Arabescos magníficos decoram as paredes e as colunas da casa, impecavelmente alvos, contrastando com o piso negro brilhante. As longas cortinas de voal e rendas balançavam levemente pelo vento que adentrava pela janela branca toda adornada em entalhes delicados.
À frente das janelas, está uma mesa em madeira crua, clara, esmaltada branco. Sobre ela, pergaminhos, tinteiro e pena. À frente da mesa, um rapaz.
Ele desenha uma rapariga, com traços firmes, atentos. Ela está sentada em uma poltrona na folha de papel. Seu cabelo jaz espalhado displicentemente belo contra o tecido, emoldurando seu rosto fino. Os grandes olhos verdes olham timidamente para baixo, ressaltados pelos cílios claros e longos, bem curvados. O nariz estreito é acompanhado pelo afobado rubor que tinge as faces alvas e os lábios cheios são mordidos levemente pelos dentes brancos.
O rapaz se ajeita na cadeira, começando a ficar desconfortável, enquanto seu lápis delineia a cintura estreita e os seios fartos da garota, cobertos por uma camisa branca consideravelmente aberta, dando uma generosa visão de seu colo. Os braços dela seguram os da poltrona enquanto o lápis desenha as pernas dela afastadas, friccionadas uma contra outra, toscamente cobertas pela curta saia xadrez, a posição dando um vislumbre da delicada renda cobrindo sua intimidade.
O garoto sua, afasta a cadeira da mesa, levanta-se dela e vai se refrescar no banheiro. E o mesmo vento que balançava as cortinas faz o pergaminho deslizar e cair no chão. Ele voa e tropeça por alguns cômodos até que, já enrolado pelo movimento, cai próximo a três poleiros dourados, moldados com motivos florais. Em um dos poleiros está uma coruja parda, muito bela, com grandes olhos âmbar.
Ela olha para o pergaminho, reconhecendo a garota ruiva para quem levava tantas cartas nas férias de seu dono. Claramente não sabe ler, mas reconhece o comando da primeira linha do pergaminho, “Lily”, que havia no cabeçalho de todas as cartas enviadas para aquela pequena casa simples onde a garota do desenho mora.
Unindo uma obediência espontânea e uma ingênua vontade de aprovação pela eficiência, a coruja salta de seu poleiro e pegou o pergaminho enrolado com a pata. Bate as asas e voa pela janela, seguindo pelos céus o caminho que por tantas fezes fizera. Com sua ligeiramente limitada visão de causa e conseqüência, já sente o sabor da ração especial que receberia por seu bom trabalho.
Ao chegar à pequena casa azulada, deixa o pergaminho no quarto que já conhecia, sobre a cama. Então voa rapidamente pela janela, sentindo a fome apertar no estômago.
Mas voa contente, pois vai receber daquela ração especial, tão saborosa, por seu bom trabalho.