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7. Cap Sete


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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SETE

No entanto, não parece que ele tenha entendido, pois, no sábado, recebo um cartão com uma pintura pré-rafaelista de uma moça olhando timidamente por cima do ombro. Dentro do cartão, Ronald escreveu:

Mil desculpas pelo meu comportamento. Espero poder repará-lo. Entradas para
Bayreuth – ou, se não for possível, jantar? Ronald

Jantar com Ronald. Dá para imaginar? Sentar em frente àquele cabeça de arminho a noite toda. E o que ele está querendo, afinal? Nunca ouvi falar em Bayreuth. Será algum show novo ou algo assim? Ou ele quer dizer Beirute? Por que quereríamos ir a Beirute, pelo amor de Deus?

De qualquer modo, não importa, esqueça Ronald. Tenho coisas mais importantes para pensar sobre o dia de hoje. É meu sexto dia de Cortar Gastos e é crítico, pois é meu primeiro fim de semana.

Segundo David. E. Barton, é geralmente nessa fase que o regime frugal da pessoa é quebrado, já que a rotina do escritório não está mais presente para distrair e o dia se alonga vazio, esperando ser preenchido com o familiar conforto das compras.
Mas minha força de vontade é muito grande para quebrá-lo. Meu dia está completamente tomado e não vou chegar nem perto de nenhuma loja. Esta manhã vou visitar um museu e à noite, em vez de gastar rios de dinheiro comprando comida pronta, vou fazer em casa um prato de curry para mim e Mione. Até que estou bastante animada com isto.

Meu orçamento para hoje é o seguinte:


Condução para o museu: gratuita (eu já tenho um vale-transporte)
Museu: gratuito
Curry: 2,50 libras (David E. Barton diz que é
possível fazer um prato com curry
maravilhoso, para quatro pessoas, por menos
de 5,00 libras – e nós só somos duas).

Gasto total no dia: 2,50 libras


É mais ou menos isto. E ainda experimento um pouco de cultura em vez de materialismo sem sentido. Escolhi o Museu Victoria & Albert porque nunca estive lá. Aliás, nem sei bem o que eles têm. Estátuas da rainha Vitória e do príncipe Albert, ou algo assim?

De qualquer forma, seja o que for, será muito interessante e estimulante, tenho certeza. E, acima de tudo, grátis!
Quando saio do metrô, em South Kensington, o sol está brilhando forte e ando a passos largos pelo caminho, feliz comigo mesma. Normalmente perco minhas manhãs de sábado assistindo a Live and Kicking na TV enquanto me arrumo para ir às compras. Mas veja só! De repente me sinto muito adulta e metropolitana, como um personagem de um filme de Woody Allen. Só preciso de uma longa echarpe de lã e uns óculos escuros e estarei parecida com Diane Keaton. (Uma Diane Keaton jovem, claro, mas sem as roupas dos anos 70.).

E, na segunda-feira, quando me perguntarem pelo meu fim de semana, poderei dizer “Na verdade fui ao V&!”. Não, direi “Peguei uma exposição”. Isto soa muito mais moderno. (Por falar nisso, por que será que as pessoas dizem que “pegaram” uma exposição? Afinal, as pinturas não passam retumbando como touros em Pamplona.) E eles responderão “É mesmo? Eu não sabia que você apreciava arte, Ginevra”. E acrescentarei, orgulhosa, “Ah sim. Passo a maior parte do meu tempo livre em museus”. E eles me olharão impressionados e dirão...

Imagina, passei direto pela entrada. Que boba. Muito ocupada pensando sobre minha conversa com... de repente, percebo que a pessoa que imaginei nesta cena é Harry Potter. Que estranho. Por que isto? Porque fui na mesa dele no bar, suponho. Enfim. Concentre-se. Museu.

Rapidamente refaço meu caminho e ando indiferente pelo hall de entrada, procurando parecer que sempre venho aqui. Não como aquele monte de turistas japoneses que se agrupam em torno dos guias. Ah! Penso orgulhosa, não sou turista. Isto aqui é minha herança. Minha cultura. Pego um mapa negligentemente como se não precisasse dele e olho para uma lista de palestras como “Cerâmica das Dinastias Yuan e Antiga Ming”. Depois, num jeito casual, começo a andar pela primeira galeria.

