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2. Cap Dois


Fic: GINA WEASLEY:DELÍRIOS DE CONSUMO NA QUINTA AVENIDA


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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DOIS

Bem, tá legal. Eu entrei um pouquinho no cheque especial. Mas o único motivo é que recentemente venho olhando as coisas a longo prazo, e investindo pesado na minha carreira. Harry, meu namorado, é empresário. Tem uma empresa de relações públicas e coisa e tal. E disse uma coisa há algumas semanas que realmente fez sentido para mim:

“As pessoas que querem ganhar um milhão, primeiro pegam emprestado um milhão.”

Honestamente, eu devo ter uma mente empresarial pela própria natureza, porque assim que ele disse isso tive uma estranha sensação de reconhecimento. Até me peguei murmurando em voz alta: ele está muito certo. Como é possível ganhar dinheiro se não gastar antes?

Por isso investi num bocado de roupas para usar na televisão – além de uns bons cortes de cabelo, manicures e tratamentos de pele. E algumas massagens. Porque todo mundo sabe que a gente não consegue um bom desempenho se estiver toda estressada, não é?

Também investi num computador novo, que custou 2.000 libras – mas é um item essencial porque, adivinha só, estou escrevendo um livro de auto-ajuda! Logo depois de ter uma participação regular no Morning Coffee eu conheci uns editores bem legais, que me levaram para almoçar e disseram que eu era uma inspiração para pessoas em dificuldades financeiras em todo o mundo. Isso não foi legal? Eles me pagaram mil libras antes de eu sequer escrever uma palavra – e vou ganhar muito mais quando tiver publicado. O livro vai se chamar O Guia Financeiro de Gina Weasley. Ou talvez Administre o Dinheiro Como Gina Weasley.

Ainda não tive tempo para começar, mas realmente acho que o mais importante é conseguir o título certo, e o resto simplesmente vai se encaixando. E não é que eu não tenha feito nada. Já anotei montes de idéias sobre o que vestir na fotografia.

Assim, basicamente, não é surpresa que eu esteja meio enfiada no cheque especial no momento. Mas o fato é que todo aquele dinheiro está lá fora, me esperando. E felizmente o meu gerente do banco, Derek Smeath, é muito simpático. Na verdade, é uma doçura. Durante um longo tempo à gente não se deu bem – o que eu acho que era mais um problema de comunicação do que qualquer coisa. Mas agora acho que ele realmente entende qual é a minha. E a verdade é que, claro, eu sou muito mais sensata do que era.

Por exemplo, tenho uma atitude completamente diversa com relação às compras. Meu novo lema é “Compre Só o Que Você Precisa”. Eu sei, parece quase simples demais – só que funciona mesmo. Antes de cada compra, eu me faço uma pergunta: “Eu preciso disso?” E só faço a compra se a resposta for “sim”. É só uma questão de autodisciplina.

Assim, por exemplo, quando vou à LK Bennett, sou incrivelmente concentrada e direta. Quando entro, um par de botas de salto alto atrai meu olhar – mas olho rapidamente para o outro lado e vou direto para onde estão as sandálias. É assim que faço compra hoje em dia: sem pausa, sem procurar muito, sem olhar outras coisas. Nem mesmo aquele novo mostruário de sapatinhos baixos com lantejoulas ali. Simplesmente vou direto até a sandália que eu quero, pego no mostruário e digo à vendedora:

- Quero um par dessas número trinta e sete, por favor.

Direta ao ponto. Só compre o que você precisa, e nada mais. Esta é a chave para o consumo controlado. Nem vou olhar para aqueles escarpins cor-de-rosa chiquérrimos, ainda que eles combinem perfeitamente com meu novo cardigã Jigsaw.

Nem para aquele sapato de tira com salto brilhante.

Mas são lindos, não são? Imagino como ficarão no pé.

Ah, meu Deus. Isso é difícil mesmo.

O que há com os sapatos? Bom, eu gosto de quase todo tipo de roupa, mas um par de sapatos fabulosos consegue me reduzir a geléia. Algumas vezes, quando não há mais ninguém em casa, eu abro o guarda-roupa e fico só olhando para todos os meus sapatos, como uma colecionadora louca. E uma vez eu enfileirei todos na cama e tirei uma foto. O que pode parecer meio estranho – mas pensei: eu tenho um monte de fotos de gente de quem não gosto, então por que não tirar uma de uma coisa de que eu gosto?

- Aí está!

