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9. Cap Nove


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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NOVE

Naquela noite, quando chego em casa, há uma pilha de correspondência no hall para mim — mas eu a ignoro porque vejo um embrulho da Molduras Finas! A compra me custou 100 libras, que eu acho meio caro, as aparentemente vai proporcionar um retorno de 300 libras em poucas horas. Dentro do embrulho há um folheto cheio de fotografias de pessoas que fazem fortunas fazendo Molduras Finas — e alguns deles fazem 100 mil por ano! Fico pensando o que será que me faz ser uma jornalista.

Depois do jantar, sento em frente à TV para assistir a EastEnders e abro o kit. Suze saiu esta noite, portanto será fácil me concentrar.

“Bem-vindo ao segredo mais bem guardado da Inglaterra...”, diz o folheto. “A família Molduras Finas que trabalha em casa! Junte-se a outros membros e ganhe milhões no conforto de seu próprio lar. Nossas instruções fáceis de seguir vão ajudá-lo a entrar no empreendimento mais lucrativo de sua vida. Talvez você utilize seus ganhos para comprar um carro, ou um barco — ou para presentear alguém especial. Mas lembre-se — a quantia que você vai receber vai depender exclusivamente de você!”

Estou absolutamente encantada. Por que não fiz isto antes? É um esquema fantástico! Vou trabalhar loucamente por duas semanas, depois pago todas as minhas dívidas, entro de férias e compro milhares de roupas novas. Deus, mal posso esperar.

Começo a rasgar o embrulho e, de repente, uma pilha de tiras de fazenda cai no chão. Algumas são lisas, outras são estampadas com flores. É um padrão meio feio — mas quem se importa? Minha função é só fazer as molduras e receber o dinheiro. Encontro o folheto de instruções debaixo de pedaços de papelão. Parece verdade, é muito simples. Basta colar um estofamento na moldura de papelão e cobrir com tecido por cima para criar aquele efeito luxuoso de tapeçaria, depois é só colar um cadarço ao longo da parte de trás para esconder a costura. E pronto! É muito simples e você recebe 2 libras por moldura. Há 150 no pacote — portanto, se eu fizer trinta por noite, durante uma semana, terei faturado 300 libras fácil, fácil no meu tempo livre!

Tudo bem, vamos começar. Armação, estofamento, cola tecido, cadarço.

Ah, Deus. Ah, Deus. Quem inventou essas coisas danadas? Simplesmente não há tecido suficiente para cobrir a armação e o estofamento. Ou pelo menos é preciso esticar muito — e o tecido é tão frágil que rasga. Já sujei de cola o carpete e dobrei duas armações de tanto puxá-las, e a única moldura que consegui finalizar está parecendo torta. E eu já estou fazendo isso há...

Bocejo, vejo a hora e sinto um susto. São 11:30 da noite, o que significa que estou trabalhando há três horas. E nesse tempo fiz uma moldura de aparência torta, que não estou certa se eles vão aceitar, e estraguei outras duas. Detesto o aspecto que essas coisas têm. Para que as pessoas querem ridículas molduras estofadas, afinal?

Naquele momento a porta se abre e Mione está de volta.

— Oi! — diz ela, entrando na sala de estar. — Teve uma noite agradável?

— Não exatamente — começo a falar desapontada. — Estive fazendo essas coisas...

— Bem, não importa — diz ela num tom dramático. — Sabe de uma coisa? — Você tem um admirador secreto.

— O quê? — digo surpresa.

— Alguém realmente gosta de você — diz ela, despindo seu casacão. — Ouvi isto esta noite. Você não vai adivinhar quem é!

Harry Potter surge na minha mente antes que eu possa evitar. Que ridículo. De qualquer modo, como Mione teria descoberto? Idéia boba. Muito boba. Impossível.

Ela poderia tê-lo encontrado por acaso no cinema, ouço uma vozinha sussurrando na minha mente. Afinal, ele o conhece, não é? E ele poderia ter dito...

