Capítulo IX
Harry foi até a janela e, em silêncio, ferveu por dentro, olhando, mas sem focar a chegada dos convidados. O vidro espesso abafava o barulho dos rotores dos helicópteros, o barulho dos reis e seus assessores se esparramando pelo gramado decorado... Mas então sua mente parou de pensar em trabalho, e numa esposa que às vezes não agia como tal. Seu sangue congelou quando a rainha Luna desceu do helicóptero... Como ela mudara. Não mais existiam os vestidos desalinhados que ela usava nos primeiros dias de seu casamento com o rei Neville; agora, mesmo tendo acabado de dar à luz, ela estava insinuante e bem arrumada. Mas foi só uma olhadela que ele dirigiu a Luna... Os olhos dele estavam fixos na porta do helicóptero, ele podia sentir o suor pingando de sua testa e fechou as mãos em punho enquanto esperava. Então, de repente, lá estava ele.
O rei Neville Longbottom, vestido numa túnica azul claro, atravessou o gramado e alcançou sua mulher. Ela deve ter dito algo que o agradou, pois ele sorriu e depois olhou o palácio, direto para a janela onde Harry estava. Embora ele soubesse que era impossível, que ninguém conseguiria vê-lo, Harry deu um passo atrás. Ele sabia que logo eles estariam dentro do palácio, e sua respiração saía rapidamente pelas narinas, pois sua boca estava fechada. O pavor que o perseguia, cercando-o há tanto tempo, o havia capturado, aprisionando-o... Então ele se virou e viu Hermione, despreocupada, calma, e ele a desejou de um modo diferente.
— Hermione!
Ela olhou para cima e ele a viu franzir a testa. Ele queria que ela viesse até a janela para mostrar-lhe, contar-lhe... Foi quando bateram na porta e Sírius entrou. Harry sentiu como se às vezes vivesse num aquário de peixinhos dourados, daqueles bem grandes e luxuosos, talvez, mas de qualquer forma um aquário.
— Espere até que eu diga para você entrar! — disse Harry asperamente, e Hermione sentiu suas bochechas ficarem vermelhas só de pensar o quanto teria sido embaraçoso se Sírius tivesse entrado apenas alguns minutos antes. Ou pior, se ela tivesse cedido a seus desejos íntimos e aos apelos de Harry.
— Perdão, sire, mas gostaria de informar ao senhor que o rei Longbottom de Portugal e a rainha Lovegood da Espanha chegaram.
— Estamos esperando muitos convidados — respondeu Harry sem alterar a voz, mas havia algo nela que fez Hermione olhar para ele. Ela pôde ver um músculo se mover em uma de suas faces enquanto ele falava. — Não preciso ser informado de que as pessoas estão chegando. É costume cumprimentá-las no dia seguinte, na recepção oficial.
— Eles perguntaram se poderiam jantar com o senhor hoje à noite — disse Sírius com insolência. — É claro que isso foge às regras, mas eles são os governantes do reino de Adamas.
— Não! — disse Harry, sem explicação ou adjetivos. Simplesmente, um sonoro não.
— Talvez eu deva sugerir que vocês se encontrem esta tarde para tomar uns refrescos. Eles têm de pegar o avião de volta para Portugal logo depois da recepção e pediram que eu explicasse que o filho deles, príncipe James, é jovem demais para ficar sozinho em casa.
— Não!
Mais uma vez, a resposta de Harry foi direta, e ele dispensou um Sírius de aparência perturbada, que de algum modo teria de suavizar a dura recusa de seu rei.
— Talvez fosse agradável jantar com eles... — sugeriu Hermione quando eles ficaram a sós. Foi melhor do que discutir na frente de Sírius. — Ou apenas passar um tempinho com eles. Talvez eles tenham algum conselho a nos dar, afinal, eles também governam dois países...
— Eu já dei a minha resposta.
— O convite é extensivo aos dois. — Hermione não se calaria. — Eu adoraria aceitar.
— Você vai respeitar a minha vontade! — retrucou Harry asperamente. — Em meu palácio, em minha casa, vai obedecer minhas regras.
— Eu obedeço as minhas próprias regras, Harry!— disse Hermione, desafiando-o. — Não tente me forçar a fazer as coisas do seu jeito. Certamente, teremos tempo de sobra para tomar refresco com eles.
— Achei que você tinha dito que tinha de trabalhar — retrucou Harry. — Você deixou bem claro que estava muito ocupada para perder seu tempo comigo, para me satisfazer, e, no entanto, fica feliz por poder ficar de papo com estranhos.
— Satisfazer você — encrespou Hermione, usando o palavreado dele. — É para isto que estou aqui?
— Nós deveríamos estar produzindo um herdeiro... — disse Harry com grosseria. — Tenho certeza de que seu povo preferiria que você se concentrasse em ficar grávida e não se preocupasse com hospitais ou como Londres vai gastar os seus bilhões.
Ela ficou aturdida demais para dar uma resposta. Então, ele continuou, barbaramente.
— Sugiro que você escolha suas prioridades, Hermione, pois, francamente, elas estão confusas.
E com isso ele se retirou. Hermione piscou os olhos quando ele bateu com força a porta pesada atrás de si. Ela não tinha noção do que acabara de acontecer. Aquele humor sombrio vinha sem aviso, simplesmente surgia do nada. Mas ela se recusou a correr atrás dele, mesmo que isso significasse não vê-lo até a hora da recepção.
