Capítulo XVI
A viagem levou quatro horas. Ela queria que sua chegada não fosse anunciada, por isso, em vez de aterrissar no palácio, o avião real posou no aeroporto de Calista, onde um carro de luxo a levou pelas ruas antigas a um lugar onde nunca estivera.
Ela estava feliz por ter Sírius com ela, porque houve uma certa dificuldade nos portões do palácio.
Foi Sírius quem suavizou o caminho e sugeriu que seria extremamente rude mantê-la esperando. Após um breve momento, os portões foram abertos e Hermione convidada a entrar.
— Você pode voltar para o avião — disse Hermione. — Harry não precisa saber que me trouxe aqui.
— Esperarei por você — disse Sírius. — Entre. Conheço muitos dos auxiliares do rei Neville, passarei o tempo conversando com eles.
Uma rainha Luna bastante confusa a saudou à entrada, enquanto a babá se afastava com um bebê aos choros.
— Perdoe-me. — A rainha Luna ficou de pé. — Estava dando comida ao bebê, não a estávamos esperando. James não... — Ela parou e abanou a cabeça. — Desculpe-me, Harry não... Aceita um chá? Alguma coisa para beber?
— Só quero falar com meu marido.
— Por favor. — Luna gesticulou. — Não quer se sentar?
— Não, obrigada.
Havia uma impetuosidade em Hermione que Luna reconheceu como igual à de uma época em sua própria vida: não importava quem estivesse presente, ela dizia o que pensava. Claramente preocupada, Luna ordenou que a serva saísse como precaução.
— Ele saiu para andar a cavalo — disse Luna.
— Quando voltará?
— Sinto muito, não sei. Você não quer dar um passeio pelo jardim?
— Não vim aqui para passear. Estou aqui para ver meu marido. Para saber o porquê de, uma semana depois do casamento, ele escolher passar o tempo conhecendo sua família em vez de sua noiva.
— Talvez haja coisas sobre as quais os reis precisem conversar.
— Isso é uma piada? Acha isso aceitável? Deve achar, afinal você o convidou para se juntar a Portugal. Estou errada em querer ver meu marido?
— E claro que não. — Luna chorava, se lembrando do inferno de sua própria lua de mel, quando Neville dissera a ela que seu casamento era por conveniência apenas.
Depois de um tempo, o casamento deles era forte e amoroso, e em tudo Neville a ouvia. Mas não no que dizia respeito ao irmão desaparecido. Para Neville, era simples: James precisava voltar para casa.
— Quero ver meu marido — disse Hermione finalmente. — Sinto muito se isso a deixa desconfortável ou se é uma imposição, mas não vou embora até falar com ele.
Só então ela se sentou e Luna sabia que Hermione não ia a lugar algum até obter respostas.
— Ele saiu com Morte antes do amanhecer.
— Morte?
— O cavalo. Dissemos que não era aconselhável, mas ele estava querendo tanto que não ouviu ninguém. Partiu faz...
— Não acredito em você. Quero que me leve até meu marido.
— Está escuro agora, o sol já se pôs há horas. — Hermione se negou a aceitar a impossibilidade.
— Harry não anda a cavalo, seus pais o proibiam de fazer isso.
— Por favor, Hermione — implorou Luna. — Neville foi procurar por ele. Estou do seu lado. Quero que você fale com Harry.
— Então, irá me mostrar onde ficam os estábulos.
— Você não pode sair.
— Não vou sair para procurá-lo. Vou esperar por sua volta, antes que você e seu marido cheguem até ele e falem em meu nome.
Ela recusou a oferta de Luna para se juntar a ela e, em vez disso, seguiu suas orientações até chegar ao luxuoso complexo de hipismo.
Era evidente que cavalos eram parte importante da vida da família real, porque o local era moderno, arejado e brilhante. Mas ninguém poderia manter Harry seguro ao cavalgar na escuridão. Em que diabos ele estaria pensando? Ela esperou uma eternidade.
Então ela o ouviu, ou, pelo menos, ouviu sons de cascos que podiam ser do cavalo de Neville. Mas não, quando olhou para a porta do estábulo, era Harry.
Ele desmontou do animal e o levou ao pátio. Hermione tirou os véus no escuro e ficou observando o rei se aproximando, se perguntado qual seria sua reação quando descobrisse que ela estava ali.
Ele cavalgara o dia todo, galopara a toda velocidade pelo deserto e, ainda assim, não encontrara paz, nem clareza de pensamento, apenas raiva: uma fúria ardente.
Estava cheio de Neville, de Luna, de eles ficarem dizendo o que devia fazer. Ninguém sabia o quanto estava atormentado.
— Harry.
Ele abriu a porta, acendeu a luz e lá estava ela, de pé, de vestido preto e salto alto, as pernas nuas, o cabelo com cachos negros e selvagens, o colar da legítima rainha da Inglaterra no pescoço.
— Meu avião está esperando no aeroporto. Se você não voltar comigo para França, partirei para Inglaterra esta noite.
— Então vá embora.
— Há papéis que precisamos assinar, coisas sobre as quais precisamos conversar.
— Não tenho nada a conversar com você e não assino documentos no estábulo.
— Harry?
Algo dentro dele se retorceu, porque ela nem ao menos sabia seu nome.
— Quando estiver vestida mais adequadamente, você poderá se encontrar comigo no palácio e falaremos de negócios.
— Eu não quero ir ao palácio.
— O que você quer? O que quer de mim? Diga agora.
— O que tínhamos antes — disse Hermione. Só Harry sabia que aquilo era impossível.
— Você quer um rei?
— Não! Eu quero você, Harry. É você que eu quero.
