As conseqüências dos nossos atos são sempre tão complexas, tão diversas, que predizer o futuro é uma tarefa realmente difícil."
O recomeço
Recomeçar nunca é fácil, principalmente quando algo não está resolvido. Apesar da vitória, Hermione sentia-se derrotada por dentro, as perdas haviam sido irreparáveis. Ela sentia falta de seus pais, dos amigos que se foram, de sua casa, nada existia mais.
Harry e Rony estavam sempre ao seu lado. Os três começaram a trabalhar no Ministério da Magia. Tornaram-se famosos, lendas vivas. Para ela, nada disso importava.
Mesmo contrariando Rony, ela decidiu deixar a Toca e ir morar sozinha em um pequeno apartamento em Londres. Precisava de espaço, de um lugar onde pudesse ser ela mesma sem se preocupar com as outras pessoas. Um lugar onde pudesse pensar, sem culpas, naquele que representava o seu lado mais sombrio.
Rony e Draco, luz e trevas em seus pensamentos.
Um ano se passou. Todos estavam bem, porém algo a preocupava, sentia-se triste e, por mais que tentasse negar a si mesma, estava anciosa por notícias de Draco.
Silêncio.
Ninguém sabia sobre o seu paradeiro, ninguém se importava. Ninguém, menos ela.
Ciúme
Era madrugada e Draco ainda estava acordado. Seus pensamentos se limitavam à uma única pessoa: Hermione Granger.
Era difícil assumir para si mesmo, mas não havia conseguido apagá-la de sua mente, não havia um dia em que não pensasse nela. Afastou-se para não sofrer, para não ser obrigado a ver a felicidade dela com aquele insuportável.
Lembrou-se do dia em que decidiu procurá-la no Ministério para dizer-lhe a verdade sobre ele. Para dizer que nunca teve o controle real de sua vida, que o seu pai, por medo de Voldemort, o sacrificou e o proibiu de qualquer aproximação com ela.
Após observá-la por alguns dias perdeu a coragem e foi embora. Ela estava sempre rodeada pelo testa-rachada ou por um dos pobretões de cabeça vermelha. Não gostava da forma como ela sorria quando estava perto deles. Gostava menos ainda do modo como Harry passava o braço ao redor da cintura dela enquanto caminhavam ou da maneira como Ron mexia no cabelo dela. Isso nunca mudara. Era assim em Hogwarts, era assim no ministério.
O ciúme se tornou uma constante em sua vida. Mesmo longe, ele sofria por causa de Hermione. Era desesperador pensar nela nos braços de outro. Draco era acostumado a ter tudo o que queria, pelo menos até conhecer Hermione Granger.
Ponto final
Ao chegar do trabalho, Hermione cumpria criteriosamente uma estranha rotina. Primeiro averiguava sua caixa postal trouxa. Depois colocava todos os jornais do mundo bruxo em sua mesa e procurava deseperadamente por qualquer notícia que pudesse ser de Draco.
Em vão. Vez ou outra, falavam da nova vida de Lúcio Malfoy ao lado de sua esposa. Os dois fundaram um lugar para cuidar de bruxos e bruxas que, de certa forma, ficaram desamparados após a derrota de Voldemort. Porém, nenhuma palavra sobre Draco. Ele havia sumido completamente.
Batidas na porta interromperam a sua busca. Ao abrir, uma surpresa.
-Luna!
-Olá Mione!
-Que surpresa!
-Achei que talvez quisesse conversar...
Luna sempre a surpreendia com a sua singular sensibilidade. Ela era a única que sabia sobre o seu sentimento por Draco, confiava nela.
-Como sempre você acertou. Estou muito angustiada. – Falou ao puxar a amiga para dentro de sua casa. – Tem notícias dele?
-Sim. – Respondeu Luna distraidamente. – Meu pai encontrou com Narcisa ontem no Beco Diagonal e ela disse algo sobre Draco não ter se recuperado ainda dos a-contecimentos, que ele ainda está muito triste, afastado de tudo e todos.
Hermione sentiu-se aliviada, ao menos era uma notícia em meses.
