Apesar da apreensão com a maneira como iria se comportar quando Harry saísse do chuveiro, Hermione sentiu com surpresa que aquilo parecia estranhamente familiar.
Ainda assim, a tensão alcançou seus ombros e ela voltou à cabeça para o lado e fechou os olhos ao ouvi-lo abrir a porta do boxe.
Sua imaginação ativa criou um quadro muito preciso de como ele puxava uma grossa toalha branca do suporte e começava a enxugar-se.
Hermione contou até 100, muito lentamente, antes de abrir os olhos outra uma vez.
Harry estava diante do espelho, passando a toalha numa coxa.
Em seguida, ela o viu aplicar o creme de barbear e pegar o aparelho.
Havia um toque de Sensualidade indefinível, mas muito presente em assistir a um homem naquela operação cuidadosa.
Ela fez um movimento mínimo, mas o suficiente para que ele se virasse e a surpreendesse em sua indiscrição.
Um sorriso tênue se desenhou nos lábios de Harry.
— Aproveitando o banho? — ele perguntou, de modo informal, mas com um acento que seus olhos desmentiam, fixados na curva dos ombros de Hermione, na pele de seu braço pousado na borda da banheira, na base de seu pescoço, onde se podia perceber um coração pulsante sob a aparente calma.
Se ele tivesse se aproximado e tocado o corpo dela naquele momento, toda a tranqüilidade forjada por Hermione desapareceria imediatamente.
— Está maravilhoso — ela respondeu, mas sem saber ao certo se estava se referindo ao banho ou à visão do corpo que tinha à frente.
— Você está com fome? — ele perguntou.
— Sim, acho que é melhor sair agora.
— Não, não se preocupe. Deixe-me checar antes se o jantar já está pronto. — Ele passou uma pequena toalha no rosto e a deixou em um cesto a caminho da porta do banheiro.
Quando retornou, puxava uma pequena bandeja sobre um suporte móvel com uma das mãos.
Hermione viu sobre ela um prato de porcelana com pães, queijos e outras iguarias, e um balde de gelo com uma garrafa do mais sofisticado vinho branco de Hawke's Bay.
Duas finíssimas taças de cristal estavam ao lado.
— Parece que você já fez isso muitas vezes antes — Hermione comentou ao vê-lo retirar a garrafa do balde e abri-la com destreza.
— É só uma questão de jeito — Harry replicou.
Ele encheu as duas taças e estendeu uma para ela, então puxou o banco da penteadeira e sentou-se.
Sua toalha caiu um pouco para o lado, revelando uma panturrilha esculpida à perfeição e pouco afetada pelos últimos acontecimentos.
Ela desviou os olhos para a janela, onde o vale ainda podia ser admirado, com os últimos resquícios de luz que vinha de trás das colinas.
A proximidade e a nudez de Harry ameaçavam descontrolar seu coração.
Podia sentir o envolvente calor que emanava do corpo dele.
Hermione concentrou-se no vinho por um instante, deixando que seu sabor tropical e frutado envolvesse sua língua e refrescasse sua garganta.
Pelo que retinha de sua memória, estava claro que nenhuma outra pessoa havia causado nela o mesmo tipo de reação em toda a vida.
O que haveria, de verdade, entre ela e Harry?
Por que aquela constante consciência física da presença dele sob a superfície de suas palavras e relações formais?
— Prove isso — ele disse, interrompendo-lhe os pensamentos, e oferecendo-lhe um pedaço de queijo estepe.
Ela abriu a boca mecanicamente.
Se em algum momento tinha imaginado ser possível retomar o autocontrole na presença de Harry, toda possibilidade desvaneceu no momento em que ele tocou seus lábios.
— Está bom? — ele perguntou.
— Delicioso — ela respondeu, sentindo o sabor do queijo e os mínimos choques que percorriam sua pele. — Mas, Harry, você não precisa me esperar.
