O dia já tinha se esvaido, conforme o sol baixava preguiçoso por trás do horizonte, acompanhando o andar daqueles dois. A medida que as estrelas iam aparecendo, pontilhando a semi escuridão com uma luz invisível para as maioria das pessoas, as sombras deles ficavam mais e mais claras, até sumirem completamente, aos pés do enorme rochedo. Fenrir sorriu ferinamente, olhando pra parede lisa de pedra, suas botas de pano confortável fazendo pequenas pedras deslizarem pelo chão de terra. Uma delas estava queimada, quase a ponto de se poder ver a pele ferida do seu calcanhar.
–Meu mestre disse que me encontraria aqui quando o sol se pusesse - ele resmungou, um pouco mal-humorado - É comum ele se atrasar, então eu me sentaria...
A loura pequena assentiu, se sentando na grama sem se importar em sujar as roupas, duvidava que conseguissem ficar piores do que estavam, mesmo se ela rolasse no barro.
Por um longo momento eles não disseram nada um pro outro. O moreno ficou algum tempo observando a montanha, depois se sentou ao lado dela, perto o suficiente pra fazê-la corar, mas longe o bastante pra ela sentir vontade de se aproximar mais. Não sabia o que era aquele aperto no peito, mas não era de todo ruim. Era confortável estar com ele, o jeito que tinham corrido - que ele tinha corrido - com ela no colo ainda estava fresco na sua mente, o cheiro bom que vinha dele... Não era como as colônias que seu pai, ou os empregados na sua casa usavam, era um aroma mais suave, natural, e no entando, ainda mais convidativo na opinião dela.
–Harry... - ela murmurou, por algum motivo, receava que não conseguisse chama-lo por aquele outro nome sem gaguejar. Era estranho demais, incrível demais que o personagem daquela história estivesse sentado perto dela. "Harry" deixava as coisas mais fáceis, mais pálpaveis - Quem é o seu mestre...?
Ele não respondeu de imediato, parecia perdido em pensamentos, e Lucy considerou se ele tinha a ouvido falar. Estava prestes a fazer novamente a pergunta, até que ele respondeu:
–O nome dele é Laio...
A pequena não respondeu, na verdade, sentiu a voz faltar quando ouviu aquele nome. Sua mente foi lenta demais pra processar o significado daquilo, e quando estava prestes a terminar o racíocinio, uma onda de vento açoitou seus cabelos, o fazendo dançar na frente do seu rosto e entrarem na sua boca. Qualquer possível conclusão que ela possa ter tomado se perdeu quando ouviu uma trovoada, e agarrou instintivamente o braço de Harry, que ainda estava tranquilo, ao seu lado.
BUM
Ela tirou os cabelos da frente do rosto, a ponto de ver uma coisa grande e assustadora bem acima da sua cabeça. Os olhos dela pareciam que iam pular pra fora, de tanto que ela os arregalou, enquanto um enorme dragão, com o corpo alongado como o de uma serpente marinha, pousava a poucos metros na sua frente, espalhando poeira e grama solta com o vento. Lucy nunca tinha visto um dragão, nem sabia exatamente o que era um, fora o que ouvia das conversas e orações por onde passava, mas naquele momento, não fazia diferença. Era grande, muito grande, e assustador... Muito, muito assustador.
–Relaxe Lucy... Ele não vai comer você - Harry riu baixinho, como se aquela ideia fosse ridícula, e no entanto, ele mesmo já tivesse pensado nisso.
–Ora... - o dragão falou - Não é comum você trazer pessoas com você... Veio me apresentar sua namorada?
Harry pareceu envergonhado, e a loura também ficaria, mas estava ocupada demais tentando entender o que estava acontecendo. A mente dela parecia lenta demais, quase como se estivesse anestesiada. Ainda estava tentando entender que o dragão tinha falado, quando o moreno ao seu lado se levantou, e ela inconcientemente se levantou junto com ele, ainda abraçada ao seu braço. Parecia não estar nem mesmo minimamente disposta a solta-lo, na verdade, naquele momento achou que a coisa mais sensata que pudesse fazer fosse se segurar naquele garoto.
–O nome dela é Lucy - ele disse, parecia um pouco incerto do que dizer, e estava levemente ruborizado - Eu a encontrei hoje, quando os mercadores tentavam cortar o braço dela, por roubar uma maça...
Uma sombra de reconhecimento passou pelos olhos enormes e solenes da criatura, que assentiu em silêncio.
–Entendo... Você os matou?
–Vontade pra isso não me faltou... Lucy, que estava meio incomodada com o rumo que a conversa estava tomando, deu um passo pra frente, tencionando dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas logo se arrependeu, quando reparou que tinha chamado a atenção do dragão. Ela gelou no lugar, enquanto mil coisas passavam pela mente dela. Como era de costume, e ainda muito compreensível, ela escolheu a coisa mais idiota entre todas, pra dizer:
–Você fala?
O dragão riu, jogou a cabeça para o alto, e gargalhou com vontade, enquanto Harry riu baixinho, de olhos fechados. Ela torceu o sorriso num muxoxo de desagrado, e ficou encarando o chão, corada feito um tomate.
–Desculpe pequena, não leve isso a sério - o dragão disse, se aproximando mais, se aproximando tanto que Lucy que só percebeu quando sentiu o hálito dele no seu rosto, o... focinho?! nariz?! Seja o que for tocando sua testa, enquanto os olhos dele a encaravam de cima. Ela teria se assustado, provavelmente gritaria e correria, tentando se esconder pra não ser comida, mas os olhos dele eram incrivelmente parecidos com os olhos de Harry, no entanto eram mais claros, e pareciam ainda mais velhos que os olhos dele - Mas seu namorado me fez a mesma pergunta quando nos conhecemos, acabou sendo nostálgico...
Ah... espera... "namorado"?! lucy corou com a ideia.
–Tu-Tudo bem...
