar outra vez. Harry Potter. Quero dizer, não que eu goste dele ou algo parecido mas mesmo assim. Harry Potter. – Este plano flexível – digito – oferece benefícios totais com a morte e uma boa quantia na aposentadoria. Por exemplo, um homem normal, nos seus trinta anos, que investiu 100 libras por mês...
Sabe o quê? Penso de repente, parando no meio da frase. Isto é chato. Posso fazer melhor que isto.
Faço coisa melhor do que sentar aqui neste escritório imundo, digitando os detalhes retirados de um folheto, procurando transformá-los em algum tipo de jornalismo com credibilidade. Mereço fazer algo mais interessante do que isto. Ou mais bem pago. Ou ambos.
Paro de digitar e descanso meu queixo nas minhas mãos. Está na hora de um novo começo. Por que não faço o que Elly está fazendo? Não tenho medo de um pouco de trabalho árduo, tenho? Por que não arrumo minha vida, procuro um head-hunter na City e aterrisso num emprego que todos vão invejar? Terei um salário enorme e um carro da empresa e usarei tailleur Karen Millen todos os dias. E nunca mais precisarei me preocupar com dinheiro.
Me sinto em êxtase. É isto! Esta é a resposta para tudo. Eu serei uma...
- Lilá? – digo casualmente. – Quem ganha mais na City?
- Não sei – diz Lilá, franzindo a testa pensativa. – Talvez os corretores de mercado futuro?
É isto, então. Serei uma corretora de mercado futuro. Fácil.
E é fácil. Tão fácil que, às dez horas da manhã seguinte, estou me aproximando nervosa da porta de entrada da William Green, uma das grandes head-hunters da City. Quando abro a porta, olho minha imagem no espelho e sinto um friozinho no estômago. Estou realmente fazendo isto?
Pode crer que sim. Estou usando meu tailleur preto mais bonito, meias de seda e salto alto, com um FT debaixo do braço, obviamente. E trouxe a pasta com a tranca de segredo que minha mãe me deu num Natal e que nunca usei. Em parte porque ela é realmente pesada e fácil de bater nas coisas e também porque esqueci a combinação da tranca, portanto não posso abri-la. Mas faz um vistão. E é isto que importa.
Jill Foxton, a mulher que vou encontrar, foi muito simpática ao telefone quando eu lhe contei sobre uma mudança de carreira e pareceu bastante impressionada com toda a minha experiência. Eu rapidamente digitei meu currículo e enviei por e-mail para ela. Tudo bem, eu enfeitei um pouco, mas é o que eles esperam, não é? É uma questão de saber se valorizar. E funcionou, porque ela telefonou de volta uns dez minutos depois de recebê-lo e perguntou se eu iria vê-la, pois achava que tinha algumas oportunidades interessantes para mim.
Oportunidades interessantes para mim! Fiquei tão animada que quase não conseguia ficar quieta. Fui direto falar com Philip e disse a ele que queria tirar folga no dia seguinte para levar meu sobrinho ao zoológico e ele não desconfiou de nada. Ele vai ficar surpreso quando descobrir que do dia para noite me transformei numa ambiciosa corretora de mercado futuro.
- Olá – digo confiante para a mulher na recepção. – Estou aqui para falar com Jill Foxton. É Ginevra Weasley
- Da...
Ah, Deus. Não posso mencionar Successful Saving. Poderia chegar a Philip que estou procurando um novo emprego.
- Da... de lugar nenhum, na verdade – digo e dou uma risadinha relaxada. – Só Ginevra Weasley. Tenho uma entrevista às dez horas.
- Certo – diz ela e sorri. – Sente-se, por favor.
Pego minha pasta e me encaminho para as cadeiras pretas macias, tentando não mostrar o quanto estou me sentindo nervosa. Sento e dou uma olhada curiosa nas revistas na mesinha de centro (mas não há nada interessante, só coisas como The Economist). Depois, encosto na cadeira e olho em volta. Este foyer é bem impressionante, devo admitir. Há uma fonte no meio, escadas de vidro subindo em curva e, parecendo estar a quilômetros de distância, vejo vários elevadores modernos. Não só um ou dois, mais uns dez. Nossa. Este lugar deve ser imenso.
- Ginevra? – Uma garota loura vestindo um terninho de cor pálida de repente está na minha frente. Terninho bonito, penso. Muito bonito.
- Olá – digo. – Jill!
- Não, sou Amy – ela sorri. – Assistente de Jill.
Puxa. É muito legal. Mandar sua assistente pegar seus visitantes, como se você fosse muito importante e ocupada para fazer isso você mesma. Talvez eu também mande minha assistente fazer isso quando eu for uma importante corretora de mercado futuro e Elly vier almoçar comigo. Ou talvez terei um assistente homem – e nós nos apaixonaremos! Deus, seria como um filme. A mulher importante e o bonito mas sensível...
- Ginevra? – Volto a mim e vejo Amy me olhando com curiosidade. – Está pronta?
