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4. Cap Quatro


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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QUATRO

Quando chego à casa de meus pais, eles estão no meio de uma discussão. Papai está em cima de uma escada no jardim, remexendo na calha do lado da casa, e mamãe está sentada à mesa de ferro batido do jardim folheando uma revista de modas antiga. Nenhum deles me vê quando cruzo o portão do jardim.

— Só estou dizendo que eles deviam dar um bom exemplo! — diz mamãe.

— E você acha que se expor ao perigo é um bom exemplo, não é? Acha que isto resolveria o problema.

— Perigo! — diz mamãe ironicamente. — Não seja tão melodramático, Arthur. É esta realmente sua opinião sobre a sociedade inglesa?

— Oi, mãe — digo. — Oi, pai.

—Gina concorda, comigo. Não concorda, querida? — pergunta mamãe e aponta para uma página da revista. — Lindo cardigã — acrescenta em voz baixa. — Olha que bordado!

— Claro que ela não concorda com você! — retruca papai. — É a idéia mais ridícula que já ouvi.

— Não é não! — diz mamãe, indignada. —Gina, você não acha que seria uma boa idéia a Família Real viajar de transporte público, querida?

— Bem... — digo, cautelosa. — Na verdade não tinha...

— Você acha que a rainha deveria ir aos compromissos oficiais no ônibus 93? — ridiculariza papai.

— E por que não? Talvez assim o ônibus 93 se torne mais eficiente!

— E então... — digo, sentando ao lado de minha mãe. — Como vão as coisas?

— Você percebe que este país está à beira de um grave problema de trânsito? — diz ela, como se não tivesse me ouvido. — Se mais pessoas não começarem a usar o transporte público, nossas ruas vão parar.

Papai balança a cabeça.

— E você acha que, se a rainha andar no ônibus 93, vai resolver o problema. Esqueça as questões de segurança, não importa se ela tiver que reduzir drasticamente seus compromissos...

— Eu não me referia à rainha necessariamente — revida mamãe e pára por um segundo.

— Mas a alguns daqueles outros. A princesa Michael de Kent, por exemplo. Ela podia viajar de metrô de vez em quando, não é? Essas pessoas precisam conhecer a vida real.

A última vez que minha mãe viajou de metrô foi mais ou menos em 1983.

— Querem que eu faça um café? — digo, alegre.

— Se quer saber minha opinião, esse negócio de trânsito não tem nenhum sentido — diz meu pai. Ele pula da escada e remove a sujeira das mãos. — É tudo propaganda.

— Propaganda? — exclama minha mãe indignada.

— Certo — digo depressa. — Bem, vou esquentar água para o café.

Entro de novo na casa, ponho a chaleira no fogo e sento à mesa numa gostosa nesga de sol. Já esqueci o que meus pais estavam discutindo. Eles vão repetir a mesma coisa e concordar que tudo é culpa do Tony Blair. De qualquer modo, tenho coisas mais importantes para pensar. Estou tentando descobrir quanto exatamente devo dar ao meu chefe Philip quando ganhar na loteria. Não posso deixá-lo de lado, claro — mas dinheiro vivo não é um pouco vulgar? Não seria melhor um presente? Umas lindas abotoaduras, talvez. Ou uma dessas cestas de piquenique que vêm com pratos e talheres dentro. (Lilá Brown não vai ganhar nada, obviamente.)

Sentada sozinha na cozinha, sinto como se tivesse um pequeno segredo brilhando dentro de mim. Vou ganhar na loteria. Hoje à noite minha vida vai mudar. Deus, mal consigo esperar. Dez milhões de libras. Pense só, amanhã poderei comprar o que quiser. Qualquer coisa!