–Imagino que tenha levado ela pra comer não?! - o dragão se voltou, estranhamente severo, pra Harry, que apenas balançou a cabeça de um lado a outro, parecendo indignado por sequer ter sido questionado sobre aquilo.
–É claro... O dragão rugiu baixo, e por um instante a pequena pensou que ele estava irritado, até perceber que era apenas o som que ele fazia quando estava assentindo. Seres humanos faziam aquele mesmo som, só que num dragão, ele ficava muito mais alto e impressionante. Depois disso ele surpreendentemente pulou, batendo as asas e se jogando pro alto, o que fez os cabelos dos dois açoitarem pra baixo. Lucy gritou com a surpresa, enquanto Laio virava um arco fechado no céu, a apenas poucos metros do chão, e de costas. Quando sua cabeça estava a apenas alguns centímetros de colidir com o chão, seu corpo todo explodiu em fumaça, que rapidamente se esvaiu no ar, e um homem alto, bronzeado, com cabelos pretos rebeldes como os de Harry e olhos num tom mais claro de verde, que se confundia com azul, veio caminhando até eles, com um sorriso malicioso e insolente no rosto.
–O que mais essa senhorita precisa filho...? - o dragão perguntou, olhando maliciosamente pra Harry, quase como se fosse pular e ataca-lo de repente - pensando bem... Você não negou o que eu disse antes, ela é mesmo sua namorada?! Como eu desconfiava, você é inacreditavelmente rápido quando se trata de garotas...
–Idiota - o moreno disse, corado e desviando o olhar - Ela tem uma pergunta, e acho que você poderia ajuda-la.
–Humm... - ele coçou a barba rala - Então?!
Lucy reparou que ele estava falando com ela, e se apressou a tirar as chaves de ouro de dentro do bolso. Elas estavam protegidas dentro de um pano enrolado, muito bem preso dentro de um bolso escondido na sua capa surrada. Laio olhou levemente surpreso pras chaves, mas depois seu olhar voltou-se para o rosto dela. Ele estendeu a mão e segurou delicadamente seu queixo, se abaixando até ficar na altura dela, e virou com suavidade seu rosto para o lado, examinando atentamente suas feições.
–Lucy Heartfilia, não... - ele murmurou, surpreendendo tanto a pequena, quanto seu filhote - Você é a cara da sua mãe, criança, os mesmos olhos, e o mesmo cabelo... Vai se tornar uma bela mulher quando crescer.
–A minha mãe? - Lucy o encarou surpresa - O senhor conhecia a minha mãe?
–Sim, eu conhecia a Layla, ela era uma boa mulher criança, vejo muito dela em você - ele sorriu tristemente, a afagando como um pai faria. Lucy não soube exatamente como agir, nunca ninguém a tinha afagado daquela maneira. Seu pai... Ela não lembrava a última vez que ele tinha tocado nela, e os empregados, que eram gentis com ela, ainda a tratavam como a senhora da casa em que trabalhavam. Nunca ninguém a tinha tocado daquela forma, e ela sentiu os olhos lacrimejarem enquanto olhava no azul mar dos olhos do dragão, agora em sua forma humana.
Ela tinha notado que o dragão tinha se transformado num ser humano, mas o fato era por demais incrível e confuso pra ela tentar entender, então sua mente simplesmente deixou a informação de lado. Mais tarde, naquela noite, ela se lembraria disso e pediria uma explicação a Harry, mas no momento, estava mais ocupada, sentindo o coração disparado no peito pequeno. Laio notou isso e a abraçou, deixando sua cabeça descansar no seu peito, e a envolvendo firmemente entre os braços, como que pra protege-la.
–Calma pequena... Você não sabe como usar essas chaves?
–N-Não... - ela disse, enxugando as lágrimas. Sentiu os musculos relaxados, como a muito não ficavam, viver nas ruas deixava suas marcas, afinal. Ela bocejou, e piscou sonolenta.
–Vai ficar pra depois então - ele disse - Harry, você também parece meio quebrado, o que aconteceu?
–Nada demais, apenas um mago que se intitulava o "Dragão de ferro", veio arrumar confusão comigo...
–Contratados pra encontra-la - ele indicou Lucy com o queixo - ou para sequestra-la?
–Acho que foram contratados pra encontra-la, mas planejavam a sequestrar depois do trabalho, e pedir um resgate.
–Entendo... Isso não importa agora, vocês dois estão cansados e precisam dormir...
–Eu estou bem...
–Claro que esta, cuide dela enquanto estiver nas minhas costas...
Harry olhou para a garota, e sorriu notando que ela estava quase dormindo em pé. Ele a pegou no colo novamente, enquato Laio se transformava novamente em dragão, e subia pelos céus, e riu conforme ela balbuciava algo incoerente sobre "chaves" e "mamãe". Pouco depois já estava subindo nas costas largas do dragão do oceano, enquanto ele se atirava para o céu noturno, voando acima das nuvens e mais perto das estrelas do que qualquer pessoa naquele mundo jamais estivera.
Lucy arquejou enquanto o vento continuava zumbindo no seu ouvindo, os deixando tapados conforme a pressão caía, depois tornava a subir novamente. Os olhos dela lacrimejaram, conforme a tensão nos seus músculos ia abrandando, naquela sensação chata que você tem quando quer muito continuar dormindo, mas percebe que vai, invariavelmente, acordar a qualquer momento. Ela tentou se prender a qualquer resquício de sono que ainda podia ter, tentando manter aquele sonho bom tão vivo quanto possível na sua mente. Era triste voltar a realidade, sabendo que ia acordar numa sargeta imunda, com fome - ou pior, numa cama confortável, na sua casa, com um noivo que ela mal conhecia a esperando - depois de ter fantasiado estar com um fantasma, que salvara sua vida, e um dragão, que foi a primeira pessoa a mostrar um pouco de carinho parternal pra ela.
