A paz no mundo foi conquistada à duras penas. E a manutenção dessa paz também. A Inglaterra, principalmente, estava uma bagunça. Hogwarts ainda não havia sido totalmente restaurada. No lugar em que o Lord das Trevas pereceu nem grama nascia, estava envolto por energia maléfica. Algumas salas também pareciam perdidas para sempre, como uma feia cicatriz que nos lembrava constantemente dos horrores da guerra.
Um dos erros mais comuns era pensar que todos os sonserinos foram adeptos d’Aquele-que-não-pode-ser-nomeado. No período pós-guerra então, esse erro perturbava a maioria das famílias sonserinas tradicionais. A minha família, mesmo sendo totalmente neutra durante a guerra, e mesmo tendo que se esconder – por essa neutralidade irritar o Lord – estava sendo investigada. Os nossos bens em Gringotes foram congelados até o fim da investigação. As pessoas olhavam feio para nós por onde andávamos. As coisas não estavam fáceis.
Minha irmã decidiu refazer seu último ano escolar na França, e eu não pude acompanhá-la. Como não tínhamos acesso à nossa fortuna, o dinheiro que meus pais dispunham apenas serviria confortavelmente para uma de nós mudar de país. E como Daphne era mais velha, por tradição, ela deveria ir.
Eu retornei à Hogwarts para refazer meu quinto ano, a fim de prestar os N.O.M’s. Eu recebi a carta de monitoria, pedindo para que eu ocupasse novamente essa função. Não estava esperando por isso. Embora eu tivesse sido promovida no ano da guerra, minha família não estava com boa moral esses dias. Mas todos os sonserinos deviam estar em semelhante situação, pensei.
No final, aquela foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo naquele ano. Foi através da monitoria que eu pude conhecê-la de verdade, que tivemos a chance de nos aproximar. De nos envolver. Hermione Granger foi uma das poucas pessoas maiores de idade que retornaram para Hogwarts. Ela voltou, inclusive, como monitora-chefe e uma das principais salvadoras do mundo bruxo.
Eu entrei no trem e os olhares acusatórios voltaram-se para mim.
- Hey, Greengrass, espero que seu pai apodreça em Azkaban! Junto com toda a corja nojenta de comensais. – Um menino da grifinória disse pra mim, os olhos raivosos. Tommy Markins. Havia perdido a irmã na guerra.
- Meu pai não era um comensal. – Falei friamente. – Lamento por sua irmã, mas não diga o que não sabe, ou eu lhe aplicarei uma detenção.
- Vocês sonserinos são todos iguais. Pessoas boas morreram por desgraçados como vocês e essa ideologia doentia da supremacia puro-sangue! – ele rugiu.
Meus olhos faiscaram e eu preparei uma resposta muito mal educada, mas, antes que eu pudesse soltá-la, ouvi uma voz atrás de mim.
- Tommy, já chega. – Uma menina se adiantou e colocou a mão no ombro do garoto. – Esse ódio não nos leva a lugar nenhum. Temos que agradecer que estamos aqui para ver o mundo ser reconstruído. Vamos fazer diferente.
Hermione Granger. A garota maravilha de todos os jornais do mundo bruxo.
Olhei o menino assentir e voltar para sua cabine sem mais qualquer palavra. Então virei para ela e ergui uma sobrancelha. Hermione me encarou.
- Desculpe por isso. As pessoas estão feridas, entende? Procuram culpados o tempo todo.
- Uma pena que procuram no lugar errado. – Respondi irritada.
Seus olhos me perfuraram como se pudessem ler minha alma, e eu tive vontade de sair dali. Cavar um buraco e me esconder. Quebrei o contato visual, desconcertada.
- Vamos para a cabine dos monitores? – Ela tentou desanuviar o clima tenso que havia se instalado. – Tenho muito que falar aos monitores. Algumas coisas terão que mudar.
Olhei-a sem dizer nada e a segui.
Prestei atenção em Hermione enquanto ela falava; mas não poderia dizer que prestei atenção na reunião.
Ela não era a garota mais bonita que eu conhecia, tampouco uma que me chamaria atenção à primeira vista. Mas, para um observador mais atento, você podia ver uma beleza sutil, encantadora. Sua forma de olhar como se tivesse carregado o mundo nos ombros, e sobrevivido a isso... como se não houvesse nada que ela não soubesse. Era magnetizante.
- Então, por fim, além do maior rigor na hora de repreender as rixas formadas pela guerra, vamos dar exemplos práticos também. Todas as casas farão rondas com a Sonserina, e não apenas a Lufa-Lufa. Eu pessoalmente farei a ronda com a monitora da Sonserina duas vezes por semana, e a monitora da Corvinal fará nas outras duas vezes. O monitor da Lufa-Lufa e da Grifinória se revezarão também com o monitor da Sonserina. Sim, como podem perceber, o número de rondas aumentará...