— É meu primo! — diz ela triunfante. — Ronald. Ele gosta de você de verdade.
Pelo amor de Deus.

— Ele tem uma queda secreta por você — continua ela feliz. — Na realidade, sempre teve, desde que a conheceu!

— Não é tão secreta assim... — começo sarcástica, depois, quando Mione olha para mim surpresa, paro. Afinal, não quero ferir seus sentimentos.

— Então você já sabia? — diz ela.

— Bem... — digo e escolho os ombros. O que poso dizer? Não posso dizer a ela que seu amado primo me causa arrepios. Então, em vez disso, começo a escolher tecido para a moldura que está na minha frente e um sorriso feliz toma conta do rosto de Mione.

— Ele está mesmo entusiasmado com você! — diz ela. — Sugeri que telefonasse para você e a convidasse para sair. Você não se importaria, não é?

— Claro que não — digo numa voz pouco convincente.

— Não seria fantástico? — diz Mione. — Se vocês dois se casassem. Eu poderia ser dama de honra!

— Sim — digo e me forço a sorrir. — Que ótimo.

O que farei, penso, é concordar com uma saída só para ser educada e depois eu cancelo no último momento. E se tudo correr bem, Rony vai precisar voltar para a Escócia, ou algo parecido, e poderemos esquecer tudo isso.

Mas, para ser sincera, eu podia passar sem essa. Agora tenho duas razões para temer que o telefone toque.

Contudo, para meu alívio, o sábado chega e Rony não me procura. Nem o Derek Smeath. Todos, finalmente, me deixam em paz para segui a minha vida!

A má notícia é eu estava planejando fazer 150 molduras esta semana mas até agora só fiz três e nenhuma delas se parece com a da fotografia. Uma não tem estofamento suficiente, a outra não se junta no canto e a terceira tem um pouco de cola espalhada na frente que não saiu. Simplesmente não consigo entender por que estou achando isto tão difícil.

Certas pessoas fazem centenas dessas coisas por semana sem nenhum esforço. A Sra. S. de Ruislip até levou sua família num cruzeiro de navio, várias vezes, com o dinheiro que ganhou.

Como eles conseguem e eu não? É realmente deprimente. Quero dizer, devo ser inteligente, não é? Se sou formada, pelo amor de Deus.

Mesmo assim, não importa, digo a mim mesma. Hoje é dia do meu novo emprego na Ally Smith, portanto, estarei ganhando algum dinheiro extra lá.

Estou bem animada com isso. Aqui se inicia uma carreira completamente nova no mundo da moda! Passo um longo tempo escolhendo uma roupa legal para usar o meu primeiro dia e acabo me decidindo por calças compidas pretas, da Jigsaw, uma pequena camiseta de cashmere (bem, imitação de cashmere) e um top rosa da própria Ally Smith.

Estou bem satisfeita com o resultado final e fico esperando que a Danielle faça algum tipo de elogio quando chego na loja, mas parece que ela nem percebeu. Apenas diz, “Oi. As calças e camisetas estão na sala de estoque. Procure seu tamanho e roque de roupa na cabine.”

Tudo bem. Pensando melhor, todos os vendedores na Ally Smith usam a mesma roupa. Quase como um... bem, uniforme, suponho. Relutante, mudo a roupa e me olho no espelho e, para falar a verdade, estou desapontada. Essas calças cinza não me caem bem e a camiseta é muito sem graça. Estou quase tentada a perguntar a Danielle se posso escolher outra roupa para usar — mas ela parece um pouco ocupada, portanto é melhor não. Talvez na semana que vem eu possa ter uma palavrinha com ela.

Mas apesar de não gostar da roupa, ainda sinto um frisson de excitação quando saio no andar da loja. Os refletores brilham gloriosamente; o chão está todo lustroso e polido; a música está tocando e há uma sensação de expectativa no ar. É quase como ser uma atriz. Olho para mim mesma num espelho e murmuro “Como posso ajudá-lo?”, ou talvez devesse ser “Posso ajudá-lo?” Serei a mais charmosa vendedora, decido. As pessoas virão aqui só para serem atendidas por mim e eu terei um relacionamento fantástico com todos os clientes. E depois aparecerei no Evening Standard em alguma coluna especializada. Talvez eu até consiga meu próprio programa de TV.

