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6. Cap Seis


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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SEIS

Tudo bem, penso no dia seguinte, determinada. O negócio é não ficar nervosa com a quantia que gastei ontem sem querer. São águas passadas. O importante é que hoje começa minha nova vida frugal. De agora em diante, não vou gastar absolutamente nada. David E. Barton diz que devemos ter como meta cortar nossos gastos pela primeira semana, mas acho que consigo fazer melhor do que isso. Bem, não quero ser rude, mas esses livros de auto-ajuda geralmente são dirigidos para pessoas totalmente desprovidas de autocontrole, não é? E eu parei de fumar com a maior facilidade (exceto socialmente, mas isso não conta).

Sinto-me bastante animada enquanto preparo um sanduíche de queijo e embrulho em papel laminado. Já economizei umas duas libras só nisso! Como não tenho garrafa térmica (preciso comprar uma no fim de semana), não posso levar café, mas tem uma garrafa de suco na geladeira e resolvo que é o que vou querer. Além disso, é mais saudável.

De fato, fico imaginando por que é que as pessoas compram sanduíches prontos. Olha como é barato e fácil de fazer. O esmo se aplica às refeições mais elaboradas. David E. Barton diz que, em vez de pagar caro por refeições para viagem, devemos aprender como fazer nossos próprios molhos e pratos por uma fração do custo. Portanto, é isto que vou fazer neste fim de semana, depois de ir a um museu ou, quem sabe, simplesmente passear ao longo do rio apreciando o cenário.

Enquanto ando em direção ao metrô sinto-me pura e renovada. Quase séria. Veja todas essas pessoas na rua correndo, só pensando em dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. É uma obsessão. Mas, uma vez que você renuncia ao dinheiro, ele deixa de ter qualquer relevância. Já sinto que estou com uma cabeça completamente diferente.

Menos materialista, mais filosófica. Mais espiritual. Como David E. Barton diz, nós deixamos de apreciar a cada dia tudo o que já temos. Luz, ar, liberdade, a companhia de amigos... Quero dizer, são essas coisas que importam, certo? Não as roupas, os sapatos, os caprichos.

Chega a ser quase assustadora a transformação que já ocorreu dentro de mim. Por exemplo, passo pela banca de jornais na estação do metrô e, casualmente, desvio meu olhar para as revistas mas não sinto o menor desejo de comprar nenhuma. Revistas são irrelevantes na minha nova vida (além disso, já li quase todas).

Assim, entro no trem me sentindo serena e impenetrável como um monge budista. Quando saio do trem no outro lado, passo reto pela sapataria com descontos, sem nem olhar, e também pelo Lucio’s. Nada de cappuccinos hoje. Nem muffins. Nada de gastar — só ir direto para o escritório.

Este é o período mais tranqüilo do mês na Successful Saving. Acabamos de encaminhar o último número da revista para a gráfica, o que basicamente significa que podemos relaxar por uns dias sem fazer nada, antes de nos prepararmos para o próximo número. Claro, devemos começar a pesquisar para o artigo do mês que vem. Na realidade, hoje eu tinha que dar vários telefonemas para corretores de valores e perguntar por suas sugestões de investimento para os próximos seis meses.

Mas, de algum modo, a manhã toda passou e não fiz nada, só mudei o protetor de tela do computador para três peixes amarelos e um polvo e criei um formulário de reembolso de despesas. Para falar a verdade, não consigo realmente me concentrar no trabalho. Acho que estou extasiada demais com a pureza do meu novo eu. Fico tentando imaginar quanto terei economizado até o fim do mês e o que poderei comprar na Jigsaw.

Na hora do almoço, pego meu sanduíche embrulhado no papel laminado e, pela primeira vez nesse dia, me sinto um pouco deprimida. O pão ficou todo úmido, a água do picles escorreu para o papel laminado, e a aparência não está nada apetitosa. O que quero nesse momento é um pão de nozes e um brownie de chocolate de Pret à Manger.

Não pense nisso, digo a mim mesma. Pensa em quanto dinheiro está economizando. Assim, de algum modo me forço a comer meu sacrifício úmido e a beber um pouco o suco. Quando acabo, jogo fora o papel laminado, atarraxo de novo a tampa da garrafa e a coloco em nossa geladeirinha do escritório. Nisso passaram-se mais ou menos... cinco minutos do meu horário de almoço.

E agora o que devo fazer em seguida? Onde devo ir?

