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2. Cap Dois


Fic: Os delírios de Consumo de Gina Weasley


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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DOIS

Só tem uma coisa especial que preciso comprar no caminho para a entrevista coletiva — é o Financial Time. O FT é de longe o melhor acessório que uma mulher pode ter. Suas maiores vantagens são:

1. Tem uma cor bonita.

2. Custa só 0,85.

3. Se você entra numa sala com ele debaixo do braço, as pessoas a levam a sério. Com um FT debaixo do braço, você pode falar sobre as coisas mais frívolas do mundo e, em vez de acharem-na fútil, pensam que é uma intelectual de peso e que também tem interesses mais amplos.

Na minha entrevista para a Successful Saving, entrei segurando exemplares do Financial Times e do Investor’s Chronicle e não me perguntaram nada sobre finanças. Do que me lembro, passamos o tempo todo falando sobre cidades para passar as férias e falando mal de outros editores.

Paro então numa banca de jornal, compro um exemplar do FT e coloco debaixo do braço, admirando minha imagem refletida na imagem da Denny and George.

Minha aparência não é ruim, penso. Estou usando minha saia preta da French Connection, uma camiseta branca da Knickerboxe um pequeno cardigã de angoráque comprei na M&S mas parece mais ser da Agnès B. E meus sapatos novos de bico quadrado da Hobbs. E, melhor ainda,apesar de ninguém poder ver, sei que, por baixo, estou usando meu lindo conjunto de calcinha e sutiã com botões de rosas amarelas. É a melhor parte de toda minha roupa. De fato, quase gostaria de ser atropelada para todo mundo poder ver.

É um hábito meu listar todas as roupas que estou usando como se fosse para uma página de modas. Faço isto há anos — desde a época em que lia Just Seventeen. Em cada número eles paravam uma garota na rua, tiravam uma foto e listavam toda a roupa que estava usando: “Camiseta: da Chelsea Girl; jeans: da Top Shop; sapatos: emprestados de uma amiga.” Eu lia essas listas avidamente — e até hoje, se comprar algo numa loja que não esteja tão na moda, corto a etiqueta fora. Porque assim, se algum dia eu for abordada na rua, poderei fingir que não sei de onde é.

Enfim. Lá estou,me olhando,pensando que minha aparência está bem razoável, meio querendo que alguém da Just Seventeeen apareça com uma câmera — quando de repente meus olhos focalizam atentos e meu coração pára. Na janela da Denny and George há um anúncio discreto. É verde-escuro com letras creme e diz: LIQUIDAÇÃO.

Olho para ele, meu coração bate forte. Não pode ser verdade. Denny and George não pode estar em liquidação. Eles nunca têm saldo. Suas echarpes e pashminas são tão cobiçadas que é provável que conseguissem vendê-las pelo dobro do preço. Todo mundo que conheço no mundo inteiro anseia ter uma echarpe da Denny and George. (Exceto meus pais, obviamente. Minha mãe acha que qualquer coisa que não possa ser comprada na Bentalls de Kingston não é necessária.)

Tomo fôlego, dou dois passos à frente e abro a porta da pequena loja. A porta assobia e a simpática garota loura que trabalha lá olha para mim. Não sei seu nome mas sempre gostei dela. Diferente de algumas vendedoras antipáticas em lojas de roupas, ela não se importa se você fica séculos olhando as roupas que, na verdade, não tem condição de comprar. Geralmente o que acontece é que gasto meia hora desejando as echarpes Denny and Geroge, depois saio para a Accessorize e compro alguma coisa para me alegrar. Tenho uma gaveta inteira de substitutos de Denny and George.

— Olá — digo, tentando ficar calma. — Vocês... vocês estão em liquidação.

— Sim. — A garota loura sorri. — Um pouco incomum para nós.

Meu olhar varre a sala. Vejo fileiras de echarpes, cuidadosamente dobradas, com letreiros verde-escuros com os dizeres “50% de desconto”. Veludo estampado, seda enfeitada com continhas, cashmere bordado, todos com a assinatura discreta “Denny and George”. Elas estão em toda parte. Não sei por onde começar. Acho que estou tendo um ataque de pânico.

— Acho que você sempre gostou deste — diz a simpática moça loura, pegando uma echarpe de um azul-acinzentado suave na pilha à sua frente.