Ninguém me disse o que fazer ainda, portanto — usando minha iniciativa, muito bem — dirijo-me a uma mulher loura que está digitando na caixa registradora e digo:

— Pode me dar uma explicação rápida?

— O quê? — diz ela sem olhar para mim.

— É melhor eu aprender como mexer na caixa registradora, não é? Antes que os clientes cheguem?

Depois a mulher desvia o olhar para mim e, para minha surpresa, cai na gargalhada.

— Na caixa registradora? Você acha que vai direto para a caixa registradora?

— Ah — digo, ruborizando um pouco. — Bem eu pensei...

— Você é uma novata, querida, — diz ela. — Não vai chegar perto do caixa. Vá com Kelly. Ela vai lhe mostrar o que vai fazer hoje.

Dobrar blusões. Dobrar droga de casacos. É para isto que estou que estou aqui. Correr atrás de clientes que pegaram cardigãs e deixaram todos amarrotados, e dobrá-los novamente. Às onze horas estou absolutamente exausta e, para ser sincera, não me diverti nem um pouco. Você sabe o quanto é deprimente dobrar um cardigã exatamente do jeito certo da Ally Smith e colocá-lo de volta na prateleira, todo bem dobrado — só para ver alguém casualmente puxá-lo dali, examiná-lo, fazer uma careta e descartá-lo? Dá vontade de gritar com eles, DEIXA ISSO AÍ SE NÃO VAI COMPRAR! Vejo até uma garota pegar um cardigã idêntico ao que ela já estava vestindo! Quero dizer, qual é o problema dela?

E não estou conseguindo conversar com os clientes tampouco. É como se eles vissem através de você que você é um vendedor. Ninguém me perguntou nada interessante como “Esta blusa combina com estes sapatos?” ou “Onde posso encontrar uma saia preta bem bonita por menos de 60 libras?” Eu adoraria responder este tipo de coisa. Mas as únicas perguntas que me fizeram foram “Onde é o banheiro?” e “Onde é o caixa eletrônico mais próximo de Midland?” Ainda não fiz nenhum relacionamento com ninguém.

Ah, é deprimente. A única coisa que me deixa animada é uma prateleira de fim de estoque com preços reduzidos no fundo da loja. Volta e meia eu vou até ali e olho para uma calça jeans com estampa de zebra, que custava 180 e está por 90 libras. Lembro-me dela. Cheguei a experimentá-la. E aqui está ela, sem ais nem menos — em oferta. Simplesmente não consigo tirar meus olhos dela. E o tamanho é 42. Meu número.

Sei que não devo estar gastando dinheiro mas isto é uma peça única. São os jeans mais charmosos que já se viu. E 90 libras não é nada por uma calça jeans de boa qualidade. Se você estivesse na Gucci, estaria pagando pelo menos 500 libras. Ah, meu Deus, eu quero essa calça jeans. Eu quero ela.

Estou descansando no fundo da loja, olhando para os jeans pela centésima vez, quando Danielle vem na minha direção e me levanto culpada. Mas ela só diz: “Pode ir pra a sala de prova agora? Sarah vai lhe mostrar os cabideiros.”

Chega de dobrar roupas! Graças a Deus!

Para meu alívio, esse negócio de sala de prova é muito mais divertido. Ally Smith tem salas de prova realmente boas, com muito espaço e cabines individuais, e minha tarefa é ficar de pé na entrada e verificar quantos itens as pessoas estão trazendo. É realmente interessante ver o que as pessoas estão experimentando. Uma garota que está comprando um monte de coisas e fica contando que seu namorado lhe disse para comprar tudo que quisesse no seu aniversário, pois ele pagaria.