- Desculpe-me? – Uma mulher numa escrivaninha me chama. – A senhora já pagou?

Eu já o quê? Não é preciso pagar para entrar em museus! Ah claro – ela só está brincando comigo. Dou um sorriso amável e continuo.

- Desculpe-me! – ela diz numa voz mais estridente e um homem num uniforme de segurança surge do nada. – A senhora já pagou a entrada?

- É grátis! – digo surpresa.

- Creio que não – diz ela, apontando para um aviso atrás de mim. Viro-me para ler e quase caio de susto.

Entrada 5,00 libras.

Por pouco não desmaio de choque. O que aconteceu com o mundo? Estão cobrando a entrada para um museu. Isto é revoltante. Todos sabem que museus devem ser gratuitos. Se você começa a cobrar entrada para museus, ninguém mais vai! Nossa herança cultural será perdida para uma geração inteira excluída por uma barreira financeira punitiva. A nação vai emburrecer, vai ficar ainda mais ignorante, e a sociedade civilizada estará à beira de um colapso. É isto que o senhor quer, Tony Blair?

Além do mais, eu não tenho 5 libras. Deliberadamente saí sem dinheiro no bolso excetuando as 2,50 libras para os ingredientes do meu prato de curry. Ah, Deus, isto é uma chateação. Quero dizer, aqui estou eu, toda pronta para um pouco de cultura. Quero entrar e ver... bem, o que quer que eles tenham lá dentro e não posso!

Agora todos os turistas japoneses estão me olhando, como se eu fosse alguma espécie de criminosa. Vão embora! Penso irritada. Vão apreciar um pouco de arte.

- Nós aceitamos cartões de crédito – diz a mulher. – VISA, Switch, American Express.

- Ah – digo – Bem... Está bem.

- O bilhete da temporada custa 15 libras – diz ela quando pego minha bolsa – mas permite acesso ilimitado por um ano.

Acesso ilimitado por um ano! Agora espera um instante. David E. Barton diz que o que se deve fazer quando se compra qualquer coisa é avaliar o “custo-benefício”, o que se obtém dividindo o preço pelo número de vezes que usar. Suponhamos que, de agora em diante, eu venha ao V&A uma vez por mês. (Devo pensar que é uma suposição bem realista.) Se eu comprar um bilhete da temporada, sairá por... 1,25 libra a visita.

Bem, é uma pechincha, não é? De fato, pensando bem, é um investimento muito bom.

- Está bem, levarei o bilhete da temporada – digo e entrego meu cartão VISA. Hah! Cultura, aqui vou eu.

Conheço muito bem. Olho meu pequeno mapa, dou uma olhada em cada exposição e, cuidadosamente, leio todos os cartõezinhos.

Cálice de prata, holandês, século 16
Broche retratando a Divina Trindade. Italiano, meados do século 15
Tigela de cerâmica azul e branca, início do século 17

Aquela tigela é mesmo bonita, vejo-me pensando com um interesse repentino e fico imaginando quanto custa. Parece bastante cara... Examino se há uma etiqueta como preço quando me lembro onde estou. Claro. Isto não é uma loja. Não há preços aqui.

Que é um pouco errado, acho. Porque tira um pouco a diversão, não é? Você anda pelo lugar, só olhando para as coisas, e tudo fica um pouco maçante após um certo tempo. Por outro lado, se pusessem etiquetas com os preços dos objetos, as pessoas ficariam muito mais interessadas. Na verdade, acho que todos os museus deveriam colocar preços nas suas peças. A gente olharia para um cálice de prata ou uma estátua de mármore ou a Mona Lisa ou qualquer coisa e admiraria por sua beleza, sua importância histórica e tudo – depois procuraria a etiqueta do preço e suspiraria “Nossa, olha quanto é isto aqui!”. Isto com certeza tornaria tudo mais animado.

Eu poderia escrever para o Victoria & Albert e sugerir isto a eles. Afinal, sou portadora de um bilhete da temporada. Eles deveriam ouvir minha opinião.
Enquanto isso vamos para o próximo mostruário de vidro.