Ah, Deus, sim. Lembro-me desta. É de um veludo de seda, sobreposto com uma estampa de um azul mais claro de bolas e contas cintilantes. Contemplo-a, posso sentir os pequenos fios invisíveis, silenciosamente atraindo-me em sua direção. Preciso tocá-la. Preciso usá-la. É a coisa mais linda que já vi. A garota olha a etiqueta. “Reduzido de 340 para 120 libras.” Aproxima-se e coloca a echarpe em volta do meu pescoço, enquanto me admiro no espelho.

Não há duvida. Tenho de ter esta echarpe. Preciso tê-la. Ela faz meus olhos parecerem maiores, faz meu corte de cabelo parecer mais caro, me faz parecer uma pessoa diferente. Poderei usá-la com tudo. As pessoas vão se referir a mim como a Garota da Echarpe Denny and George.

— Se eu fosse você levaria na hora. — A menina sorri para mim. — Só sobrou uma deste tipo.

Involuntariamente agarro-a com as mãos.

— Vou levá-la — digo ofegante. — Vou levá-la.

Enquanto ela embrulha num papel de seda, pego minha bolsa, abro-a e procuro meu cartão VISA num ato perfeito e automático — mas meus dedos encontram o couro nu. Paro surpresa e começo a remexer todos os cantos da bolsa, pensando se guardei meu cartão em outro lugar com algum recibo ou se está escondido debaixo de outro cartão... E então, com um baque de desgosto, me lembro. Ficou na minha mesa de trabalho.

Como pude ser tão burra? Como pude deixar meu cartão VISA na minha mesa? Em que eu estava pensando?

A simpática garota loura guarda a echarpe embrulhada numa caixa verde-escura Denny and George. Meu coração bate forte. O que vou fazer?

— Como vai pagar? — pergunta numa voz agradável.

Meu rosto fica vermelho.

— Acabei de perceber que deixei meu cartão de crédito no escritório — gaguejo.

— Ah — diz a moça, e suas mãos param.

— Pode guardá-la para mim? — A garota parece em dúvida.

— Por quanto tempo?

— Até amanhã? — digo desesperada. Ai, meu Deus. Ela está fazendo uma careta. Será que não entende?

— Creio que não — diz ela. — Não podemos reservar a mercadoria do saldo.

— Então, só até mais tarde hoje — digo rapidamente. — A que horas vocês fecham?

— Às seis.

Seis! Sinto uma combinação de alívio e adrenalina atravessando meu corpo. Desafio Ginevra. Vou à coletiva, saio logo que seja possível e, então, pego um táxi de volta para o escritório. Pego meu cartão VISA, digo ao Philip que esqueci meu caderno de anotações no local da entrevista, volto aqui e compro a echarpe.

— Pode guardá-la até lá? — Imploro. — Por favor? Por favor? — A garota cede.

— Está bem. Vou deixá-la atrás do balcão.

— Obrigado — suspiro. Saio correndo da loja e desço a rua em direção à Potter
Communications. Deus, por favor, faça com que a entrevista seja curta, rezo. Por favor, não deixe as perguntas durarem muito tempo. Por favor, Deus, por favor, permita que eu tenha aquela echarpe.

Quando chego na Potter Communications, começo a relaxar. Tenho três horas inteiras, afinal. E minha echarpe está segura atrás do balcão. Ninguém vai roubá-la de mim.

Há um aviso no foyer da Potter Communications dizendo que a entrevista coletiva da Foreland Exotic Opportunities está acontecendo na Suíte Artemis, e um homem de uniforme está orientando a todos. Isto significa que deve ser bem grande. Claro que não se trata de uma superprodução com televisão-câmeras-CNN-imprensa internacional. Nas é uma entrevista coletiva bastante concorrida. Um evento relativamente importante no nosso mundinho entediante.

Quando entro na sala, já há um burburinho de pessoas se acotovelando e garçonetes circulando com canapés. Jornalistas engolem o champanhe como se nunca o tivessem visto antes; garotas de relações públicas com ar arrogante bebem água. Um garçom me oferece uma taça de champanhe e pego duas. Uma para agora e outra para deixar embaixo da minha cadeira para as partes chatas.