Graças a Deus a vendedora voltou com minha sandália lilás numa caixa – e quando a vejo, meu coração dá um pulinho. Ah, ela é linda. Linda. Toda delicada e de tirinhas, com uma amora minúscula perto do dedo. Fico apaixonada por ela assim que olho. É meio cara – mas todo mundo sabe que não se deve ser pão-duro com sapatos, porque podem machucar os pés.

Enfio os pés nelas com um frisson de deleite – e, ah, meu Deus, são fantásticas. De repente meus pés parecem elegantes e minhas pernas, mais compridas... e tudo bem, meio difícil andar com elas, mas isso provavelmente é porque o piso da loja é tão escorregadio.

- Vou levar, por favor – digo, e rio feliz para a vendedora.

Veja bem, esta é a recompensa por uma abordagem tão controlada ao consumo. Quando você compra uma coisa, realmente sente que mereceu.

Nós vamos para o caixa, e eu mantenho os olhos cuidadosamente longe do mostruário de acessórios. De fato, mal percebo aquela bolsa púrpura com contas pretas. E estou enfiando a mão na minha bolsa, me parabenizando por ser tão objetiva, quando a vendedora diz num tom casual:

- Sabe, nós temos essa sandália em laranja-claro também.
Laranja-claro?

- Ah... certo – digo depois de uma pausa.

Não estou interessada. Já tenho o que vim comprar – e é o fim da história. Sandália lilás. Não laranja-claro.

- Acabou de chegar – acrescenta ela, procurando em volta. – Acho que vai ficar ainda mais na moda do que a lilás.

- Verdade? – digo, tentando parecer o mais indiferente que posso. – Bom, só vou levar essa, eu acho...

- Aqui está! – exclama ela. – Eu sabia que tinha uma por aqui.

E eu congelo, quando ela põe no balcão a sandália mais exótica que eu já vi. É um laranja pálido, cremoso, com a mesma forma de tirinhas da lilás – mas em vez de amora há uma tangerina minúscula perto do dedo.

É amor instantâneo. Não consigo afastar os olhos.

- Gostaria de experimentar? – diz a garota, e eu sinto uma pontada de desejo bem na boca do estômago.

Olha só. É deliciosa. É a sandália mais gracinha que já vi. Ah, meu Deus.

Mas eu não preciso de uma sandália laranja-claro, preciso? Não preciso.

Anda, Gina. É só dizer. Não.

- Na verdade... – engulo em seco, tentando assumir o controle da voz. – Na verdade... – Meu Deus, eu mal consigo falar. – Hoje só vou levar a lilás. – Consigo por fim. – Obrigada.

- Certo. – A garota digita um código no teclado. – Então são oitenta e nove libras. Como vai pagar?

- Hmm... Cartão Visa, por favor. – Assino o tíquete, pego minha bolsa e saio da loja, sentindo-me ligeiramente atordoada.

- Eu consegui! Consegui! Controlei meus desejos! Só precisava de um par de sandálias – e só comprei um. Entrei e sai da loja, completamente de acordo com o plano. Veja bem, é isso que eu posso fazer quando realmente quero. Esta é a nova Gina Weasley.

Por ter sido tão boa, eu mereço uma pequena recompensa, por isso vou a uma cafeteria, sento-me do lado de fora, ao sol, com um cappuccino.

Eu quero aquela sandália laranja, salta na minha cabeça quando tomo o primeiro gole.
Pára. Pára com isso. Pense em... outra coisa. Harry. O fim de semana. Nosso primeiro fim de semana juntos. Meu Deus, mal posso esperar.

Eu vinha querendo sugerir uma viagem de fim de semana desde que Harry e eu começamos a namorar, mas ele trabalha demais, seria como pedir para o primeiro ministro parar de governar o país um pouquinho. (Só que, pensando bem, ele faz isso todo verão, não é? Então, por que o Harry não pode?)

Harry é tão ocupado, ainda nem conheceu meus pais, e é por isso que eu estou meio preocupada. Eles o convidaram para ir almoçar no domingo, há algumas semanas, e mamãe passou séculos cozinhando – ou pelo menos comprou rins de porco recheados com abricó na Saimsbury’s e um pudim de merengue e chocolate realmente chique. Mas no último minuto ele teve de cancelar porque houve uma crise com um dos seus clientes nos jornais de domingo. Por isso tive de ir sozinha – e foi tudo um horror, para ser franca. Dava para ver que mamãe ficou realmente desapontada, mas ela ficava dizendo, alegre: “Ah, bem, era só um almoço casual” – o que não era. Ele lhe mandou um gigantesco buquê de flores no dia seguinte, para se desculpar (ou pelo menos Mel, a secretária dele, mandou), mas não é a mesma coisa, é?

