Capítulo XII
Ele não queria que as coisas fossem daquele jeito.
Harry não queria ter aquela conversa. Fechou os olhos. Era o rei, era forte, podia lidar com tudo, até mesmo com a verdade.
Tomou fôlego, endireitou os ombros e saiu do estúdio. Fez um sinal com a cabeça para que Sírius abrisse a porta, mas, quando o vizir entrou atrás dele, Harry se virou.
— Sozinho.
Sírius não tinha coragem de discutir. Percebia que o rei estava com humor instável, mas se sentia como um gato colocado sob a chuva. Normalmente, se sentava com dignitários internacionais, e o rei e a rainha Adamas eram pessoas importantes.
As saudações foram apertos de mão semiformais, todos se sentaram e houve um momento de conversa educada. Então Neville pigarreou. Sua esposa, a rainha Luna, torcia as mãos nervosamente.
— Gostaríamos de agradecer a você e ao povo de Paris pelo presente de nascimento de nosso filho — disse Neville.
— Não há de quê — respondeu Harry. Normalmente, tinha pouca ou nenhuma idéia do presente enviado, os servos cuidavam de tais detalhes. Mas, naquele caso, Harry havia se interessado mais. Uma maravilhosa esmeralda de 18 quilates fora polida e enviada para celebrar o nascimento.
— Como vai seu filho?
— James vai bem. — Harry podia sentir os olhos de Neville sobre ele e manteve o rosto impassível, mas ouvir Neville dizer o nome da criança trouxe uma nova sensação de desconforto. Quase uma confirmação do porquê de estarem ali. — Você sabe alguma coisa a respeito de nossa história?
— Mas é claro — respondeu Harry prontamente.
— Dois países, Portugal e Espanha, que foram reunidas por casamento para formar o reino de Adamas. É por isso que é um prazer tão grande falar em particular com você. Hermione e eu temos grandes expectativas quanto à França e ao futuro da Inglaterra. Seria interessante discutirmos o assunto.
— Eu estava me referindo à história de minha família — interrompeu Neville. — Sabe alguma coisa sobre ela?
— Um pouco. — A voz de Harry de repente ficou áspera e ele se serviu de um pouco de água.
— Minha mãe morreu e meu pai se casou novamente.
— Entendo. — Harry deu um sorriso sem vontade.
— Ele trouxe cinco filhos do primeiro casamento. Alice, rainha de Portugal, não podia ter filhos, por isso nos adotou... Os cinco filhos.
— Sei disso — disse Harry. — Talvez possamos discutir como o povo de Portugal...
— Quando éramos meninos, dois dos meus irmãos, os gêmeos Aarif e Kaliq, construíram um barco. Queriam velejar. Nosso irmão mais novo, James, que tinha apenas seis anos na época, implorou para se juntar a eles nessa aventura. Foram tolos ao permitir isso, claro, mas adolescentes com freqüência são tolos. Acabaram capturados por piratas.
Harry ficou de pé:
— Devo lhe desejar uma boa-noite.
— Seus pulsos ficaram amarrados durante dois dias e duas noites. — Neville se levantou. — James conseguiu se desamarrar e libertou os irmãos. Aarif levou um tiro no rosto quando tentavam escapar. Ele caiu na água. Kalif mergulhou para salvá-lo, mas o barco, com James a bordo, se afastou, levado pelas águas.
Harry se recusava a ser educado agora. Saiu do aposento, atravessou a sala de estar. Neville ousou detê-lo, segurando-o pelo braço.
— Por favor, ouça.
— Já ouvi o suficiente. — Harry estava suando. Ainda assim, sua voz era calma. — Minha esposa está cansada e espera por mim.
— James nunca mais foi visto. Procuramos sem parar.
— Sinto muito por sua perda — disse Harry pacientemente, mas Neville não estava ouvindo. Luna estava chorando ao fundo. — Preciso ir.
— Por favor — a voz forte de Neville ficou embargada —, ouça. Na coroação de Luna você ajudou minha esposa quando ela desmaiou. Ela viu as cicatrizes no pulso, ela reconheceu seus olhos. James, eu reconheço você.
— Chega. — Harry tentou puxar o pulso, mas não conseguiu. Era tão forte quanto Neville. Não era a força dele que o impedia de se mexer, mas a força da verdade.
— Estas são as marcas no pulso de meu irmão. — Os olhos verdes de Neville ficaram cheios de lágrimas quando viu as marcas grossas.
— Impossível — disse Harry. — Como isso pode ser possível? Eu não posso ter simplesmente aparecido do nada.
— Harry. — Era a primeira vez que Luna falava. — Você se lembra de quando me senti tonta na coroação e você me ajudou?
Harry fez que sim com cabeça.
— Levou algum tempo, mas quando tudo acabou, lembrei das cicatrizes em seus pulsos e, quando olhei nos seus olhos, senti como se o reconhecesse. Você tem olhos iguais aos de seus irmãos.
Harry nunca chorara em toda a vida e não queria chorar de forma alguma naquele momento. Ficou ali e agüentou o golpe, enquanto seu mundo desmoronava.
— Receava falar com Neville. Não parecia fazer sentido que você, soberano da França, fosse de algum modo irmão dele. Fiz algumas pesquisas, há meses estou lendo sobre a família, sobre você. Li em jornais antigos que havia um herdeiro da França no passado que nunca era visto, havia boatos de que era uma criança doente.