- Claro! – digo contente e pego minha pasta. Enquanto andamos pelo chão polido, secretamente corro meus olhos pelo terninho de Amy outra vez e vejo uma discreta etiqueta “Empório Armani”. Quase não consigo acreditar. As assistentes usam Empório Armani! Então o que a própria Jill vai estar usando? Couture Dior? Deus, eu já adoro este lugar.
Vamos ao sexto andar e começamos a andar por intermináveis corredores acarpetados.
- Então você quer ser uma corretora de mercado futuro – diz Amy depois de um tempo.
- Sim – respondo. – Esta é a idéia.
- E você já conhece um pouco disso.
- Bem, você sabe... – Dou um sorriso modesto. – Já escrevi muito sobre a maior parte da área de finanças, portanto sinto-me bem à vontade.
- É bom – diz Amy e me dá um sorriso. – Algumas pessoas aparecem sem nenhuma idéia. E então Jill faz algumas perguntas padrão e... – Ela faz um gesto com a mão. Não sei o que significa, mas não parece bom.
- Certo! – Forço-me a falar num tom tranqüilo. – Então... que tipo de perguntas?
- Ah, nada com que se preocupar! – diz Amy. – Ela provavelmente irá perguntar a você... Ah, eu não sei. Alguma coisa como, “Como você negocia uma butterfly?” ou “Qual a diferença entre um desembolso aberto e um OR? ou “Como você calcularia a data de vencimento de um instrumento futuro?” Coisas realmente básicas.
- Certo – digo, e tomo fôlego. – Ótimo.
Algo dentro de mim está me dizendo para dar meia-volta e correr, mas nós já chegamos numa porta de madeira clara.
- Aqui estamos – diz Amy sorrindo para mim. – Você gostaria de chá ou café?
- Café, por favor – digo, querendo dizer “Um gim forte, por favor”. Amy bate na porta, abre e me faz entrar, dizendo: “Ginevra Weasley.”
- Ginevra! – diz uma mulher de cabelo escuro atrás da mesa e se levanta pra me cumprimentar.
Para minha surpresa, Jill não está nem um pouco tão bem-vestida quanto Amy. Está usando um tailleur azul com aparência um pouco matrona e sapatos quadrados sem graça. Ainda assim, não faz mal, ela é a chefe. E seu escritório é bem incrível.
- É muito bom conhecê-la – diz ela, apontando para uma cadeira na frente de sua mesa. – E deixe-me dizer logo, fiquei muito impressionada com seu currículo.
- Verdade? – digo, sentindo um alívio tomar conta de mim. Isto não pode ser mal, não é? Muito impressionada. Talvez não importe se eu não souber as respostas a essas perguntas.
- Em especial pelo conhecimento de línguas – acrescenta Jill. – Muito bom. Você parece ser uma dessas raridades, uma cidadã do mundo.
- Bem, meu francês é na verdade só para conversação – digo modestamente. – Voici la plume de ma tante, esse tipo de coisa!
Jill dá risada aprovando e eu respondo com um sorriso.
- Mas finlandês! – diz ela, dirigindo a mão para a xícara de café na sua mesa. – É bastante incomum.
Continuo sorrindo e torço para mudar do tema de línguas. Para ser sincera, “fluente em finlandês” entrou porque achei que “francês para conversação” parecia simples demais sozinho. Afinal quem fala finlandês, pelo amor de Deus? Ninguém.
- E seu conhecimento sobre finanças – diz ela puxando meu currículo para si. – Você parece ter coberto muitas áreas diferentes durante seus anos de jornalismo econômico. – Ela me olha. – O que a atrai para os derivativos especificamente?
O quê? Do que ela está falando? Ah, sim. Derivativos. São futuros, não são?
- Bem – começo confiante, e sou interrompida quando Amy surge com uma xícara de café.
- Obrigada – digo, e olho para Jill esperando que tenhamos mudado para algum outro assunto. Mas ela ainda está aguardando minha resposta. – Acho que mercado futuro é o futuro – digo séria. – Eles são uma área de grande desafio e eu acho... – O que eu acho? Ah, Deus. Eu deveria jogar uma rápida referência aos Ors ou a datas de vencimento ou algo assim? Acho que é melhor não. – Acredito que vou combinar bem com esse campo específico – digo finalmente.
- Entendo – diz Jill Foxton, e recosta-se na sua cadeira. – Pergunto porque temos um cargo no setor bancário que acho que também poderia servir para você. Não sei o que você sentiria quanto a isso.
Um cargo no setor bancário? Ela está falando sério? Ela já achou um emprego para mim? Não acredito!
- Bem, isso estaria bom para mim – digo, procurando não soar muito contente. – Quero dizer, sentiria falta do mercado futuro, mas, por outro lado, o setor bancário também é bom, não é?
Jill ri. Acho que ela pensa que estou brincando ou algo assim.
- O cliente é um banco estrangeiro de nível AAA, procurando um novo funcionário em Londres para a sua divisão de financiamento de dívida.