Nossa. Tem gente de sorte. Ainda assim, não importa, pelo menos estou ganhando dinheiro. São 11:30, o que significa eu faturei... 14,40 libras até agora. Bem, não é mal, é? Eu poderia comprar uma boa maquiagem por essa quantia.

Só que eu não vou gastar esse dinheiro em maquiagem. Claro que não. Quero dizer, não é para isso que estou aqui, é? Vou ser realmente sensata. O que vou fazer é comprar os jeans estampados de zebra — só porque é uma peça única e seria um crime não comprar — e depois porei todo o resto na minha conta bancária. Mal consigo esperar para vesti-la.

Tenho um intervalo às 2:30, e aí vou direto para a prateleira de preços reduzidos para levá-la para a sala dos funcionários, só para ter certeza de que cabe em mim, e...

De repente a expressão do meu rosto congela. Espera aí.

Espera um momento. O que aquela garota está segurando no braço? Ela está segurando a minha calça estampada de zebra! E está vindo na direção da sala de prova. Ah, meu Deus. Quer experimentá-la. Mas ela é minha!

— Olá! — diz ela feliz ao se aproximar.

— Olá — digo, procurando manter a calma. — Ahn... quantos itens você tem?

— Quatro — diz ela mostrando-me os cabides. Atrás de mim há fichas penduradas na parede, indicando Um, Dois, Três e Quatro. A garota está esperando que eu lhe dê uma fica indicando Quatro e a deixe entrar. Mas eu não posso.

Decididamente não posso deixá-la entrar lá com os meus jeans.

— Na verdade — ouço-me dizer — você só pode levar três itens.

— É mesmo? — diz ela surpresa. — Mas... — Ela aponta para as fichas.

— Eu sei — digo. — Mas eles acabaram de mudar as regras. Sinto muito. — E dou a ela meu melhor sorriso de vendedora que não pode fazer nada.

Na verdade isto é um abuso de poder. Você pode fazer as pessoas pararem de experimentar roupas! Pode arruinar suas vidas!

— Ah, está bem — diz a garota. — Bem, vou separar...

— Esta — digo eu e seguro os jeans de estampa zebra.

— Não — diz ela. — Pensando melhor, acho que vou...

— Precisamos pegar o artigo de cima — explico e repito aquele sorriso de quem não pode fazer nada. — Sinto muito.

Graças a Deus existem vendedoras bolchevistas e regras bobas sem sentido. As pessoas já estão tão acostumadas a isso que esta garota nem mesmo me questiona. Ela só revira os olhos, pega a ficha indicando Três e faz seu caminho na direção da sala de prova deixando-me segurando os preciosos jeans.

Tudo bem, e agora? De dentro da cabine da garota, posso ouvir zíperes sendo abertos e cabides se chocando. Ela não vai demorar muito experimentando essas três coisas. E depois sairá querendo os jeans de estampa de zebra. Meu Deus. O que posso fazer? Por um momento fico estatelada, indecisa. Depois, o som de uma cortina de cabine sendo aberta me coloca em ação. Rapidamente escondo os jeans de estampa de zebra atrás de uma cortina e fico de pé novamente com um olhar inocente no rosto.

Um minuto mais tarde, Danielle vem na minha direção, com uma prancheta nas mãos.

— Tudo bem? — pergunta ela. — Está conseguindo se virar, não é?

— Estou indo bem — respondo, e lanço-lhe um sorriso confiante.

— Estou fazendo as escalas dos intervalos — diz ela. — Se você conseguir ficar até as 3:00, poderá ter uma hora.

— Ótimo — digo na minha voz confiante de “funcionária do mês”, apesar de estar pensando 3:00? Morrerei de fome até lá!

— Bom — diz ela e se afasta para o canto para anotar no seu papel, quando uma voz diz...

— Olá. Pode me dar aqueles jeans agora?

Ah, meu Deus, é a garota de novo. Como ela pode ter experimentado todas aquelas outras coisas tão rápido? Por acaso ela é alguma mágica?

— Olá! — digo, ignorando a última parte do que ela disse. — As roupas ficaram bem? Aquela saia preta é muito bonita. A maneira que as pregas abrem no...