A pior parte foi que nossos vizinhos, Janice e Martin apareceram para tomar um copo de xerez e “conhecer o famoso Harry”, como disseram, e quando descobriram que ele não estava, ficaram me lançando aqueles olhares penalizados tingidos de presunção, porque seu filho Neville vai se casar com a namorada Lucy na semana que vem. E eu tenho uma suspeita horrível de que eles acham que eu tenho uma queda por ele. (Coisa que eu não tenho – muito pelo contrário. Mas uma vez que as pessoas acreditam numa coisa assim, é completamente impossível convencê-las do contrário. Ah, meu Deus. Que horror.)

Quando fiquei chateada com Harry, ele disse que eu também não conheci seus pais. Mas isso não é bem verdade. Eu falei brevemente com o pai e a madrasta dele num restaurante uma vez, ainda que não tenha sido meu momento mais brilhante. E, de qualquer modo, eles moram em Devon, e a mãe verdadeira de Harry mora em Nova York, então, puxa, eles não estão exatamente à mão, não é?

Mesmo assim a gente se resolveu – e pelo menos ele está fazendo o esforço para ir nessa pequena viagem de fim de semana. Na verdade, foi Mel quem sugeriu a idéia do fim de semana. Ela disse que Harry não tinha férias apropriadas há três anos, e que talvez ele tivesse de ser gentilmente convencido da idéia. Por isso parei de falar de férias e comecei a falar de fins de semana fora – e isso deu certo! De repente Harry disse para eu separar este fim de semana. Ele mesmo reservou o hotel e tudo. E estou tão ansiosa para ir! Nós não vamos fazer nada, só relaxar e curtir – e passar um tempo juntos para variar. Maravilhoso.

Eu quero aquela sandália laranja.

Pára com isso. Pára de pensar nela.

Tomo outro gole de café, me recosto e me obrigo a examinar a rua agitada. Pessoas caminham segurando sacolas e conversando, e há uma garota atravessando a rua com uma calça bonita, que eu acho que é da Nicole Farhi e... ah, meu Deus.

Um homem de meia-idade, de terno escuro, está vindo pela rua na minha direção, e eu o reconheço. É Derek Smeath, meu gerente de banco.

Ah, e eu acho que ele me viu.

Tudo bem, não entre em pânico, ordeno-me com firmeza. Não precisa entrar em pânico. Talvez, antigamente, eu ficasse abalada ao vê-lo. Poderia tentar me esconder atrás de um menu, ou talvez até sair correndo. Mas tudo isso é passado. Hoje em dia o doce Smeathie e eu temos um relacionamento honesto e muito amigável.

Mesmo assim me pego arrastando a cadeira ligeiramente para longe da sacola LK Bennett, como se ela não tivesse nada a ver comigo.

- Olá, Sr. Smeath! – digo toda animada enquanto ele se aproxima. – Como vai?

- Muito bem – diz Derek Smeath, sorrindo. – E você?

- Ah, eu estou bem, obrigada. O senhor... o senhor gostaria de um café? – acrescento educadamente, fazendo um gesto para a cadeira vazia diante de mim. Na verdade não espero que ele aceite, mas, para minha perplexidade, ele se senta e pega um menu.

Olha só que civilizado: eu estou tomando café com meu gerente de banco num café de calçada! Sabe, talvez eu descubra um modo de enfiar isso no meu segmento do Morning Coffee. “Eu prefiro a abordagem informal às finanças pessoais”, direi, dando um sorriso caloroso para a câmera. “Meu gerente de banco e eu costumamos tomar um cappuccino juntos enquanto discutimos minhas estratégias financeiras atuais...”

- Por acaso, Ginevra, eu acabei de escrever uma carta para você – diz Derek Smeath, enquanto uma garçonete coloca um café expresso diante dele. De repente sua voz está mais séria e eu sinto uma pequena pontada de alarme. Ah, meu Deus, o que eu fiz agora? – Para você e todos os meus clientes – acrescenta ele. – Dizendo que eu estou indo embora.

- O quê? – Pouso o meu café fazendo barulho com a xícara. – O que quer dizer com indo embora?

- Estou deixando o Endwich Bank. Decidi me aposentar antes do tempo.

- Mas...