Taça inglesa esculpida, meados do século 15

Deus, eu poderia morrer por uma xícara de café. Há quanto tempo já estou aqui? Deve fazer...

Ah. Só quinze minutos.

Quando chego à galeria que mostra a história da moda, torno-me bastante rigorosa e estudiosa. De fato, passo mais tempo nela do que em qualquer outro lugar. Mas os vestidos e sapatos terminam e volto para mais estátuas e pequenas bobagenzinhas em caixas. Continuo olhando para o meu relógio, meus pés doem... e no fim afundo num sofá.

Não me entenda mal, gosto de museus. Gosto. E estou realmente interessada na arte coreana. Só que o piso é realmente duro e eu estou usando botas um pouco apertadas. Como está quente, tirei minha jaqueta, mas agora ela fica escorregando dos meus braços. E é estranho, mas continuo achando que consigo ouvir o som de uma caixa registradora. Deve ser minha imaginação.

Estou sentada e pensando se consigo juntar energia para me levantar de novo, quando um grupo de turistas japoneses entra na galeria e me sinto compelida a levantar e fingir que estou olhando para alguma coisa. Observo com um olhar vago uma tapeçaria, depois saio por um corredor coberto de peças de cerâmica indiana antiga. Estou só pensando que talvez fosse bom nós comprarmos um catálogo especializado e reformar os azulejos do banheiro, quando vejo algo através de uma grade de metal e paro imóvel com o choque.

Estou sonhando? É uma miragem? Vejo uma caixa registradora com uma fila de pessoas e uma vitrine com mercadorias e etiquetas de preços...

Ah, meu Deus, eu estava certa! É uma loja! Tem uma loja bem aqui na minha frente!

De repente meus passos têm mais elasticidade, minha energia volta como um milagre. Seguindo o tilintar da caixa registradora, corro para o outro canto, para a entrada da loja, paro na soleira e digo a mim mesma para não elevar minhas esperanças, para não ficar desapontada se forem só marcadores de livros e toalhas de chá.

Mas, não são. É incrivelmente fantástico! Por que este lugar não é mais conhecido? Tem várias jóias lindas, livros realmente interessantes sobre arte, umas porcelanas incríveis, cartões e...

Ah. Mas eu não deveria estar comprando nada hoje, deveria? Droga.
Isto é horrível. Qual é o sentido de descobrir uma nova loja e não poder comprar nada? Não é justo. Todo mundo está comprando coisas, todo mundo está se divertindo. Durante algum tempo fico indecisa e desconsolada ao lado de um mostruário de canecas, observando uma mulher australiana comprar uma pilha de livros sobre escultura. Ela está conversando com o ajudante de vendas e, de repente, ouço-a dizer algo sobre o Natal. E então tenho uma idéia que é genialidade pura.

Compras de Natal! Posso fazer todas as minhas compras de Natal aqui! Sei que março é um pouco cedo, mas por que não ser organizada? E depois, quando o Natal chegar, não precisarei chegar perto das terríveis multidões de Natal. Não sei por que não pensei em fazer isto antes. E não é uma questão de quebrar as regras, pois eu teria que comprar presentes de Natal em algum momento, não teria? Tudo o que estou fazendo é antecipar um pouco o programa das compras. Faz muito sentido.

Assim, mais ou menos uma hora mais tarde, saio feliz com duas sacolas de compras. Comprei um álbum de fotografias com uma bela imagem estampada na capa, um quebra-cabeça antigo de madeira, um livro de fotografias de moda e uma fantástica chaleira de cerâmica. Deus, adoro compras de Natal. Não sei bem o quê darei a quem, mas o importante é que todos estes itens são eternos e únicos e realçariam qualquer casa. (Pelo menos a chaleira de cerâmica é, porque o folheto dizia.) Portanto, suponho que tenha feito um bom negócio.

Na realidade, esta manhã foi um grande sucesso. Quando saio do museu, estou me sentindo incrivelmente contente e elevada. Isto só mostra o efeito que uma manhã de pura cultura tem sobre a alma. Decido que, de agora em diante, vou passar todas as manhãs de sábado num museu.