-Ela contou ao seu pai onde ele está?
-Não... mas meu pai diz que ele foi visto no Ministério...
-Quando? – Perguntou Hermione aflita. – O que ele fazia lá?
-Na semana passada... acho que ele procurava por algo ou, quem sabe, alguém...
Depois de uma pausa Luna prosseguiu.
-Meu pai sempre me diz que quando não resolvemos assuntos que nos angustiam, jamais conseguimos prosseguir. Não há como começar uma história, sem colocarmos um ponto final em outra...
Hermione compreendeu o que Luna queria lhe dizer, mas não sabia exatamente o que fazer.
-Minha história com Draco não está inacabada. Ela jamais aconteceu. Ele me odeia e ponto.
-Se um sentimento é compartilhado, uma história se inicia. Independente de qual sentimento for... – divagou Luna.
As duas conversaram por um longo período até que Luna resolveu ir embora. Sonolenta, Hermione adormeceu no sofá.
Sonhou com Draco.
A missão
Embora fosse uma bruxa excepcional, Hermione gostava da simplicidade do mundo dos trouxas, de certo modo, era uma forma de lembrar da família que um dia teve.
O relógio tocava insistente, tinha que se levantar, porém, seu corpo pedia para que ficasse mais um pouquinho no sofá e, quem sabe, voltar a sonhar com Draco.
-Mione! – Alguém, a chamou.
O susto foi tão grande que ela despencou do sofá.
-Harry? O que faz aqui?
Ele estendeu a mão para ajudá-la a levantar-se sem conter o riso. Era engraçado ver a amiga sair da linha, pegá-la de surpresa...
-Desculpe-me. Não queria assustá-la.
-Tudo bem! – Respondeu ela um pouco constrangida. Ainda bem que Harry não podia ler sua mente, afinal, o sonho tinha sido, no mínimo, bem ‘interessante’. – O que faz aqui tão cedo? Alguma emergência no Ministério?
Potter lhe lançou um olhar que a fez lembrar de quando procuravam pelas Horcru-xes.
-O que aconteceu? Onde está Rony? – Perguntou assustada.
-Calma. Rony está bem. Mas temos um problema...
Hermione não pronunciou uma palavra. Coisas terríveis percorreram os seus pensamentos. Harry prosseguiu.
-Minerva me procurou. Bruxos estão desaparecendo.
-Não pode ser. Trabalhamos no Ministério. Não foi feita nenhuma ocorrência de desaparecimento. Sou rigorosa. Nada foge à minha inspeção. Zelo pela segurança de todos.
-Sei que se esforça Mione. Mas você não está levando em conta os bruxos que eram adeptos de Voldemort. Daqueles que, depois da guerra perdida, se esconderam por medo de represálias.
-Minerva sabe quem está por trás disso?
-Não. Por isso ela me procurou.
Harry sentou-se no sofá. Hermione fez o mesmo. Ele prosseguiu:
-Ela me contou que bruxos seguidores de Voldemort estão desaparecendo e, ontem, encontraram um bilhete junto a um corpo na Travessa do Tranco.
Ele retirou um envelope do bolso e o entregou a Hermione, que o abriu vorazmente.
Não pensem que a batalha foi vencida.
Primeiro vou me livrar dos comensais traidores.
Depois cuidarei daqueles que mataram o maior bruxo de todos os tempos.
Eu os repudio. Me vingarei de todos.
-O que isso quer dizer Harry?
- Isso quer dizer que estamos na mira de um louco que quer vingar a morte de Voldemort.
-Quantos já desapareceram? – perguntou aflita, com medo da resposta.
-Dez.
-E só agora nos comunicaram?
-Entenda. Todos estes bruxos viviam no mundo dos trouxas, disfarçados. As mortes pareceram apenas fatalidades, ninguém desconfiou...
-Quantos deles ainda restam?
-Quatro.