Afundo na frente da minha mesa me sentindo miserável. Deus, esta fragilidade é difícil de agüentar. Folheio uns arquivos desanimada... depois levanto a cabeça e vejo pela janela todos os consumidores da Oxford Street segurando suas sacolas. Estou querendo tanto ir lá, na verdade estou inclinada para a frente na minha cadeira, como uma planta voltada para a luz. Estou necessitando de luzes fortes e ar quente; as prateleiras de mercadorias, até o tilintar das caixas registradoras. Mas não posso ir. Esta manhã disse a mim mesma que passaria o dia inteiro sem me aproximar das lojas. Prometi a mim mesma — e não posso quebrar minha própria promessa. Pelo menos, não tão cedo...

E então me ocorre um pensamento brilhante. Preciso comprar uma receita com curry para preparar uma refeição “para viagem” feita em casa, não é? David E. Barton diz que livro de receita é dinheiro jogado fora. Segundo ele, devíamos usar as receitas impressas nas laterais os pacotes de alimentos ou pegas emprestado livros de receitas na biblioteca. Mas tenho uma idéia melhor. Vou entrar na Smith’s e copiar uma receita de curry para fazer no sábado à noite. Desse modo posso entrar numa loja — mas não preciso gastar nenhum dinheiro. Já estou me levantando e pegando meu casaco. Lojas, aqui vou eu!

Quando entro na Smith’s, sinto meu corpo inteiro expandir-se num alívio. Sente-se uma vibração ao entrar numa loja, qualquer loja, que nada se compara. Um pouco pela expectativa, um poço pela atmosfera receptiva e o burburinho, um pouco pelo simples fascínio do novo em tudo. Revistas novas brilhando, lápis novos brilhando, transferidores novos brilhando. Não que eu tenha precisado de um transferidor desde meus onze anos de idade, mas eles não são lindos, limpinhos e sem nenhum risco dentro das embalagens? Há uma série nova de fichários com capa de leopardo que nunca tinha visto antes, e por um momento me sinto quase tentada a comprar. Mas, em vez disso, me forço a passar reto em direção ao fundo d loja onde os livros estão empilhados.

Existe uma variedade enorme de livros de receitas de comida indiana, e eu pego um aleatoriamente, passo os olhos nas páginas e imagino que tipo de receitas eu deveria escolher. Não tinha me dado conta do quanto é complicada essa culinária indiana. Talvez eu devesse tomar nota de umas duas só para garantir.

Olho à minha volta com cuidado e tiro da bolsa meu caderninho e a caneta. Estou um pouco cautelosa porque sei que a Smith’s não gosta que se copiem coisas de seus livros. Sei disso porque, uma vez, pediram a Mione para sair da Smith’s, em Victoria.

Ela estava copiando uma página do A-Z porque tinha esquecido o dela e disseram-lhe que precisaria comprar ou largar. (O que não faz nenhum sentido, pois eles deixam a gente ler as revistas de graça, não é mesmo?)

Bem, continuando, quando me certifico de que ninguém está olhando, começo a copiar a receita de “Camarão à biriani”. Estou na metade da lista de tempero quando uma garota usando o uniforme da WH Smith aparece no outro canto e rapidamente fecho o livro e me afasto um pouco, fingindo que estou folheando. Quando acho que estou segura, volto a abrir mas antes de poder escrever alguma coisa, uma senhora idosa, vestida num casaco azul, diz alto:

— Esse aí é bom, querida?

— O quê? — digo eu.

— O livro! — Ela aponta para o livro de receitas com seu guarda-chuva. — Preciso de um presente para minha nora e ela é da Índia. Pensei em comprar um bom livro de receitas indianas. Você diria que esse é bom?

— Realmente não sei — respondo. — Ainda não o li.

— Ah — exclama a senhora e começa a se afastar. Eu devia manter minha boca fechada e não me meter na vida dos outros, mas não consigo resistir, tenho que dar um pigarro e dizer:

— Ela já não tem muitas receitas indianas?

— Quem? — diz a mulher, virando-se.

— Sua nora! — Já estou me arrependendo disso. — Se é indiana, já não sabe cozinhar comida indiana?

— Ah — diz a velha senhora. Parece totalmente confusa. — Bem, o que eu deveria comprar então?

Ah, Deus.

— Não sei — digo. — Talvez um livro sobre... sobre alguma outra coisa?