Quando volto para casa, a correspondência está no tapete de entrada e há um envelope quadrado endereçado a mim com uma letra que não reconheço. Rasgo para abrir e arrasto minhas sacolas de compras para o meu quarto e depois paro, surpresa. É um cartão de Harry Potter. Como ele conseguiu o endereço de minha casa?

Cara Ginevra – diz o cartão – Foi bom encontrá-la naquela noite e espero que tenha
tido uma noite agradável. Agora percebo que nunca lhe agradeci pelo imediato
pagamento de meu empréstimo. Apreciei muito.
Com os melhores votos e, claro, o mais profundo pesar pela perda de sua tia Ermintrude.
(Se serve como consolo, não posso imaginar aquela echarpe em qualquer outra pessoa além de você.).
Harry

Por um instante olho para o cartão em silêncio. Estou bastante surpresa. Nossa, penso com cautela. É gentil da parte dele escrever, não é? Um simpático cartão escrito a mão como este, só para agradecer o meu cartão. Quero dizer, não precisava, ele não está apenas sendo educado, está? Não é preciso gastar um cartão de agradecimento para alguém só porque pagaram suas vinte libras.
Ou será que é? Talvez hoje em dia se use fazer isso. Todo mundo parece mandar cartões para tudo. Não tenho a menor idéia do que se faz e do que não se faz mais. (Eu sabia que devia ter lido aquele livro de etiqueta que tenho no meu estoque.) Será este cartão um simples e educado agradecimento? Ou será algo mais? E se for... o quê?

Será que ele está curtindo com a minha cara?

Ai, meu Deus, é isto. Ele sabe que tia Ermintrude não existe. Só está caçoando de mim para me envergonhar.

Mas então... ele teria todo esse trabalho de comprar um cartão, escrever e enviá-lo só para caçoar de mim?

Ah, eu não sei. Quem se importa? Nem gosto dele, de qualquer modo.

Depois de tanta cultura a manhã toda, acho que mereço um prazer na parte da tarde. Compro uma Vogue e um chocolate Minstrels e deito no sofá um pouco. Deus, como senti falta de pequenos prazeres como este. Não leio uma revista há... bem, deve ser uma semana, excetuando o exemplar de Mione de Harpers & Queen ontem. E não consigo lembrar da última vez que comi chocolate.

Mas não posso perder muito tempo me divertindo porque preciso sair para comprar o material para nosso curry feito em casa. Assim, depois de ter lido meu horóscopo, fecho a Vogue e pego meu novo livro de receitas indianas. Estou bastante animada, para dizer a verdade. Nunca fiz um prato de curry antes.

Desisti da receita do camarão... porque descobri que os camarões... são muito caros. Assim, em vez disso, vou fazer frango com champignon ao estilo balti. Tudo parece muito barato e fácil e só preciso tomar nota dos ingredientes que vou comprar.

Quando termino, estou um pouco chocada. A lista é muito mais longa do que eu imaginava. Não havia percebido que são necessários tantos temperos só para fazer um prato de curry. Acabei de olhar na cozinha e não temos uma panela balti, um triturador para ralar temperos ou um liquidificador para fazer a pasta aromática. Ou uma colher de pau ou qualquer balança que funcione.

Mesmo assim não faz mal. Irei rapidamente ao Peter Jones e comprarei todo o equipamento de que precisamos para a cozinha. Depois comprarei os ingredientes e voltarei para começar a cozinhar. Devemos lembrar que só é preciso comprar uma vez todo esse material, depois estaremos totalmente equipadas para fazer curries deliciosos todas as noites. Só terei que encarar isso como um investimento.

Quando Mione retorna do Camden Market, aquela noite, me encontra vestida no meu novo avental de listras, ralando os temperos tostados no nosso novo triturador.

- Argh! – ela diz entrando na cozinha. – Que fedor!

- São os temperos aromáticos – digo um pouco chateada enquanto tomo um gole de vinho. Para ser sincera, isto aqui é um pouco mais complicado do que eu imaginava. Estou tentando fazer algo chamado mistura balti masala, que poderemos guardar num pote e usar durante meses, mas todos os temperos parecem sumir no triturador e se recusam a voltar. Para onde será que foram?