— Eu sei — ele simplesmente respondeu. — Mas me permita — acrescentou, cortando uma fina fatia de pão de alho e ervas. — Agora prove este. É uma receita particular de Didier, feita apenas com produtos cultivados em Tautara Estate.
Ao receber o pão em sua boca, Hermione sentiu uma gota de azeite cair sobre seu pescoço e descer até o ombro.
— E me permita também limpar isto — Harry murmurou.
Ele se inclinou para, com a língua, absorver a gota de azeite da pele de Hermione.
Todos os músculos dela contraíram-se e por pouco não causaram um maremoto nas águas imóveis da banheira.
Seus dedos apertaram a haste da taça de vinho, e ele teve que se conter para não romper a delicada peça de cristal.
— Quer mais? — Os lábios dele sussurraram próximo ao ouvido de Hermione.
— Ma... mais? — ela mal podia conceber o verdadeiro significado da palavra.
— Mais antepasto? — Ele recuou, deixando-a transtornada.
— Eu...
— Prove este.
Incapaz de tomar qualquer atitude a não ser abrir a boca, Hermione sentiu o sabor de uma alcachofra.
Aos poucos, ele prosseguiu com o ritual, fazendo-a alternar as mais deliciosas iguarias com refrescantes goles de vinho.
Harry prosseguiu também com a conversa, mantendo o foco em assuntos gerais.
Não mais tocou o corpo de Hermione, e ela estava chocada por perceber o quanto queria que ele o fizesse.
Quando a taça dela estava vazia, ele a pegou para recolocá-la na bandeja, levantando-se com a ajuda da bengala.
— Nosso prato principal deve estar pronto. Vou deixá-la para que se enxugue e se vista, a não ser que precise de alguma ajuda.
— Harry olhou uma última vez a silhueta dela nas águas espumantes da banheira.
Uma pulsação peculiar era visível nos músculos laterais de seu pescoço, e uma faixa de suor brilhava em sua testa.
Hermione sentiu certo alívio ao perceber que também ele não podia ficar indiferente àquela situação.
— Não, obrigada. Posso fazer isso sozinha.
— Certo. Mas não demore. Lembre-se do que falei sobre ter você sempre ao meu alcance.
— Eu me lembro. Mas não achei que precisávamos ficar tão próximos — ela replicou, com um toque de ironia que a fez retomar um pouco do controle.
— Hermione, eu ainda não cheguei nem perto de onde quero chegar — ele respondeu, com um olhar flamejante que a fez perder o equilíbrio recém recuperado. Mas logo em seguida Harry retomou seu tom habitual. — E, como eu disse, não demore. Estarei esperando por você.
Ela ficou olhando para o chão por alguns minutos depois que foi deixada só.
Aquelas palavras eram mais do que pareciam.
Havia nelas uma ameaça que punha em risco todo o controle que Hermione podia ter sobre si mesma, e não apenas sobre seus sentidos, mas também sobre sua personalidade, ou, pelo menos, o que ela sabia sobre sua própria personalidade.
Harry era um enigma lançando mensagens que a acalmavam e transtornavam alternadamente.
O homem com quem ela dividira o antepasto era completamente diferente daquele que a trouxera do hospital, ou o que estivera ao seu lado quando despertara do desmaio no jardim.
Mas qual era o verdadeiro Harry Potter? Por qual deles ela havia se apaixonado?
Quando já havia se enxugado e foi até o quarto buscar suas roupas, ele de fato a estava esperando, casualmente vestido com jeans pretos e uma camisa pólo escura, de uma cor que realçava seus olhos verdes.
A respiração dela parou diante daquela imagem.
Em sua beleza, Harry era, ao mesmo tempo, um bálsamo e algo terrível de se olhar.
Ela entrou nervosa no closet e retornou vestindo calça de linho azul e blusa creme.
— Estou bem assim? — perguntou, pouco confortável com o escrutínio silencioso de Harry.