Mesmo assim, o sono foi ficando cada vez mais distante, e ela pode sentir o frio e a rigídez da calçada. Suspirando, ela se resignou com a realidade, de que tudo aquilo não tinha realmente acontecido, que tinha tudo sido um sonho... um sonho feliz. Acabou notando o capuz que lhe recobria a cabeça, aquele mesmo manto cinzento que tinha achado num lixo, grande demais pra ela, sujo e fedorento...
Ou não... podia ser impressão, mas quando aspirou, sentiu um cheiro estranhamente bom vindo das suas roupas. Se sentia quente, de um jeito que aquela velha capa nunca a tinha deixado, e protegida, a mesma proteção que as crianças sentem quando se vem embaixo de um cobertor. De repente, mesmo a dureza da calçada parecia confortável pra ela, a temperatura fria lhe arrepiou os pelos da nuca, e ela suspirou, sentindo o chão ondulando levemente conforme ela dormia. Pensou que já estava acordada, mas parecia mais imersa no sono do que tinha pensado.
Até que ela realmente decidiu que era hora de abrir os olhos, e quando fez isso, pareceu que toda a loucura do mundo faria sentido se comparasse com o que ela viu.
O chão, ou o que ela até agora achava que era o chão, era formado por escamas azuis enormes e brilhantes, que ondulavam conforme o sol batia nelas. Ela ainda não tinha percebido, mas alem das ondulações costumeiras, parecia que ele inchava e desinchava lentamente, quase na mesma medida que ela, conforme Lucy... ambos, respiravam.
–Parece que você acordou...
Ela olhou pra frente, e suprimiu o impulso de gritar o mais alto que podia, quando deu de cara com dois olhos azuis e verdes a olhando com atenção, e até um pouco de preocupação. O rosto escamado, e as presas enormes a mostra, por baixo do que ela achou que seria um sorriso, a fizeram sentir calafrios, até que outro detalhe chamou sua atenção. O rosto estava recortado ao meio, de forma que ela não podia ver a parte de cima da sua cabeça... Ah não, não era a cabeça que estava cortada, era sua visão, por causa de algo branco, que ela notou não ser o seu velho manto sujo... Lucy se acalmou quando, ao mesmo tempo em que ela se deu conta daquela capa branca, as lembranças do dia -e noite- anterior voltaram. O manto que ela estava usando não era seu velho manto sujo, era o sobretudo que Fenrir usava, e a coisa dura, meio fria e meio quente, que subia e descia e ondulava embaixo dela não era o chão, era um dragão. Ela estava dormindo encima do Dragão do oceano.
–Bom dia... - ela pensou em algo melhor pra dizer, algo que não fosse muito idiota - Já é de manhã?
Ele fez um som profundo com a garganta, como um rosnar contido, e Lucy corou quando notou que estava rindo baixinho. Laio apontou a enorme cabeça pra cima, até que ela sumisse por trás do branco do capuz que ela ainda usava, e disse:
–O sol nasceu a algumas horas, você dormiu a noite toda.
Ela assentiu devagar, se abraçando mais firme no corpo da enorme serpente voadora, a capa açoutando ao vento atrás dela, e o capuz caído a frente de seus olhos, a protegendo do vento. Se passou alguns minutos até que uma coisa tremendamente óbvia ocorreu a ela. Se ela estava usando a capa de Harry... então onde estava o Harry?! Estava pra perguntar isso quando ouviu alguém bocejar atrás dela. Não devia parecer tão alto, mas sem o vento nos ouvidos, atrapalhando sua audição, ela parecia incrivelmente apurarada.
–Bom dia, Lucy, Laio - a voz bocejou de novo - Onde estamos?
–Estamos quase chegando, vai levar menos de uma hora agora - O dragão respondeu tranquilamente.
Lucy, por sua vez, ainda estava atônita demais pra dizer qualquer coisa coerente, em vez disso, ela preferiu olhar pra trás, fazendo o máximo de esforço possível pra não olhar pra baixo, não sabia se conseguiria conter a tremedeira caso fizesse isso. O que ela viu, no entanto, a fez preferir não ter olhado, ou ter olhado pra baixo. Ela travou os joelhos com tanta força nas costas do dragão, que se preocuparia -inutilmente- em tê-lo machuchado, se ainda não estivesse sem palavras. Harry estava dormindo, deitado e tão relaxado como se estivesse lendo, na ponta da cauda de Laio.
–Harry! - Lucy gritou, assustando o garoto e fazendo o dragão rir. Ele se levantou rápido, ficando sentado e alheio ao movimento amplo da cauda, e olhou pra ela preocupado, relaxando logo depois de constatar que ela estava bem.
–O que foi?
–Sai daí! Você vai cair!
–Não se preocupe - ele fez um aceno de mão, como se não fosse nada - Não tem perigo nenhum.
–Como não?! Olha onde você esta?
–Estou acostumado...
–Mas...
Laio interrompeu a discussão dos dois, que já estava ficando quase cômica pra ele:
–Sem mas, filhote - ele fez um amplo movimento do rabo, como se fosse um chicote, e jogou Harry da cauda, o que fez Lucy gritar e tapar os olhos - Seja cortês e não deixe a sua senhorita preocupada...
–Ela não é a "minha" senhorita - ele respondeu, sentindo o calor subir para o rosto.
Lucy abriu os olhos quando sentiu ele tocar seu ombro, e percebeu que ele estava, de alguma forma inexplicável, sentado atrás dela, ainda tão relaxado como antes.
–Falei pra não se preocupar, já me acostumei a voar com esse velhote...
–Prestem atenção pivetes - Laio disse, um pouco irritadiço - O "velhote" vai pousar, se segurem...