— É uma boa idéia! — diz ela num tom alegre e vem na minha direção. — Me mostre, querida.

Por que eu?

— Sinto muito — digo. — Estou com um pouco de pressa hoje.

Rapidamente me afasto sentindo-me um pouco mal. Chego à seção de CDs e vídeos, que está sempre meio vazia, e me escondo atrás da prateleira dos vídeos dos Teletubbies. Olho em volta, verifico e não há ninguém por perto e abro o livro outra vez. Tudo bem, viro para a página 214, Camarão à biriani... Começo a copiar de novo e, assim que chego ao fim da lista de temperos, ouço uma voz séria no meu ouvido.

— Com licença?

Fico tão espantada que minha caneta cai do caderno e, para meu, faz um risco azul bem sobre uma fotografia linda de um arroz basmati cozido. Rapidamente desloco minha mão quase cobrindo a marca e me viro com um ar inocente. Um homem vestindo uma camisa branca portando um crachá com o seu nome me olha com ar de desaprovação.

— Isto não é uma biblioteca pública, a senhora sabe — diz ele. — Acha que temos um serviço de informação gratuita?

— Só estou folheando — digo logo e cuido de fechar o livro. Mas o dedo do homem sai do nada e aterrissa na página antes que eu consiga fechá-la. Lentamente ele abre o livro de novo e nós dois olhamos para meu risco de caneta azul.

— Folhear é uma coisa — diz o homem sério — destruir o estoque da loja é outra.

— Foi um acidente! — digo. — O senhor me assustou!

— Hum — diz o homem, e me dirige um olhar duro. — Pretendia realmente comprar este livro? Ou qualquer outro?

Há uma pausa — depois, com a expressão um pouco envergonhada, digo:

— Não.

— Entendo — diz o homem, apertando os lábios. — Bem, temo que este assunto necessite ser levado à gerência. Claro, não poderemos vender este livro mais, portanto é perda nossa. Se a senhora puder vir comigo e explicar a ela exatamente o que estava fazendo quando o estrago aconteceu...

Ele estava falando sério? Não vai só me dizer gentilmente que não faz mal e perguntar se quero um cartão da loja? Meu coração começa a bater forte de pânico. O que vou fazer? Obviamente não posso comprar o livro estando sob o meu regime frugal. Mas tampouco quero ir ver a gerente.

— Lynn? — o homem chama uma assistente no balcão de canetas. — Poderia procurar Glenys para mim, por favor?

Ele realmente está falando sério. Parece contente consigo mesmo como se tivesse pego um ladrão de lojas. Será que eles podem me processar por fazer marcas de caneta em livros? Talvez conte como vandalismo. Ah, Deus. Serei fichada criminalmente. Nunca vou poder viajar para a América.

— Olha, eu o comprarei, está bem? — digo, sem ar. — Comprarei o raio do livro. — Arranco-o da mão do homem e corro para o balcão de saída antes que ele dia alguma coisa, meu coração ainda batendo forte.

De pé no balcão seguinte ao meu está a senhora idosa de casaco azul, e procuro evitar seu olhar. Mas ela me vê e exclama triunfante:

— Segui seu conselho! Comprei uma coisa que eu acho que ela realmente vai gostar!

— Ah, ótimo — repliquei, entregando meu livro de receitas para ser escaneado.

— Chama-se O Guia Alternativo para a Índia — diz a senhora idosa me mostrando o grosso livro de bolso azul. — Já ouviu falar nele?

— Ah — digo. — Bem, sim, mas...

— São 24,99 libras, por favor — diz a moça da minha caixa registradora.

O quê? Dirijo-lhe o olhar espantada. Vinte e cinco libras, só por receitas? Por que eu não peguei algum livro de bolso barato? Droga. Droga. Muito relutante, pego meu cartão de crédito e o entrego. Comprar é uma coisa, ser forçada a pagar contra a sua vontade é outra bem diferente. Quero dizer, eu poderia ter comprado alguma lingerie bonita com aquelas vinte e cinco libras.

Por outro lado, penso enquanto saio da loja, significa um bocado de pontos novos no meu Cartão Club. O equivalente a... 0,50 de libra! E agora serei capaz de fazer vários molhos de curry deliciosos e exóticos e economizar todo aquele dinheiro perdido de comida para viagem. Realmente, preciso encarar esse livro como um investimento.

