- Então essa é a cabana? - Granger perguntou, analisando o lugar.
Eu havia escolhido lá para trabalharmos na defesa de Lucius. Ninguém poderia saber que Hermione Granger estava me ajudando. Foi sua condição.
- Sim. – Respondi, encaminhando até a porta e abrindo-a com a chave mágica, enquanto a mulher observava as flores das montanhas.
A cabana ficava em uma montanha próxima a um antigo e pacato vilarejo bruxo. Parecia uma pequena casinha feita de madeira, mas seu interior era grande e agradável.
Entramos. Guiei-a até a sala, e ela se sentou à mesa sem cerimônia. Sentei-me ao seu lado. A mulher começou a tirar livros enormes de sua mochila, e eu observei como o feitiço de extensão fora bem realizado.
- Andei lendo. – Ela disse, apontando para os livros.
- Todos eles? – Perguntei, espantada.
- Só o que interessa. – Granger respondeu. – Aprendi um feitiço muito útil. Ele ajuda a detectar onde está a informação que você procura... uma pena que só o fui conhecer no último ano de Hogwarts...
Ela parecia estar falando consigo mesma.
Eu dei a ela um prazo de um mês antes que começássemos, e pelo visto ela o aproveitara bem.
- Podemos começar? – Eu disse ao fim de seu monólogo.
- Preciso de tudo que você tiver. Os extratos das quantias que os Malfoy doavam para a caridade... imagino que usaremos o mesmo que salvou a você a ao seu filho. Vocês abandonaram a luta final. Partiu de você a mentira que manteve Harry vivo. Não podemos desprezar isso...
- Entendo... – Respondi suavemente. Eu já havia pensado nessa última parte... mas apresentar o quanto doávamos para o Ministério nem me passou pela cabeça... até porque, não estávamos realmente preocupados com os necessitados.
- Acho que posso falar com Harry também. Talvez ele possa depor a favor de Lucius. Eu deporei. – Ela disse, surpreendendo-me.
- Você vai depor?
- Sim. – Ela disse à contra gosto. – Mas não mentirei. Direi que os vi fugindo da batalha final. Apenas.
- Mas Potter não irá depor. – Afirmei.
Granger suspirou.
- Eu não estou contando muito com isso também. Nem pense em chamar Rony... por motivos óbvios. Mas Harry não guarda nenhum rancor especifico de vocês. Obviamente os odeia, mas ainda é grato por ter salvado sua vida...
Encontrei seus olhos especulativos.
- Isso me tranqüiliza.
- Temos três meses até dia vinte e nove de dezembro. Mas só vou poder te encontrar três vezes por semana. Quarta, quinta e sábado. Não aceito ser incomodada em qualquer outro dia a não ser que seja assunto de vital importância... tenho o meu próprio trabalho para me preocupar e...
- Granger. – Cortei-a friamente. – Você está fazendo exigências? Da última vez que chequei, eu ditava as regras, não você.
- Não seja estúpida. – Ela disse irritada. – Nosso acordo é claro: eu tenho que livrar seu marido dos dementadores e de Azkaban. Eu vou fazer isso. Os outros termos não é você quem decide. Sou eu.
- Você está muito confiante para uma garotinha. – Apontei, os olhos estreitos. Não estava habituada a ser insultada.
Pensei ver um reflexo zombeteiro na expressão de Hermione, mas logo ela estava abrindo um pesado livro de leis.
- Confiança é o primeiro passo para o sucesso. E eu não sou mais uma garotinha. – Ela disse mecanicamente.
- Não sabia que era chegada a frases feitas. – Provoquei-a.
- Não sou. Essa frase é minha.
- Quem muito fala, pouco faz. – Lembrei-a.
Ela bufou.
- Malfoy, vou precisar dos extratos. Você poderia providenciá-los enquanto eu leio a forma correta de apresentá-los ao júri.
- Não vou te deixar aqui. Quero ver se está realmente trabalhando.
Outro bufo.
- Traga amanhã sem falta, então.
Calei-me. Naquele dia e no mês que se seguiu nada efetivo foi feito. Granger se dedicava à leitura, eu me dedicava a esperar. E, como era de praxe, observar.