Como tinha dito, ele arqueou o imenso corpo de serpente, que ondulou no ar, e disparou pra baixo. O aperto de Lucy não foi forte o bastante, e ela teria caído se Harry não a tivesse segurado. Em vez de deitada e abraçada as costas dele, agora ela estava ereta, sentado sobre as costas do dragão e pressionada pela pressão contra o peito do garoto, que parecia bem relaxado atrás dela, preso pelas costas do dragão apenas pelo aperto firme dos joelhos. Lucy corou quando sentiu as curvas do peito dele nas suas costas, e ele pareceu também ter ficado envergonhado, a mesma medida que o dragão parecia divertido.
A medida que ele disparava pra baixo, as nuvens iam ficando pra trás, e as crianças avistaram terra firme, uma pequena ilha verde escuro no meio do mar. Quanto mais perto estavam, maior e mais ampla a ilha parecia, até que ela se deu conta que provavelmente seria maior que uma cidade. No centro da ilha havia uma montanha amarronzada, que ia ficando mais escura conforme a vegetação rasteira que a cobria ia desaparecendo, perto do cume, ela era quase totalmente negra. Laio voou em círculos fechados, contornando o cume do que mais tarde Lucy descobriu ser um vulcão adormecido, até pousar em uma gruta na rocha, que se aprofundava por dentro do vulcão, larga e alta o sufuciente até pro enorme dragão do oceano poder se mover livremente.
–Você tem um senso de humor estranho, nos trazendo de volta pra esse lugar...
A jovem Heartfilia olhou por cima do ombro as feições de Harry, ele parecia distraído, um pouco triste, mas também feliz.
–É... faz um bom tempo que não volto aqui, e nem voltaria por um bom tempo se não fosse por você.
–Que lugar é esse? - a garota perguntou sem se conter.
Laio e Harry s entreolharam com um sorriso de canto, como se decidissem qual dos dois deveria responder a pergunta. Por fim, o moreno apontou a entrada:
–Aqui foi onde eu conheci o Laio, a quase dois anos atrás. Ele ficou muito bravo comigo por que eu tentei mata-lo...
Ela engasgou com a surpresa, a medida que Harry parecia um pouco envergonhado e Laio riu divertido.
–Você atacou um dragão? - ela perguntou, tentando entender o que se passava pela cabeça dele pra fazer algo tão estúpido.
–É... - ele desviou o olhar - Não foi de propósito...
–Não foi?! - o dragão disse, debochado - Você abriu um talho no meio da minha cara por acidente então?
Os dois se encararam por um tempo, até que a expressão azeda de ambos foi suavizando, e eles riram. Lucy ainda estava estática pra dizer qualquer coisa, mas nem teve chance pra isso, por que Harry desmontou as costas de Laio, e ele pulou novamente para o ar, arrancando um grito da garota.
–Cuide dos seus ferimentos e descanse - o enorme dragão disse - Lucy e eu estaremos na praia...
–Ok - Harry assentiu para Laio, e se voltou para Lucy, com um sorriso - Boa sorte.
Ela não teve tempo de responder, apenas de corar levemente, antes de gritar com a surpresa, Laio mais uma vez cortava o céu, se dirigindo para a extremidade da ilha. Dessa vez, ela não teve nenhum receio de apertar as costas dele com o joelho o máximo que conseguia.
Assim que a garotinha loura pulou das suas costas, tropeçando e cambaleando na areia, até parar de pé, Laio tomou novamente sua forma humana. Ainda estava de manhã bem cedo, e o vento que vinha do mar trazia pra costa da ilha um cheiro agradável, meio salgado.
–Sente-se pequena, isso vai demorar...
Lucy fez como ele tinha dito, chutou um pouco de areia pra nivelar o pedaço de chão, onde depois se deixou cair sentada, suspirando. Antes mesmo que percebesse, o dragão tinha se sentado em frente a ela, os cabelos caindo rebeldes ao lado do rosto, e a barba rala escondiam uma fina cicatriz que passava entre seus olhos. Apenas um traço de pele mais clara que o resto, uma lembrança meio irritante, que no entanto, ele guardava com zelo.
–O que eu tenho que fazer? - Lucy perguntou, depois de um longo tempo que ambos ficaram se encarando, em silêncio - Eu nem peguei as chaves...
–Paciência criança - a voz do dragão do oceano soou da boca daquele humano, baixa e grave, ampla como o próprio mar - Pra se fazer magia é preciso muito mais do que obejetos mágicos, eles são apenas uma ligação, a força do feitiço tem que vir de você...
–E como eu acho essa força?
–Se acalme... - ele inspirou e experou, muito lentamente - Sinta a brisa do mar, ouça o som da água avançando sobre a areia, sinta o calor que vem do sol, o vento nos seus cabelos, a firmeza do solo, a serenidade do céu. Permita que esses sentimentos cresçam dentro do seu peito, até que ocupem seu corpo todo, relaxe...
Lucy mergulhou nas palavras dele, e a medida que um arrepio lhe percorria a espinha, ela parecia ficar mais baixa e mais grave. A voz de Laio parecia ter se tornado apenas um sussurro, que vinha de todos os lugares. Ela se concentrou no que ele disse, se concentrou na maré cortando a praia, no cheiro de sal que vinha do mar, sentiu os grãos de areia roçarem na pele nua das suas pernas, o calor ameno do sol da manhã, que deixava a escuridão mais clara diante dos seus olhos fechados. O vento açoitou seus cabelos, e ela pareceu seguir com ele, se embrenhando entre as flores e folhas na floresta, onde tudo parecia vivo.
Seus músculos estavam entorpecidos, e ela não sabia dizer a quanto tempo estava parada, imóvel sobre a areia. O único indício de que tempo havia passado era que o calor na sua pele parecia maior. Lucy mentalizou o sol, e o fogo, imaginou que seu corpo era feito puramente disso, que ela era apenas uma chama tremulante sobre a areia, abaixo do enorme céu. Aquilo a fez sentir feliz, por algum motivo inexplicável. Lentamente, se sentindo mais tranquila consigo mesmo do que nunca, ela abriu os olhos.