— Na verdade não — diz ela me interrompendo e empurra o lote de roupas para mim, tudo bagunçado e fora dos cabides, devo acrescentar. — Eu queria mesmo era a calça jeans. Pode me dar?

Meu coração começa a bater forte.

— Que jeans eram? — pergunto, franzindo a sobrancelha com simpatia. — Azul? Pode pegá-los ali, ao lado do...

— Não — diz a garota, impaciente. — A calça de estampa de zebra que estava comigo há um minuto.

— Como? — digo, estupefata. — Ah, sim. Não tenho certeza para onde foi. Talvez alguém tenha pego.

— Mas eu dei a você! Você devia estar segurando ela.

— Ah — digo, e dou meu sorriso de vendedora. — Temo que não possamos ser responsabilizados por propriedade deixada conosco enquanto os clientes estão nas salas de prova.

— Mas pelo amor de Deus! — diz ela olhando para mim como se eu fosse uma imbecil.
— Isto é ridículo! Eu a deixei com você uns trinta segundos atrás! Como pode tê-la perdido?

Merda. Ela está realmente irada. Sua voz está ficando um pouco alta e as pessoas estão começando a olhar.

— Algum problema? — entra uma voz melosa e eu olho para ela aterrorizada. Danielle está se aproximando de nós, com um olhar doce mas ameaçador no rosto. Tudo bem, fique calma, digo a mim mesma com firmeza. Ninguém pode provar nada contra mim mesmo. E todos sabem que o cliente é sempre um criador de caso.

— Dei a esta vendedora uma calça jeans para cuidar porque eu tinha quatro itens, o que aparentemente é demais — a garota começa explicando.

— Quatro itens? — diz Danielle. — Mas você tem permissão de entrar na sala de provas com quatro itens. — E ela se vira para mim com uma expressão que, francamente, não é muito amigável.

— Tem? — digo com um ar inocente. — Meu Deus, sinto muito. Pensei que eram três. Sou nova — acrescentei desculpando-me.

— Eu pensei que eram quatro! — diz a menina. — Quero dizer, vocês têm fichas com a droga do número “Quatro” escrito nelas! — Ela dá um suspiro impaciente. — Então, continuando, entreguei a ela os jeans, experimentei as outras coisas e quando saí para pegar os jeans, eles tinham sumido.

— Sumiu? — diz Danielle bruscamente. — Sumiu para onde?

— Não estou certa — digo, procurando parecer tão perplexa quanto a pessoa à minha frente. — Talvez um outro cliente a tenha levado.

— Mas estava com você! — diz a garota. — E aí, alguém se aproximou de você e tirou-a de suas mãos?

Ah, tenha paciência. Qual é o problema dela, afinal? Como ela pode ser tão obcecada por uma droga de calça jeans?

— Talvez você possa conseguir outra na prateleira — digo, tentando parecer prestativa.

— Não tem outra — diz ela friamente. — Ela estava na prateleira de preços reduzidos.

— Ginevra, pense! — diz Danielle. — Você a colocou em algum lugar?

— Devo ter feito isso — digo vagamente. — Estava tão cheio isto aqui, devo tê-la colocado no cabideiro e creio que um outro cliente deve ter saído com ela. — Encolho os ombros querendo dizer “Clientes, hein?”.

— Espere aí! — diz a garota irritada. — O que é aquilo?

Sigo seu olhar e gelo. A calça jeans de zebra rolou por baixo da cortina. Por um momento nós todas olhamos par ela.

— Deus! — consigo dizer finalmente. — Lá está ela!

— E o exatamente ela está fazendo lá? — pergunta Danielle.

— Eu não sei! — respondo. — Talvez ela... — Tento ganhar tempo enquanto invento alguma coisa. — Talvez...

— Você pegou! — diz a garota incrédula. — Você simplesmente a pegou! Não me deixou experimentar e depois a escondeu!