Não quero me gabar mas, fora aquela compra, vou incrivelmente bem nos dois dias seguintes. As únicas coisas que compro são uma garrafa térmica cromada, muito bonita, para levar café para o escritório (u uns grãos de café e um triturador elétrico — porque não faz sentido levar café instantâneo ordinário, faz?). E umas flores e champanhe para o aniversário de Mione.

Mas tenho permissão para comprar isso, pois, segundo David E. Barton, é preciso presentear os amigo. Ele diz que o simples ato de dividir pão com os amigos é uma das características mais antigas e mais essenciais da vida humana. “Não deixe de dar presentes aos seus amigos”, diz ele. “Não precisam ser extravagantes. Use sua criatividade e procure fazê-los você mesmo.”

Então o que fiz foi comprar para Mione uma meia garrafa de champanhe em vez de uma inteira e, em vez de comprar os croissants caros da delicatessen, vou fazê-los eu mesma com aquela massa especial que se compra em tubos.

À noite vamos ao Terrazza para jantar com os primos de Mione, Fenella e Rony, e para ser sincera, deve ser uma noite bem cara. Mas todo bem, pois conta como dividir pão com os amigos. (Só que o pão do Terrazza é de tomate seco ao sol e custa 4,50 libras a cesta.)

Fenella e Rony chegam às seis horas no aniversário de Mione e logo que ela os vê começa a gritar de alegria. Fico no meu quarto e termino de me maquiar, adiando o momento de ter que sair e cumprimentá-los.

Não gosto tanto assim de Fenella e Rony. Na realidade, acho-os um pouco esquisitos. Para começar, têm uma aparência estranha. Ambos são muito magros — mas de um tipo pálido e ossudo — e têm os mesmos dentes levemente protuberantes. Fenella faz um pouco de esforço com roupas e maquiagem, e sua aparência não é tão ruim. Mas Rony, francamente, parece um arminho. Ou uma fuinha. De qualquer forma, alguma pequena criatura ossuda. Eles fazem coisas estranhas também. Andam por aí numa bicicleta, usam uns blusões combinando, tricotados por sua avó, e têm esse vocabulário próprio familiar tolo que ninguém mais consegue entender. Por exemplo, chamam sanduíche de “uíche”. E um drinque é um “titchi” (exceto água, que é “ho”). Acredite, fica realmente irritante após algum tempo.

Mas Mione os adora. Passou com eles todos os verões de sua infância, na Escócia, e não consegue enxergar que são um pouco estranhos. O pior de tudo é que ela começa a falar sobre uíches e titchies quando estão juntos. Me deixa louca.

Ainda assim, não há nada que eu possa fazer — eles estão aqui agora. Acabo de colocar o rímel e me levanto olhando para a minha imagem no espelho. Fico satisfeita com o que vejo. Estou usando um top preto bem simples e calças compridas pretas e, amarrada frouxa em volta do pescoço, minha linda, linda echarpe Denny and George. Deus, aquela foi uma grande compra. Está fantástica.

Protelo um pouco e depois, resignada, abro a porta de meu quarto.

— Oi, Gi! — diz Mione, olhando pra mim com olhos brilhantes. Está sentada de pernas cruzadas no chão do corredor, rasgado o embrulho de um presente, enquanto Fenella e Rony estão ao seu lado, em pé, apreciando. Não estão com blusões combinando hoje, graças a Deus, mas Fenella está vestindo uma saia muito estranha feita de tweed felpudo, e o terno de peito duplo de Rony parece ter sido feito durante a Primeira Guerra Mundial.

— Oi! — cumprimento e beijo cada um educadamente.

— Nossa! — grita Mione, e tira um quadro numa moldura dourada antiga. — Não acredito! Não acredito! — Ela olha de Rony para Fenella com um olhar radiante, e eu fito a tela com interesse por cima de seus ombros. Mas, para ser sincera, não consigo dizer que estou impressionada. Para começar está toda desbotada — toda borrada de verdes e marrons — também só mostra um cavalo parado quieto num campo. Quero dizer, não poderia estar pulando uma cerca, empinando ou algo assim? Ou talvez trotando pelo Hyde Park, montado por uma garota num desses lindos vestidos de Orgulho e preconceito?

— Feliz Mau Dia! — Rony e Fenella falam em uníssono. (Isto é outra coisa. Eles chamam os aniversários de maus dias desde que... Ah, Deus. Isto é realmente muito chato para explicar.)

— É absolutamente lindo! — digo, entusiasmada. — Absolutamente maravilhoso!