A sensação de ser chama tremulou e se dissolveu entre seus sentidos, a medida que ela voltava a sentir os músculos dormentes como dela, de repente um pouco desconfortáveis. Laio na sua frente sorria serenamente, os olhos verde mar ondulando como as águas, refletindo a luz do sol:
–Então... O que você sentiu?
–Eu senti... Como se fosse feita de fogo puro, como se não tivesse mais pele, e qualquer coisa dentro de mim estivesse fluindo pelo ar... - a garota explicou, levemente impressionada pela forma como soaram suas próprias palavras. Ela não sabia que podia falar daquela forma.
–Bom... - ele olhou pra cima - Não levou menos tempo do que o necessário, no entanto, já esta quase na hora do almoço...
–O que? - ela quase gritou - Quanto tempo fiquei sentada aqui?
–Umas seis horas...
Antes que ela pudesse ficar muito impressionada, ou ao menos muito surpresa, Laio tocou um dedo na sua testa, a empurrando levemente até que ela caiu de costas na areia.
–Não fique muito convencida pequena - ele disse, rindo conforme ela se sentava de novo, esfregando a testa enquanto fazia beicinho - Seis horas não é muita coisa, mas é muito bom pra iniciantes...
Ela assentiu, enquanto seu estomâgo roncava, de repente implorando por qualquer coisa sólida que ela pudesse mastigar.
–Harry já saiu pra caçar, então não se preocupe - Laio apontou a floresta, que se alongava desde a base da montanha até a costa da ilha, muitos metros alem de onde eles estavam sentados, na areia - No entanto, tem mais uma coisa que você precisa fazer...
–O que? - Lucy perguntou, tentando achar qualquer coisa pra se distrair e esquecer o roncar insistente do seu estomâgo.
–Você disse que se sentiu como se fosse feita de fogo, não?! - Ao que a garota assentiu, Laio continuou - Esse é o primeiro estágio que você precisa alcançar pra se tornar um mago, no entanto, ainda há uma outra coisa, antes que você possa usar magia...
–O que? -Você precisa aprender a canalisar esse fogo, e fazê-lo correr dentro de você, percorrer seus músculos, até fora do seu corpo. Quando conseguir isso...
Laio levantou uma mão, com a palma voltada pra cima, e uma esfera de água límpida tremulou ali em cima, flutuando no ar. Lucy observou maravilhada como ele fez a água tomar forma, se moldando em algo disforme, que foi endurecendo e congelando. Quando terminou, ele segurava na sua mão uma rosa perfeita, feita de gelo brilhante. Com um gesto cortês, o Dragão do oceano entregou a ela, que gemeu com o frio do gelo em contato com sua pele morna. Antes que pudesse admira-la por muito tempo porem, o gelo derreteu quase de uma vez, e água escorreu pelos braços da menina, provocando-lhe arrepios.
–Quando alcançar o segundo estágio, vai poder manipular a sua magia, e então invocar os espiritos das suas chavez. Até lá... - ele apontou para o mar com os olhos - Vamos comer...
Lucy arfou quando, saindo da água com um sorriso rasgado no rosto, Fenrir vinha puxando uma serpente marinha de vários metros de comprimento pela cauda, a arrastando até a praia.
Já era cerca de duas da tarde, e o sol tinha passado seu pico e começava a decair bem devagar pelo outro lado do céu, conforme a tarde ia chegando, e o dia logo se transformaria em noite. Lucy rasgou com uma mordida um pedaço de carne do seu prato, sorrindo enquanto ela derretia dentro da sua boca, o gosto do tempero misturado com o molho e as frutas cozidas que Harry tinha preparado. Laio parecia tão ou mais feliz que ela, mastigando da comida que seu filhote preparara.
–Esta delicioso - a garota disse pela enésima vez, e o moreno respondeu com um sorriso de orelha a orelha pela enésima vez, e parecia não se importar em ter que responder de novo - Por que a carne fica tão mole? É tão bom...
–Dependendo da maneira como você a corta, você consegue romper as fibras da carne, assim elas cozinham mais fácil, enquanto a própria pele as mantem no lugar.
–Não tente entender pirralha - Laio resmungou - Nem eu entendo como ele faz isso, e eu mesmo o ensinei a cozinhar...
O dragão engoliu seu último pedaço de carne, que também já era o trigésimo-e-perdi-a-conta pedaço de carne que ele comia, antes de se esticar todo na praia, e correr em direção do mar. Recomendações pra guardar o que sobrar pra ele foi tudo que as duas crianças escutaram antes do Senhor dos mares cruzar o céu, batendo as asas e fazendo múltiplos arco-iris aparecerem pelas gotas de água que choviam em torno dele.
Nem Lucy e nem Harry disseram nada por algum tempo, ela continuou comendo, e repetiu mais duas vezes antes de largar o prato e se deitar na areia, com um sorriso enorme decorando seu rosto delicado. Seus olhos castanhos em frestas, focados nas nuvens que passavam no céu, era muito bom, era relaxante. Ainda com nove anos, ela riu baixinho ao notar que ficar daquela forma, pra sempre, era tudo o que ela mais queria da sua vida. A garota não soube dizer se tinha cochilado ou não, mas algum tempo depois, sentiu um cheiro bom no ar - não era o cheiro da carne, embora ela fosse definitivamente muito, muito boa - e seus olhos se abriram minitamente.
Fenrir, o lobo de fogo gelado, se sentou na sua frente com um sorriso, e estendeu uma caneca pra ela. Dentro, um líquido preto que ela nunca tinha experimentado, mas que cheirava doce e agradável. Ela bebericou, e sorriu:
–É bom!
–Você nunca provou café antes? - Harry perguntou, surpreso.