O jornal está aberto na minha frente na seção de classificados e, aleatoriamente, começo a examinar as casas caras. Onde irei morar? Chelsea? Notting Hill? Mayfair? Belgravia, leio. Fantástica mansão de sete quarto com casa de empregados separada e belo jardim decorado. Bem, parece boa. Eu enfrentaria sete quartos em Belgravia. Meus olhos voltam-se para o preço e estancam com o choque. Seis ponto cinco milhões de libras. É quanto estão pedindo. Seis milhões e meio.

Sinto-me estupefata e levemente irritada. Estão falando sério? Não tenho nada como seis ponto cinco milhões de libras. Só tenho uns... quatro milhões sobrando. Ou eram cinco? Seja o que for, não é suficiente. Olho atentamente para a página, sentindo-me roubada. Os ganhadores da loteria deveriam poder comprar o que quisessem — mas já estou me sentindo pobre e com dinheiro insuficiente.

Chateada, deixo o jornal de lado e pego um encarte de propaganda cheio de colchas para cama a 100 libras cada. É mais meu caso. Quando ganhar na loteria só terei colchas brancas, fofas, decido. E terei uma cama branca de ferro batido, venezianas de madeira pintada e uma camisola branca bem macia...

— E então, como vai o mundo das finanças? — A voz de minha mãe me interrompe e me viro para ela. Dirige-se animada para a cozinha, ainda segurando sua revista.

— Já fez o café? Deixa, deixa, querida!

— Eu já ia... — digo enquanto levanto da cadeira. Mas, como era de se esperar, mamãe vai na minha frente. Ela pega um pote de cerâmica que eu nunca tinha visto antes e coloca o pó do café numa cafeteira dourada nova.

Mamãe é terrível. Está sempre comprando alguma coisa nova para a cozinha — e dá as coisas velhas para a Oxfam (Campanha Contra a Fome). Chaleiras novas, torradeiras novas... Nós já tivemos três lixeiras este ano — verde-escura, depois cromada e agora de plástico amarelo brilhante. Acho um desperdício de dinheiro.

— É uma bonita saia! — diz ela olhando para mim como se fosse a primeira vez. — De onde é?

— DKNY — murmuro.

— Muito bonita — diz ela. — Foi cara?

— Não muito — digo, de uma vez só. — Umas cinqüenta libras.

Não é verdade. Foi mais para cento e cinqüenta. Mas não tem sentido dizer à minha mãe quanto às coisas custam na realidade porque ela teria problemas cardíacos. Ou, na verdade, primeiro contaria a meu pai — e depois eles dois teriam problemas cardíacos e eu me tornaria uma órfã.

Por isso, o que faço é utilizar dois valores simultâneos: os preços reais e os preços da mamãe. É mais ou menos estar uma loja onde tudo está com 20% de desconto, e ficar olhando os artigos e reduzindo mentalmente o preço de tudo. Depois de certo tempo adquire-se uma prática impressionante.

A única diferença é que uso um sistema de escala progressiva, um pouco como o imposto de renda. Começa em 20% (se custa 20 libras, digo que custa 16 libras) e vai até.... bem, até 90% se for preciso. Uma vez comprei um par de botas que me custou 200 libras e disse a mamãe que eu havia pago 20 libras numa liquidação. E ela acreditou.

— E então, está procurando um apartamento? — diz ela, olhando sobre meus ombros para as páginas dos classificados.

— Não — digo mal-humorada e passo os olhos por uma página do meu encarte. Meus pais estão sempre querendo convencer-me a comprar um apartamento. Será que sabem quanto custa um apartamento? E não me refiro a apartamentos em Croydon.
— Parece que Neville comprou uma ótima casa em Reigate — diz ela, inclinando a cabeça em direção aos nossos vizinhos. — Ele vai de trem para o trabalho. — Diz isso com um ar de satisfação como se estivesse contando que ele ganhou o prêmio Nobel da Paz.

— Bem, não tenho condição de comprar um apartamento — digo. — Ou uma casa.
Pelo menos ainda não, penso. Não até as oito horas da noite. Hihihi.

— Problemas de dinheiro? — diz papai, entrando na cozinha. — Sabe que há duas soluções para problemas de dinheiro?