Encaro-o pasma. Derek Smeath não pode sair do Endwich Bank. Não pode me deixar na mão, logo agora que tudo estava indo tão bem. Quero dizer, eu sei que nós nem sempre nos vimos cara a cara – mas recentemente desenvolvemos um relacionamento bastante bom. Ele me entende. Entende meus saques a descoberto. O que farei sem ele?
- O senhor não é novo demais para se aposentar? – pergunto, consciente do desalento em minha voz. – Não vai ficar entediado?

Ele se recosta na cadeira e toma um gole do café.

- Eu não estou planejando parar de trabalhar totalmente. Mas acho que há um pouco mais na vida do que cuidar das contas bancárias dos outros, você não acha? Por mais fascinantes que algumas delas sejam.

- Bom... sim. Sim, claro. E eu fico feliz pelo senhor, honestamente. – Dou de ombros, meio embaraçada. – Mas vou... sentir falta do senhor.

- Acredite ou não – diz ele, sorrindo ligeiramente – acho que também vou sentir falta de você, Ginevra. A sua conta certamente tem sido uma das mais... interessantes com as quais eu já lidei.

Derek Smeath me lança um olhar penetrante e eu me sinto ruborizar ligeiramente. Por que ele precisa me lembrar do passado? O fato é que tudo aquilo acabou. Agora eu sou uma pessoa diferente. Sem dúvida as pessoas devem ter o direito de virar as folhas do caderno e começar a vida de novo, não é?

- Sua carreira na televisão parece estar indo bem – diz ele.

- Eu sei! É fantástico, não é? E paga bastante bem – acrescento, um tanto oportunamente.

- Seus rendimentos certamente cresceram nos últimos meses – diz ele, e pousa a xícara. Meu coração se aperta ligeiramente. – No entanto...

Eu sabia. Por que sempre há um “no entanto”? Por que ele não pode simplesmente estar feliz por mim?

- No entanto – repete Derek Smeath. – Suas retiradas também cresceram.

Substancialmente. Na verdade, seus saques a descoberto estão maiores do que no auge de seus... será que devemos dizer?... seus excessos.

Excessos? Isso é maldade.

- Você realmente deveria se esforçar mais para se manter no limite do cheque especial – diz ele. – Ou melhor ainda, pagá-lo.

- Eu sei – respondo vagamente. – Estou planejando fazer isso.

Acabei de ver uma garota do outro lado da rua com uma sacola LK Bennett. Ela está com uma sacola enorme – com duas caixas de sapato dentro.

Se ela pode comprar dois pares de calçado, por que eu não? Qual é a regra que diz que só se pode comprar um par de cada vez? Puxa, é arbitrário demais.

- E quanto às suas outras finanças? – pergunta Derek Smeath. – Você está devendo alguma conta de cartões de lojas, por exemplo?

- Não – digo com um ligeiro tom de presunção. – Paguei todas há meses.

- E não gastou nada desde então?

- Só umas coisinhas. Praticamente nada.

De qualquer modo, o que são noventa pratas, não é? No grande esquema das coisas?

- O motivo para eu estar fazendo estas perguntas é que eu acho que devo avisá-la. O banco está se reestruturando, e meu sucessor, John Gavin, pode não ter uma abordagem tão tranqüila quanto a minha com relação à sua conta. Não sei se você percebe como eu tenho sido tolerante com você.

- Verdade? – digo, sem ouvir de verdade.

Puxa, imagine se eu começasse a fumar. Facilmente gastaria noventa pratas em cigarros sem nem pensar nisso, não é?

De fato, pense em todo o dinheiro que já economizei não fumando. Tranqüilamente o bastante para comprar um parzinho de sapatos.

- Ele é um homem muito capaz – está dizendo Derek Smeath. – Mas também é muito rigoroso. Não é particularmente conhecido pela flexibilidade.

- Certo – falo, assentindo distraidamente.

- Eu certamente recomendaria que você cobrisse os saques sem demora. – Ele toma um gole de café. – E diga, você fez alguma coisa com relação a algum fundo de pensões?

- Hmm... eu fui visitar aquele consultor independente que o senhor recomendou.

- E preencheu algum formulário?

Contra a vontade, arrasto minha atenção de volta para ele.

- Bom, eu estou avaliando as opções – digo, e ponho minha expressão sábia, de especialista em finanças. – Não há nada pior do que correr para o investimento errado, o senhor sabe. Particularmente quando se trata de algo tão importante quanto um fundo de pensões.

- Verdade. Mas não passe muito tempo avaliando, certo? Seu dinheiro não vai se economizar sozinho.

- Eu sei! – digo, e tomo um gole de cappuccino.