–Então isso é café... - ela tornou a olhar pra caneca, acompanhando a fumaça que dançava a sua volta, se esvaindono ar - Meu pai nunca comprou, lá em casa os empregados só serviam chá e vinho...
–Eu não gosto muito de chá, e Laio não me deixa beber vinho - ele fez um muxoxo de desagrado - Então posso me virar com isso. É muito gostoso depois das refeições, no entanto.
Ela concordou, e os dois ficaram sentados em silêncio, apenas aproveitando a presença um do outro. Lucy inconciente chegou mais perto, e corou, quando notou que estava com vontade de deitar no colo dele, e dormir.
–Você acha que já pode continuar?
Ela demorou um pouco pra responder, enquanto a voz do moreno a tirou de seus devaneios, e fez que sim com a cabeça.
–A partir de agora fica um pouco mais difícil - ele disse, um pouco mais sério, e a Lucy se embebeu em cada palavra dele, se forçando a prestar atenção em tudo - Existem dois jeitos de despertar sua própria magia, o primeiro e o correto, é o jeito que você despertou, atravéz da concentração e da busca interior...
–Qual o outro jeito - ela perguntou, estendendo a mão para o alto e sorrindo. Sorriso esse que amuou quando notou as sombras na expressão sempre passiva daquele garoto.
–A outra maneira... é quando algo força sua magia a despertar, geralmente é bem desagradável - ele levantou a camisa, e os olhos de Lucy se arregalaram ao ver várias cicatrizes, que lhe traçavam o estomago, e corriam até as costas, embaixo de uma grande tatuagem no peito dele - E você sempre fica com marcas depois que acontece...
Ela quiz lhe perguntar, no longo minuto que ele fez silêncio, quem ele era. Como ele tinha aquelas cicatrizes, e o que tinha acontecido com ele, e o que tinham feito com ele, mas ela não perguntou. Ela não conseguiu dizer nada, era como se uma bolha de ar estivesse presa na sua garganta, e só sumisse quando Harry olhou tristemente pra ela, antes de continuar a explicar.
–Entretanto, só despertar sua magia não é o suficiente pra ser chamado de mago. De onde eu venho, pessoas como você seriam chamadas de bruxas - ele riu da careta que a loura fez quando ouviu aquilo, e a tranquilizou com um gesto - Bruxos são pessoas que podem usar feitiços, mas precisam do auxílio de catalizadores, pra que sua magia possa ser convertida e então usada. No seu caso, já seria o suficiente pra você invocar um espírito, porque as próprias chaves são catalizadoras, mas você ainda esta muito fraca. Até alcançar o segundo nível, e se tornar um mago, nenhum espírito, ainda mais um espírito do zodíaco, firmaria um contrato com você.
–Como se alcança o segundo nível?
–Agora que você já tem conhecimento da sua magia, se concentre nela, permita que ela encha seus músculos, e flua pra fora.
Lucy fez como ele tinha dito, ela buscou novamente, dentro dela, aquela chama que ardia e amolecia seus músculos, mas não sentiu nada. O vento no seu ouvido a irritava, e a areia machucava seus calcanhares.
–Relaxe... - Harry disse baixinho - Fique calma, esqueça tudo a sua volta, o que você esta procurando esta dentro de você, qualquer coisa do lado de fora não tem a menor importância...
Ela relaxou, e deixou de tentar encontrar aquela força misteriosa. Simplesmente deixou que ela viesse até ela, como tinha feito da outra vez, torcendo pra que desse certo. A esse ponto, suór escorria pelo seu rosto, e secava logo com a brisa marítima, que permanecia fresca mesmo com o calor da tarde. Lucy percebeu que ficaria mais fácil se ela se concetrasse em apenas uma coisa, algo simples, pra tentar excluir qualquer outro pensamento da sua mente. A primeira coisa que lhe ocorreu, foi a sua respiração.
Mas só de se concentrar nela, ela não conseguia mantê-la uniforme, seus pulmões bombeavam irregularmente, e ela se via no controle novamente. A resposta mais simples então, foi se concentrar na respiração de Harry, que estava bem de frente a ela.
O ritmo dele era calmo e profundo, ela associou quase que imediatamente a maré, que vinha e inha pela praia, ao ritmo que as asas de Laio batiam, que as nuvens mudavam de forma. De repente, tudo a sua volta estava naquele mesmo ritmo lento e agradável, e ela se viu queimando por dentro, não havia pele, órgãos, nada. Ela era feita puramente e exclusivamente de fogo, um fogo que crepitava ao ritmo da respiração daquele garoto.
E isso não era o bastante. Quanto mais tentava pega-lo, mais ele deslizava, fora das suas mãos, como se fosse uma bola de vidro untada com óleo.
Harry observou como o suór escorria pela testa dela, e se aproximou. Tomando cuidado pra não assusta-la, ele se sentou de frente a ela, o mais perto possível, de forma que suas cabeças estivessem a um palmo de distância. Ele se aproximou do ouvido dela, e sussurrou:
–Não tente correr atrás dela, ou pega-la a força - Lucy estremeceu com os lábios dele ao pé do seu ouvido, mas continuou imóvel, concentrada no fogo dentro dela - Pense nisso que esta fazendo como tentar pegar uma folha ao vento. Se você correr atrás dela, ela simplesmente vai pular fora das suas mãos, então, basta deixar que o vento a traga até você...