— Isto é ridículo! — digo, procurando soar convincente, mas posso sentir meu rosto ficando vermelho de culpa. Ah, Deus, por que eu sempre preciso ficar vermelha? Por quê?

— Sua... — A garota começa e vira-se para Danielle. — Quero fazer uma queixa formal.

— Ginevra — diz Danielle. — Para meu escritório, por favor.

Espera aí. Será que ela não vai me apoiar? Será que ela não vai defender sua funcionária diante de uma cliente? O que aconteceu com a frente unida?

— Agora! — diz ela rispidamente, e eu pulo de medo. Enquanto me distancio devagar ao seu escritório (que ais parece um armário de vassouras), vejo todos os outros funcionários olhando para mim e cutucando uns aos outros. Ah, Deus, que vergonha. Ainda assim, vai ficar tudo bem. Vou pedir desculpas e prometer não fazer mais isso e talvez me ofereça para trabalhar ale da hora. Contanto que eu não seja...

Não acredito. Ela me despediu. Nem cheguei a trabalhar lá um dia inteiro e já fui mandada embora. Fiquei tão chocada quando ela me contou que, juro, quase fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Quero dizer, fora o incidente com os jeans de estampa de zebra, eu achei que estava indo muito bem. Mas, aparentemente, esconder mercadorias dos clientes é uma dessas coisas que causam demissão sumária. (O que é realmente injusto, pois ela não me disse nada disso na entrevista.)

Quando troco de roupa há uma sensação pesada no meu coração. Minha carreira de vendedora terminou antes de sequer ter começado. Eu só recebi 20 libras pelas horas que trabalhei hoje — e Danielle disse que estava sendo generosa. E quando perguntei se eu poderia comprar rapidamente alguma roupa usando meu desconto de funcionária, ela me olhou como se quisesse me bater.

Deu tudo errado. Sem emprego, sem dinheiro, sem desconto, só a porcaria das 20 libras. Triste, começo a andar pela rua, enfiando minhas mãos nos bolsos. Porcaria de 20 libras. O que devo fazer com...

— Ginevra! — Levanto minha cabeça num solavanco e me vejo olhando confusa para um rosto que sei que reconheço. Mas quem é? É... é... é...

— Neville! — exclamo no minuto seguinte. — Olá! Que surpresa!

Não acredito. Neville Longbottom, aqui em Londres. O que ele está fazendo aqui? Não deveria estar em Reigate, rebocando seus azulejos malditos, ou algo assim?

— Esta é Lucy — diz ele orgulhoso enquanto puxa uma garota carregando umas sessenta e cinco sacolas. E eu não acredito no que vejo. É a garota que estava comprando aquele monte de roupas na Ally Smith. A garota cujo namorado estava pagando. Certamente ela não quis dizer...

— Vocês estão namorando? — digo com ar imbecil. — Você e ela?

— Sim — diz Neville, e sorri para mim. — Já estamos há algum tempo.

Mas isto não faz nenhum sentido. Por que Janice e Martin não mencionaram a namorada de Tom? Eles mencionaram tudo mais na vida dele.

Imagine só, o Neville tem uma namorada!

— Olá — diz Lucy.

— Olá — respondo. — Sou Ginevra. Vizinha porta. Amiga de infância e tudo mais.

— Ah, você é Ginevra — diz ela e dirige um rápido olhar para Neville.

O que ela quis dizer com aquilo? Eles falaram de mim? Deus, Neville ainda gosta de mim? Que embaraçoso.

— Sou eu! — digo vibrante e dou um pequeno riso.

— Sabe, estou certa de tê-la visto em algum lugar antes — diz Lucy pensativa — e depois enruga seus olhos reconhecendo. — Você trabalha na Ally Smith, não é?

— Não! — digo, um pouco rápido demais.

— Ah — diz ela. — pensei que a tinha visto...

Deus, não posso deixar meus pais saberem que trabalho numa loja. Pensarão que minto sobre a vida que levo em Londres e que secretamente estou dura e morando num apartamento imundo.

— Pesquisa — digo friamente. — Na verdade sou jornalista.