- Estou morrendo de fome – diz Mione, ao se servir de vinho. – Vai demorar para ficar pronto?

- Não sei – digo entre os dentes trincados olhando por dentro do triturador. – Se eu conseguir tirar esses raios de temperos daqui...

- Tudo bem – diz Mione. – Posso fazer uma torrada. Ela coloca duas fatias de pão na torradeira e começa a pegar todas as minhas embalagens e vidros de temperos e examiná-los.

- O que é allspice? – pergunta ela, segurando um vidro curiosa. – É uma mistura de todos os temperos?

- Não sei – respondo batendo o triturador na bancada. Cai um pouco de pó fora do vidro e eu olho irritada. O que aconteceu com o pote cheio que eu poderia guardar durante meses? Agora terei que tostar um pouco mais dessas drogas.

- Porque se for, você não poderia simplesmente usar isso e esquecer todos os outros?

- Não! – digo irritada. – Estou fazendo uma mistura balti nova e diferente.

- Ah – diz Mione, encolhendo os ombros. – Você é a expert.

Certo, penso eu, tomando outro gole de vinho. Vamos começar de novo. Sementes de coentro, sementes de erva-doce, sementes de cominho, pimenta em grãos... A esta altura já desisti de medir e estou só jogando tudo dentro da panela. De qualquer modo, dizem que cozinhar deve ser instinto.

- O que é isto? – diz Mione olhando para o cartão de Harry Potter na mesa da cozinha. – Harry Potter? Por que ele mandou um cartão para você?

- Ah, você sabe – digo, encolhendo os ombros num ar casual. – Ele só estava sendo educado.

- Educado? – Mione franze as sobrancelhas, virando o cartão ao contrário nas mãos. – De modo algum. Não é preciso mandar um cartão para alguém só porque suas vinte libras foram devolvidas.

- Sério? – Minha voz está levemente mais alta do que o normal, mas isto deve ser devido aos temperos aromáticos tostando. – Pensei que talvez fosse assim que as pessoas agissem hoje em dia.
- Ah, não - diz Mione com convicção. – Normalmente o dinheiro emprestado é devolvido com uma carta de agradecimento e pronto. Este cartão – sacode-o para mim – isto é algo mais.

É por isto que adoro dividir o apartamento com Mione. Ela sabe de coisas assim porque anda com as pessoas certas. Sabiam que uma vez ela jantou com a duquesa de Kent? Não que eu esteja me vangloriando ou algo assim.

- Então o que você acha que significa? – digo, tentando não parecer muito ansiosa.

- Suponho que ele esteja sendo amável – diz ela e devolve o cartão à mesa.

Amável. Claro, é isso. Ele está sendo amável. Que é uma coisa boa, claro. Então por que estou um pouco desapontada? Olho para o cartão, que tem um rosto pintado por Picasso na frente. O que isto significa?

- Por falar nisso, esses temperos têm que ficar pretos? – diz Mione, espalhando manteiga de amendoim na sua torrada.

- Ah, Deus! – Arranco a panela do fogão e olho para as sementes de coentro escurecidas. Isto está me enlouquecendo. Tudo bem, vamos jogá-las fora e começar tudo de novo. Sementes de coentro, sementes de erva-doce, sementes de cominho, pimenta em grão, folhas de louro. Esta é a última folha de louro. Desta vez é melhor que não dê errado.

De algum modo, milagrosamente, desta vez não deu errado. Quarenta minutos depois tenho, de fato, um curry borbulhando na minha panela balti! Isto é fantástico! O aroma é delicioso e a aparência é igualzinha à do livro – e eu nem segui a receita com tanto cuidado assim. Só demonstra que tenho uma afinidade natural com a cozinha indiana. E quanto mais praticar, mais talentosa vou ficar. Como diz David E. Barton, serei capaz de preparar um curry rápido e delicioso no tempo que leva para pedir uma entrega em domicílio. E veja quanto eu economizei!