Agucei minha atenção nessa parte de seu monólogo. Então assimilei bem. Eu me encontraria com ela duas vezes por semana? Aquilo, de uma forma completamente bizarra, me animou.
Em pouco tempo as rondas se tornaram o único momento de paz que eu tinha. Bem, fora as aulas de Herbologia - onde todos estavam mais preocupados em não serem devorados por uma planta especialmente perigosa, do que saber de que casa você era. Até mesmo as aulas de poções não eram mais tão legais assim, embora ninguém ousasse ofender sonserinos na frente do Diretor de nossa casa.
- Pensei que com o fim da guerra não teríamos mais esse problema. – Falei para a menina ao meu lado, referindo-me às provocações nada amistosas que vinha sofrendo.
- A longo prazo não teremos. – Hermione respondeu, virando a varinha para inspecionar um canto particularmente escuro do castelo. – Mas a ferida ainda está aberta. Muitas pessoas perderam entes e amigos queridos... o próprio ministério está mais preocupado em punir todos que tiveram alguma ligação com o lado das trevas do que em desestimular essa situação.
“A Grande Limpeza” era como chamaram a investigação ministerial dos suspeitos. Ninguém se safou. De zeladores à empresários, todos tendo a vida privada e pública totalmente reviradas.
- Isso é uma droga. – Reclamei. – Realmente uma droga.
Hermione pegou na minha mão.
- Vai dar tudo certo.
E eu acreditei.
Essa amizade que vinha se desenvolvendo era no mínimo engraçada. Eu, que cresci ouvindo um monte de baboseira sobre sangues-ruins, lá estava... ansiando a semana toda pela ronda. Pelos meus momentos de tranqüilidade.
- Podemos parar um pouco aqui? – Perguntei preguiçosa.
- Acabamos de começar. – Ela protestou.
- Só sente um pouco comigo.
Hermione ajeitou-se ao meu lado com um resmungo.
- O que você fez hoje de manhã foi decente. – Ela começou o assunto.
- Não foi nada.
- Foi decente. – Ela repetiu.
Dei de ombros.
Hermione se referia ao fato de eu ter defendido um grifinório que foi cercado por uma roda de sonserinos cansados de seus insultos. O tal de Tommy Markins. Eles provavelmente o azarariam até que o intestino dele saísse pelo nariz ou algo assim. Eu apenas disse que não valia à pena. E não valia mesmo... teríamos a escola contra nós mais ainda. Quem afinal vê o lado dos sonserinos-vilões-e-cruéis? Ninguém. Não é como se eu tivesse sido uma grifinória altruísta nem nada disso.
- Como estão seus amigos? – Perguntei, claramente para mudar o rumo da conversa. – Você nunca me fala da sua vida. – Reclamei.
- Estão trabalhando. Procurando comensais que escaparam. – Ela enrugou a testa em uma expressão preocupada. – Claro que poderiam se dar ao trabalho de escrever mais que uma carta por mês... – Ela continuou, olhando para o teto.
- Entendo. – Foi só o que eu consegui dizer, ocupada em observar a desajeitada forma que seus cabelos caiam sobre os olhos. Tive vontade de abraçá-la. Mas eu não iria, obviamente. Abracei meus joelhos para compensar.
Hermione, que ainda falava frases desconexas para ela mesma, parou abruptamente e me olhou com aqueles olhos de chocolate intimidadores – que sempre pareciam saber um pouco além do que você gostaria.
Então ela sorriu e pegou na minha mão. Percebi que adoraria que isso se tornasse um hábito. E tive medo desse pensamento.
Aos poucos, eu sentia algo se manifestar dentro de mim. O medo de falar algo errado para Hermione, a vontade de tocar em seus cabelos cacheados, o alívio quando via que tais toques não me eram negados. A vontade de observar seu rosto delicado, a bonita curva do maxilar, os lábios bem desenhados...
- Acho que sou lésbica. – Murmurei a confissão, torcendo pra que ela não tivesse ouvido.
A grifinória parou de andar e perguntou sem me encarar:
- Como?
Soltei o ar, nervosa.
- Nada.
- Não. – Ela insistiu, virando para olhar nos meus olhos. – Como você sabe?
Fui pega de surpresa. Senti algo quente no meu rosto, eu provavelmente estava corando.
- Eu nunca tive atração por garotos e... hm – Parei, mirando meus pés. – Eu olho para sua boca e tenho vontade de beijá-la. – Sussurrei. Claro que eu quis me atirar da torre de astronomia logo depois.
Os lábios de Hermione curvaram-se em um sorriso doce.
- Tudo bem. – Ela disse apenas.
“Tudo bem”? O que aquilo deveria significar? “Tudo bem”?