No canto mais longínquo da sala vejo Elly Granger da Investor’s Weekly News. Ela foi levada para um canto por dois homens sérios vestidos de terno e, com uma expressão vazia, acena com a cabeça concordando com o que dizem. Elly é fantástica. Está na Inverstor’s Weekly News há seis meses e já se candidatou a quarenta e três outros empregos. O que realmente deseja é ser editora de beleza em alguma revista. O que eu realmente quero é ser a Fiona Phillips na GMTV. Às vezes, quando já estamos altas depois de bebermos muito, fazemos pactos de que, se não estivermos em algum lugar mais interessante dentro de três meses, nós duas deixaremos nossos empregos. Mas depois a idéia de ficar sem dinheiro — mesmo que só por um mês — é quase mais aterradora que a idéia de escrever sobre fundos de pensão pelo resto da vida.
— Gina. Que bom que você veio.

Olhei para ele e quase engasguei com o champanhe. É Harry Potter, o todo-poderoso da Potter Communications, olhando direto para mim como se soubesse exatamente o que estou pensando.

Só o encontrei poucas vezes e sempre me sinto pouco à vontade perto dele. Para começar, tem uma reputação de dar medo. Todos sempre falam de seu talento, até meu chefe Phillip. Criou a Potter Communications do nada, e agora é a maior empresa de RP financeiras de Londres. Alguns meses atrás foi citado em alguns jornais como um dos mais inteligentes empresários de sua geração. Diziam que seu QI é um fenômeno de tão alto e que tem memória fotográfica. (Sempre detestei as pessoas com memória fotográfica.)

Mas não é só isso. É que ele sempre parece ter um olhar de reprovação quando fala comigo. Como se soubesse que sou uma completa fraude. Me ocorre que, de fato, ele pode saber. É provável que o famoso Harry Potter, além de ser um completo gênio, também consiga ler pensamentos. Ele sabe que, quando olho fixamente para algum gráfico maçante, acenando que sim com um ar importante na verdade estou pensando num bonito top preto que vi na Joseph e analisando se tenho condições de comprar as calças também.

— Conhece Cho, não? — diz Harry, e faz um gesto para a oriental imaculada ao seu lado.

Por acaso, não conheço Cho. Mas nem preciso conhecer. Elas são todas iguais, as garotas da Potter C, como são chamadas. Se vestem bem, falam bem, são casadas com banqueiros e não têm nenhum senso de humor.

— Gina — diz Cho friamente, segurando minha mão. — Você está na Successful Saving, não é?

— Isto mesmo — digo eu, igualmente fria.

— Foi muito gentil da sua parte ter vindo hoje — diz Cho. — Sei que vocês jornalistas são muito ocupados.

— Nenhum problema — retruquei. — Gostamos de participar do maior número possível de entrevistas coletivas. Para estar em dia com os eventos da área. — Fico contente com minha resposta. Estou quase acreditando em mim mesma.

Cho acena afirmativamente com a cabeça, séria, como se tudo o que disse fosse incrivelmente importante para ela.

— Então me diga, Gina. O que achou das notícias de hoje? — Aponta para o FT debaixo de meu braço. — Foi uma surpresa tanto, não achou?

Ah, meu Deus. Do que ela está falando?

— Com certeza é muito interessante — menciono, sorrindo para ganhar tempo. Olho em torno da sala procurando uma dica, mas não há nada. O que aconteceu? As taxas de juros subiram ou algo assim?

— Devo dizer que considero isso uma má notícia para o ramo — diz Cho séria. — Mas claro, você deve ter seu próprio ponto de vista.

Ela está me olhando, esperando uma resposta. Posso sentir meu rosto brilhando de tão vermelho. Como sair dessa? De agora em diante, prometo a mim mesma, vou ler os jornais todos os dias. Nunca vou ser pega assim outra vez.

— Concordo com você — acabo dizendo. — Acho que são notícias muito ruins. — Minha voz soa estrangulada. Tomo rápido um grande gole de champanhe e rezo para que aconteça um terremoto.

— Você estava esperando? Sei que vocês jornalistas sempre estão à frente das notícias.
— Eu... eu certamente vi que estava por acontecer — digo e acredito ter soado convincente.

— E agora esse rumor sobre a Scottish Prime e Flagstaff Life indo na mesma direção! — Ela olha para mim atenta. — Você acha que isto está mesmo para acontecer?

— É... é difícil dizer — replico e tomo um grande trago de champanhe. Que rumor? Ah, Deus, por que ela não me deixa em paz?

E então caio no erro de olhar pra Harry Potter. Ele está me observando com uma expressão estranha no rosto. Droga. Ele sabe que não tenho a menor idéia, não sabe?

