“Aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade”
Expresso Hogwarts
Era estranho estar sozinha naquele trem, principalmente na cabine onde costumava se sentar com Rony e Harry. Ainda faltavam quinze minutos para o expresso partir. Minutos que pareciam não ter fim. Durante um ano ela desejou, mais do que tudo, rever Draco e agora, que o veria, o medo se apoderava de seu corpo.
Tinha um medo profundo de fracassar. Hermione sabia dos riscos, ela sabia que havia uma missão a ser cumprida. E sabia que aquilo era mais importante do que qualquer coisa no mundo, mesmo assim, tinha medo de perdê-lo.
Um assassino estava a solta, todos, mais uma vez, corriam perigo...
Batidas na porta da cabine a assustaram, do outro lado do vidro, o rosto fino de uma belíssima mulher a observava. O coração de Hermione disparou, era Narcisa Malfoy.
Sem cerimônias, Narcisa entrou na cabine e acomodou-se à sua frente.
-Sei porque você está indo à Hogwarts.
Hermione engoliu seco. Narcisa jamais havia conversado com ela. Pelo contrário, sempre se manteve distante.
As mãos geladas da elegante mulher tocaram as suas.
-Traga-o de volta em segurança. Não deixe que nada ruim aconteça a Draco.
Hermione deu um sorriso nervoso.
-Acredite. Vou fazer o impossível para que nada de ruim aconteça a ele.
Narcisa sorriu ao ouvir Hermione.
-Preciso sair antes que o trem parta, mas quero que saiba de uma coisa a respeito de meu filho: ele jamais te odiou...
Ela passou seus dedos trêmulos pela face de Hermione.
-Na verdade, ele quis protegê-la.
-Me proteger? – perguntou assustada.
Sem resposta.
Narcisa saiu da cabine sem olhar para trás.
Um presente inesperado
Mal desceu do trem, Hermione já escutou a voz de Hagrid lhe chamar. Era tão bom revê-lo, enfim um rosto familiar.
Ele a acompanhou até o castelo, onde encontraram-se com Minerva. Apesar do largo sorriso no rosto de sua antiga professora, Hermione percebeu uma preocupação em seu olhar.
-Acompanhe-me querida. Precisamos conversar.
Elas despediram-se de Hagrid e subiram até a antiga sala de Dumblendore. Mal entraram e Minerva já começou a lhe agradecer.
-Obrigada por atender ao meu pedido. Acredito que só você pode trazê-lo de volta.
-Desculpe-me. Mas não entendo porque afirma isso? Não sou a melhor, digamos, ‘amiga’ de Draco Malfoy.
-Minha querida. Você pode disfarçar o que sente para os seus amigos. Sabemos que os homens não são muito perceptíveis. Mas nós, mulheres, conseguimos ver além e não é preciso ser clarividente para perceber que você, em seu íntimo, mesmo que não queira, gosta dele e que ele, apesar de dizer o contrário, gosta de você também.
Hermione tentou negar, argumentar de alguma forma, mas foi vencida pela sábia experiência da professora.
-Quando você percebeu? – Ela perguntou.
-Muito antes de vocês. – Respondeu Minerva sorrindo enquanto abria a gaveta da velha escrivaninha. – Leve isso com você. – Pediu.
Admirada, Hermione pegou das mãos de Minerva um colar. Ele tinha o cordão bem fino, porém uma enorme pedra de diamante o ornamentava.
-Use-o. No momento certo ele poderá lhe ser útil.
-A quem pertenceu? – Perguntou, enquanto o colocava em seu pescoço.
-Sírius Black o deixou para você.
-Sírius?
-Sim. Ele tinha um grande carinho por você. Me fez prometer que um dia eu o entregaria. Enfim, o momento chegou...
Hermione segurou a pedra em sua mão. Sentiu um calor emanar por todo o seu corpo. Mesmo distante, Sírius ainda a protegia.
Bicuço
-Hagrid! Você está louco? Eu não vou voando para aquela ilha. Você tem noção da distância? Provavelmente não. – Protestava inutilmente, enquanto Hagrid a conduzia para a floresta.
- É a forma mais segura. Aparatar é perigoso e de vassoura, nem pensar. Você pode ser interceptada.
- Mas ir com Bicuço? É loucura!
Sem dar ouvidos ao que ela dizia, Hagrid trouxe Bicuço. Hermione o reverenciou, ao que o Hipogrifo correspondeu.
-Bicuço te adora Mione! É grato a você.
-Eu sei...mas...
Hagrid a pegou e a colocou em cima da criatura.
-Fique calma. Você chegará segura.
Hagrid a entregou sua pequena bolsa que continha tudo o que precisasse dentro.
-Fique tranquila. – Disse Hagrid. – Os trouxas não os verão. Draco soube se proteger.
- Isso quer dizer que ainda vou ter que procurá-lo. Mas, como encontrar um bruxo que conhece todos os feitiços de proteção?
-Você não entendeu Mione. Ele não quer ser incomodado por trouxas, ele sabe que você está indo ao encontro dele e a espera. – revelou Hagrid. – Boa sorte!