— Ginevra é jornalista econômica — diz Neville. — Realmente conhece seu trabalho.

— Ah, certo — diz Lucy e dá um sorriso arrogante.

— Mamãe e papai sempre ouvem Ginevra — diz Neville. — Papai estava falando sobre isso outro dia mesmo. Disse que você tinha ajudado muito em algum assunto financeiro. Troca de fundos ou algo assim.

— Faço o que posso — digo modestamente e dou a Neville um sorriso especial de velhos amigos. Não que eu esteja com ciúmes ou algo assim mas sinto uma dor-de-cotovelo vendo Neville sorrir para essa Lucy que, francamente, tem um cabelo muito sem graça, mesmo que suas roupas sejam boas. Pense nisso, o próprio Neville está usando roupas bonitas. Ah, o que está acontecendo? Isto está tudo errado. Neville devia estar a sua casa nova, em Reigate, não desfilando por lojas caras com ar de fino.


— Bem, de qualquer modo — diz ele. — Precisamos ir.

— Vai pegar o trem? — digo com ar superior. — Deve ser difícil, morando tão distante.

— Não é tão mal — diz Lucy. — Venho de condução até Wetherby’s toda manhã e só levo quarenta minutos.

— Você trabalha na Wetherby’s? — digo horrorizada. Por que estou rodeada por profissionais ambiciosos?

— Sim — diz ela. — Sou um de seus consultores políticos.

O quê? O que significa isso? Será que ela é realmente inteligente ou algo assim? Ah, Deus, isto está ficando cada vez pior.

— E nós não vamos pegar nosso trem, ainda — diz Neville sorrindo para Lucy. — Vamos à Tiffany’s primeiro. Escolher uma coisinha para o aniversário de Lucy, na semana que vem. — Ele levanta uma mão e começa a torcer um cacho do cabelo dela em volta de seu dedo.

Não posso mais agüentar isto. Não é justo. Por que eu não tenho um namorado para me comprar coisas na Tiffany’s?

— Bem, prazer em vê-los — falo depressa. — Mande lembranças para seus pais. — Engraçado eles não terem mencionado Lucy. Não posso resistir e acrescento, um pouco maliciosa. — Estive com eles outro dia e não me falaram de você.

Lanço um olhar inocente para Lucy. Ah! Agora com quem está a vantagem?

Mas ela e Neville trocam olhares novamente.

— Eles provavelmente não quiseram... — começa Neville e pára abruptamente.

— O quê? — digo eu.

Fez-se um longo e estranho silêncio. Depois Lucy diz:

— Neville, vou olhar esta vitrine por um segundo. — Ela se afasta, deixando nós dois sozinhos.

Nossa, que drama! Sou obviamente a Terceira Pessoa no relacionamento deles.

— Neville, o que está acontecendo? — digo e dou uma risadinha

Mas é óbvio, não é? Ele ainda me quer. E Lucy sabe disso.

— Meu Deus — diz Neville e enrubesce. — Olha, Ginevra, não é fácil para mim. Mas o negócio é que mamãe e papai sabem de seus... sentimentos por mim. Eles não quiseram mencionar Lucy na sua frente porque acharam que você ficaria... — e expira com firmeza — desapontada.

O quê? Isto é alguma espécie de piada? Nunca fiquei mais pasma em toda a minha vida. Por alguns segundos eu nem posso me mexer de espanto.

— Meus sentimentos por você? — gaguejo finalmente. — Está brincando?

— Olha, é bem óbvio — diz ele, encolhendo os ombros. — Meus pais me disseram como outro dia você ficou perguntando como eu estava e tudo sobre minha casa... — Vejo piedade em seu olhar. Ah, meu Deus, não posso agüentar isto. Como ele pode achar... — Eu realmente gosto de você, Gina — acrescenta ele. — Eu só não...

— Eu estava sendo educada! — começo a gritar. — Eu não gosto de você!

— Olha — diz ele. — Vamos deixar as coisas assim, está bem?