— Cho — diz ele abruptamente. — Aquela é Maggie Stevens entrando. Você poderia...

— Claro — diz ela, treinada como um cavalo de corrida, e começa a caminhar suavemente em direção à porta.

— E, Cho — acrescenta Harry, e ela rapidamente se volta para ele —, quero saber exatamente quem sacaneou com esses números.

— Está bem — engole seco ela, e se afasta correndo.

Meu Deus, ele dá medo. E agora estamos sozinhos. Acho que eu podia fugir rápido.

— Bem — digo habilmente. — Preciso ir e...
Mas Harry Potter e inclina para mim.
— A SBG anunciou que eles assumiram o controla do Rutland Bank esta manhã — disse calmo.

E evidentemente, agora que ele disse, lembro de ter ouvido alguma coisa sobre o assunto nas notícias matinais do rádio.

— Sei que fizeram isso — replico orgulhosa. — Li no FT. — E antes que ele diga mais alguma coisa, me afasto para falar com Elly.

Quando a entrevista está prestes a começar, Elly e eu escapulimos para o fundo da sala e pegamos dois assentos juntos. Abro meu caderno de anotações, escrevo “Potter Communications” no topo da página e começo a desenhar flores em tranças descendo pela margem. Ao meu lado, Elly disca para o tele-horóscopo pelo celular.

Tomo um gole de champanhe, me inclino para trás e me preparo para relaxar.Não faz sentido ouvir uma entrevista coletiva. A informação está sempre no release e podemos descobrir depois o que eles estavam falando. Na verdade, estou pensando se alguém perceberia se eu pegasse um vidro de esmalte e fizesse minhas unhas quando, de repente, Gina inclina-se para mim.

—Ginevra?

— Sim? — digo com ar de preguiça.

— Telefone para você. É seu editor.

— Philip? — respondo com um ar de desinteresse. Como se eu tivesse uma coleção de editores para escolher.


— Sim. — Ela olha para mim como se eu fosse débil mental e aponta para um telefone numa mesa ao fundo. Elly me dá um olhar interrogativo e respondo que não sei do que se trata com os ombros. Philip nunca me telefonou em uma entrevista coletiva antes.

Sinto-me de certa forma feliz e importante enquanto me encaminho para o fundo da sala. Talvez haja uma emergência no escritório. Talvez ele tenha um furo de reportagem de uma história incrível e queira que eu voe para Nova York atrás de informação.

— Alô, Philip? — falo no receptor, logo depois me arrependo de não ter dito alguma coisa forte e impressionante como um simples “Sim”.

— Gina, ouça, sinto muito atrapalhar — diz Philip — mas estou com uma enxaqueca se aproximando. Vou direto para casa.

— Ah — digo intrigada.

— E pensei que você poderia fazer uma coisinha na rua para mim.

Uma coisinha? Quem ele pensa que eu sou? Se ele quer alguém para comprar-lhe paracetamol, deveria contratar uma secretária.

— Não tenho certeza — respondo com uma voz desencorajadora. — Estou um pouco enrolada aqui.

— Quando tiver terminado aí. A Comissão Especial da Previdência Social estará liberando seu relatório às cinco horas. Você pode pegá-lo? Poderia ir direto da sua coletiva para Westminster.

O quê? Olho para o fone horrorizada. Não, eu não posso pegar o maldito relatório. Preciso pegar meu cartão VISA! Preciso garantir minha echarpe.

— Lilá não pode ir? — digo. — Eu ia voltar para o escritório para terminar minha pesquisa sobre... — Sobre o que devo escrever este mês? — Sobre hipotecas.

— Lilá tem uma reunião no Centro da cidade. E Westminster é no seu caminho de casa na direção de Fulham, não é?

Philip sempre tem que fazer uma piada sobre eu morar em Fulham. Só porque ele mora em Harpenden.

— Você pode simplesmente sair do metrô — diz ele —, pegar o material e voltar para o metrô.

Ah, Deus. Não consigo imaginar nenhuma forma de sair dessa. Fecho meus olhos e penso rápido. Correr de volta para o escritório, pegar meu cartão VISA, voltar para a Denny and George, comprar minha echarpe, correr para Westminster, pegar o relatório. Devo conseguir isso tudo justinho.

— Está bem — digo. — Deixe comigo.