Ah, meu Deus, agora estou me sentindo meio desconfortável. Talvez ele esteja certo. Talvez eu deva colocar noventas libras num fundo de pensão em vez de comprar mais um par de sandálias.

Mas por outro lado – de que adianta um fundo de pensão de noventa libras? Isso não vai exatamente me sustentar durante a velhice, vai? Meras noventa pratas. E quando eu estiver velha, o mundo provavelmente terá explodido, ou alguma coisa assim.

Ao passo que um par de calçados é tangível, está ali na sua mão...

Ah, que droga. Eu vou comprar.

- Sr. Smeath, eu tenho de ir – digo abruptamente, pousando minha xícara. – Há uma coisa que eu preciso... fazer.

Agora decidi, eu tenho de voltar lá o mais rápido possível. Pego minha bolsa e largo cinco libras na mesa.

- Adorei vê-lo. E boa sorte na aposentadoria.

- Boa sorte a você também, Ginevra. Mas lembre-se do que eu disse. John Gavin não vai ser paciente com você como eu fui. De modo que... olhe onde pisa, certo?

- Vou olhar! – digo toda animada.

E sem propriamente correr, desço a rua, o mais rápido possível, de volta à LK Bennett.

Tudo bem. Então, talvez falando de modo estrito, eu não precisava comprar um par de sandálias laranja-claro. Elas não eram exatamente essenciais. Mas o que me ocorreu enquanto eu as estava experimentando foi que, na verdade, eu não violei minha nova regra. Por que o fato é que eu vou precisar delas.

Afinal de contas eu vou precisar de calçados novos em algum momento, não é? Todo mundo precisa de calçados. E sem dúvida é mais prudente estocar agora, num estilo do qual eu realmente gosto, do que esperar até que o último par se gaste e eu não encontre nada bonito nas lojas. É sensato. É como... garantir minha posição futura no mercado de sapatos.

Quando saio da LK Bennett, toda feliz segurando minhas duas sacolas novas e reluzentes, há um brilho caloroso e alegre à minha volta. Não estou com vontade de ir para casa, por isso decido atravessar a rua até a Gifts and Goodies. Esta é uma das lojas que vendem as molduras de Mione e eu tenho um pequeno hábito de entrar sempre que passo na frente, só para ver se alguém está comprando uma.
Abro a porta com um toque da sineta e sorrio para a vendedora que levanta a cabeça. É uma loja linda. É quente, perfumada e cheia de coisas maravilhosas como estantes de arame cromado e descansos de copos de vidro gravado. Passo por uma prateleira com cadernos com capa de couro cor de malva e levanto os olhos – e lá estão elas! Três molduras para fotos, de tweed púrpura, feitas por Mione! Ainda me empolgo sempre que vejo.

Ah, meu Deus! Sinto um zumbido de animação. Há uma cliente parada ali – e ela está olhando para uma. Está segurando uma!

Para ser franca, nunca vi ninguém comprando uma das molduras de Mione. Quero dizer, eu sei que tem gente que deve comprá-las, porque elas continuam vendendo – mas nunca vi isso acontecer. Meu Deus, isso é empolgante!

Vou andando em silêncio enquanto a cliente vira a moldura. Franze a testa diante do preço, e meu coração se acelera um pouquinho.

- É uma moldura para fotos realmente linda – falo casualmente. – Muito incomum.

- É – diz ela, e coloca de novo na prateleira.

Não! Penso desolada. Pegue de novo!

- É tão difícil achar molduras bonitas hoje em dia – falo, puxando conversa. – Você não acha? Quando a gente encontra uma, deve simplesmente... comprar! Antes que mais alguém pegue.

- Acho que sim – diz a cliente, pegando um peso de papel e franzindo a testa para ele também.

Agora ela está indo embora. O que posso fazer?

- Bom, acho que vou comprar uma – digo com ênfase, e pego. – Vai ser um presente perfeito. Para um homem ou uma mulher... quero dizer, todo mundo precisa de molduras para retratos, não é?

A cliente não parece estar notando. Mas não importa, quando ela me vir comprando, talvez pense de novo.

Corro ao caixa, e a mulher atrás do balcão sorri para mim. Acho que é a dona da loja, porque eu a vi entrevistando funcionários e falando com fornecedores. (Não que eu venha aqui freqüentemente, é só coincidência ou algo do tipo.)

- Olá, de novo – diz ela. – Você realmente gosta dessas molduras, não é?

- É – digo em voz alta. – E o preço está fantástico! – Mas a cliente está olhando uma jarra de vidro, e nem mesmo escuta.

- Quantas você já comprou? Deve ser umas... vinte?