Quarta era o dia que ela estava mais estressada; quinta, ansiosa. Aos sábados, a morena gostava de usar roupas trouxas despojadas, que revelavam muitos detalhes. Não, de fato, ela não era uma garotinha. Seu perfume floral também não era nem um pouco juvenil.
A mulher em vários momentos lia e estabelecia uma conversa baixa para ninguém em específico. Logo entendi que era a maneira que ela raciocinava melhor, e não a interrompia mais nesses momentos. Ela era incansável. Não como a maioria das pessoas que precisa de uma pausa depois de muito estudo...
Hermione Granger parecia ter um fôlego incansável para aqueles velhos e chatíssimos livros de direito bruxo. Contudo, gostava de manter as mãos ocupadas enquanto lia. Rodopiava a pena entre os dedos, sentia a textura das desgastadas páginas com os polegares, alcançava o tinteiro e o arrastava pela mesa... em algumas ocasiões encontrava minha mão no meio do caminho.
Eu procurava evitar esses toques acidentais. Por mais que a mão dela fosse quente e macia, eu me lembrava hipocritamente que ela era uma sangue-ruim. Mas lembrar-me disso era me lembrar de uma certa ruiva dos tempos de Hogwarts...
Em novembro, o processo adiantou-se e ela começou a redigir a defesa, sem interromper suas consultas aos livros.
- Desculpe. – Ela exasperou-se quando tocou nos meus dedos pela segunda vez no dia, e eu me afastei bruscamente. – Mas se você acha isso tão repulsivo, porque diabos não tira a mão da mesa?!
Era uma boa pergunta. Ultimamente eu estava com uma inexplicável mania de deixar minha mão entre o pergaminho e o tinteiro. Não parecia proposital. Não devia ser proposital.
- Você poderia ficar um pouco mais quieta. Sua movimentação me deixa tonta. – Menti.
Os olhos castanhos de Granger miraram-me de forma sagaz.
- Narcissa vem de Narciso. – Ela disse subitamente.
- O que isso tem a ver com o que acabou de acontecer? - Perguntei sem entender.
- Narciso é da mitologia grega trouxa. Engraçado... para uma família que tanto odeia os trouxas, eles te nomearem em homenagem a um.
Encarei-a com a expressão superior.
- Narciso não foi um trouxa. Ele era um bruxo. Mais precisamente, metade bruxo e metade veela.
Ela me olhou com descrença. Não costumava errar.
- Narciso foi o primeiro homem a puxar a magia das veela. Veja bem, ele não se interessava por nenhuma mulher, mas gostava de ter sua beleza apreciada. Freqüentemente se exibia pela Grécia trouxa, e acredito que tenha sido esses passeios a influência para sua história mitológica.
Granger escutou meu pequeno relato com uma expressão curiosa. Respirou fundo e entreabriu os lábios. Estava engolindo o orgulho em nome do conhecimento. Eu mirei inconscientemente seus lábios, presa em minha análise. Eles eram naturalmente avermelhados...
- Ele realmente se apaixonou por si mesmo? – Ela perguntou e eu me forcei a encarar seus olhos novamente. As bochechas de Granger pareciam estar levemente coradas...
- Sim. Tomou sem querer uma poção do amor de uma ninfa que o admirava, Liríope. Todos sabem que as ninfas, embora sejam parte fundamental da natureza, não são boas preparadoras de poções. A primeira pessoa que Narciso viu foi a si mesmo, no leito do rio. Definhou durante dias, apaixonado pelo seu reflexo e ensandecido por não poder se possuir.
Terminei a história e vi que Granger olhava para mim de um jeito que não consegui definir.
- Interessante... – Ela falou naquele tom que só usava quando estava presa em um de seus monólogos.
- Não tem um final feliz, como você deve saber. – Eu disse, querendo estender-me no assunto.
- Como? – Granger clareou os olhos e eu enxerguei a confusão.
Brindei-a com um meio sorriso e nada disse. Logo ela retomou a leitura.