Volto para meu lugar, ao mesmo tempo que as luzes esmaecem e as palavras OPORTUNIDADES NO EXTREMO ORIENTE aparecem na tela à nossa frente. Há uma série variada de fotos de Hong Kong, Tailândia e outros lugares exóticos, que normalmente me fariam sonhar em ir lá numas férias. Mas hoje não consigo relaxar ou mesmo rir da nova garota da Portfolio Week que está como uma louca tentando anotar tudo e provavelmente fará cinco perguntas porque acha que deve. Estou preocupada demais com minha echarpe. E se eu não conseguir voltar a tempo? E se alguém fizer uma oferta mais alta? O pensamento me faz sentir pânico. É possível surrupiar uma echarpe da Danny and George?

Depois, quando as fotos da Tailândia desaparecem e os gráficos maçantes começam, tenho uma luz de inspiração. Claro! Vou pagar a echarpe em dinheiro. Ninguém pode discutir com dinheiro. Posso tirar cem libras com meu cartão do banco e só preciso de mais vinte, e a echarpe será minha.

Rasgo um pedaço de papel do meu caderno, escrevo nele “Você pode me emprestar vinte paus?” e passo para Elly, que ainda está envolvida com o seu telefone celular. O que será que ela está ouvindo? Não pode ser o horóscopo até agora, certo? Ela olha para baixo, balança negativamente a cabeça e escreve: “Não posso. A infeliz da máquina engoliu meu cartão. Estou vivendo de Vale-Refeição no momento.”

Droga. Hesito e olho em volta. “E o cartão de crédito? Pago de volta, sinceramente. E o que você está ouvindo?”

Passo a página de volta para ela e de repente as luzes se acendem. A apresentação terminou e não ouvi uma palavra. As pessoas se agitam em suas cadeiras e uma relações-públicas começa a entregar lustrosas pastas. Elly terminou seu telefonema e sorri para mim.
— Adoro previsões sobre a vida — diz ela, discando outro número. — São realmente precisas.

— Um monte de besteiras, isto sim. — Balanço minha cabeça em sinal de reprovação. — Não posso crer que você acredita nessas besteiras todas. E se considera jornalista de finanças?

— Não — diz Elly. — Você se considera? — E nós duas começamos a gargalhar até que uma jornalista mala se vira e nos dirige um olhar mal-humorado.

— Senhoras e senhores. — Uma voz aguda nos interrompe e eu olho. É Cho, de pé em frente da sala. Tem belas pernas, percebo ressentida. — Como podem ver, o Plano de Poupança das Oportunidades Exóticas da Foreland representa uma abordagem inteiramente nova de investimento. — Ela observa a sala, encontra meu olhar e sorri friamente.

— Oportunidades Exóticas — sussurro num tom jocoso para Elly e aponto para o folheto.
— Preços exóticos, melhor dizendo. Você já viu quanto eles estão cobrando?

(Sempre leio primeiro à parte dos preços. Como sempre olho primeiro as etiquetas dos preços.)

Elly revira os olhos em concordância, ainda ouvindo seu telefone.

— A Foreland Investments agrega valor — diz Cho com seu tom de voz superior. — A Foreland oferece mais a você.

— Ela cobra mais, você perde mais — digo alto sem pensar, e soa uma risada na sala. Deus, que embaraçoso. E agora Harry Potter me observa também. Rapidamente dirijo o olhar para baixo e finjo estar tomando notas.

Se bem que, para ser sincera, não sei por que ainda finjo tomar notas. Como se nós puséssemos qualquer coisa na revista que não fosse a propaganda que vem no release. A Foreland Investments coloca um anúncio espalhado numa chamativa página dupla todo mês, e ela levou Philip numa fantástica viagem de pesquisa (ah, ah) para a Tailândia no ano passado — então nós não temos a permissão de dizer nada a não ser o quanto são maravilhosos.

Enquanto Cho continua falando, me inclino em direção à Elly.

— Então ouça — murmuro. — Posso pegar seu cartão de crédito emprestado?

— Já estourei — sussurra Elly numa expressão de desculpa. — Já alcancei meu limite. Por que você acha que estou vivendo de vales?

— Mas preciso de dinheiro! — murmuro. — Estou desesperada! Preciso de vinte paus!

Falo mais alto que o pretendido e Cho pára de falar.