O quê? Minha atenção volta rapidamente para a dona da loja. O que ela está dizendo?
- Ou até mesmo trinta?

Encaro-a chocada. Será que ela está me monitorando, cada vez que venho aqui? Isso não é contra a lei?

- Uma tremenda coleção! – acrescenta em tom simpático, enquanto embrulha em papel de seda.

Eu tenho de dizer alguma coisa, caso contrário ela achará que sou eu quem compra todas as molduras de Mione, em vez de o público em geral. O que é ridículo. Veja só: trinta! Eu só comprei umas... quatro. Cinco, talvez.

- Eu não tenho tantas assim! – digo apressadamente. – Acho que talvez você esteja me confundindo com... outras pessoas. E eu não entrei aqui só para comprar uma moldura! – Dou um riso alegre para mostrar como essa idéia é ridícula. – Na verdade, eu queria algumas... dessas aqui também. – Pego aleatoriamente umas grandes letras de madeira esculpida num cesto ao lado e entrego a ela. Ela sorri e começa a colocar em papel de seda, uma a uma.

- P... T... R... R.

Ela pára e olha perplexa para as letras.

- O que você estava tentando escrever? “Peter”?

- Hmm... é – digo. – Para o meu... meu afilhado. Ele tem três anos.

- Que lindo! Então aqui está. Dois E, e devolva o R...

Ela está me olhando com gentileza, como se eu fosse uma completa retardada. O que acho bastante justo, já que não sei soletrar “Peter” e é o nome do meu próprio afilhado.

- O total são... quarenta e oito libras – diz ela, enquanto eu enfio a mão na bolsa. – Sabe, se você gastar cinqüenta, ganha uma vela perfumada grátis.

- Verdade? – levanto os olhos cheia de interesse. Seria bom ter uma vela perfumada. E por causa de duas libras...

- Tenho certeza de que eu poderia achar alguma coisa... – digo, olhando vagamente pela loja.

- Soletre o resto do nome do seu afilhado em letras de madeira – sugere a dona da loja, solícita. – Qual é o sobrenome dele?

- Hmm, Wilson – falo sem pensar.

- Wilson. – E, para meu horror, ela começa a procurar no cesto. – W... L... Aqui está um O...

- Na verdade – digo rapidamente -, na verdade, é melhor não. Porque... porque... os pais dele estão se divorciando e ele talvez acabe mudando de sobrenome.

- Verdade? – diz a dona da loja, e faz uma cara simpática enquanto põe as letras de volta. – Que pena. É uma separação litigiosa, então?

- É – digo, olhando em volta procurando outra coisa para comprar. – Muito. A... a mãe dele fugiu com o jardineiro.

- Está falando sério? – A dona da loja me olha, e de repente eu noto um casal perto ouvindo também. – Ela fugiu com o jardineiro?

- Ele era... muito gostoso – improviso, pegando uma caixa de jóias e vendo que custa setenta e cinco libras. – Ela não conseguia manter as mãos longe dele. O marido pegou os dois juntos no barracão de ferramentas. De qualquer modo...

- Minha nossa! – diz a dona da loja. – Isso é incrível!

- É totalmente verdadeiro – cantarola uma voz do outro lado da loja.

O quê?

Minha cabeça gira – e a mulher que estivera olhando as molduras de Mione está vindo na minha direção.

- Presumo que você esteja falando de Jane e Tim, não é? – diz ela. – Um escândalo tão terrível, não foi? Mas eu achava que o menino se chamava Toby.

Encaro-a, incapaz de falar.

- Talvez Peter seja o nome de batismo – sugere a dona da loja, e faz um gesto para mim. – Esta é a madrinha dele.

- Ah, você é a madrinha! – exclama a mulher. – É, ouvi falar de você.

Isso não está acontecendo. Não pode estar acontecendo.

- Bom, talvez você possa me contar. – A mulher se adianta e baixa a voz, em tom confidencial. – Tim aceitou a oferta de Maud?

Olho a loja silenciosa em volta. Todo mundo está esperando minha resposta.

- Aceitou – digo cautelosamente. – Ele aceitou.

- E deu certo? – pergunta ela, encarando-me ansiosa.

- Hmm... não. Ele e Maud acabaram... eles... eles tiveram uma briga.

- Verdade? – A mulher ergue a mão até a boca. – Uma briga? Por quê?

- Ah, você sabe – digo desesperadamente. – Uma coisa e outra... o fim da relação... hmm, na verdade, acho que vou pagar em dinheiro. – Enfio a mão na bolsa e ponho cinqüenta libras no balcão. – Fique com o troco.