— Eu? — Que piada... Ela nem ao menos sabia quem ele era. Harry chutou a porta do estábulo, fechando-a atrás de si.
— Você não sabe nada sobre mim — rosnou Harry. — E, ainda assim, exige tudo. Fizemos um acordo, agora você resolveu mudar as regras.
— NÓS resolvemos! — O grito de Hermione foi tão poderoso quanto o dele. — Quando fizemos amor, quando nos beijamos, quando conversamos; aquilo não eram apenas negócios.
— Então, você está reclamando que fui bom demais para você? Que o sexo foi bom demais?
— Você está distorcendo minhas palavras. — Ela se recusava a simplesmente dar a costas e voltar e, agora, Harry a admirava por isso. Mas ele temia por ela também. Por causa da vergonha que o escândalo poderia causar e, também, no seu íntimo, porque não queria ver a decepção em seus olhos quando ela descobrisse quem ele era.
— Não quero negócios. Não quero vidas separadas, você com suas amantes, com outras mulheres. Quero você todo para mim. — Hermione tentava articular sua confusão, mas Harry não podia mais agüentar.
— Por isso veio aqui vestida como uma prostituta?
— Como você preferia que eu me vestisse? — Hermione exigiu saber. — Você me transformou nisto, Harry. Eu estava preparada para fazer apenas sexo, mas você exigiu mais. Você trouxe à tona a mulher que há em mim, e agora está me mandando de volta, agora quer a humilde virgem que o obedece. Bem, ela se foi.
— Vá embora! — gritou ele. — Volte para o palácio.
— Eu não quero voltar! — Ela estava implorando novamente. Era a rainha e nunca havia implorado, mas não podia mais aguentar aquilo. — Quero que faça amor comigo.
— Bem, por que não disse isso, simplesmente? — Harry gritava, andando em direção a ela e abrindo o zíper de sua calça de montaria. Ela o viu ereto e, então, lhe sentiu a boca, selvagem e forte, sobre a sua. Ele a estava empurrando para o chão, suas mãos estavam por toda parte, seu corpo era um peso sólido sobre o dela, imobilizando-a, levantando-lhe o pesado vestido de seda, lhe rasgando a calcinha, lhe esmagando a boca, com os joelhos empurrando suas coxas. E, então, Harry parou.
— E isso o que você quer? — perguntou ele, e Hermione estava a ponto de chorar como nunca estivera antes. Era melhor gritar.
— Você sabe que não!
O rosto dele se enterrou em seu pescoço e Harry sentiu o frio colar, os séculos de tradição. Podia manter tudo aquilo, junto com a mulher que estava em seus braços, se pudesse permanece calado, se não contasse a ela a verdade.
— O que é que você quer?
— Você.
— Não posso ser rei.
Daquela vez, ao ouvir o desespero daquele homem forte, ela não agiu como rainha, porque já havia aprendido a lição. Ela não exigiu respostas. Em vez disso, agiu como amante dele, porque sabia que aquilo era terrível, sabia que não conseguia pensar, porque, se pensasse, então deveria falar.
Era Hermione quem o beijava agora, beijos frenéticos para tentar evitar o que viria a seguir. Ela sabia que ele estava sofrendo, também temia por ele. Por isso, o afastou pela última vez daquela sensação ruim que ele sentia e, de repente, eram só os dois de novo. Ela realmente acreditava que eles podiam dar certo, e seu corpo, longe de lutar contra ele, o estava aceitando, se igualando ao frenesi de seu desejo.
— Quero você — disse Hermione e, por ora, ele lhe pertencia.
Estava dentro dela. E, ainda assim, ela queria mais; não queria chegar ao clímax, porque sabia que então, tudo acabaria, mas seu corpo estava vivo e ela tentou controlá-lo.
Harry estava fazendo força para dentro dela e seu corpo ansiava por ele, o tragava e, ainda assim, ela lutava contra aquilo. Mas o estava segurando firme em seu centro, as mãos o puxavam mais e mais para dentro, enquanto a mente, contrária, lutava por apenas alguns minutos a mais.
Aquela paixão, todo aquele desejo não podia ser sustentado por uma só pessoa, e ela sabia em seu íntimo que Harry estava prestes a romper o acordo.
Ele foi surpreendentemente carinhoso depois: beijou-a, ajudou a ficar de pé e se vestir. Tirou a sujeira de sua roupa.
Em seguida, olhou bem fundo nos olhos dela:
— Há certas formalidades que precisam ser cumpridas. Devo voltar para Paris por algum tempo e é claro que você tem que voltar para Londres e... — Ele fez uma pausa, esperando por uma pergunta, esperando que Hermione o interrompesse. Mas ela não o fez, e ele não podia ter ficado com mais orgulho dela.
Podia ver que Hermione estava se preparando para enfrentar o que quer que tivesse para lhe dizer.
— Se ainda quiser permanecer casada, iremos prosseguir com nosso acordo original. Com uma diferença: eu irei morar em Portugal.
— Portugal? — Agora era ela que o questionava. Havia se preparado para o fato de que não a desejasse, de que não quisesse governar a seu lado. Nesse caso, aceitaria os fatos com dignidade. Mas aquilo ela não era capaz de compreender. As palavras de Harry não faziam o menor sentido. — O que está querendo dizer? Se eu ainda quiser continuar casada? Não pode haver divórcio.
— Eu não sou o rei Harry da França. Sou o desaparecido príncipe sheik James de Portugal.
— Não entendo — sussurrou Hermione. — Harry.
— Meu nome é James — corrigiu ele. — Isso significa que nosso casamento não é válido. O Harry com quem você se casou não existe. Eu nunca fui esse homem. Eu não sou seu marido.