Curiosamente, depois desse dia, não me incomodei mais que nossas mãos se encontrassem. Era quase engraçado ver a cor atingir as bochechas da mulher quando isso acontecia. Eu provavelmente estava perdendo a cabeça... mas seu perfume começou a exercer em mim uma atração diferente, assim como seus olhos castanhos – que insistiam em parar nos meus com uma freqüência cada vez maior.
Granger ultimamente vinha me pedindo para que eu contasse a ela histórias de bruxos antigos. Eu conhecia montes e montes dessas histórias. Ela interessou-se particularmente quando a disse por que Merlin foi para a Sonserina e não para a Corvinal. Acho que deve ter se identificado, afinal, todos provavelmente estranharam que a bruxa mais inteligente de sua geração não caiu na casa que geralmente abriga os maiores crânios.
Eu me habituei a ouvir sobre seu trabalho. Descobri que ela sempre estava inquieta na quarta porque quinta-feira era dia da entrega das avaliações dos novos contratados; e como sexta era a resposta do Chefe do departamento, ela sempre estava ansiosa no dia anterior.
Sem querer, eu ia aos poucos conhecendo Hermione Granger. Já havia decorado seus gestos corporais, e agora estava começando a entender o que se passava em sua cabeça. Não era tão terrível como eu achei que seria.
Dezembro chegou mais rápido do que eu poderia prever.
- Praticamente todos os bruxos comemoram o natal. – Hermione disse.
- Sim.
- Engraçado... – Ela começou e eu lembrei-me daquela nossa conversa sobre Narciso. - praticamente todos os bruxos comemoram o nascimento de um homem que os trouxas consideram seu salvador. Ou você vai me dizer que Jesus era um bruxo?
Mirei-a incredulamente. Então Granger havia achado alguma coisa.
- Jesus era trouxa. – Eu respondi baixinho.
Ela abriu um sorriso enorme. Um sorriso lindo, pensei sem poder me controlar.
- Sábado não poderei vir. – Ela começou um assunto aleatório.
- Por que não? – Perguntei insatisfeita.
- Uma festa.
Apertei os lábios para não deixar que minha curiosidade falasse mais alta. Que festa?
Draco já estava na cama quando eu o vi pela janela do meu quarto. Uma grande forma de luz apareceu no jardim e correu sem problemas até onde eu estava. Ultrapassou a parede e a proteção mágica de minha casa como se não fosse grande coisa, e virou a cabeça prateada para mim. Um patrono em formato de lontra. Eu não conhecia ninguém que tinha um patrono dessa forma. Ia sacar a varinha quando uma voz conhecida começou a falar pela boca da lontra.
- Malfoy, por que diabos eu não posso entrar na cabana? Que porra de feitiço de proteção é esse? Eu já tentei tudo que eu conheço, e nada funcionou! – Granger disse, certamente irritadíssima. Ela apenas não estava acostumada a falhar. Nem a falar palavrões, até onde eu tinha percebido.
- É preciso uma chave mágica especial para entrar, você já me viu abrir a cabana umas mil vezes. – Respondi impaciente. Eu não estava acreditando naquilo. – E o que você está fazendo aí?! Não deveria estar em uma festa? – Cuspi a palavra com aversão, sem entender minha frustração.
- Que clave mágica especial? – Ela exigiu, ignorando minhas perguntas. Sua voz estava levemente... embargada?
- Chave. – Corrigi. – Uma chave que fica na posse do proprietário e protege o lugar com uma força antiga. Como um feitiço Fidelius. Mas as pessoas só entram quando eu permito, não há fiel do segredo.
- Que seja. – Ela exclamou. Parecia confusa. – Venha logo abrir isso então, eu tenho trabalho a fazer.
Antes que eu pudesse protestar, o patrono de desfez. Bom, eu não podia negar que era impressionante. Tivemos, na guerra, informação de que um novo tipo de mensagem havia sido inventado por Dumbledore. Eu jamais apostaria em patronos mensageiros.
Olhei para o relógio sobre a cômoda. Duas e meia da manhã. Praguejei alto e aparatei até a cabana.
Encontrei Hermione ao lado da porta, os braços cruzados e a expressão fechada.
- Finalmente. – Ela reclamou e deu um passo trôpego em minha direção. Então era isso que estava errado. Granger estava bêbada. Quando eu achava que já tinha visto de tudo no mundo...