— É, não é? — diz Rony, sério. — Olhe só essas cores.

— Humm, lindas — exclamo acenando que sim.

— E o trabalho escovado. É primoroso. Ficamos emocionados quando nos deparamos com ele.

— É realmente um belo quadro — digo. — Faz você querer... galopar pelas dunas!
Que disparate é esse que estou dizendo? Por que não posso ser simplesmente sincera e dizer que não gosto?

— Você monta? — pergunta Rony, me olhando um pouco surpreso.
Montei uma vez. No cavalo de meu primo. Caí e jurei que seria a última vez. Mas não vou admitir isto para o Sr. Cavalo do Ano.

— Costumava — digo e sorrio com modéstia. — Não muito bem.

— Tenho certeza que voltaria — diz Rony me olhando. — Você já caçou?
Ah, pelo amor de Deus. Eu pareço a Sra. Vida Campestre?

— Ei — diz Mione encostando o quadro na parede com carinho. — Vamos tomar um “titchi” antes de sair?

— Claro! — digo me virando logo para longe de Rony. — Boa idéia.

— Ah, sim — diz Fenella. — Vocês têm algum champanhe?

— É provável — responde Mione e dirige-se para a cozinha. Nesse momento o telefone toca e eu atendo.

— Alô?

— Alô, poderia falar com Ginevra Weasley — diz uma voz feminina desconhecida?

— Sim — digo, alheia. Ouço Mione abrir e fechar portas do armário da cozinha e fico pensando se temos mesmo algum champanhe além dos restos da meia garrafa que bebemos no café da manhã... — Sou eu mesma.

— Srta. Weasley, aqui é Erica Parnell, do Endwich Bank — diz a voz e eu gelo.
Merda. É o banco. Ah, Deus, eles me enviaram aquela carta, não foi, e eu não fiz nada a respeito.

O que vou dizer? Rápido, o que vou dizer?

— Srta. Weasley? — diz Erica Parnell.

Está bem — o que vou dizer é que estou inteiramente a par de que excedi meu limite e estou planejando adotar uma ação remediadora dentro dos próximos dias. Sim, isto soa bem. “Ação remediadora” soa muito bem. Está bom, vai.

Digo a mim mesma com firmeza para não entrar em pânico — essas pessoas são humanas — e respiro profundamente. Depois, num movimento perfeito, sem ter sido planejado, minha mão coloca o fone no gancho.

Por alguns segundos olhos para o fone mudo, sem conseguir acreditar no que acabei de fazer. Por que fiz aquilo? Erica Parnell sabia que era eu, não sabia? A qualquer momento telefonará de volta. Deve estar apertando o botão de rediscagem agora, e ficará furiosa...
Rapidamente retiro o fone do gancho e escondo sob uma almofada. Agora ela não pode me alcançar. Estou segura.

— Quem era? — pergunta Mione, entrando no quarto.

— Ninguém — digo, sentindo-me tremer um pouco. — Foi engano... Ouça, não vamos tomar os drinques aqui. Vamos sair!

— Ah — diz Mione. — Está bem!

— Muito mais divertido — digo rápido, tentando desviá-la do telefone. — Podemos ir a algum bar muito gostoso tomar uns drinques e, depois, vamos ao Terrazza.

No futuro, o que vou fazer, penso, é selecionar todas as minhas chamadas. Ou atender com uma pronúncia estrangeira. Ou, melhor ainda, mudar o número. Tirar meu nome do catálogo.
— O que está acontecendo? — pergunta Fenella aparecendo na porta.

— Nada! — Ouço minha voz dizer. — Vamos sair para um “titchi” e depois seguiremos para o “jants”.

Ah, não acredito. Estou me tornando um deles.

Quando chegamos ao Terrazza, me sinto muito mais calma. Claro, Erica Parnell terá pensado que fomos cortadas por um defeito na linha ou algo assim. Nunca vai achar que desliguei o telefone na cara dela. Quero dizer, somos duas adultas civilizadas, não somos? Adultos simplesmente não fazem esse tipo de coisa.

E se eu algum dia encontrá-la — que espero que nunca aconteça — vou me manter muito tranqüila e dizer “Foi estranho o que aconteceu naquela vez que você me telefonou, não?” Ou melhor ainda, a acusarei de ter desligado na minha cara (brincando, é claro).

