PRÓLOGO
Palácio Weasley, Porto, Melio
A princesa Ginny Weasley examinou a carta lacrada que deixou na escrivaninha do avô.
Subitamente o envelope com o selo dourado do palácio pareceu lúgubre na escrivaninha.
Ficaria tão magoado, pensou, sentindo as lágrimas brotarem. Ele não compreenderia.
Entretanto, nem ela entendia por que tamanho desespero para fugir de Melio, e da atenção da imprensa. Mas nunca julgou agradável viver na berlinda e, desde a morte da avó, tudo piorou. Piorou muito.
A mídia não lhe concedeu a privacidade do luto. Documentavam cada aparição, as visitas semanais ao túmulo da avó, o fulgor das lágrimas ao deixar o cemitério real.
Não sobrava tempo para disfarçar o sofrimento. Nem a perplexidade.
A morte da avó deflagrou dores que deviam estar sepultadas dentro dela desde o falecimento dos pais, há 18 anos. E aquelas fotos nos tablóides, as reportagens sensacionalistas, "Morte da Rainha Minerva Abala Princesa Caçula", só agravaram a sua confusão.
Na realidade, não sabia o que sentir. Tampouco sentiu. Nos últimos seis meses, desde o funeral da avó, esgotara toda emoção, toda coragem.
Como viveria uma vida pública quando sequer sabia quem era?
Ginny apanhou o envelope, os dedos roçaram o antigo mata-borrão de couro, há mais de cem anos na família, e lágrimas inundaram-lhe os olhos.
Ginny amava o velho mata-borrão, o charmoso gabinete do avô, tudo no ancestral palácio de pedras calcárias, e compreendia por que devia casar e permanecer ali todavia ela não cogitava assumir mais responsabilidades, sem primeiro recobrar a compostura.
O palácio parecia tão vazio sem a avó, pois mesmo adorando o avô, era ela quem sempre a aconselhava. E sem a avó aqui, não lograria suportar. Suportar a solidão e a incerteza do futuro, embora Ginny soubesse que era hora de superar a perda. Mesmo que significasse enfrentar a tristeza sozinha.
Ginny largou a carta onde estava.
Desculpe-me, Vovô.
Você só vai passar um ano fora, disse a si mesma, encaminhando-se à porta. Voltará em 12 meses, casará com o Príncipe de Borgarde e a vida continuará conforme o planejado.
Contudo, seis horas depois ao acomodar-se no assento de um pequeno avião europeu, de óculos escuros e chapéu enterrado na cabeça, ainda tentava afugentar a culpa e concentrar-se no lado positivo do que havia feito.
Teria 12 meses para prantear a morte da avó, sem ser alvo dos paparazzi.
E por um breve instante Ginny desejou viajar como princesa - esquivando-se pelos salões privativos e escondida pelos ombros largos dos seguranças e guardas de aeroporto.
Contudo o problema não era esse, concluiu ela, puxando o cobertor felpudo até os ombros. Era impossível ser a Princesa Ginny sem as câmeras, a vigilância e os protocolos reais. E, como Princesa Ginny Weasley, todos gostariam de saber tudo a seu respeito.
Mas sabiam apenas o que a mídia informava.
Ignoravam o quanto ansiara por uma chance. Por liberdade.
Ronald, seu irmão mais velho, dizia que liberdade de escolha decerto não representa uma garantia, quando seu sobrenome é Weasley e sua ascendência remonta ao século XIII.
Mas Ginny não queria ser uma Weasley. Tudo o que desejava era ser uma pessoa normal. Anônima. Independente. Auto-suficiente.
Por um ano seria uma Gi qualquer.
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N/A: Espero que gostem...Enquanto a inspiração não vem e "Segredos de uma Promessa" continua em hiatus, vou postar essa adaptação do livro da Jane Porter
Bjao |