Ela se sentou e apanhou seus documentos, disposta a se concentrar, embora suas mãos tremessem, embora seu coração batesse com força. Mas ela não conseguiu. Colocando os documentos sobre a mesa, descansou a cabeça nas mãos. Ah, as palavras dele tinham machucado, e ela estava muito longe de confiar a ele seus encargos. Mas havia algo além daquilo revirando-lhe o estômago, algo que deixava seu coração apavorado.
Havia algo de muito errado. Ela sabia.
Fechou os olhos, projetou sua mente de volta à última vez em que Harry agira daquela maneira, o dia em que ele resolvera de repente penetrar bem fundo no deserto...
Eles estavam na banheira, conversando, tomando banho, rindo, se amando, compartilhando...
Então ela olhou para cima, olhou para cima sem ver nada, piscando os olhos seguidas vezes. Ela conversara sobre a coroação, sobre a noite em que ela ficara ao lado dele e ele nem tinha notado a presença dela ali. Ficou falando da princesa Luna e do rei Neville naquela ocasião também.
Mas aquilo não fazia sentido. Como é que governantes de um outro país, pessoas que ele mal conhecia, poderiam afetá-lo tanto?
____________________∞ Alma de Rainha ∞____________________
Ele havia destruído aquele dia.
Harry não acordou porque não dormira. Ficara tentado, de tantas maneiras, a quebrar a tradição e unir-se a Hermione; chegou até mesmo a tomar o caminho do corredor. Mas Molly estava sentada do lado de fora do quarto, guardando a rainha, garantindo seu descanso, e seus olhos vermelhos o observaram por um longo e silencioso momento antes que Harry se retirasse.
Durante meses ele teve pavor daquilo; não do casamento, mas da recepção.
Na verdade, desde a coroação da Espanha. Na fila de cumprimentos no palácio de Madrid, aguardando a rainha coroada há pouco, ele tinha pouca noção do que o esperava.
Houve momentos anteriores àquele, claro. Ao longo dos anos, ele às vezes entrava por engano num corredor e ficava meio confuso quando a porta que ele pensava encontrar não estava lá. E, além disso, sempre havia os sonhos.
Sonhos que, mesmo quando criança, o perturbavam, embora não fossem pesadelos. Harry nunca tinha andado a cavalo. Em seus sonhos, no entanto, ele cavalgava, podia sentir o movimento poderoso do animal, ouvir seus irmãos rindo.
Ele sonhava com aquilo que mais queria, explicou sua mãe, com os irmãos que ela não podia lhe dar e com os cavalos que ela o proibia de ter.
E aquilo fazia sentido.
Até a coroação.
Olhando para a fila lá embaixo, ele sentira seus olhos se dirigirem ao rei Neville, a um rosto que ele conhecia bem, e ele percebera o pavor crescendo dentro de si. Em seguida, notara que não estava sozinho com aquele sentimento, pois quando a rainha o cumprimentara, Harry vira o choque no rosto de Luna, o questionamento em seus olhos quando ela olhara os dele. Tal fora o choque que ela ficara pálida e quase desmaiara. Neville aparecera então, a levara embora sem sequer olhar na direção de Harry.
Isso deveria ter sido esquecido.
Mas então as cartas começaram a chegar.
E os telefones a tocar.
Às vezes, um convite.
Ele ignorou tudo, embora o dever não lhe deixasse escolha a não ser enfrentá-los.
Normalmente, Harry ficava muito feliz quando estava sozinho e pensativo. Mas naquele dia ele não queria pensar. Só para matar o tempo, ele até inspecionara o salão de baile onde ocorreria a cerimônia. Ele não podia ficar sozinho. Aquele dia seria impossível sem Hermione ao lado dele.
Normalmente ele não dava importância para organização, mas ele sentiu uma necessidade incomum de ordenar as coisas, para tê-la a seu lado naquele dia, por razões outras que não o dever.
Até conhecer Hermione, ele não sabia nada sobre o que era precisar, todos os seus desejos, fossem eles sede, mulheres ou poder, eram imediatamente satisfeitos. Mas com Hermione não havia fim. A necessidade continuava. Uma necessidade diferente; uma necessidade infinita, que ele não conseguia explicar.
Barbeado e de banho tomado, e com muito tempo livre até a hora de ver Hermione de novo, a paciência de Harry se esgotou quando Sírius chegou para checar com ele os mínimos detalhes.
— Aqui está o colar de esmeraldas de Paris. — Ele abriu a caixa para que Harry o visse. — A rainha vai usar isto esta noite.
Harry olhou as jóias cintilantes que a esposa do rei da França deveria usar na cerimônia oficial. Era uma clara demonstração de riqueza, as mais finas pedras tinham sido lapidadas e polidas para mostrar o melhor de Paris. E certamente seria ele quem daria o colar a ela.
— Eu mesmo vou dar o colar a Hermione.
— Mas ela tem de usá-lo esta noite — salientou Sírius. — Ela está sendo arrumada...
— Então, eu vou levá-lo até ela agora mesmo.
Os olhos dele desafiaram Sírius à discussão. Ele estava cansado da tradição, disse Harry a si mesmo, quando convocou seu camareiro e vestiu as túnicas do casamento de rei; era uma tradição tola, concluiu ele, quando sua cafia foi presa com uma pesada trança de ouro. Eles já eram marido e mulher; por que deveriam se manter afastados? Ele era o rei, ele dava as regras, e certamente, pensou ele quando caminhava pelos corredores até a porta de seu quarto, que seria uma tradição melhor que ele, o governante, a presenteasse com aquele mimo.
Tudo isso ele disse a si mesmo quando abriu a porta, não inteiramente preparado para admitir que a única pessoa que ele queria ver naquele instante, a única pessoa com quem ele precisava passar aquele dia, era ela.