O Terrazza está cheio, ouve-se um burburinho, tem fumaça de cigarro e conversa, e, quando sentamos com nossos enormes cardápios prateados, sinto-me relaxar mais ainda. Adoro comer fora. E suponho que mereço um bom divertimento depois de ter sido tão frugal nos últimos dias. Não foi fácil agüentar um regime tão rígido, mas de algum modo consegui. E estou me mantendo nele tão bem! No sábado vou monitorar meu padrão de gastos novamente, e tenho certeza de que chegarei a uma redução de pelo menos 70%.

— O que vamos beber? — pergunta Mione. — Rony, você escolhe.

— Ah, olhe! — grita Fenella. — É o Eddie Lazenby! Preciso cumprimentá-lo. — Levanta-se e anda na direção de um rapaz meio calvo vestindo um blazer, a uma dez mesas de distância. Não faço a menos idéia de como ela conseguiu vê-lo nesta multidão.

— Mione! — grita outra voz, e nós todas olhamos. Uma garota loura num tailleur curto rosa-claro dirige-se à nossa mesa com os braços estendidos pra um abraço. — E Tarkie!

— Oi, Tory — diz Tarquin levantando-se. — Como vai Mungo?

— Ele está lá! — diz Tory. — Você precisa vir dar um alô!

Como é que Fenella e Rony passam a maior parte do tempo no meio de Perthshire, mas no minuto que põem os pés em Londres, são cercados de amigos que não vêem há muito tempo?

— Eddie mandou um abraço — anuncia Fenella retornando à mesa. — Tory! Como vai você? Como vai Mungo?

— Ah, ele está bem — diz Tory. — Mas vocês já sabem? Caspar está de volta à cidade!

— Não! — exclamam todos, e eu estou quase tentada a juntar-me a eles. Ninguém se preocupou em me apresentar a Tory, mas é assim que as coisas são com esse tipo de gente. Você se une ao grupo por osmose. Num minuto é um completo estranho, no outro está rindo com eles dizendo: “Você ouviu sobre Valentina e Sebastian?”

— Olha, precisamos fazer o pedido — diz Mione. — Vamos lá falar com ele num instante, Tory.

— Está bem, tchau — diz Tory, e se afasta.

— Mione! — exclama outra voz, e uma garota num vestido preto bem curto aproxima-se correndo. — E Fenny!

— Milla! — as duas exclamam. — Como vai? Como vai o Benjy?

Ah, Deus, isto não pára. Aqui estou eu, olhando para o menu — fingindo estar realmente interessada nas entradas mas, na realidade, estou me sentindo como uma total nulidade com que ninguém quer falar — enquanto os malditos Fenella e Ronald são os Socialites do Ano.

Não é justo. Eu também quero pular de mesa em mesa. Eu quero esbarrar em velhos amigos que conheço desde a infância. (Ainda que, para ser sincera, a única pessoa que conheci por tanto tempo foi Tom, meu vizinho, e ele agora deve estar na sua cozinha de carvalho em Reigate.)

Mas, em todo caso, abaixo meu menu e dou uma olhada esperançosa pelo restaurante. Por favor, Deus, só uma vez, faça com que haja alguém que eu conheça. Não precisa ser alguém de quem eu goste, ou mesmo que eu conheça tão bem assim, só alguém a quem eu possa me juntar, papear um pouquinho e depois exclamar “Precisamos almoçar!” Qualquer pessoa serve. Qualquer uma mesmo...

Nesse momento, com uma emoção inacreditável, vejo um rosto familiar a algumas mesas de distância! É Harry Potter, sentado numa mesa com um senhor e uma senhora mais velhos, muito bem-vestidos.

Bem, ele não é exatamente um velho amigo mas eu o conheço, não é? E não é como se eu tivesse muita escolha. E eu quero tanto pular de mesa em mesa como os outros.
— Vejam, lá está o Harry! — exclamo (baixo, para ele não me ouvir). — Eu simplesmente preciso ir lá falar com ele!

Quando os outros me olham surpresos, jogo meu cabelo para trás, fico de pé num pulo e corro dali, tomada por uma alegria repentina. Eu também posso fazer isso! Estou pulando de mesa em mesa no Terrazza. Sou uma garota enturmada!

Só quando me encontro a uns poucos passos da mesa dele é que diminuo o passo e fico imaginando o que vou dizer exatamente.

Bem... serei apenas educada. Vou cumprimentar e — ah, genial! Posso agradecê-lo novamente por seu gentil empréstimo de vinte libras.
Merda, eu paguei mesmo a ele, não paguei?