Ah, Deus. De novo não. Os aforismos de papai.

— C.G. — diz meu pai, os olhos piscando — ou G.M.D.

Faz uma pausa para causar suspense e eu viro a página do meu encarte fingindo não ouvi-lo.

— Corte Gastos — diz meu pai — ou Ganhe Mais Dinheiro. Um ou outro. Qual será, Gina?

— Ah, ambos, espero — respondo indiferente e viro para outra página do meu encarte. Para ser sincera, quase sinto pena de papai. Será um grande choque para ele se sua filha se tornar milionária da noite para o dia.

Após o almoço, mamãe e eu vamos a uma feira de artesanato na escola primária local. Só estou fazendo companhia a ela, e certamente não pretendo comprar nada — mas, quando chegamos lá, vejo um estande cheio de cartões incríveis, feitos a mão, por apenas 1,50 libra! Compro dez. Afinal, sempre precisamos de cartões, certo? Vejo também um belo vaso de plantas de cerâmica azul decorado com pequenos elefantes — e há anos digo que devíamos ter mais plantas no apartamento. Aliás, só eu compro esse tipo de coisas. Só quinze libras. As feiras de artesanato são tão baratas, não? Você passeia por elas achando que só vai ter porcaria — mas sempre acaba encontrando alguma coisa para comprar.

Mamãe também está muito feliz pois achou um par de castiçais para sua coleção. Ela tem coleções de castiçais, de porta-torradas, de jarros de cerâmica, de bichinhos de vidro, de amostra de bordados e de dedais. (Pessoalmente não acho que seus dedais contem como uma coleção propriamente, pois ela comprou o lote inteira, incluindo o armário, de um anúncio na última página da revista Mail on Sunday. Mas nunca diz isso a ninguém. Eu nem deveria ter mencionado.)

Voltando ao assunto, nós duas estamos satisfeitas e decidimos tomar um chá. Depois, na saída, passamos por uma dessas barracas horríveis que ninguém chega perto. As pessoas educadas olham uma vez e depois saem rápido. O pobre homem atrás dela parece realmente infeliz, então paro para dar uma olhada. E não é para menos que ninguém pare ali. Ele está vendendo umas tigelas de madeira, de formato esquisito, com facas combinando. Afinal, para que serve uma tigela de madeira?

— Que legal! — digo num tom alegre e pego uma das tigelas.

— É madeira esculpida a mão. Demorei uma semana para fazer.

Bem, foi uma semana perdida, se você quer saber. É disforme, feio e a madeira tem um tom horrível de marrom. Mas quando vou colocá-lo de volta, ele parece tão infeliz que sinto pena e viro ao contrário para ver o preço, achando que se custar umas cinco libras eu compro. Mas é oitenta libras! Mostro o preço a minha mãe e ela faz uma careta.

— Essa peça especificamente apareceu na Elle Décoration no mês passado — diz o homem num tom de lamento e mostra uma página cortada da revista. E, ao som de suas palavras, eu gelo. Elle Décoration? Ele está brincando?

Ele não está brincando. Ali na página, em cores, está uma fotografia de um quarto completamente vazio, exceto por uma sacola de camurça cheia de sementes, uma mesa baixa e uma tigela de madeira. Olho para aquilo sem acreditar.

— Era exatamente esta? — pergunto, tentando não parecer muito nervosa. Exatamente esta tigela?

Quando ele acena que sim, minha mão segura a tigela com força. Não posso acreditar. Estou segurando uma peça da Elle Décoration. Não é o máximo? De repente me sinto uma pessoa incrivelmente na moda — e lamento não estar usando calças compridas de linho branco e o cabelo puxado para trás como Yasmin Le Bon, para combinar.

Isso só prova que tenho bom gosto. Não escolhi esta tigela — desculpe, esta peça — sozinha? Já consigo ver nossa sala de visitas inteiramente decorada em função dela, toda clara e minimalista. Oitenta libras. Não é nada para uma peça clássica de estilo como esta.