— Talvez devesse ter investido na Foreland, Gina— diz Cho, e uma nova risadinha toma conta da sala. Alguns rostos voltam-se para mim e devolvo um olhar pálido. São colegas jornalistas, pelo amor de Deus. Deveriam estar do meu lado. Onde está a solidariedade entre colegas?

Não que eu tenha me filiado o sindicato dos jornalistas. Mas mesmo assim.

— Para que você precisa de vinte libras? — diz Harry Potter , da frente da sala.

— Eu... minha tia — digo, desafiando. — Ela está no hospital e eu queria presenteá-la.

A sala está em silêncio. Depois, para minha incredulidade, Harry Potter leva a mão ao bolso, tira uma nota de vinte libras e entrega a um rapaz na fileira da frente de jornalistas. Ele hesita e passa para a fileira atrás dele. E assim, continuando, a nota de vinte libras é passada de mão em mão, fazendo seu caminho até mim como um fã num show de rock sendo carregado pela multidão. Quando chega a mim, uma rodada de aplausos toma conta da sala e eu enrubesço.

— Obrigada — respondo, embaraçada. — Vou pagar-lhe de volta, claro.

— Minhas recomendações para sua tia — diz Harry Potter.

— Obrigada — respondo novamente. Olho de repente para Cho e sinto uma pontada de triunfo. Ela parece inteiramente desapontada.

Perto do final da sessão de perguntas e respostas, as pessoas começam a escapar para seus escritórios. Geralmente é nesse momento que compro um cappuccino e dou uma olhada nas lojas. Mas hoje não. Hoje decido que vou ficar até a última pergunta sobre sistemas tributários. Depois vou até a frente para agradecer a Harry Potter e, pessoa por seu gesto bondoso, talvez embaraçoso. E depois saio e compro minha echarpe. Oba!
Mas, para minha surpresa, depois das primeiras perguntas apenas, Harry Potter levanta-se, sussurra algo para Cho e dirige-se à porta.

— Obrigada — murmuro quando ele passa por minha cadeira, mas nem sequer estou certa se me ouviu.

Mesmo assim, e daí? Tenho as vinte libras e é isso que isto que importa.

No caminho de volta para Westminster,o metrô pára num túnel sem nenhuma razão aparente. Passam-se cinco minutos, depois dez minutos. Não consigo acreditar na minha falta de sorte. Normalmente, claro, fico querendo que o metrô enguice para ter uma desculpa para ficar longe do escritório por mais tempo. Mas hoje me comporto como um estressado homem de negócios com uma úlcera. Bato os dedos, suspiro e olho pela janela para a escuridão do túnel.

Em parte eu sei que tenho tempo suficiente para chegar à Denny and George antes de fechar. Por outro lado sei que, mesmo que eu não consiga, é improvável que a garota loura venha minha echarpe para outra pessoa. Mas a possibilidade existe. Portanto, até eu ter aquela echarpe nas minhas mãos, não conseguirei relaxar.

Quando o trem finalmente volta a funcionar, afundo no meu assento com um suspiro dramático e olho para o homem pálido e silencioso à minha esquerda.

— Graças a Deus! — digo. — Eu estava ficando desesperada.

— É frustrante — concorda ele, calmo.

— Eles simplesmente não pensam, não é? — digo eu. — Quero dizer, alguns de nós temos coisas importantíssimas a fazer. Estou com uma pressa horrível!

— Eu também estou com um pouco de pressa — diz o homem.

— Se este trem não tivesse começado a andar, não sei o que eu teria feito. — Balanço minha cabeça. — Você se sente tão... Impotente!

— Sei exatamente o que você quer dizer — diz o homem com intensidade. — Eles não percebem que alguns de nós... — aponta na minha direção — não estamos viajando à toa. Faz diferença se chegamos ou não.

— Com certeza! — digo. — Para onde está indo?

— Minha mulher está em trabalho de parto — diz ele.— É nosso quarto filho.

— Ah — respondo estupefata. — Bem... Meu Deus. Parabéns. Espero que chegue...

— Ela levou uma hora e meia da última vez — diz o homem, esfregando sua testa úmida.

— E já estou neste trem há quarenta minutos. Ainda assim. Pelo menos estamos andando agora.

Encolhe um pouco os ombros e sorri para mim.

— E você? Qual é seu negócio urgente?
Meu Deus.

— Eu... ahn... vou...

Paro covardemente e dou uma tossida, sentindo enrubescer. Não posso dizer a esse homem que meu negócio urgente consiste em comprar uma echarpe na Denny and George.