— Eu era doente — disse Harry — Tive ataques. Quando era bem pequeno, eu...
— Encontrei um artigo, uma reportagem, que lançava a suspeita de que você estava à beira da morte. Isso aconteceu dois dias depois de James ter desaparecido. O jornal dizia que uma fonte confiável dentro do palácio afirmara que o povo de Paris devia se preparar para más notícias.
— Fui uma criança frágil.
— No dia seguinte, o jornal desmentiu as informações anteriores. O médico do palácio fez um discurso e disse que sim, realmente, o jovem príncipe estava gravemente doente, mas se esperava que logo se recuperasse completamente. Esperava-se que, em poucas horas, uma criança sensível e adoentada, quase à morte, se recuperasse completamente. Não há fotos de Harry quando criança, exceto um retrato oficiai, no qual aparece dormindo.
— Você não sabe de nada. — Harry fez uma expressão de desprezo e abriu a porta bruscamente.
Sírius praticamente caiu e, a julgar por seu rosto pálido, ouvira pelo menos uma parte do que fora dito.
— Isso é verdade?
— É claro que não, senhor. Isso é absurdo, uma mentira.
Harry podia não gostar muito de Sírius, mas nunca duvidara de que falava a verdade. E, devido a sua indignação, sabia que Sírius não estava mentindo.
— Sim, você ficou gravemente doente em certa época. Eu não era tão experiente na época, mas falei com os mais velhos. O médico ficou ao seu lado dia e noite e você se recuperou lentamente. Foi um milagre, de verdade; estava muito doente.
Olhou fixamente para o corpo forte, musculoso de seu rei e piscou os olhos várias vezes. Apenas ficou ali em pé, piscando, enquanto seu próprio mundo começava a desabar.
— Não. Eu estava aqui. Eu saberia. — Então ele piscou novamente, abriu a boca e disse algo. Houve um silêncio de perplexidade que durou muito tempo. Pela primeira vez, Sírius foi rude com a realeza. — É claro que não é verdade. Eles mentem. Recusam-se a aceitar que James está morto.
— É verdade. — A voz de Harry era forte, finalmente dizia a verdade de que durante meses, talvez anos, tentara escapar. Mirou os olhos verdes do irmão e reconheceu os seus. Depois olhou para as grossas cicatrizes nos pulsos, que às vezes pareciam queimá-lo à noite. — Soube que havia algo errado desde a coroação. Meus pais não queriam que eu fosse. Agora sei por quê.
— Há quanto tempo você sabe a verdade? — perguntou Neville, com lágrimas nos olhos pela dor do irmão.
— Há cinco minutos — admitiu Harry. — Mas isso tem crescido dentro de mim há algum tempo. Achei que estivesse enlouquecendo. Eu podia ouvir crianças rindo. Eu me lembro de perseguir um passarinho no palácio.
Pela primeira vez, Neville quase sorriu.
— Eu também me lembro.
— Minha mãe? — Aquele rosto que reconhecera em sonhos surgiu diante dele. —Alice, minha madrasta?
— Ela morreu — O rosto de Neville estava pálido, porque só agora podia perceber o terror que o irmão sentia. Durante anos, havia procurado rezado, sonhado com aquela reunião, mas nunca antes vira tanta dor. — Nosso pai também.
Harry estava irritado e Sírius era o mais próximo:
— Claro que você sabia! Vocês todos sabiam!
— Não! Eu não era vizir na época. Jamais teria mentido para você. — E, então, Sírius desmoronou e sua própria verdade veio à tona. — Eu questionei as coisas durante muitos anos, mas fui silenciado. Uma noite, tivemos certeza de o termos perdido. — Ele se corrigiu, enquanto Harry fechava os olhos. — Achávamos que tínhamos perdido o príncipe Harry. Mas, no dia seguinte, o médico disse que você ainda lutava pela vida. Algumas semanas depois, vi a rainha andando consigo no jardim. Ainda estava fraco, numa cadeira.
Sírius chorava com a recordação de algo que, na época, o havia alegrado.
— Eu falei?
— Não. Ficou em silêncio durante muito tempo, exceto com seus pais. Achamos que os ataques podiam ter afetado seu cérebro, mas você ficou mais forte e era tão inteligente, mas nunca foi uma criança feliz. Rei Harry... — implorou Sírius —... Isso não pode sair daqui. Pense no efeito que terá sobre o povo.
— Olhe o que isso nos causou — desafiou Neville.
— Em nossa família também. Perdemos um irmão, um filho, um príncipe real. Ele deve retomar para o povo que o ama, que o tem pranteado sem motivo.
Mas Harry não estava ouvindo. Queria respostas, não apenas para si mesmo, mas para o verdadeiro Harry.
— Chamem o médico do palácio.
Ele chegou algum tempo depois, se ajoelhou e pediu perdão, enquanto seus pecados eram expostos. — Foi ordem do rei. Eu era seu médico.
— Você também é meu médico! — Os olhos de Harry brilharam de ódio. — Fui procurá-lo porque achei que estava enlouquecendo. Aqueles sonhos...
— Os remédios deviam tê-los feito parar.
— Eram lembranças! — rosnou Harry. Mas, no momento, não pensava em punição. Tudo o que queria era a verdade. — Conte tudo!