Harry observava Gina dormindo. Ele pensou que tivera sorte noite passada por estar nu quando a transformação o atingiu, ou ele estaria sem roupas para usar essa manhã. Ele tivera ainda mais sorte por Gina ainda estar viva e aparentemente sem danos. Ela dormia sentada contra uma árvore, à pistola presa frouxamente nas mãos.
Quando ele acordou essa manhã como homem, ele estava enrolado como uma bola a pouca distância dela, tremendo no ar frio da manhã. Os cavalos tinham sumido, ele notou de imediato. Ele teria que sair para procurá-los logo. Seu estômago roncou e ele lembrou que tinha de caçar também. Eles precisavam de carne fresca. A maldição estava sobre ele agora. Gina não estaria segura com ele. Ela não estaria segura se ele a deixasse para trás. Ela não estaria segura se ele a enviasse pela estrada de volta a Londres.
Se eles continuassem em frente, poderiam chegar a Whit Hurch ao cair da noite. Talvez ela pudesse ficar com uma amiga até Harry resolver seu problema com Lorde Malfoy. Então ela estaria protegida de Harry e do senhor da mansão. Harry conversaria sobre isso com ela assim que ela acordasse. Querendo que ela dormisse um pouco mais, ele tentou tirar a pistola da mão dela, pensando em liberá-la do aperto dela para poder caçar. Ela acordou tão rapidamente que o assustou, apontando a pistola diretamente para o rosto dele.
Ele afastou as mãos. Eles se encararam por um momento antes dela abaixar a pistola. Os olhos dela se encheram de lágrimas.
- Tive medo. – ela sussurrou. – Tanto medo de ter que atirar em você.
Suas palavras apenas o relembraram de que a vida que oferecia a ela era nenhuma vida afinal de contas. Não enquanto a maldição ainda o governasse. Ele pensou que poderia dar a ela tudo o que ela merecia, mas ela merecia muito mais do que isso. Medo dele. Medo do que pudesse ser obrigada a fazer para se proteger. Ele entendeu agora por que seu pai tirara a própria vida. Harry sentia o mesmo medo que seu pai deveria ter sentido uma vez. Medo de ferir alguém a quem amava mais do que a própria vida.
- Sinto muito. – Harry disse. – Sinto por ter feito você passar por isso. Nunca deveria ter permitido que viesse comigo. Deveria ter feito outros planos. Te coloquei em perigo, não apenas da parte Lorde Malfoy, mas da minha.
Os olhos cheio de lágrimas dela se suavizaram. Ela se aproximou e tocou o rosto dele.
– Você não quis me fazer mal. – ela disse. – De fato, você parecia estar me protegendo. Você se lembra de algo assim?
Ele sacudiu a cabeça.
– Não.
- Não acho que você me machucaria, mesmo enquanto a fera o comanda. Penso que de alguma forma ele sente quem eu sou.
- Mas não sabemos disso com certeza – ele disse com raiva. Ele odiava colocá-la nessa situação desagradável. Odiava agora, mais do que nunca, a maldição que estava sobre ele. – Você nunca deve confiar em mim enquanto estiver na forma do lobo, Gina. Prometa-me que não o fará.
Por um momento ela mordeu seu tentador lábio inferior.
– Talvez seja você quem deva confiar em si mesmo, Harry. Em qualquer forma.
Ele riu dela em resposta, embora não fosse uma resposta sincera.
– Mal se pode confiar em mim como homem, muito menos como fera que não tem pensamentos humanos para guiá-la. Já se esqueceu de quem eu sou, Harry? Se esqueceu com que tipo de homem se casou?
Os olhos dela ainda estavam enevoados e suaves sobre ele.
– Você já não é mais aquele homem, Harry. Por que você se crucifica por uma maldição que não é de sua culpa? Por pecados que estão agora no passado? Você deve se perdoar. Apenas então você poderá seguir em frente e se tornar tudo o que pode ser.
Ela era sábia, mas a auto-abominação que sentia por si era parte dele há muito tempo. Não era tão simples se livrar-se disso. Amá-la apenas fez com que seus pecados reluzissem mais à luz do dia. Ela tornara tudo novo, e da mesma forma fizera com que o passado parecesse, de algum modo, ainda mais feio. Ele nunca seria puro novamente. Gina não era mais uma virgem, mas ela ainda era pura. O que acontecera com ela não fora culpa dela. Ele fora desejosamente, até mesmo alegremente, atrás da farra. Bom Deus, ele dormira com mais de uma mulher ao mesmo tempo, na mesma cama.
Seu rosto e aparência eram uma zombaria do que jazia debaixo de sua pele. Aquilo que ele tentava tanto esconder atrás de uma máscara sedutora. A fera estava escondida dentro dele, e ele imaginava que nada do que poderia se tornar seria pior do que isso. Ele estava enganado.
- Preciso encontrar os cavalos. – ele disse. – E preciso da pistola. Vou caçar para nós. Será um longo dia até Whit Hurch e precisamos de alimento mais forte que pão com queijo.
Gina entregou a pistola a ele. Ele se levantou e a colocou na cintura da calça.
– Faça uma fogueira. Voltarei com comida em breve.
Gina o observou se afastando. Quando tentou levantar, seus músculos doloridos protestaram. Dormir a noite toda sentada, depois de ter feito amor com ele, a fazia se sentir rígida e dolorida. Ela caminhou até o riacho primeiro. Se lavaria o melhor que pudesse antes de fazer a fogueira. A água estava fria e ajudou a reanimá-la. Juntou galhos para fazer o fogo enquanto sua mente percorria as lembranças da noite passada. As boas e as más.