Antes que ela dissesse qualquer coisa, Hagrid ordenou que Bicuço partisse.
Em segundos, ela já sobrevoava o castelo e rapidamente já estavam acima das nuvens. A última vez que havia voado com Bicuço foi quando ela e Harry resgataram Sirius da prisão.
Procurou não pensar a respeito. A morte de Sírius ainda à pertubava muito...
Apesar de não gostar de voar. Hermione estava se sentindo muito bem. Aliás, há muito tempo não se sentia assim.
Era impressionante, quando o assunto era Draco Malfoy, seus sentimentos eram completamente contraditórios. Afinal, havia um assassino a solta, eles corriam risco de vida e, mesmo assim, sentia-se feliz. Era melhor não ficar tentando entender o que estava acontecendo.
Tudo corria bem. A paisagem era composta por um céu límpido, algumas nuvens e um vento frio, mas relaxante. De repente Bicuço mudou a rota abrubtamente e seguiu na direção de um arco-íris. Hermione jamais vira algo parecido, era muito cintilante, logo ela constatou que na verdade tratava-se de um portal.
Ao passarem por ele, a paisagem mudou, o vento não era mais frio e o sol brilhava intensamente. O Hipogrifo passou por entre as nuvens e logo Hermione pode contemplar uma paisagem que jamais vira. O mar era intensamente azul, sobrevoavam tão próximos à água que ela podia ver golfinhos nadando.
Assim que Hermione avistou a ilha, seu coração acelerou. Conforme se aproximaram, percebeu que alguém a esperava, era Draco.
Sem limites
Bicuço aterrisou delicadamente na areia. Draco aproximou-se, reverenciou o Hipogrifo, que correspondeu ao seu cumprimento. Ela estranhou a cena, afinal, Draco jamais respeitou Bicuço. Lembrou-se do dia em que lhe enfiou um soco na cara por causa disso.
Por alguns segundos Hermione o observou e percebeu que o preto constante das roupas de Draco havia sido substituído por uma calça e camisa brancas, de tecido bem leve, o que constratava totalmente com a roupa que ela usava, muito pesada para o calor que fazia.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele lhe estendeu a mão e a ajudou a descer.
O toque da mão dele, a deixou nervosa. Quando desceu de Bicuço, os dois ficaram tão próximos que ela pôde contemplar todos os detalhes do rosto de Draco. Os lábios finos, a pele clara; o cabelo, desalinhado, estava mais cumprido e caia um pouco sobre os seus olhos, que estavam mais azuis do que o normal. Ele continuava extremamente lindo e, para ela, isso era muito perigoso.
-Saudades Granger? – A provocou sorrindo
Hermione lembrou-se dos tempos de Hogwarts, de como ele a provocava o tempo todo. Aquele sorriso de canto de boca a deixava possessa de raiva; mas mesmo assim fazia seu coração acelerar.
E o dela estava acelerado demais, precisava se acalmar. Não sabia muito bem o que responder, mas ele tinha razão, ela estava com saudades.
-Você sabe porque estou aqui? – Respondeu, escondendo o seu nervosismo.
O sorriso desapareceu do rosto de Draco. Seus olhos entristeceram. Ele afastou-se dela.
-Sim. Eu sei. Mas pode desistir, não retornarei, muito menos com você!
Draco deu as costas para Hermione e chutou a areia.
-Você não devia ter vindo. – Falou asperamente sem a olhar.
Hermione aproximou-se dele, fez menção de tocar-lhe o ombro, mas não prosseguiu.
-Vá embora Granger! Não a quero aqui! – Ele gritou, ainda sem a olhar.
Ela sentiu o seu corpo tremer, ele tinha o dom de despertar nela os sentimentos mais intensos. Não iria embora sem tentar. Não iria embora sem saber se o que ele dizia era realmente verdade, não dessa vez.
- Olhe para mim! – Ela gritou. – Diga isso olhando para mim!
Sem resposta.
-Me disseram que você havia mudado. Mas vejo que continua o mesmo...
Ele não se virou. Não teve coragem de encará-la.
-O que você quer de mim Granger? – Perguntou.
-Que ao menos uma vez, você não minta para mim, que...
Hermione não terminou a frase. Draco virou-se ao seu encontro e a interrompeu com um beijo inesperado, violento. As mãos dele a evolveram, por um momento ela pensou que desmaiaria, o toque dele era forte, os lábios quentes, sentiu prazer, sentiu luxúria. Ela não pensou em nada, apenas permitiu-se sentir. Sentir a paixão que a fazia transpor os limites de sua coerência, os limites de si mesma...
Depois do beijo, silêncio. Delicadamente ele segurou o rosto de Hermione com as duas mãos, olhando-a nos olhos, como jamais havia feito.
-Você só precisa saber de uma coisa ao meu respeito: nunca te odiei. – Disse pausadamente. - A verdade é que eu sempre quis te proteger. – Ele prosseguiu. – Sempre quis te proteger do preconceito de meu pai, do ódio de minha tia, da ira de Voldemort, do medo de minha mãe e ... – ele respirou fundo. – ... da minha paixão doentia por você.
Ele a beijou novamente e a paixão daquele beijo era incontestável.