- Certo – digo inteligentemente.
- Não sei se você tem familiaridade com os princípios das arbitragens casadas européias?
- Total – digo confiante. – Escrevi um artigo sobre esse mesmo tema no ano passado.
Qual foi a palavra mesmo? Arbi-alguma coisa.
- Obviamente não estou tentando levá-la a uma decisão apressada – diz ela. – Mas se quer uma mudança de carreira, eu diria que isto seria perfeito para você. Haverá uma entrevista, claro, mas não posso imaginar qualquer problema nisso. – Ela sorri para mim. –
E poderemos negociar pra você um pacote bem atraente.
- É mesmo? – De repente não consigo respirar. Ela vai negociar um pacote atraente. Para mim!
- Ah, sim – diz Jill. – Bem, você precisa entender que você é um pouco fora do comum. – Ela me dá um sorriso confiante. – Você sabe, quando seu CV chegou ontem, eu na verdade cheguei a gritar! Quero dizer, a coincidência!
- Claro – digo, sorrindo para ela. Deus, isto é fantástico. É uma droga de sonho se tornando realidade. Vou ser uma executiva! Em um banco de nível AAA!
- Então – diz Jill casualmente. – Vamos conhecer seu novo empregador?
- O quê? – digo surpresa, e um pequeno sorriso abre em seu rosto.
- Eu não quis dizer até conhecer você, mas o diretor de recrutamento do Bank of Helsinki está aqui para uma reunião com nosso diretor administrativo. Tenho certeza de que ele vai adorá-la. Podemos ter tudo fechado até esta tarde!
- Excellente! – digo e me levanto. Hahaha! Vou ser uma executiva!
Só quando estamos no meio do corredor é que suas palavras começam a entrar na minha cabeça. Bank of Helsinki.
Bank of Helsinki. Isto não significa... Claro que ela não acha...
- Mal posso esperar para ouvir vocês dois falando finlandês – diz Jill alegre, quando começamos a subir uma escada. – É uma língua que não conheço nada.
Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Não.
- Mas minha dificuldade com línguas é enorme – ela acrescenta à vontade. – Não sou talentosa nesse departamento. Não como você!
Lanço-lhe um pequeno sorriso e continuo andando, sem perder um passo. Mas meu coração está batendo forte e quase não consigo respirar. Merda. O que vou fazer? Que merda eu vou fazer?
Viramos num corredor e começo a andar calmamente. Estou indo muito bem. Desde que só continuemos andando, estou bem.
- O finlandês foi uma língua difícil de aprender? – pergunta Jill.
- Não tanto – ouço-me dizer numa voz áspera. – Meu... meu pai é metade finlandês.
- Sim, eu achei que deveria ser algo assim – diz Jill. – Quero dizer, não é o tipo de coisa que se aprende na escola, é? – E ela dá uma risada feliz.
Está tudo bem para ela, penso irada. Não é ela que está sendo levada para a morte. Ah, Deus, isto é terrível. As pessoas ficam passando por nós e olhando para mim e sorrindo, como se quisessem dizer “Então é ela que fala finlandês!”
Por que eu coloquei que era fluente em finlandês? Por quê?
- Tudo bem? – diz Jill. – Está nervosa?
- Ah, não! – digo logo e forço um sorriso no meu rosto. – Claro que não estou nervosa!
Talvez eu consiga dar um grito, penso de repente. Quero dizer, o cara não vai conduzir toda a droga da entrevista em finlandês, vai? Ele só vai dizer “Olla” ou o que for, e eu responderei “Olla” de volta, e depois antes que ele diga alguma coisa mais, vou logo dizer “Sabe, meu finlandês técnico está um pouco enferrujado ultimamente. O senhor se importaria se falássemos em inglês?” e ele dirá...
- Estamos quase lá – diz Jill, e sorri para mim.
- Bom – digo alegre e aperto minha mão suada mais forte em torno da alça da minha pasta. Ah, Deus. Por favor me salve disto. Por favor...
- Aqui estamos! – diz ela, e pára à porta com a inscrição SALA DE REUNIÃO. Bate duas vezes, depois empurra e abre. A sala está cheia de pessoas sentadas em torno de uma mesa e todos se viram para olhar para mim.
- Jan Virtanen – diz ela. – Gostaria de apresentá-lo a Ginevra Weasley.
Um homem de barba se levanta de sua cadeira, me dirige um enorme sorriso e estende sua mão.
- Neiti Weasley – diz ele alegre. – On oikein Hauska Tavata. Pitääkö paikkansa että teillä on Jonkinlainen Yhteys Suomeen?
Olho para ele muda, sentindo meu rosto ficar rubro. Todos na sala estão aguardando minha resposta.
- Eu... erm... erm... Aalo! – Levanto minha mão num amável aceno e abro um sorriso para toda a sala.
Mas ninguém sorri de volta.
- Erm... eu preciso... – começo a me retirar. – Só ir para...
E eu me viro. E eu corro.
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