"Deixar que o vento a traga até mim..." - ela repetiu consigo mesmo. Era como se o fogo esquivasse e saísse de seu controle sempre que ela tentava pega-lo, então... Ela simplesmente ficou parada, e o fogo parou junto com ela. Lucy estendeu as mãos, de braços abertos, como se o chamasse pra abraça-la, mas não fez nenhum outro movimento, concentrada na respiração de Harry no seu rosto, e no ritmo do mundo a sua volta. Sua magia se moveu lentamente, se aproximando como se fosse um gato desconfiado, olhando pros lados e procurando uma rota de fuga, caso se sentisse ameaçado. Assim, ela foi lentamente se aproximando da garota, quase como se fosse uma versão dela mesma, com olhos e cabelos como chamas que crepitava. As duas Lucys se encararam, até que a Lucy de fogo deu o último passo, atirando os braços em volta do pescoço da Lucy real, e as duas se abraçaram apertado, como se nenhuma fosse deixar a outra escapar nunca mais. Ela abriu os olhos, e Harry teve a impressão de vê-los pulsar avermelhados, antes de voltar ao castanho de antes. Lágrimas escorriam pelos olhos dela, conforme olhava pro alto, e de volta pra sua própria mão.
–É tão... quente... - ela murmurou. Fenrir sorriu na frente dela, sentindo um traço das emoções ferais de Arian na sua conciência, como se ele rugisse de dentro dele:
–É mesmo... - Lucy levantou os olhos pra ele, e só então ambos perceberam que estavam a um palmo de distância. Seus narizes quase se tocanto, a respiração de um batendo no rosto do outro, enquanto se encaravam estáticos.
"Tem cheiro de café..." - Harry pensou, e foi a última coisa coerente que ele conseguiu pensar, antes de se aproximar mais e fechar a distância entre ele e Lucy. Seus lábios se tocaram e o Lobo de fogo gelado rugiu vitorioso, a medida que a ninfa de fogo dançou dentro da alma da garota. Eles estavam de olhos fechados, os lábios juntos num beijo simples e casto, muito próprio para um primeiro.
Por sua vontade, o moreno não teria saído dali nunca, mas ela precisava de ar. Assim, quando se afastou, apenas o minimamente necessário pra ela conseguir respirar, Lucy arfou e puxou o ar com sofreguidão, sem contudo perceber o que estava fazendo ou tirar seus olhos dele. Os lábios macios molhados de saliva dela brilharam a luz do sol, e algumas respirações foi o máximo que ele aguentou antes de fechar a distância de novo, dessa vez encaixando seus lábios nos dela com a cabeça inclinada para o lado. Eles se beijaram novamente, se pressionando levemente um em direção ao outro, Harry sentiu um par de mãos afagando seu cabelo, e notou que os braços da garota estavam por sobre o seu ombro, enquanto ele enlaçava os seus próprios na cintura fina dela, a puxando mais para si.
Pouco depois se separaram, lambendo os próprios lábios e provando o gosto de suas bocas, enquanto ainda se olhavam nos olhos. Lucy não disse nada, e logo depois parecia querer enfiar a cabeça num buraco, de tão corada que ficou. Harry não estava menos envergonhado, mas também não estava com vontade de sair daquele abraço. Beija-la foi uma das melhores coisa que ele já tinha provado, e por ele, faria isso de novo.
–E-Eu... - a garoa gaguejou, engolindo em seco.
–É... eu também.
Eles se olharam durante um longo tempo, até que invariavelmente, se beijaram outra vez. Dessa vez, um pouco mais confiante, Harry deslizou a língua entre os lábios, e um arrepio passou pela sua nuca ao provar o sabor dos lábios da loura, que também se arrepiou, e tocou a língua dele com a sua. Era quase como se ela tomasse um choque atrás do outro, e com ele não era diferente. Arrepio após arrepio passavam pelas suas costas, a medida que moviam os lábios de forma insegura, mas lentamente, como se pra aproveitar melhor o sabor um do outro.
Levou mais de um minuto dessa vez, e de novo ela respirou com sofreguidão, enquanto ele parecia com folêgo pra continuar ali por horas. Lucy olhou nos olhos dele, e não conseguiu encarar o verde por muito tempo, antes de encarar a areia, que brilhava com o calor do sol, como pequenos diamantes amarelos e brancos. Harry se levantou, dando alguns passo pra trás, e voltou a se sentar. Não queria sair de perto da garota por algum motivo, queria continuar fazendo aquilo que ele tinha descobrido ser tão bom, mas ela tinha outras prioridades.
–Quer tentar usar as chaves agora...?
Lucy, que estava se perguntando por que diabos ele tinha se afastado, acabou assentindo. Metendo a mão dentro do bolso do sobretudo, ela tirou o embrulho, e pescou uma chave dali. Era a chave de touro, chave de contrato para o segundo dos espíritos do zodíaco, Taurus. Respirando fundo e tomando coragem, ela se levantou. Estava nervosa e excitada, curiosa pelo que aconteceria agora.
–Aqui quem fala é aquela que faz a ligação entre esse mundo e o outro - ela recitou, se sentindo um pouco ridícula. Esperou que Harry risse dela, mas pelo contrário, ele parecia impressionado, então Lucy acabou ganhando mais confiança pra continuar - Atenda meu chamado, Taurus de touro, e venha a mim. Portão de Touro, abra-se!
Ela estendeu a chave pra frente, e moveu o pulso para o lado, como se abrisse uma fechadura imaginária no ar. Uma luz dourada pulsante emanou da chave, aos poucos tomando uma forma bípede, até que foi clareando. Quando isso aconteceu, Harry franziu as sobrancelhas. De pé, na frente da loura, estava uma vaca bípede com uma argola no naríz. Nas suas mãos, um machado ed guerra gigante, que provavelmente era mais pesado que ele e a garota juntos. Taurus mugiu e apontou a garota, que caiu pra trás assustada, abafando um grito agudo.
–Layla-chaaaaann! - ele mugiu... falou... praticamente gritou. Parecia perplexo, e até meio angústiado - O que aconteceu?! Você encolheu! Até seus lindos peitões diminuiram!
Lucy corou esfuziantemente, olhando pro boi que parecia falar sozinho. Harry achou melhor não se meter, mas aquele papo o fez se perguntar como essa tal de Layla era. A garota, por sua vez, ainda estava caída no chão, sem conseguir dizer nada tamanha a surpresa, quando o touro olhou novamente pra ela:
–Quem é você miúda? - ele apontou pro peito dela - Reta desse jeito, com certeza não é a Layla...