Sim. Sim, mandei-lhe aquele cartão reciclado bonito com papoulas e um cheque. Isto mesmo. Agora não entre em pânico, é só ser calma e charmosa.

— Oi! — exclamo tão logo chego a uma distância de sua mesa que posso ser ouvida, mas o burburinho à nossa volta é tão alto que ele não me ouve. Não é à toa que todos os amigos de Fenella falam tão alto... É preciso uns sessenta e cinco decibéis para ser ouvido.

— Oi! — tento outra vez, ainda sem resposta. Harry está sério, falando com o senhor mais velho, e a senhora está ouvindo interessada. Nenhum deles sequer desvia o olhar.

Isto está ficando um pouco embaraçoso. Estou em pé, sozinha, sendo totalmente ignorada pela pessoa com quem quero falar. Ninguém mais parece ter este problema. Por que ele não se levanta correndo e exclama “Você soube da Foreland Investments?” Não é justo. O que devo fazer? Devo simplesmente me afastar? Devo fingir que estava me encaminhando para o toalete das Senhoras?

Um garçom passa por mim com uma bandeja com uma certa dificuldade, e sou empurrada para a frente, impotente, na direção da mesa de Harry— nesse momento, ele me olha. Olha fixo para mim sem nenhuma emoção, como se nem soubesse quem eu sou. E sinto meu estômago dar uma mexidinha de pânico. Mas agora preciso ir até o fim.

— Olá, Harry! — digo num tom alegre. — Só queria... Cumprimentar!

— Bem, olá — diz ele após uma pausa. Mamãe, papai, esta é Ginevra Weasley. Ginevra, meus pais.

Meu Deus. O que fiz? Fui parar numa reunião íntima familiar. Saia, rápido.

— Oi. — Dou um sorriso pálido. — Bem, não quero incomodar...

— E então, como conheceu Harry? — pergunta a Sra. Potter

— Ginevra é uma importante jornalista econômica — diz Harry, tomando um gole de vinho. (É isto mesmo que ele pensa? Nossa Mãe, preciso deixar escapar numa conversa com Lilá Brown. Aliás, com Philip também.

Sorrio confiante para o Sr.Potter, me sentindo como uma estrela. Sou uma importante jornalista econômica fazendo amizade com um importante empresário num badalado restaurante londrino. Nada mau, não?

— Jornalista econômica, hein? — murmura o Sr. Potter, e abaixa seus óculos de perto para me ver melhor. — E então o que você achou da declaração do ministro das Finanças?

Nunca mais vou procurar amigos de mesa em mesa. Nunca mais.

— Bem — começo confiante, pensando se eu não poderia de repente fingir estar vendo um velho amigo do outro lado da sala.

— Pai, estou certo de que Ginevra não quer falar de trabalho — diz Harry, franzindo um pouco a testa.

— Com certeza! — diz a Sra. Potter, sorrindo para mim. — É uma linda echarpe, Ginevra. É Denny and George.

— Sim! — digo alegre, aliviada por escapar da declaração do ministro. (Que declaração?) — Fiquei tão contente, comprei-a na semana passada numa liquidação!
De soslaio, consigo ver que Harry Potter está me olhando com uma expressão estranha. Por quê? Por que me olha tão...

Ai, merda. Como posso ser tão burra?

— Na liquidação... para minha tia — continuo, tentando pensar o mais rápido possível — comprei para minha tia de presente. Mas ela... morreu.

Faz-se um silêncio constrangedor e desvio meu olhar para o chão. Não consigo acreditar no que acabei de dizer.

— Minha nossa — diz o Sr. Potter, áspero.

— Tia Ermintrude morreu? — diz Harry numa voz estranha.

— Sim — replico, me forçando a olhar para ele. — Foi muito triste.

— Que horror! — diz a Sra. Potter lamentando.

— Ela estava no hospital, não é? — diz Harry, enchendo seu copo e água. — Qual era o problema dela?

Por um instante fico em silêncio.

— Foi... sua perna — ouço-me dizer.

— A perna? — a Sra. Potter olha para mim ansiosa. — O que houve de errado com a perna dela?

— Ela... inchou e gangrenou — digo após uma pausa. — Tiveram que amputá-la e depois ela morreu.

— Cristo — dia o Sr. Potter balançando a cabeça. — Esses malditos médicos. — E me dirige um olhar feroz repentino. — Ela morreu sozinha?