- E a sua vela perfumada? – diz a dona da loja. – Você pode escolher baunilha, sândalo...

- Não importa – digo, indo rapidamente para a porta.

- Espere! – grita a mulher ansiosa. – O que aconteceu com Ivan?

- Ele... emigrou para a Austrália – digo, e bato a porta.
Meu Deus, essa chegou perto. Acho melhor ir para casa.

Quando chego na esquina de nossa rua, paro e faço uma pequena rearrumação nas bolsas. O que quer dizer que ponho todas dentro de uma bolsa LK Bennett e aperto até não dar para vê-las.

Não é que eu esteja escondendo nem nada. Só que... prefiro chegar em casa só com uma bolsa de compras na mão.

Espero conseguir entrar no quarto sem que Mione me veja, mas quando abro a porta da frente ela está sentada no chão da sala, empacotando alguma coisa.

- Oi – diz ela. – Comprou a sandália?

- Comprei – digo toda animada. – Sem dúvida. Tamanho certo e coisa e tal.

- Vamos dar uma olhada então!

- Eu só vou... desempacotar – digo casualmente e vou para o meu quarto, tentando me manter tranqüila. Mas sei que estou com cara de culpada. Estou até andando feito uma culpada.

- Gina – diz ela de repente. – O que mais há na bolsa? Isso não é só um par de calçados.

- Bolsa? – Viro-me, como se estivesse surpresa. – Ah, esta bolsa. Hmm... só umas coisinhas. Você sabe... bobagens...

Vou me afastando cheia de culpa enquanto Mione cruza os braços, parecendo o mais séria que consegue.

- Mostre.

- Tudo bem, escute – digo apressadamente. – Eu sei que disse que era só um par. Mas antes que você fique com raiva, olhe só. – Pego minha segunda bolsa da LK Bennett, abro a caixa e tiro lentamente uma das sandálias laranja-claro. – Olhe só para isso.

- Ah, meu Deus – suspira Mione, olhando. – É absolutamente... estonteante. – Ela pega a sandália e acaricia suavemente o couro macio. Em seguida a expressão séria volta. – Mas você precisava dela?

- Sim! – digo na defensiva. – Ou pelo menos.. eu estava fazendo um estoque para o futuro. Você sabe, como uma espécie de... investimento.

- Investimento?

- É. E de certo modo é uma economia de dinheiro, porque agora que tenho esta não vou precisar gastar mais dinheiro com calçados no ano que vem. Nenhum!

- Verdade? – diz Mione cheia de suspeitas. – Nenhum?

- Nenhnunzinho! Honestamente, Mione, eu vou aproveitar ao máximo essas sandálias. Não vou precisar comprar mais durante pelo menos um ano. Provavelmente dois!

Mione fica quieta e eu mordo o lábio, esperando que ela me diga para levá-las de volta à loja. Mas ela está olhando a sandália de novo, e tocando a pequena tangerina.

- Calce – diz ela subitamente. – Deixe-me ver!

Com uma leve emoção eu pego a outra sandália e calço as duas – e estão simplesmente perfeitas. Minhas perfeitas sandálias laranja-claro, como Cinderela.

- Ah, Gina – diz Mione, e ela não precisava dizer mais nada. Está ali, em seus olhos suavizados.

Francamente, algumas vezes eu gostaria de poder me casar com Mione.

Depois de ter desfilado de um lado para o outro algumas vezes, Mione dá um suspiro contente, depois enfia a mão na bolsa grande para pegar a da Gifts and Goodies.

- Então, o que você comprou aqui? – diz ela interessada. As letras de madeira se derramam e ela começa a arrumá-las no tapete.

- P-E-T-E-R. Quem é Peter?

- Não sei – digo vagamente, pegando a bolsa da Gifts and Goodies antes que ela possa ver sua moldura lá dentro. (Uma vez ela me pegou comprando uma na Fancy Free e ficou toda chateada; disse que faria uma para mim, se eu quisesse.) – Você conhece alguém chamado Peter?

- Não. Acho que não... Mas nós podemos arranjar um gato e chamar de Peter, talvez!

- É – digo em dúvida. – Talvez... de qualquer modo, é melhor eu me aprontar para amanhã.

- Ahhh, isso me lembra – diz Mione pegando um pedaço de papel. – Harry ligou para você.