Eu pensei que alguma coisa mudaria depois daquele momento. Mas não. Tudo continuou exatamente o mesmo. Exceto que os olhares de Hermione demoravam um segundo a mais que o prudente, mais lânguidos para quem era apenas uma amiga. Ou isso era apenas minha imaginação. Minha cabeça que insistia em tentar entender o “tudo bem”.
- Vem comigo. – Ela me puxou pela mão, na véspera de nossa volta para casa no feriado de natal.
- Onde você está me levando? – Perguntei, rindo.
- Nenhum lugar especial.
Nós paramos em uma sala de aula vazia, e a garota fechou a porta.
Ela sorriu e segurou meu rosto com carinho. Meu coração começou a disparar.
- Hermione? – Perguntei, confusa.
Não obtive resposta. A morena estava ocupada em capturar rapidamente meus lábios, sugando-os lentamente antes de tocá-los com a língua, exigindo que eu os abrisse. Envolveu minha língua e contornou-a voluptuosamente. Eu perdi o ar. Senti-me derreter em seus braços, que agora envolviam minha cintura. Então Hermione me soltou.
- Feliz natal. – Ela riu. – Merlin, desculpe, isso soou presunçoso.
Meu natal continuou cheio de surpresas.
Assim que eu cheguei em casa, lá estava uma elegante mulher loira, sentada com as pernas cruzadas e tomando chá na minha sala. A pose altiva, o olhar arrogante. Narcissa Malfoy.
Ela me cumprimentou com um sorriso frio, quando sentei junto à minha mãe.
A mulher conversava amenidades com meus pais, mas eu sabia bem o intuito de sua visita. Como se ela precisasse vir até aqui para nos lembrar do voto perpétuo.
- Bom, veja só a hora. Preciso ir, infelizmente. – A loira levantou-se e nós a acompanhamos até a porta.
- E Astoria, querida, Draco manda lembranças.
Sorri amarelo. Draco Malfoy e sua maldita paixão platônica por mim. Para o diabo com ela!
Narcissa me lançou um último sorriso frio, e comecei a pensar que ela talvez fosse legilimente.
- Astoria. – Minha mãe me chamou assim que a loira partiu.
- Sim?
- Precisamos conversar.
ÓTIMO. Realmente ótimo. Então agora eu ia pra França? Para a França?
- Mas, mãe, não posso nem terminar o ano em Hogwarts?
- Como você sabe, as investigações eram o único motivo pelo qual não a mandamos para Beauxbatons antes. Isso não é mais um impedimento. Nossa conta foi liberada semana passada. Tempo suficiente para que eu programasse sua transferência.
- Mas mãe... – Eu ainda tentei, um gosto amargo tomando conta da minha boca.
- Não tem discussão. Eu e o seu pai também mudaremos.
Corri para o meu quarto, uma lágrima ameaçando cair pelo meu rosto. É óbvio que eles queriam sair logo da Inglaterra. Esperar a poeira baixar.
Claro que eu sempre poderia fugir e... um riso seco saiu rasgando minha garganta. Não... é claro que não. Merlin, eu tinha dezesseis anos, nenhum dinheiro, nenhum lugar para ficar. Nenhuma escolha. E, pra variar, nenhuma coragem.
O resto do meu feriado passou de forma um tanto quanto melancólica. Escrevi algumas cartas para Hermione, e vi que, ao menos, ela compartilhava meu sentimento. Quando as coisas pareciam que iam funcionar, veio essa história de mudança.
E agora eu só a veria na festa de ano novo do ministério. E depois? Eu não estava muito otimista nas minhas estimativas.
A tal festa de ano novo seria uma forma de – finalmente – promover uma união no mundo mágico. As famílias tradicionais absolvidas foram convidadas, assim como aqueles que tiveram participação efetiva na guerra. O ministério ainda disponibilizou convites para quem quisesse ir, sendo o número de vagas preenchidos por ordem de pedido.
Eu empenhara ao me arrumar. Meu vestido azul claro perolado era justo, moldava-se bem ao corpo, e talvez fosse um pouco mais curto do que minha mãe aprovava. Mas eu estava indo embora afinal, pelo menos minha roupa eu poderia escolher. Fiz um coque frouxo no cabelo, e deixei que alguns fios loiros caíssem no rosto. Usei meus saltos favoritos – em beleza, não em conforto.
O salão de festas arranjado do ministério parecia pequeno para tanta gente. Era como uma festa oficial de comemoração pelo fim da guerra. As pessoas estavam felizes demais pra alimentar qualquer rivalidade. Talvez Hermione estivesse certa, pra variar. As coisas ficariam melhores com o tempo.