— Vou levá-la — digo, determinada, e pego meu talão de cheques dentro da bolsa.

Procuro me convencer que comprar coisa barata é, na verdade, uma falsa economia. É muito melhor gastar um pouco mais e fazer uma compra que dure a vida toda. E esta tigela é realmente clássica. Mione vai ficar tão impressionada.

Quando voltamos para casa, minha mãe entra, mas eu fio na calçada transferindo minhas comprar do carro dela para o meu, com muito cuidado.

— Gina! Que surpresa!

Ah, Deus. É Martin Longbottom, da casa ao lado, se debruçando sobre a grade com um ancinho na mão e um enorme sorriso amigo no rosto. Ah, Deus. Martin tem esse jeito de sempre fazer-me sentir culpada, não sei por quê.

Para falar a verdade, eu sei a razão. É porque ele esperava que eu crescesse e casasse com seu filho Neville. A história de meu relacionamento com Neville é a seguinte: ele me chamou para sair uma vez quando tínhamos dezesseis anos e eu disse não; eu ia sair com Dino Thomas. Tudo terminou aí, e dou graças a Deus por isto. Para ser bem sincera, eu preferiria casar com o próprio Martin a casar com o Neville.

(Isto não significa que eu realmente queira casar com o Martin. Ou goste de homens mais velhos ou coisa parecida. Foi só para defender um ponto de vista. De qualquer forma, Martin está muito bem casado.)

— Oi! — respondo com um entusiasmo exagerado. — Como vai?

— Ah, estamos todos bem — responde Martin. — Você ouviu dizer que o Neville comprou uma casa?

— Sim — digo eu. — Em Reigate. — Fantástico!

— Tem dois quartos, um banheiro, uma sala de estar e uma cozinha ampla e arejada — descreve. — Peças de carvalho encerado na cozinha.

— Nossa! — exclamo. — Que fabuloso.

— Tom está maravilhado — diz Martin. — Janice! — ele grita. — Venha ver quem está aqui!

Um instante depois Janice aparece na porta da frente, usando um avental estampado com flores.

—Gina! — diz ela. — Você se tornou uma estranha! Há quanto tempo não aparece?

Ah, Deus, agora me sinto culpada por não visitar meus pais com mais freqüência.

— Bem — sorrio indiferente. — Você sabe. Estou muito ocupada com meu trabalho e tudo mais.

— Ah, sim — diz Janice num aceno de espanto. — Seu Trabalho.

Em algum momento Janice e Martin puseram na cabeça que eu sou uma grande especialista em finanças. Já procurei dizer-lhes que na verdade não sou — mas quanto mais eu nego, melhor eles acham que eu sou. Não tem jeito. Como conseqüência, eles agora pensam que sou uma grande especialista e modesta.

Mas quem se importa? É bem divertido fingir ser um geio das finanças.

— Sim, estamos bem ocupados ultimamente — digo simpática. — Devido à fusão da SBG com o Rutland.

— Claro — responde Janice num sussurro.

— Sabe, isto me lembra — diz Martin. — Gina, espere aí. Volto em dois segundos. — Ele desaparece antes que eu possa dizer alguma coisa, e sou deixada ali com Janice, um pouco sem graça.

— Então — digo sem jeito. — Ouvi dizer que a cozinha de Neville tem armários em carvalho!

É literalmente a única coisa que consigo pensar em dizer. Sorrio para Janice e aguardo uma resposta. Mas, em vez disso, ela sorri para mim maravilhada. Seu rosto está brilhando — e logo percebo que cometi um erro enorme. Não devia ter mencionado as peças de carvalho. Agora Janice vai achar que também quero ter peças iguais, não vai? Vai pensar que de repente fiquei interessada no Neville, agora que ele tem uma casa em seu nome.

