A coruja piava insatisfeita em seu poleiro. Claro, insatisfeita. Seu dono estava insatisfeito – apesar de não ter brigado com ela – e ela, apesar de seu esforço magnífico para uma coruja, não ganhara a ração especial da qual merecia desfrutar devido suas notáveis prestatividade, eficiência e inteligência.
Imaginava – em sua visão limitada de coruja mágica – o que teria feito de errado. Será que estragara o pergaminho sem perceber? Será que o pergaminho se perdeu do lugar, foi levado pelo vento?
Resolveu bater as asas por si própria e voltar à casa da menina ruiva, para verificar se, apesar de sua boa-vontade, fora acidentalmente ineficiente, a ponto de sua tentativa não lhe render o prêmio saboroso, merecido e tão, tão especial para ela.
Empoleirou-se na janela esbranquiçava e esquivou-se da cortina cor-de-rosa, chamando a atenção daquela menina ruiva agradável.
Ela veio em sua direção e acariciou suas penas daquele jeitinho certo, que suas penas todas eriçaram. Então se abaixou e abriu uma gaveta perto de sua cama, amarrando na pata rugosa um pergaminho, que lhe parecia familiar. Sua encomenda chegou, percebeu, por que não foi recompensada?
A fêmea humana lhe deu também água e alguns quitutes dignos de uma coruja.
“Leve isso para James Potter” pediu e saiu do quarto, deixando a coruja sozinha no cômodo. Se tivesse ombros, teria dado com eles, sem nada entender da confusão humana.
Por fim, os quitutes deveriam ser retribuídos, portanto ela bateu asas novamente. Depois de tudo isso, ela certamente mereceria uma semana de descanso.
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James tinha a cabeça afundada no travesseiro quando ouviu algo – alguém, um pequeno alguém voluntarioso e cheio de penas – bicando o vidro de sua janela insistentemente. Não queria se levantar, mas aquela coruja certamente era um bocado perseverante com aquele perfeccionismo que ia muito além do treinamento. Ergueu-se da cama e, cambaleante, abriu a janela, deixando animal e pergaminho estrarem no quarto escuro.
Pegou o pergaminho que a coruja lhe oferecia e foi abri-lo, sob o olhar incinerante da pequena ave. Jogado na cama, deixou seu queixo cair.
A base do desenho do pergaminho era seu desenho de Lily, na poltrona. As modificações, porém, acabaram sendo o foco principal de seu olhar. Sua arte ele conhecia, saída de seu lápis, de sua mente. Mas a outra parte surpreendeu profundamente.
Sim, no desenho a rapariga continuava sensualmente sentada na poltrona. Mas havia um elemento por trás. Havia um James Potter, com os olhos embebidos em luxúria, olhando a garota, ajoelhado na frente da poltrona. Ele não usava camisa – e, pensou, estava realmente bela aquela retratação sua, de pele levemente suada, bem definida – mas não era somente passivo na cena.
Não, suas mãos bem detalhadas em grafite, com veias salientes como ocorria quando o desejo as dilatava, estavam na blusa dela, abaixo do decote, tratando de abrir o restante da blusa – que continuava como no desenho original. A outra mão, adornada por um antebraço forte, sumia sob a saia da menina, tocando de modo leve e impactante a renda delicada de sua roupa íntima. O rubor e a posição dela, assim, estavam justificados.
O rubor e a falta de ar do rapaz também.
Pegou um pouco de ração especial de coruja e deu ao bicho, somente para se librar das bicadas que a coruja lhe aplicava demandando sua atenção. A coruja comeu tudo e voou pela janela, voltando contente para seu poleiro.
James Potter ficou na cama o resto do dia, Mas, pelo menos, abriu a janela.