As bandejas flutuavam sozinhas com hidromel, vinho dos elfos, água e suco de abóbora. A moda trouxa era orgulhosamente exposta em ternos e vestidos diferentes. As combinações nem sempre eram as melhores, mas os que usavam pareciam satisfeitos com a escolha.
Eu caminhava impaciente entre as pessoas. Queria vê-la, a saudade queimava forte dentro de mim. Senti um toque no ombro, e me virei, com a melhor carranca no rosto.
- Qual é o problema? – Hermione sorriu e eu amoleci.
- Problema? – Perguntei antes de abraçá-la forte.
- Senti sua falta. – Ela sussurrou, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
- Mentira. – Acusei com um sorriso.
- Tudo bem, você me pegou. – Ela riu, levantando as mãos ironicamente.
- Foi exatamente o contrário. – Olhei-a de forma sacana.
- O que fizeram com você durante as férias?
- O que não fizeram comigo durante as férias. – Continuei com as provocações.
Hermione beijou minha bochecha.
- Astoria, Astoria...
- O quê? – Perguntei inocentemente.
- Não fala essas coisas pra mim. – Seus olhos castanhos me invadiram, e eu me lembrei de respirar. – Você vai fazer tanta falta.
- Não vamos falar disso. – Tentei sorrir, mas falhei miseravelmente.
- Quer conhecer meus amigos? – Ela forçou um assunto.
Eu olhei em direção a Harry Potter. Ele estava de mãos dadas com uma ruiva. Ginny Weasley. O garoto conversava com um outro ruivo, mas ela olhava diretamente pra mim, os olhos semicerrados e avaliativos. Não gostei.
- Eu só queria ficar a sós com você.
Hermione sorriu de uma forma que quase me desequilibrou.
- Vem.
Ela guiou-me até um corredor e nós entramos em uma porta. Estoque de bebidas.
- Você conhecia aqui? – Olhei o lugar apertado e de fraca iluminação.
- Não. – Ela deu uma risadinha. – Quer dizer, eu sabia que estaria vazia, porque consegui sentir a presença do feitiço climatizador... esse friozinho agradá...
Calei-a com um beijo. Tinha vezes que ela simplesmente falava demais.
Hermione entendeu o recado.
- Você não devia fazer isso comigo.
- Hm. – Consegui dizer, enquanto ela pegava no meu rosto delicadamente, chegando mais perto, arrastando-me displicente para a parede.
Enlacei sua cintura, busquei seus olhos com os meus; tentando manter a respiração regular quando ela se inclinou para o meu pescoço, arrastando os lábios pela minha pele e eriçando meus pêlos da nuca.
Ofeguei levemente quando ela sugou minha orelha, e afundei as unhas na sua cintura. Não conseguia explicar isso. Essa sensação. Como seu cheiro me enlouquecia. Seu toque.
Puxei-a mais para perto e encontrei seus lábios, procurei sua língua. Quente. Fria. Mordi seu lábio inferior e tremi quando senti sua mão entrando pela minha blusa, caminhando pela minha barriga, meu quadril.
Hermione suspirou quando encontrou meu seio, eu gemi em seus lábios. Eu queria mais. Levei uma mão até sua nuca e apertei. Eu queria mais.
Senti minhas costas baterem duramente na parede enquanto os dedos dela iam para minha coxa, sem desgrudarmos as bocas. Ela passeou pela parte interna, levantando uma parte do meu vestido.
Então a porta escancarou-se. Hermione me largou bruscamente.
Narcissa Malfoy, com sua elegância fria, deu alguns passos tranqüilos para dentro do estoque. Os olhos azuis perscrutando todos os detalhes da cena. Minha provável expressão corada, os cabelos bagunçados da morena à minha frente.
- Então aqui não é o banheiro. – O sorriso gelado que eu já conhecia brincou em seu rosto.
Ela olhou de forma sugestiva para mim e para Hermione antes de se retirar. Os saltos finos fazendo um tec tec irritante pelo corredor.
N/A: Minha amiga oculta... o que dizer dela... Putz, é uma autora incrível. Incrível. Eu a admiro desde que comecei a postar fics aqui.
Não tive muitas dicas pra essa fic. Quer dizer, sei que ela gosta de NC's. E da Hermione. E de NCs.
Então é isso.
Prometo que você terá uma detalhadíssima NC. hahaha.
Bom, se isso já não diz muita coisa...
Hermione e Astoria não é o shipper principal, aliás, eu poderia cortar praticamente todas as suas cenas, menos essa última. Mas eu quis situar vocês na realidade que a fanfic se passa, e também, não resisti escrever um pouco desse casal. Tá tudo MUITO corrido, e temo que esse capítulo tenha ficado TOTALMENTE deslocado, então ele virou um prólogo. HUEAEAEAHUA
Miss Granger, fiquei muito honrada por ter te tirado, e espero que essa fic fique a sua altura.
Feliz Natal.