Potter entregou a pequena lista para Hermione. Dez nomes já encontravam-se riscados e quatro permaneciam intactos. Ao olhar para a lista, apenas um chamou a sua atenção:
Draco Malfoy
O ar lhe faltou. Hermione sentiu-se mal. Fechou os olhos. Não poderia permitir que o matassem. Tentou ser racional.
- Já localizaram as prováveis ví...vítimas?
- Sim.
O coração de Hermione disparou. Sabiam onde Draco estava.
-Nesta madrugada Rony partiu em missão atrás de um ex-comensal que encontra-se em algum lugar da Austrália. Não temos a localização específica. Ele tentará trazê-lo para Londres para mantê-lo em segurança, pelo menos, até conseguirmos prender o assassino.
Hermione franziu a testa. Por que Rony não a procurou para se despedir?
-Rony quis procurá-la antes de partir. – Disse Harry adivinhando os pensamentos da amiga. – Mas Minerva explicou a urgência. Pela ordem que aconteceram os assassinatos existe um padrão e o bruxo da Austrália com certeza será o próximo.
-Mas Rony corre perigo. - Afirmou aflita. - Com certeza ele virá atrás de nós!
-Provavelmente. Mas primeiro os comensais traidores. – Explicou Harry apontando para o papel nas mãos trêmulas de Hermione.
-Mione. Minerva acredita que você é a única capaz de convencer Malfoy a voltar para Londres.
Ela estremeceu.
-Ela está enganada. Malfoy me odeia. ‘Sangue ruim’ lembra-se? – Perguntou apontando para as veias do próprio pulso.
-Minerva acredita que ele é grato a você por ter polpado a vida dele naquele dia.
Hermione mordeu os lábios prevendo o que Harry lhe pediria a seguir.
-Você poderia tentar trazê-lo para Londres?
Um turbilhão de pensamentos invadiu a mente dela: o risco de perdê-lo, o alívio de vê-lo novamente, como poderia convencê-lo, será que ele a receberia?
-Onde ele está?
-Em uma ilha.
-Ilha? – Perguntou intrigada. – Pensei que os Malfoy detestassem esse tipo de lugar.
- Justamente. Quem iria desconfiar? Além do mais, Minerva disse que Draco está mudado, porém, bastante relutante em voltar.
-E Lúcio Malfoy? Ele também está na lista.
-Ele está seguro em sua casa. Temos bruxos cuidando da segurança dele e de Narcisa. Porém, eles não conseguiram convencer Malfoy a voltar, estão muito preocupados. Você é a nossa única esperança.
Hermione percebeu que não havia escolhas para ela e também sabia que em seu íntimo queria muito encontrar-se com Draco. Tinha muito medo deste sentimento.
Os amigos se entreolharam. Entre eles as palavras eram desnecessárias. Se abraça-ram.
-Tome cuidado. – Hermione pediu.
-Jamais confie em um Malfoy. – Advertiu Harry.
Potter passou algumas instruções para Hermione. Ela teria que ir à Hogwarts e encontrar-se com Hagrid. Ele a levaria ao encontro de Draco.
Despediram-se.
Enquanto pensava em todas as possibilidades de seu reencontro. Repetia as palavras do amigo para si mesma tentando se convencer:
“Jamais confie em um Malfoy”... jamais.
A sorte está lançada
Narcisa e Lúcio tomavam o café da manhã quando avistaram Draco pela janela. Narcisa não conteve as lágrimas, finalmente o filho havia voltado. Correu ao encontro dele e deu-lhe um forte abraço. Lúcio não se aproximou muito.
-Como você está? – Perguntou Draco visivelmente preocupado. – Fiquei sabendo por Hagrid que bruxos estão desaparecendo.
-Sim é verdade, mas creio que estamos seguros. – Respondeu Narcisa ainda abraçada ao filho.
-Não minta Ciça! – Advertiu Lúcio. – Você sabe que corremos perigo.
-E mesmo sabendo disso, você a coloca em risco? - Perguntou Draco rispidamente ao seu pai.
-Eu estou bem meu filho. - Afirmou Narcisa.
Draco a ignorou. Aproximou-se do pai e tocou-lhe o peito.