— É de carvalho e azulejos mediterrâneos — diz, orgulhosa. — Foi uma escolha entre o estilo mediterrâneo ou o rústico, e Neville escolheu o mediterrâneo.

Por um instante penso em dizer que teria escolhido o estilo rústico. Mas parece maldade.

— Que bom — digo. — E dois quartos!

Por que não consigo sair do assunto da droga da casa?

— Ele queria dois quartos — diz Janice. — Afinal, nunca se sabe, não é? — Ela sorri recatada, e, ridiculamente, sinto que começo a ruborizar. Ah, Deus. Por que estou ficando vermelha? Que estupidez. Agora ela pensa que Neville me agrada. Está no imaginando juntos na casa nova, preparando o jantar na cozinha de carvalho.

Eu devia dizer alguma coisa. Devia dizer “Janice, não gosto de Neville. Ele é alto demais e tem mau hálito”. Mas como vou dizer? Em vez disso, me vejo falando:

— Bem, mande lembranças para ele.

— Certamente — diz ela e pára. — Ele tem seu telefone em Londres?
Aarrgh!

— Acho que sim — minto num sorriso alegre. — E ele sempre pode me encontrar aqui, se quiser. — Agora tudo o que digo soa como tendo duplo sentido. Posso imaginar como esta conversa será relatada para Neville. “Ela estada perguntando tudo sobre sua casa nova. E pediu que você lhe telefonasse!”

A vida seria muito mais fácil se pudéssemos rebobinar e apagar as conversas, como num videocassete. Ou se pudéssemos instruir as pessoas para não registrarem o que acabamos de dizer, como num tribunal. Por favor tire do registro todas as referências a casas novas e cozinhas em carvalho.

Por sorte, naquele momento, Martin reaparece segurando um pedaço de papel.

— Achei que você pudesse dar uma olhada nisto — diz ele. — Há quinze anos temos este fundo de rentabilidade na Flagstaff Life. Agora estamos pensando em transferi-lo para fundos mútuos de crescimento. O que você acha?

Não sei. Do que ele está falando afinal? Algum tipo de plano de poupança? Passo o olho pelo papel com jeito de profunda conhecedor do assunto e aceno a cabeça muitas vezes.

— Bem — digo num ar vago. — Sim, parece ser uma boa idéia.

— A empresa nos escreveu dizendo que poderíamos querer um retorno mais lucrativo depois da aposentadoria — diz Martin. — Além disso, é uma quantia garantida.

— E eles nos mandarão um relógio de parece — concorda Janice. — Feito na Suíça.

— Humm — digo, analisando com cuidado o timbre da minha voz.

Flagstaff Life, penso. Tenho certeza de que ouvi alguma coisa sobre eles recentemente. Quem é a Flagstaff Life? Ah, sim! São os que deram uma festa regada a champanhe em Soho Soho. E Elly tomou um grande porre e disse a David Salisbury, do The Times, que o amava. Foi uma festa ótima, agora me lembro. Uma das melhores.

— Você considera esta uma boa empresa? — pergunta Martin.

— Claro — respondo. — Tem um bom nome na praça.

— Bem, então — diz Martin, parecendo satisfeito. — Acho que vamos seguir o conselho deles. Partir para algo que renda mais.

— Eu pensava que, quanto mais lucro se tem, melhor — digo, numa voz que soa extremamente profissional. — Mas é apenas um ponto de vista.

— Ah, bem — diz Martin, e dá uma olhada para Janice. — Se Gina acha que é uma boa idéia...

— Bem, eu particularmente não seguiria meus conselhos! — digo, apressada.

— Veja o que ela diz! — diz Martin com um leve riso. — A especialista em finanças em pessoa.

— Sabe, Neville às vezes compra sua revista — interrompe Janice. — Não que tenha muito dinheiro agora, com a hipoteca e tudo mais... Mas comenta que seus artigos são muito bons! Segundo ele...