Quero dizer, uma echarpe. Não é nem um tailleur ou um casaco, ou algo que valha a pena assim.

— Não é tão importante assim — ouço-me dizer entre dentes.

— Não acredito — responde ele gentilmente.

Ah, agora sinto-me horrível. Olho para cima — e graças a Deus é minha estação.

— Boa sorte — digo e me levanto correndo. — Realmente espero que chegue lá a tempo.

Enquanto ando pela calçada sinto-me um pouco envergonhada. Talvez eu devesse ter pego minhas cento e vinte libras e dado àquele homem para o seu bebê, em vez de comprar uma echarpe sem nenhuma finalidade específica. Quero dizer, quando você pensa a respeito, o que é mais importante? Roupas — ou o milagre de uma nova vida?

Pondero sobre a questão e me sinto profunda e filosófica.De fato estou tão absorta que quase passo da rua. Mas olho justamente a tempo de virar a esquina — e sentir um golpe. Uma garota vem na minha direção carregando uma sacola da Denny and George. De repente tudo é varrido da minha mente.

Ah, meu Deus.

E se ela comprou minha echarpe?

E se pediu especialmente aquela, e a vendedora deu achando que eu não voltaria?

Meu coração começa a bater em pânico e ando com passadas maiores em direção à loja. Quando chego na porta, abro e quase não consigo respirar de medo. E se ela não estiver mais lá? O que farei?

Mas a garota loura sorri quando entro.

— Oi! — diz ela. —Ela está esperando por você.

— Ah, obrigada — digo aliviada e me apóio no balcão devido à minha fraqueza.

Honestamente sinto como se tivesse corrido de um assaltante para chegar lá. Na verdade, acho que deviam incluir as compras como uma atividade cardiovascular. Meu coração nunca bate tão rápido quanto ao ver um aviso de "desconto de 50%".

Conto o dinheiro em notas de dez e vinte e aguardo, quase tremendo de arrepios, enquanto ela se abaixa por trás do balcão e reaparece com a caixa verde. Desliza-a para dentro de uma sacola grossa e brilhante com alças de corda verde-escura e depois me entrega. Quase fecho meus olhos, a sensação é maravilhosa.

Aquele momento. Aquele momento em que seus dedos se enroscam nas alças de uma sacola brilhante, sem nenhum vinco — e todas as coisas novas e lindas dentro dela passam a ser suas. Como é? É como passar fome durante dias, depois encher a boca de torrada com manteiga quentinha. É como acordar e perceber que é fim de semana. É como os melhores momentos do sexo. A minha mente bloqueia qualquer outro pensamento. É um prazer puro, egoísta.

Ando vagarosamente para fora da loja, ainda com uma sensação inebriante de prazer. Tenho uma echarpe Denny and George. Tenho uma echarpe Denny and George! Tenho...

—Ginevra . — Uma voz masculina interrompe meus pensamentos. Olho e meu estômago treme de horror. É Harry Potter.

Harry Potter está em pé na rua, bem na minha frente, e está olhando para minha sacola. Vou ficando cada vez mais nervosa. O que ele está fazendo aqui na calçada afinal? Pessoas como ele não têm motoristas? Não deveria estar se dirigindo rapidamente a alguma recepção importante ou algo assim?

— Comprou direitinho? — diz ele, franzindo um pouco as sobrancelhas.

— O quê?

— O presente de sua tia.

— Ah, sim — respondo engolindo. — Sim, eu... eu o comprei.

— É isso? — ele aponta para a sacola, e sinto meu rosto queimar.

— Sim — digo afinal. — Achei que uma... echarpe seria bom.

— Muito generoso da sua parte. Denny and George. — Ele levanta as sobrancelhas. —
Sua tia deve ser uma senhora elegante.

— Ela é — respondo e limpo a garganta. — É incrivelmente criativa e original.

— Estou certo disso — diz Harry e pára. — Qual é o nome dela?

Ah, Deus. Eu devia ter fugido logo que o vi, enquanto tinha chance. Agora estou paralisada. Não consigo pensar em um nome feminino sequer.

— Erm... Ermintrude— ouço minha voz respondendo.

— Tia Ermintrude — diz Harry pensativo. Bem, dê-lhe minhas lembranças.

Faz um aceno com a cabeça, afasta-se, e fico observando, pensando se ele descobriu ou não.


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