Lucy apertou os olhos, se levantou e apontou pra ele com a mesma expressão zangada com que ele a olhava. Surpreendentemente, a vaca caiu pra trás e colocou o machado na frente do rosto, como se tivesse medo de ser atacado:
–Pare de apontar os meus peitos! - ela os cobriu com os braços, como se estivesse nua, fazendo uma expressão quase chorosa - Eles vão crescer um dia...
–Mas...
–Eu não sou a Layla! Vaca pervertida! - ela gritou, e de novo ele pareceu pronto pra se defender de um ataque, mas sua expressão caiu pra uma de total surpresa quando ela completou a frase - Eu sou a filha dela, Lucy...
Taurus a olhou surpreso, que parecia indignada, com os braços cruzados e fazendo bico. Surpreendentemente, e acompanhado de outro grio agudo da garota, ele a levantou e a abraçou.
–Eu não acredito! Você é mesmo a filha da Layla? Vocês são tão parecidas! Ela era idêntica a você quando era criança! - ele abriu um sorriso enorme, que parecia estranho naquele rosto de boi, mas depois murmurou um pouco inconformado - Se bem que ela já estava bem mais desenvolvida na sua idade...
Lucy o ignorou, até parou de se debater ou de tentar se soltar do abraço esmagador dele, e o olhou confusa.
–Você conhecia a minha mãe quando era uma criança?
–Sim, eu fui o primeiro espírito que ela convocou, quando tinha o seu tamanho, e os peitos dela não eram tão impressionantes - ele disse com um sorriso, ignorando a careta da garota por ter dito algo como aquilo com um tom tão comum - Eu fui o seu primeiro também?
Ele perguntou aquilo com um sorriso malicioso, e ergueu as sobrancelhas. Lucy voltou a tentar se debater, até que uma voz interrompeu a briga estranha dos dois:
–Na verdade, eu fui...
Taurus olhou na direção da voz, e viu um garoto pequeno, de cabelos negros rebeldes e olhos profundamente verdes, como esmeraldas, focados nos seus. A expressão dele era serena, mas mesmo por trás da tranquilidade, guardava algo como um rosnado ameaçador. Ele era perigoso, Taurus sentiu um arrepio na espinha, mas não fez a menor questão de demonstrar. Em vez disso, ele sorriu mais maliciosamente ainda:
–E tão jovens... - ele piscou pra Harry, que corou - Essa nova geração esta se saindo muito bem...
–Vaca pervertida... - o garoto se limitou a murmurar, olhando pra outro lado.
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O sol continuou subindo lentamente no céu, que perdia os tons frios da manhã, e ia escurecendo com a chegada da noite. Laio estava de volta, e descansava enrolado em torno de uma fogueira, enquanto Harry descansava recostado contra ele, e Luxy dormia, sentada entre as pernas do garoto, deitada sobre o seu peito. Ele gostava de tê-la ali, dava uma sensação de conforto pra ele, de calor, ainda mais que a fogueira. Apesar disso, suas feições estavam tristes.
–Esta chegando a hora... não?
O enorme dragão não respondeu, apenas abriu os olhos em frestas, e soltou uma baforada de fumaça no ar, como se suspirasse. Quem olhasse aqueles dois nesse momento, diria que seus olhos estavam extremamente parecidos, ainda mais que de costume, o mesmo tom de melancolia que pincelava o verde.
–Sim filhote...
–Eu não queria... - ele engasgou com as palavras - Eu não queria que você tivesse que ir.
–Eu também não.
Os dois não disseram mais nada por um longo tempo, Laio por que olhava o oceano, e Harry por que acariciava os cabelos da loura pequena que dormia sobre seu peito. Durante os poucos dois anos que ficara com ele, o moreno tinha se apegado de uma maneira ao oceano, ao céu e ao próprio dragão de uma maneira que, se vendo agora tendo que caminhar com as próprias pernas novamente, era assustador. Naquele tempo ele tinha se permitido ter uma infância, ter sonhos, e deixado as preocupações de lado. Londrez, Gringotes, Sirius e Avalon... Eram pensamentos muito vivos na sua mente, mas ainda sim... Enquanto voava, enquanto nadava com o dragão, tinha se permitido esquecer aquilo.
Sabia que isso um dia ia acabar, e pior que isso, sabia que ia doer. Como era de costume, tinha razão. O mesmo aperto no peito que tinha sentido quando não se viu mais ao lado de Sirius, estava sentindo de novo. Já tinha perdido um pai uma vez, agora, estava pra perder outro.
–Não importa o que aconteça filhote - o dragão disse, erguendo a cabeça até as estrelas - Nem pra onde eu vá, ou pra onde você vá. Você sempre vai ser o meu filhote. Você é o filho da terra e dos mares. Sempre, sempre lembre-se disso.
As lágrimas escaparam dos olhos dele.
–Sim pai.
Eles se olharam uma última vez, antes do garoto secar as lágrimas com o braço, e puxar o capuz pra cima. Recostado contra o corpo frio do dragão, ele fechou os olhos, mas não dormiu, guardou a sensação com ele, o toque das suas escamas, o ritmo da sua respiração e o calor da fogueira. Anos depois, tantas décadas depois, era só fechar os olhos, sentado numa poltrona, ou mesmo no chão, que as sensações lhe vinham com a mesma força. Ele nunca se permitiu esquecer quem era seu pai, nenhum dos dois.
Acho que devo desculpas por ter demorado tanto pra postar esse novo capítulo, sete meses... eu acho... é muita coisa. Mas eu tinha desanimado da fic, então tive que ler todas as vastas anotações que tenho pra lembrar como devia continuar. Também pensei em novos elementos, e novos personagens pra colocar aqui, então por favor, tenham paciência. Eu não vou desistir dessa fic.