— Que ótimo! — interrompo. — Bem, olha, realmente preciso ir agora. Adorei ver vocês. E dêem um alô ao Neville por mim!

Entro em casa com tanta pressa que bato meu joelho no batente da porta. Depois me sinto um pouco mal, gostaria de ter me despedido melhor. Mas sinceramente! Se ouvir mais uma palavra sobre esse Neville e sua cozinha vou enlouquecer.

Porém, quando sento para assistir ao resultado da loteria, já me esqueci deles. Jantamos bem — frango à provençal do Marks and Spencer, e uma boa garrafa de Pinot Grigio que eu trouxe. Sei que o frango à provençal vem do Marks and Spencer porque eu mesma já o comprei algumas vezes. Reconheci os tomates secos, as azeitonas e tudo mais. Mamãe, claro, ainda finge que fez tudo seguindo uma receita.

Não sei por que ela se preocupa. Ninguém se importaria — principalmente quando somos só nós, papai e eu. E depois, é óbvio que não foi feito na nossa cozinha onde nunca entrou qualquer ingrediente pra preparar um prato como esse. O que sobre na cozinha são muitas caixas vazias de papelão e muitas refeições prontas — e nada entre os dois. Ainda assim, minha mãe nunca admite que comprou uma refeição pronta, nem mesmo quando é uma torta em embalagem de alumínio. Meu pai come essas tortas, cheias de champignons de plástico e molho aguado, e depois diz com a cara mais lavada:

— Delicioso, meu amor.

E minha mãe sorri parecendo toda orgulhosa de si mesma.

Mas esta noite não é torta de alumínio, é frango provençal. (Para ser justa, acho que quase parece feito em casa — exceto que ninguém jamais cortaria um pimentão vermelho em pedaços tão pequenos, cortaria? As pessoas têm coisas mais importantes a fazer.) Comemos e bebemos uma boa quantidade de Pinot Grigio, e há uma torta de maçã no forno — e já sugeri, casualmente, assistirmos televisão. Porque sei, olhando no relógio, que o programa da loteria já começou. Numa questão de minutos tudo irá acontecer. Ah, Deus, não consigo esperar.

Por sorte, meus pais não são o tipo de gente que gosta de conversar sobre política ou sobre livros. Já colocamos em dia as notícias da família, eu já contei como vai indo meu trabalho, e eles já me contaram sobre seu feriado na Córsega — portanto, agora, estamos chegando perto de uma pausa. Precisamos ligar a TV nem que seja como um som ambiente para a conversa.

Nos reunimos na sala de estar, e meu pai acende a lareira de fogo a gás com efeito de chamas, em seguida liga a televisão. E lá está! A Loteria Nacional, em glorioso tecnicolor. As luzes estão brilhando, Dale Winton está zombando da Tiffany de EastEnders e, de vez em quando, a platéia dá um grito de excitação. Meu estômago está cada vez mais apertado, e meu coração bate tump-tump-tump. Em alguns minutos essas bolas vão cair. Em alguns minutos serei uma milionária.

Inclino-me calmamente para trás no sofá e penso no que farei quando ganhar. Quero dizer, no primeiro instante que eu ganhar. Grito? Fico quieta? Talvez não devesse contar a ninguém durante umas vinte e quatro horas. Talvez não devesse contar a ninguém de modo algum.

Este novo pensamento me transporta. Eu poderia ser uma ganhadora secreta! Ter todo o dinheiro e nenhuma pressão. Se as pessoas me perguntassem como posso pagar tantas roupas de costureiros famosos, eu simplesmente lhes diria que estou fazendo muito trabalho de free-lance. Sim! E eu poderia transformar as vidas de todos os meus amigos, anonimamente, como um anjo bom. Ninguém jamais saberia. Isto seria perfeito!

Estou calculando o tamanho da casa que posso comprar sem que todo mundo desconfie, quando uma voz na TV me deixa alerta.

— Pergunta para o Número Três.

O quê?