— Você fica linda com qualquer roupa. Venha. Rony preparou a mesa para nós na varanda para que possamos aproveitar a noite de verão.
Hermione o seguiu.
Velas acesas sobre a mesa faziam a magnífica prataria reluzir.
Em um pequeno aparador ao lado, recipientes aquecidos e uma colorida salada fresca aguardavam.
Ela se sentiu transportada para um conto de fadas.
O cenário era perfeito, com o vale escuro exibindo ao fundo as luzes da periferia de Taupo.
Ela ouviu as notas de sua ópera favorita ressoando suavemente dos alto-falantes da varanda, e o aroma exalado dos pratos quentes deram um último toque ao encantamento da situação.
Era divino!
— Disse a Rony que nós mesmos nos serviríamos esta noite — disse Harry, erguendo a tampa de um dos recipientes para expor pequenas batatas salteadas com especiarias, e estendendo para Hermione um prato.
Ela reconheceu a fina porcelana importada.
Eles a teriam a escolhido juntos, ou aquilo simplesmente fazia parte do cotidiano de Harry?
— Você está pensativa. Forçando a memória de novo? — A voz de Harry invadiu seus pensamentos.
— Eu reconheço este prato. Nós o escolhemos juntos?
A surpresa emergiu por um átimo no olhar dele, mas já havia recuado quando falou:
— Sim, nós o escolhemos. Você me ajudou em tudo antes do casamento. Era importante para você.
E ele a havia encorajado, estava certa disso.
Estava disposto a tudo para mantê-la consigo, e precisava então transformar Tautara Estate em uma casa para ela tanto quanto era para ele.
— Eu sei — ela disse, hesitando ainda um pouco.
— Quero dizer, eu não me lembro, mas aqui dentro — apontou o próprio peito —, aqui dentro eu sinto.
Harry não disse nada em seguida, mas Hermione notou a tensão em seus ombros e em sua fronte. Ele teve que se recompor para confirmar:
— Isso é ótimo. Você está fazendo progressos.
Então, começaram a se servir.
Ela colocou no prato finíssimos filés de truta com molho de ervas, batatas e folhas verdes, que combinariam com o que restava do vinho.
Havia tanto tempo que não comia nada de sabor tão delicado!
Ambos ficaram em silêncio, mas aquele silêncio não era de constrangimento, era uma espécie de homenagem à beleza da vista e à dádiva daquela refeição.
— É tão bonito aqui! — ela suspirou. — Como você consegue deixar este lugar quando precisa?
— Algumas vezes, os negócios exigem. Mas na maior parte do tempo eu estou mais do que satisfeito por poder permanecer aqui. Tautara Estate tem 6.500 hectares. Há sempre muita coisa a fazer. — Ele sorriu ao ver que Hermione reprimia um bocejo. — Por que você não se deita? Teve um dia muito exaustivo, e reconheço que também preciso de um descanso.
— Sua perna dói?
— Não mais do que o normal — Harry respondeu com um gesto para que ela não se preocupasse.
— Há algo que eu possa fazer por você?
Os lábios dele formaram uma estreita linha antes de pronunciarem:
— Não. Apenas seja quem você é.
Ser quem ela era. Justo agora ela daria qualquer coisa para saber exatamente o que aquilo significava.
Harry se apoiou na bengala para levantar-se da cadeira.
Ela pôde perceber a momentânea expressão de dor que ele tentava disfarçar.
Será que tudo sempre fora assim entre eles? Com Harry sempre escondendo suas verdadeiras emoções e pensamentos?
Ela não podia se imaginar apaixonada por um homem emocionalmente tão fechado em si mesmo.
Sua família sempre havia sido aberta e afetuosa.
Compartilhavam alegrias e preocupações, pois um problema dividido é apenas meio problema, como o pai dela costumava dizer.
Teria ela com Harry um casamento frio e distante? Hermione indagou-se.
Algo dentro dela dizia que não, mas o que esse algo queria dizer tampouco parecia menos perturbador.