— Mas eu não gosto! — grito furiosa. — Eu nunca gostei de você! Foi por isto que eu não saí com você quando me convidou! Quando estávamos com dezesseis nos, lembra-se?

Termino e olho para ele triunfante — para ver que seu rosto não mudou nada. Ele não está ouvindo. Ou, se está, pensa que o fato de eu ter trazido nosso passado de adolescente significa que tenho idéia fixa nele. E quanto mais eu defender minha posição, mais obcecada ele vai achar que estou. Ah, Deus, isto é horrível.

— Tudo bem — digo, procurando juntar o que restou da minha dignidade. — Tudo bem, obviamente não estamos conseguindo nos comunicar direito, então vou deixá-los. — Dou um olhar para Lucy, que está diante de uma vitrine e obviamente finge não estar ouvindo. — Sinceramente, não estou atrás do seu namoro — gritou. — E nunca estive. Até logo.
E me afasto pela rua, com um sorriso blasé pregado com dificuldades no rosto.

Quando viro a esquina, no entanto,o sorriso aos poucos se esvai,e caio sentada num banco. Sem querer, sinto-me humilhada. Claro, a coisa tola é de fazer rir. Aquele Neville Longbottom pensar que estou apaixonada por ele. Mas é feito pra mim. Quem mandou ser educada demais com meus pais e aparentar interesse nos malditos armários de carvalho. Da próxima vez vou bocejar alto ou me afastar. Ou produzir um namorado meu. Isto calaria a boca deles todos, não é? E de qualquer modo, quem se importa com o que eles pensam?

Sei tudo isto. Sei que não deveria me importar nem um pouco com o que Neville Longbottom ou sua namorada pensam. Mas ainda assim... devo admitir, me sinto um pouco pra baixo. Por que não tenho um namorado? Nem há ninguém de quem eu goste no momento.

O último namorado sério que tive foi Robert Hayman e nos separamos três messes atrás. E eu nem gostava muito dele. Ele me chamava de “amor” e de brincadeirinha colocava suas mãos sobre meus olhos durante as partes as partes mais pesadas dos filmes. Mesmo quando eu lhe disse para não fazer nada isso, ele ainda continuou fazendo. Eu ficava uma fera. Só de lembrar fico tensa e irritada.

Pelo menos era um namorado, não era? Era alguém para telefonar durante o expediente, com quem ir a festas e que me servia de proteção contra homens feios. Talvez eu não devesse ter-lhe dado um fora. Talvez ele fosse razoável.

Dou um suspiro forte, levanto e começo a andar pela rua de novo. No fim das contas, foi um grande dia. Perdi um emprego e fui tratada com superioridade por Neville Longbottom. E agora não tenho nada pra fazer hoje à noite. Pensei que estaria morta de trabalhar o dia todo, por isso não me preocupei em planejar nada

Mesmo assim, pelo menos tenho 20 libras.

Vinte libras. Comprei um bom cappuccino e um brownie de chocolate. E umas duas revistas.

E talvez alguma coisa da Accessorize. Ou umas botas. Na realidade preciso de botas novas e vi umas lindas na Hobbs com bico quadrado e salto não muito alto. Irei lá depois do meu café e darei uma olhada nos vestidos também. Deus, mereço umas meias novas para trabalhar e de uma lixa de unhas. E talvez um livro para ler no metrô...

Quando entro na fila do Starbucks, já me sinto mais feliz.




















PG N I F irs t Ba nk V is a
7 Camel Square
Liverpool L1 5NP

Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW68FD

15 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley

PGNI First Bank VISA Cartão No. 1457839204847586

Obrigado por sua carta datada de 11 de março.

Sua oferta de uma assinatura grátis da revista Successful Saving é muito gentil, assim como seu convite para jantar no Ivy. Lamentavelmente, os funcionários do PGNI First Bank não podem aceitar esse tipo de presente.

Aguardamos o recebimento do pagamento pendente de 105,40 libras, o mais cedo possível.

Atenciosamente

Peter Johnson
Diretor de Contas de Clientes


















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