- Verdade? – Tento esconder o deleite. É sempre uma bela surpresa quando Harry telefona, porque, para ser honesta, ele não faz isso muito. Bom, ele telefona para marcar encontros e esse tipo de coisa, mas não costuma ligar para bater papo. Algumas vezes me manda e-mails, mas eles não são o que você poderia chamar de papo, são mais... bem, digamos assim: na primeira vez em que recebi um, fiquei bem chocada. (Mas agora meio que fico esperando por eles.)

- Ele disse que vai pegar você no estúdio amanhã ao meio-dia. E que o Mercedes tem de ir para a garagem, de modo que vocês vão no MGF.

- Verdade? É chiquérrimo.

- Eu sei – diz Mione, rindo de volta para mim. – Não é fantástico? Ah, e ele disse que você deve levar pouca coisa, porque o porta-malas não é muito grande.

Eu a encaro, com o sorriso se desbotando.

- O que você disse?

- Levar pouca coisa – repete Mione. – Você sabe: não muita bagagem, talvez uma bolsa ou sacola pequena...

- Eu sei o que significa “levar pouca coisa”! – digo, com a voz aguda de alarme. – Mas... não posso!

- Claro que pode.

- Mione, você viu quanta coisa eu tenho? – digo, indo para a porta do quarto e abrindo. – Puxa, olha só para isso.

Mione segue meu olhar, incerta, e nós duas olhamos para a minha cama. Minha grande mala verde-ácido está cheia. Há outra pilha de roupas ao lado. E eu nem cheguei à maquiagem e às outras coisas.

- Não consigo, Mione – gemo. – O que vou fazer?

- Telefonar para Harry e contar a ele? E dizer que ele terá de alugar um carro com porta-malas maior?

Por um momento fico quieta. Estou tentando imaginar o rosto de Harry se eu lhe disser que ele tem de alugar um carro maior para levar minhas roupas
.
- O negócio – digo por fim – é que não sei se ele entende completamente...

A campainha toca e Mione se levanta.

- Deve ser a Special Express para pegar o meu pacote – diz ela. – Escute, Gina, vai ficar tudo bem. Só... tire umas coisas. – Ela vai atender à porta e me deixa olhando o amontoado sobre a cama.

Tirar umas coisas? Mas tirar o quê, exatamente? Não é que eu tenha posto um monte de coisas desnecessárias. Se eu só começar a tirar coisas aleatoriamente, todo o meu sistema desmorona.

Tudo bem, pense criativamente. Deve haver uma solução.

Talvez eu possa.. secretamente prender um trailer no carro quando Mione não estiver olhando?

Ou talvez possa usar todas as minhas roupas, uma por cima da outra, e dizer que estou sentindo um pouco de frio...

Ah, não adianta. O que vou fazer?

Distraidamente, saio do quarto e vou para o corredor, onde Mione está entregando um envelope cheio a um homem de uniforme.

- Isso é fantástico – diz ele. – Se a senhorita assinar aqui... Olá! – acrescenta ele todo animado para mim, e eu o cumprimento com a cabeça, olhando inexpressiva o emblema em seu peito, que diz: Qualquer coisa, para qualquer lugar, amanhã de manhã.

- Aqui está o seu recibo – diz o homem a Mione, e se vira para ir embora. Ele está passando pela porta quando as palavras em seu emblema começam a saltar na minha mente.

Qualquer coisa.
Para qualquer lugar.
Amanhã...

- Ei, espere! – grito, no momento em que a porta vai bater. – Poderia esperar só um seg...

Paradigma, Livros de Auto-ajuda, Ltda.
695 Soho Square
Londres W1 5AS

Srta. Ginevra Weasley
Apartamento 2
4 Burney Road
Londres SW6 8FD

4 de setembro de 2001

Cara Gina

Muito obrigada pelo seu recado na secretária eletrônica. Fico realmente feliz em saber que o livro vai bem!

Você deve se lembrar, quando nós falamos a duas semanas, de que você me garantiu que o primeiro esboço estaria comigo dentro de alguns dias. Tenho certeza de que ele está a caminho – ou será que se extraviou no correio? Será que você poderia mandar outra cópia?

Quanto à fotografia de capa, use qualquer coisa com que você se sinta confortável. Um top Agnès B parece ótimo, e também os brincos que você descreveu.

Estou ansiosa para ver o manuscrito – e, de novo, deixe-me dizer como nos sentimos empolgados por você estar escrevendo para nós.

Desejando tudo de bom

Pippa Brady
Editora



EDITORA PARADIGMA: AJUDANDO VOCÊ A SE AJUDAR

EM BREVE! Sobrevivência na selva, do Brigadeiro Roger Flintwood


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