Triunfante, seco meu arroz basmati, tiro meus pães naan, comprados semiprontos, do forno e sirvo tudo nos pratos. Depois salpico coentro fresco picado sobre tudo isso e, sinceramente, parece alguma coisa saída da Marie-Claire. Levo os pratos e coloco um deles na frente de Mione.

- Nossa! – exclama ela. – Isto parece fantástico!

- Eu sei – digo orgulhosa sentando à sua frente. – Não é o máximo?

Observo quando ela dá sua primeira garfada – depois faço o mesmo.

- Humm! Delicioso! – diz Mione, mastigando com apetite. – Meio apimentado – acrescenta depois.

- Tem pimenta em pó – digo. – E pimenta fresca. Mas é bom, não é?
- É maravilhoso! – diz Mione. – Gi, você é tão inteligente! Eu não conseguiria fazer isto num milhão de anos!

À medida que vai mastigando, porém, uma expressão meio estranha aparece em seu rosto. Para ser sincera, estou me sentindo um pouco sem ar também. Este curry está muito apimentado. Na verdade está terrivelmente apimentado.

Mione largou o prato na mesa e está tomando um grande gole de vinho. Olha para mim e vejo que seu rosto está vermelho.

- Tudo bem? – digo, forçando um sorriso através da ardência na minha boca.

- Sim, tudo ótimo! – afirma ela e dá uma enorme dentada no pão naan. Desço o olhar para meu prato e, resoluta, como outra garfada de curry. Imediatamente meu nariz começa a escorrer. Percebo que Mione também está fungando mas, quando nossos olhos se encontram, ela abre um sorriso alegre.

Meu Deus, esta pimenta está forte. Minha boca não está agüentando. Meu rosto está queimando e meus olhos estão começando a lacrimejar. Que quantidade de pó de pimenta coloquei nesta maldita coisa? Foi mais ou menos só uma colher de chá... talvez tenham sido duas. Eu só confiei nos meus instintos e coloquei o que parecia certo. Bem, foram meus instintos.

Lágrimas começam a correr pelo meu rosto e dou uma grande fungada.

- Você está bem? – diz Mione, alarmada.

- Estou bem! – respondo, deitando meu garfo no prato. – Só... você sabe. Um pouco quente.

Mas na verdade não estou bem. E não é só o calor que está fazendo lágrimas correrem pelo meu rosto. De repente me sinto um completo fracasso. Nem mesmo consigo preparar corretamente um curry rápido e fácil. E olha quanto dinheiro gastei nele, com a panela balti, o avental e todos os temperos... Ah, tudo deu errado, não foi? Não cortei gastos coisa nenhuma. Esta semana foi um desastre completo.

Dou um enorme soluço e coloco meu prato no chão.

- Está horrível! – digo, infeliz, e lágrimas começam a correr pela minha face. – Não coma, Mione. Vai se envenenar.

- Gi! Não seja boba! – diz Mione. – Está fantástico! – Olha para mim, depois leva seu prato ao chão. – Ah, Gi – arrasta-se pelo chão até onde estou e me dá um grande abraço. – Não se preocupe. Só está um pouco apimentado. Mas fora isto, está divino! E o pão naan está delicioso! Honestamente. Não fique triste.

Abro minha boca para responder e, em vez disso, dou outro grande soluço.
- Gina, não faz isso! – lamenta Mione praticamente chorando junto. – Está delicioso! É o curry mais delicioso que já comi.

- Não é só o curry! – soluço enxugando meus olhos. – A idéia era que eu devia estar Cortando Gastos. Este curry deveria custar só 2,50 libras
.
- Mas... por quê? – pergunta Mione perplexa. – Foi uma aposta ou algo assim?

- Não! – grito num lamento. – Foi porque estou endividada! E meu pai disse que eu deveria Cortar Gastos ou Ganhar Mais Dinheiro. E então tenho tentado Cortar Gastos, mas não tem funcionado... – Interrompo, estremecendo dos soluços. – Sou um fracasso completo.

- Claro que você não é um fracasso! – diz Mione imediatamente. – Gina, você é o oposto de um fracasso. Só que... – Ela hesita. – Só que talvez...

- O quê?