— Meu animal favorito é o flamingo porque é rosa, felpudo e tem pernas longas. — A garota sentada no banco, provocante, descruza um par de pernas — longas e lisas — e a platéia enlouquece. Olho para ela confusa. O que está acontecendo? Por que estamos vendo Blind Date?

— Esse programa era engraçado — diz minha mãe. — Mas piorou muito.

— Você chama essa porcaria de engraçado? — retruca meu pai sem acreditar.
— Ouça, pai, na verdade, não poderíamos voltar para...

— Eu não disse que é engraçado agora. Eu disse...

— Pai! — digo eu procurando não parecer aflita. — Será que poderíamos voltar para a BBC1 por um instante?

Blind Date desaparece e suspiro aliviada. No momento seguinte, um homem bonito de terno toma conta da tela.

— O que a polícia deixou de analisar — diz ele numa voz nasal — é que as testemunhas não eram suficientemente...

— Pai!

— Onde está a revista da programação? — pergunta ele, impaciente. — Tem que haver alguma coisa melhor do que isso.

— Tem a loteria!

— Por que você quer assistir à loteria? Comprou um bilhete?

Por um instante fico em silêncio. Se vou ser uma ganhadora secreta, não posso contar a ninguém que comprei um bilhete. Nem mesmo a meus pais.

— Não! — digo eu dando uma pequena risada. — Só quero ver Martine McCutcheon.

Para meu grande alívio o canal da loteria foi sintonizado de novo e Tiffany está cantando uma música. Relaxo no sofá e olho meu relógio.

Sei que, na verdade, ver ou não o programa não afetará minhas chances de ganhar — mas não quero perder o grande momento, certo? Talvez você me ache um pouco maluca mas sinto que, se eu assistir, posso me comunicar com as bolinhas através da tela. Vou fixar meu olhar intensamente nelas quando forem misturadas e, silenciosa, induzirei meus números vencedores. Série 1 6 9 16 23 44.

Só que os números nunca vêm em ordem.

Série 44 1 23 6 9 16. É possível. Ou Série 23 6 1...

De repente há uma rodada de aplausos e Martine McCutcheon termina sua música. Ah, meu Deus. Está quase acontecendo. Minha vida está prestes a mudar.

— A loteria ficou muito comercializada, não é? — diz minha mãe quando Dale Winton leva Martine para o botão vermelho. — É uma pena realmente.

— O que quer dizer com ficou comercializada? — retruca meu pai.

— As pessoas costumavam jogar na loteria porque queriam ajudar as casas de caridade.

— Não é verdade! Não seja ridícula! Ninguém liga para as casas de caridade. Todo mundo só pensa em si. — Papai gesticula em direção a Dale Winton com o controle remoto e a tela fica preta.

— Papai! — lamento num grito.

— Então você acha que ninguém se preocupa com a caridade? — diz minha mãe no silêncio.

— Não foi isto que eu disse.

— Pai! Liga isso de novo! — grito num guincho. — Liga-isso-de-novo! — Estou a ponto de começar uma luta com ele pelo controle remôo quando ele a liga novamente.

Olho para a tela sem acreditar. A primeira bola já saiu. E é 44. Meu número 44.

— ... apareceu pela última vez três semanas atrás. E aqui vem a segunda bola... E é número 1.

Não consigo me mexer. Está acontecendo, diante dos meus próprios olhos. Estou realmente ganhando na loteria. Estou ganhando a danada da loteria!
Agora que está acontecendo, sinto uma calma surpreendente. É como se eu soubesse, minha vida inteira, que isto ia acontecer. Sentada ali no sofá, em silêncio, sinto-me como se estivesse num documentário sem graça sobre mim mesma, narrado por Juanna Lumley ou qualquer outro. “Gina Weasley sempre soube secretamente que um dia ganharia a loteria. Mas no dia que aconteceu, nem mesmo ela poderia ter previsto...”

— E um outro baixo. Número 3.