Eu mirei-a com contida surpresa.
- O que você está olhando? É, talvez eu tenha bebido um pouquinho hoje... mas depois do que aconteceu... – Ela estava falando mais para si do que para mim. – Mas e aí?! Pode abrir pra mim? – A mulher se recuperou e olhou em meus olhos, a voz novamente irritada.
Não a respondi. Caminhei calmamente até a porta e peguei no meu bolso a chavinha dourada. Encaixei-a na fechadura. Com um click a cabana estava aberta.
Granger apressou-se para entrar, e eu hesitei antes de segui-la. Estava morrendo de sono e, se não fosse essa inacreditável embriaguez dela, eu já estaria dormindo. Entretanto, não poderia deixá-la ali. Ela não tinha condição de ficar sozinha, e sabe lá Merlin o que Hermione poderia aprontar com a casa.
A mulher sentou-se no seu habitual lugar à mesa, e eu no meu, à direita de Granger.
Ela alcançou os papeis organizados no centro do móvel, e molhou a pena no tinteiro. A tinta pingou três vezes, e ela continuava encarando estática o pergaminho. Eu me aproximei para verificar se ela estava danificando algum documento importante. Senti seu familiar perfume floral e cheguei minimamente mais perto, quando Hermione perguntou bruscamente:
- Você se arrepende de ter casado?
Voltei rapidamente meu corpo para trás com o susto. Granger olhava para mim, a expressão indefinida.
- Não. – respondi cautelosamente quando assimilei a pergunta. – Que tipo de pergunta é essa?!
Ela bufou e me ignorou.
- Você estava apaixonada quando se casou?
Encarei-a com estranheza e não disse nada.
- Estava? – Granger insistiu.
- Por que quer saber?
Então ela resmungou algo como “ruivo idiota”.
- Não.
- Ora, mas claro que sim. É um idiota sim. – Ela protestou com a voz embaralhada.
- Eu não estava apaixonada.
Ela me encarou surpresa.
- Ah! – Disse apenas.
- Granger...
- Weasley. – Ela interrompeu o que seria uma repreensão, e eu entendi o propósito de suas perguntas.
- Granger, você se casou? – Perguntei bobamente. Apenas quando as palavras saíram da minha boca que eu percebi a estupidez que havia dito. Não era possível ela ter se casado em dois dias.
- Não. – Suspirou. – Ainda.
Silêncio.
- Diga. Diga como meu nome ficará. Quero checar a sonoridade. – Ela pediu subitamente.
- Como? - Ergui uma sobrancelha.
- Diga. Hermione Jean Granger Weasley.
- Eu não vou di-…
- Vai dizer sim!– Hermione me cortou.
- Pare de bobagens. – Ergui o queixo e me endireitei firme na cadeira.
- Diga logo, Narcissa! - Ela exclamou raivosamente, dando-me o que poderia ser o milésimo susto da noite.
Suspirei. Deve ser impossível discutir com pessoas bêbadas. Talvez ela se esqueça disso amanhã com algum milagre.
- Hermione. Jean – Comecei pausadamente, e vi os olhos de Hermione voltarem-se para meus lábios atrevidamente. Um arrepio involuntário passou pela minha espinha. – Granger – Parei, encarando os lábios da mulher ao meu lado. – Weasley.
- É. – Ela sussurrou, aproximando-se e tocando meu lábio inferior com os dedos. Meus pêlos da nuca se eriçaram com esse toque mínimo. Pensei que eu deveria fazer alguma coisa nesse momento. Talvez tirar sua mão. Talvez me afastar. Ou então apenas deixar que ela faça o que deseja. – Não soa bem.
E me beijou. E não faço ideia do que tinha na cabeça quando correspondi.
N/A: Bom, esse nem é o capítulo final... obviamente.
Eu não consegui acabá-lo a tempo, mas como eu quis entregar essa fic dia 25, resolvi postar o que já estava pronto.
Pretendo postar o final até o dia 31, que é o fim do prazo e mmimimi.
Espero que estejam gostando, principalmente você Manu (:
BJBJBJB