— Hummm... Não estou certa — digo começando a recuar. Não consigo agüentar mais isto. Por que eu não disse apenas que ela me deu o raio da echarpe? — De qualquer modo, foi muito bom vê-lo, Harry. Preciso ir, meus amigos vão sentir minha falta!

Faço uma espécie de aceno desinteressado sem encarar Harry bem nos olhos, rapidamente me viro e volto para Mione, meu coração batendo rápido e meu rosto ardendo de vermelho. Deus, que fiasco.

Mas consigo recompor-me antes de chegar a comida. A comida! Pedi mariscos grelhados e quando dou a primeira dentada, quase desmaio. Após tantos dias torturantes de comida barata e funcional, isto é um manjar dos deuses. Quase sinto vontade de chorar, como um prisioneiro retornando ao mundo real, ou crianças após a guerra quando o racionamento acaba. Depois dos meus mariscos, peço um steak béarnaise com batatas fritas e quando todos os outros dizem “não obrigado” para o cardápio de sobremesa, peço um musse de chocolate. Pois quem sabe quando estarei novamente num restaurante como este? Pode ser que se passem muitos meses na base de sanduíches de queijo e cafés feitos em casa numa garrafa térmica, sem nada para aliviar a monotonia.

É um caminho duro o que escolhi. Mas no final valerá a pena.

Enquanto aguardo minha musse de chocolate, Mione e Fenella decidem que precisam ir falar com Benjy, do outro lado do salão. Levantam-se, as duas acendendo seus cigarros ao mesmo tempo, e Rony fica para trás para me fazer companhia. Não parece gostar tanto de pular de mesa em mesa como elas. Na verdade, ele esteve bem quieto a noite toda. Também percebi que bebeu mais do que qualquer um de nós. Estou esperando que, a qualquer momento, sua cabeça aterrisse na mesa. O que para mim até seria bom.

Durante um tempo faz-se silêncio entre nós. Para ser sincera, Rony é tão estranho, não sinto nenhuma obrigação de falar com ele. Depois, de repente, ele diz:

— Você gosta de Wagner?

— Ah, sim — respondo imediatamente. Não estou bem certa se já ouvi Wagner, mas não quero parecer inculta, nem mesmo para Ronald. E já fui à ópera, apesar de achar que foi o Mozart.

— O Liebestod de Tristão — diz ele e sacode a cabeça — O Liebestod.

— Mmmm — digo e faço um aceno de cabeça concordando, num gesto que espero demonstrar inteligência. Sirvo-me de um pouco de vinho, encho o copo dele também e olho em volta para ver onde Mione foi. É típico dela desaparecer e deixar-me com seu primo bêbado.

— Dah-dah-dah-dah, daaah dah dah…

Ai, meu Deus, ele está cantando. Não muito alto, admito, ma intensamente. E está olhando nos meus olhos como que esperando que eu o acompanhe.

— Dah-dah-dah-dah...

Agora ele fecha os olhos e fica se balançando. Isto está se tornando embaraçoso.
— Da diddle-idly da-a-da-a daaaah dah...

— Lindo — digo animada. — Nada é melhor que o Wagner, não é?

— Tristão — diz ele — e Isolda. Abre os olhos. — Você seria uma bela Isolda.

Eu seria uma o quê? Enquanto estou ainda olhando para ele, leva minha mãe aos seus lábios e começa a beijá-la. Por alguns segundos estou chocada demais para mover-me.

— Ronald — digo o mais firme que posso, tentando puxar minha mão. — Ronald, por favor... — Encaro-o e desesperadamente passo os olhos pelo salão em busca de Mione, e quando o faço, encontro o olhar de Harry Potter saindo do restaurante. Ele franze um pouco a testa, levanta a mão num gesto de adeus e desaparece pela porta.

— Sua pele tem o cheiro de rosas — murmura Ronald contra minha pele.

— Ah, cale a boca! — digo zangada e retiro minha mão da sua com tanta força que uma fileira de dente fica marcada na minha pele. — Me deixe em paz!

Eu lhe daria um tapa, mas ele provavelmente tomaria isto como um convite.

Naquele momento, Mione e Fenella voltam para a mesa, cheias de novidades sobre Binky e Minky — e Ronald cai no silêncio. Pelo resto da noite, mesmo quando nos despedimos, quase não me olha. Graças a Deus. Deve ter entendido a mensagem.




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