Ela se recusava a pensar sobre o fato de Harry ter derramado sua semente dentro dela. Não era útil ficar procurando problemas quando os dois já tinham mais do que o suficiente para se preocupar. Talvez fosse apenas coragem que brotasse na luz do dia, mas Gina acreditava que podia confiar em Harry enquanto ele estivesse na forma do lobo. Ela estava certa de que em algum nível ambos - homem e lobo - estavam ligados mesmo quando a mudança acontecia.
Ela conversaria com ele sobre isso mais tarde. O tempo estava se acabando, e agora eles precisavam fazer o possível para sobreviver à prova que tinha à frente. Tendo juntado galhos o suficiente, ela retornou ao acampamento e, pegando a pederneira no pacote, começou uma pequena chama. À distância ouviu tiros. Harry caçando, ela esperava. Uma vez feito o fogo, ela pegou os odres de água e os levou ao riacho para enchê-los.
Ao retornar ao acampamento, ela usou um pente de pinho para domar a confusão de seus cabelos, puxá-los para trás e os prender com um pedaço de fita de seu vestido. Havia pouco a fazer a não ser esperar. Ela sentia saudades de James e apenas o pensamento de nunca mais vê-lo novamente partiu seu coração e trouxe lágrimas a seus olhos. Ela rezava para que Hawkins tivesse tirado seu filho de Londres com segurança.
Um cavalo relinchou e Gina se voltou para ver Harry se aproximando dela, ambos os cavalos a reboque e um coelho sem pele balançando em uma mão. Ele parecia com um jovem fazendeiro retornando dos campos ou de um dia de caçada. Gina sorriu apesar do horrível apuro em que se encontravam. Naquele momento ela percebeu que não era tanto sua vida antiga que ela odiava, mas o fato de ser sozinha. Uma pária. Quão diferente sua vida poderia ter sido se ela tivesse nascido alguém, ou algo, diferente do que era. E quão diferente seria a vida de Harry, também, se a maldição da família não o assombrasse.
Gina se levantou e foi saudá-lo. Ela pegou o coelho, já tendo preparado um espeto temporário para assar o que quer que Harry trouxesse. Ele cuidou dos cavalos enquanto ela assava a carne. Logo o cheiro fazia o estômago dela roncar.
- Cheira bem – Harry se sentou numa tora que ela colocara diante do fogo.
- Está quase pronto. – ela disse, girando o espeto. – Não sabia que você caçava.
Ele deu de ombros.
– Todos os cavalheiros aprendem a caçar, embora geralmente como esporte. Acontece que tenho uma ótima pontaria, provavelmente devido minha visão aguçada. Nós os Potter’s temos essa vantagem.
- Você tem muitas vantagens. – ela disse. – Você acharia que suas habilidades são uma maldição se conseguisse pensar como homem quando a fera o governasse?
Harry apoiou os braços nos joelhos e se inclinou para frente.
– Suponho que não, exceto por estar à mercê da lua. Teria que regular minha vida a partir disso, mas não acho que seria tão terrível se pudesse manter minha mente enquanto corresse por aí como lobo.
Gina removeu o espeto para que a carne pudesse esfriar o suficiente para que eles comessem. Ela enxugou as mãos em seu vestido puído e se juntou a ele no tronco de madeira.
- Estive pensando sobre isso enquanto você estava fora. Acredito que vocês dois estão ligados mesmo quando a fera assume sua forma. Tem certeza de que nunca se lembrou de nada das noites em que corre como lobo?
Ele se sentou em silêncio por um tempo, como se pensando.
– Madressilva. – ele disse finalmente.
- O que?
Ele voltou o rosto para ela.
– Ontem à noite, eu me lembrei que pensei Madressilva. E eu me lembro de ouvir o som de sua voz.
O coração de Gina deu um salto e ela tocou a mão dele.
– Você me cheirou. Você sentiu o cheiro de meus cabelos. Você sabia que era eu, Harry. Tenho certeza disso.
- Gostaria de ter tanta certeza. – ele disse. – É um jogo perigoso que estamos jogando com Lorde Malfoy. Quando chegarmos à vila, quero que procure abrigo com alguma amiga. Você deve ficar lá até eu ir buscá-la. E se eu não aparecer para te pegar....
Ela colocou um dedo contra os lábios dele.
– É claro que você voltará para mim. Eu confio em você.
O que ela não disse a ele era que não tinha nenhuma amiga onde buscar abrigo entre os aldeões. Melhor que ele pensasse que ela estava segura e fora do caminho. Gina não era do tipo de ficar parada esperando para ver o que aconteceria em sua vida, ou na dele, de qualquer forma. Talvez fosse essa a razão por ela nunca ter tentado ver tão longe em seu futuro. Ela acreditava que o futuro pudesse ser alterado. Que havia caminhos que conduziam a diferentes resultados.
- Você deve tentar com determinação se lembrar de seus pensamentos noite passada. O fato de poder se lembrar de algo enquanto estava na forma de lobo é um bom sinal.
Agora que a comida havia esfriado um pouco, ela partiu um pedaço e o entregou a ele. Pegando o pacote, ela tirou o pão e o queijo que sobrara. Eles comeram em silêncio, e Gina suspeitava que Harry estivesse fazendo exatamente o que ela sugerira. Tentando se lembrar mais do que o cheiro de madressilva e do som de sua voz. Ela quase engasgou com sua comida pouco depois. Subitamente ela se lembrou do que dissera a ele. Do que admitira. Ela havia dito que o amava. E se ele se lembrasse disso?
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