O quê? Minha mente se fecha e eu olho perplexa para a tela. Não pode ser. Eles querem dizer 23.

— E número 2, a bola de bônus da semana passada.

Sinto um frio tomar conta de mim. Que diabos está acontecendo? Que números são esses?

— E mais um outro baixo! Número 4. Um número popular, apareceu doze vezes este ano até agora. E finalmente... Número 5! Nossa! Este é um primeiro! Agora, alinhando-os em ordem...

Não. Isto não pode estar acontecendo. Tem que ser um engano. Os números ganhadores da loteria não podem ser jamais 1, 2, 3, 4, 5, 44. Esta não é uma combinação de loteria, é um... é um jogo sujo.

E eu estava ganhando. Eu estava ganhando.

— Olha para aquilo! — diz minha mãe. — Absolutamente incrível! 1, 2, 3, 4, 5, 44.

— E por que deveria ser incrível? — replica papai. — É tão provável quanto qualquer
outra combinação.

— Não pode ser!

—Molly, você sabe alguma coisa sobre as leis da probabilidade?

Calmamente me levanto e saio da sala enquanto a música da loteria ressoa vindo da televisão. Vou em direção à cozinha, sento à mesa e enterro a cabeça nas mãos. Sinto-me um tanto trêmula, para falar a verdade. Eu estava tão convencida de que iria vencer. Já estava morando numa casa grande e indo para Barbados nas férias com todos os meus amigos, entrando Agnès B e comprando tudo o que quisesse. E parecia tão real.

Agora, em vez disso, estou sentada na cozinha dos meus pais, sem condições financeiras para uma viagem de férias, e acabei de gastar oitenta libras numa tigela de madeira de que eu nem gosto.

Sentindo-me arrasada, acendo o fogo da chaleira, pego uma cópia do Woman’s Journal que está na bancada e passo os olhos nele — mas nem isto me alegra. Tudo parece me lembrar dinheiro. Talvez meu pai esteja certo, penso com tristeza. Talvez Cortar Gastos seja a resposta. Suponhamos... suponhamos que eu economizasse o suficiente para juntar sessenta libras por semana. Eu teria 6.000 libras em cem semanas.

E de repente minha mente fica alerta. Seis mil libras. Não é mal, é? E se pensarmos bem, não pode ser tão difícil economizar sessenta libras por semana. É só o equivalente a duas refeições fora. Quero dizer, eu nem ia perceber.

Deus, sim. É isto que vou fazer. Sessenta libras por semana, toda semana. Talvez eu até abra uma conta especial. Será fantástico! Terei total controle das minhas finanças — e, quando tiver pago todas as minhas dívidas, simplesmente vou continuar economizando. Vai se tornar um hábito meu: ser frugal. Depois, ao final de cada ano, vou mergulhar num investimento clássico como um tailleur Armani. Ou talvez Christian Dior. Alguma coisa realmente de classe.

Começarei na segunda-feira, penso animada, despejando uma colher de chocolate em pó numa xícara. Farei o seguinte, simplesmente não gastarei nada. Todo meu dinheiro excedente vai se acumular e eu ficarei rica. Isto vai ser tão fantástico.










Brompton's Store
CONTAS DE CLIENTES
1 Brompton Street
Londres SW4 7TH


Srta. Ginevra Weasley
Apto. 2
4 Burney Rd
Londres SW6 8FD

6 de março de 2000

Prezada Srta. Weasley

Agradeço seu cheque de 43 libras recebido hoje.

Infelizmente, faltou assinatura. Sem dúvida nenhuma foi apenas um esquecimento de sua parte. Portanto, estou lhe enviando o cheque e peço-lhe que assine e nos devolva.

Como deve ser de seu conhecimento, este pagamento já está com oito dias de atraso.

Aguardo receber seu cheque assinado.

Atenciosamente

John Hunter
Gerente de Contas de Clientes







Outro cap on espero que gostem, logo outro fresquinho fresquinho

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