-Se algo acontecer com a minha mãe, eu não responderei por mim.
-Nada vai acontecer a ela. - Respondeu Lúcio.
-Assim como você garantiu que tudo daria certo para mim? Assim como você disse que só queria o meu bem? - Gritou. - Não suporto mais suas mentiras! Guarde-as para você!
-Não fale assim comigo garoto! - Advertiu Lúcio.
-Falo como eu quero! Você só pensa em você. Se criou este lugar para bruxos é só para aparecer. Você não tem compaixão nem pela sua família vai ter por estes infelizes?
Lúcio levantou a mão para Draco quando Narcisa se interpôs entre os dois.
-Parem com isso agora! Já temos problemas demais.
-Como você consegue conviver com este homem?
-Este homem é seu pai querido.
-Ele não é o meu pai há muito tempo...
Narcisa o abraçou mais uma vez. Ela estava nitidamente nervosa.
-Você estará mais seguro aqui meu filho. – Aconselhou.
-Não se preocupe. Tenho certeza que nada vai acontecer comigo. Estou mais se- guro longe daqui.
Antes que a mãe tentasse argumentar, Draco despediu-se e aparatou.
***
Desaparatou na casa de Hagrid que já o esperava.
-Preocupado Malfoy?
-Sim. Sinto que algo ruim está por vir.
Hagrid lhe deu um tapa nas costas.
-Então... fique dessa vez. Lute.
Draco o olhou seriamente.
-Esta guerra nunca foi minha e, agora que posso decidir, opto pelo meu afastamento. Ninguém se importa mesmo.
-Seus pais se importam, eu me importo e aposto que Hermione deve se importar também.
-Hermione?
Hagrid colocou as mãos nos lábios.
-Acho que não deveria ter dito isso...
-Fale. – Pediu Draco impaciente.
-Minerva pediu para Hermione conversar com você. Tentar convencê-lo a voltar para Hogwarts onde é mais seguro. Temos um assassino à solta!
-Ela vai perder tempo. Já decidi. Não volto.
-Escute-a Draco, ao menos uma vez.
- Fico traquilo Hagrid. Não vou ser mal educado com ela. Prometo.
Hagrid sorriu e acompanhou Draco até onde estava Bicuço.
Draco cumprimentou o Hipogrifo.
-É muito interessante... – Observou Hagrid.
-O que? – Perguntou Draco enquanto subia na ave.
-Há alguns anos você queria ver Bicuço morto e ele te odiava também, mas agora...
-Agora eu mudei. – Completou. – Você me ajudou muito nisso Hagrid. Você foi o único que confiou em mim, mesmo depois de tudo o que eu fiz.
-Sabe Draco, quando ninguém mais acreditava em mim, Dumblendore me deu uma chance, confiou em minha capacidade, assim como eu confio na sua. Você é um bruxo excepcional, tem talento, mas...
Draco lançou um sorriso.
-Sempre tem um ‘mas’... – Falou.
-Mas, deve se decidir. Escolher um lado que não seja somente o seu.
-Mas Hagrid, nunca fui de Grifinória. Sonserina, lembra-se? – Brincou Draco.
-Você entendeu o que eu quis dizer! – Gritou Hagrid enquanto Draco e Bicuço já levantavam voo.
-Até mais Hagrid. Não se preocupe, estaremos bem.
Hagrid ficou olhando Draco e Bicuço sumirem por entre as nuvens. Lágrimas des-ceram de seus olhos. Ao ver a cena, Minerva aproximou-se.
-O que houve Hagrid?
-A amizade entre Draco e Bicuço é muito forte. Eles superaram as diferenças.
-Sim. A mudança de Malfoy é perceptível, porém, ele ainda é muito teimoso.
-Draco tem uma personalidade forte Minerva. O respeito por isso. Tenho certeza que nossa Mione conseguirá convencê-lo.
-Estou certa disso também, mas temo que alguém saia machucado desta história...
Silenciosamente, os dois contemplaram o aparecimento das primeiras estrelas daquele início de noite.
-A sorte está lançada! - Profetizou Minerva.