Há um silêncio, depois Mione diz seriamente:

- Acho que você talvez tenha escolhido a opção errada, Gina. Eu não acho que você seja o tipo de pessoa de Cortar Gastos.

- Jura? – fungo e enxugo meus olhos. – Você acha?

- Acho que, em vez disso, você deveria partir para Ganhar Mais Dinheiro. – Mione pára pensativa. – De fato, para ser sincera, eu não sei por que alguém escolheria Cortar Gastos. Acho que Ganhar Mais Dinheiro é uma opção muito melhor. Se eu tivesse que escolher, sem dúvida optaria por esta.

- Sim – digo lentamente. – Sim, talvez você esteja certa. Talvez seja o que eu deveria fazer. – Estico minha mão trêmula e pego um pedaço de pão naan quente e Mione tem razão. Sem o curry, está delicioso. – Mas como vou fazer isto? – digo finalmente. – Como vou ganhar mais dinheiro?

Faz-se um silêncio por algum tempo, nós duas pensativas mastigando o pão naan. E então Mione tem uma idéia.

- Já sei. Veja isto! – Ela pega uma revista e passa as páginas até chegar aos classificados no final. – Olha o que diz aqui. “Precisando de dinheiro extra? Una-se à família das Molduras Finas. Ganhe muito dinheiro trabalhando em casa no seu tempo livre. Fornecemos o equipamento completo.” Está vendo? É fácil.

Puxa. Estou bastante impressionada, sem querer. Muito dinheiro. Não é mau.

- Sim – digo meio trêmula. – Talvez eu faça isso.

- Ou você poderia inventar alguma coisa – diz Mione.

- Como o quê?

- Ah, qualquer coisa – diz ela confiante. – Você é realmente inteligente. Poderia pensar em algo. Ou... Eu sei! Montar uma empresa na Internet. Elas valem milhões!

Sabe, ela está certa. Há muitas coisas que eu poderia fazer para Ganhar Mais Dinheiro. Muitas coisas! É só uma questão de pensar em outras saídas. De repente me sinto muito melhor. Deus, Mione é uma boa amiga. Chego perto dela e dou-lhe um abraço.

- Obrigada, Mione – digo. – Você é uma estrela.

- Nenhum problema – diz ela e me abraça de volta. – Então recorte este anúncio e comece a ganhar seus milhões... – Faz uma pausa. – E eu vou telefonar e pedir um curry para entrega, está bem?

- Sim, por favor – digo numa voz fraca. – Uma refeição entregue em casa seria ótimo.
































PROJETO DE CORTE DE GASTOS
DE Ginevra Weasley


CURRY FEITO EM CASA, SÁBADO 11 DE MARÇO


ORÇAMENTO PROPOSTO: 2,50 libras


GASTO REAL:


Panela Balti 15,00
Triturador 14,99
Liquidificador 18,99
Colher de pau 0,35
Avental 9,99

Dois peitos de frango 1,98
300 g de cogumelos 0,79
Cebola 0,29
Sementes de coentro 1,29
Sementes de erva-doce 1,29
Allspice 1,29
Sementes de cominho 1,29
Cravos 1,39
Gengibre ralado 1,95
Folhas de louro 1,40
Pimenta em pó


AH, DEUS, DEIXA PARA LÁ.













PG N I F irs t Ba nk V is a
7 Camel Square
Liverpool L1 5NP


Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD

10 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley

PGNI First Bank Visa Cartão No. 1475839204847586

Agradecemos sua correspondência de 2 de março.

Posso garantir-lhe que nossos computadores são examinados regularmente e que a possibilidade de um “mau funcionamento”, como sugeriu, é remota. Também não fomos afetados pelo bug do milênio. Todas as nossas contas estão inteiramente corretas.

Poderá escrever para Anne Robinson da Watchdog se desejar, mas estou certo de que ela concordará que a senhora não tem motivo para queixa.

Nossos registros informam que o pagamento de sua conta VISA encontra-se em atraso. Como verá em nosso extrato mais recente do cartão VISA, o pagamento mínimo exigido é 105,40 libras. Aguardamos o recebimento de seu pagamento logo que possível.

Atenciosamente

Peter Johnson
Diretor de Contas de Clientes























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