Capítulo I
Harry Potter releu a carta.
Era uma entre muitas que lhe desejavam tudo de bom no dia de seu casamento. Vinha do rei Neville de Portugal, que estendia seus parabéns e dizia que ele estava ansioso para cumprimentá-lo formalmente na semana seguinte, durante a recepção oficial.
Era a terceira carta.
A primeira enviara condolências pela morte de seus pais e o convidara a passar uns dias no Palácio de Lisboa.
Harry não respondera. Esta carta, ele queimara.
Depois chegara outra, que agradecia o presente do povo da França pelo nascimento do filho deles, o príncipe Zafir.
Mas Harry não a respondera, embora a tivesse guardado por alguns dias, lendo e relendo-a até que finalmente ela foi queimada.
E agora aquilo.
Não havia nada que a desabonasse, disse Harry a si mesmo ao ler a carta talvez pela centésima vez. Ele não sabia o que procurava entre as palavras. Havia centenas de cartas como aquela, desejando tudo de bom, mas Harry não conseguia deixar de ler nas entrelinhas daquela carta...
Sua noiva o esperava, ele já estava indesculpavelmente atrasado. No entanto, ele ainda refletia sobre a carta.
Era uma carta formal do rei Neville de Portugal e de sua mulher, a rainha Luna da Espanha. A união de ambos reunificara o reino de Adamas. Sendo assim, refletia Harry, por que Neville escolhera escrever em papel de Lisboa em vez de usar a insígnia de Adamas? Harry observava o brasão, passou os dedos sobre a insígnia, e não conseguia compreender por que ela o intrigava. Mas ela simplesmente o intrigava.
Estivera preocupado desde a coroação da rainha Luna, desde que ela o olhara nos olhos e ele notara pavor...
Não, disse Harry a si mesmo, pavor, não. Ela estivera prestes a desmaiar, e ele conversara com ela até que seu marido percebesse que havia algum problema e a levasse embora delicadamente. Ela estava grávida, como se veio, a saber, o que explicava tudo.
A não ser pelo fato de que não explicava nada.
Porque a inquietação em sua alma começara antes que Luna o tivesse cumprimentado, quando o rei Neville já tinha começado a caminhar para o altar. As batidas rápidas do coração dele tinham começado... Batidas rápidas que o acordavam à noite e haviam reaparecido ali, naquele exato momento.
Embora ele não pudesse exatamente aceitá-lo como tal, aquilo era medo.
— Está tudo pronto, Vossa Alteza.
Harry não se virou quando Sírius, seu vizir, entrou na suíte.
— Vossa noiva o aguarda.
Harry podia ouvir a nota de inquietação na voz de Sírius; afinal, sua noiva, a rainha Hermione, já o esperava há algum tempo, os procedimentos estavam prestes a ter inicio, e até então o noivo não aparecera. Sírius voltara aos aposentos reais para certificar-se de que nada de grave tinha acontecido, e para encontrar o noivo no mesmo lugar onde o vira da última vez, de pé em frente às janelas francesas, ainda com a carta nas mãos e fitando, taciturno, o mar.
— Estarei lá num instante.
— Vossa Alteza, posso sugerir...?
— Você ouviu o que eu disse?
Só então Harry se virou, com olhos furiosos por causa da intrusão, pondo o assessor em seu devido lugar, lembrando-o de quem era o rei. Vestido com a farda militar completa da França, uma soberba roupa verde-oliva, o peito adornado com medalhas, as pernas envolvidas pelos canos altos de botas de couro pretas, uma espada na cintura e um fio de ouro prendendo sua cafia, Harry era uma figura imponente. Mas, pensando bem, ele sempre tivera esse porte. Media quase l,92m de altura, tinha ombros largos e uma estrutura forte e musculosa, não precisava de medalhas, espadas ou de um régio galão de ouro para impor respeito.
— Ela pode esperar até que eu me apronte.
— Vossa Alteza.
Sírius era sábio o bastante para não discutir. Assim, fez uma discreta reverência e foi embora. Mais uma vez, sozinho. Harry continuou a contemplar o mar lá fora. Ela iria esperar. Harry tinha certeza disso.
Ela já esperara uma década por aquele dia. Prometido a ela desde a infância, ele deveria ter casado dez anos antes, mas resolvera não casar, em vez disso, se concentrara em aproveitar sua liberdade.
Só que agora aquilo já estava acabado.
Harry foi ate a sacada e desejou que a vista dali desse para o deserto, não para o mar. Para o deserto, onde ele encontrava a paz rara; para o deserto, aonde ele levaria sua noiva aquela noite.
Como ele estava cansado daqueles pensamentos.
Desde que seus pais haviam morrido num acidente de avião, seus conselheiros estavam fazendo hora extra. Sua vida de playboy iria acabar; ele se tomara rei, e reis não viviam como príncipes. Reis se casavam e produziam herdeiros, e era hora de Harry fazer o mesmo. Depois de três meses de luto profundo, o casamento que ele vinha adiando tinha de ocorrer imediatamente.
A ocasião era delicada, dadas as circunstâncias: era inadequado fazer celebrações gigantescas tão pouco tempo depois daquela perda para o país. O povo seria informado na manhã seguinte que o rei se casara e que se recolheria com sua noiva no deserto antes da recepção oficial. Depois de um outro período apropriado de luto, aconteceria a coroação. Então o povo comemoraria.
Comemoração em dobro, talvez. Os anciãos haviam sido brilhantes na deliberação: nove meses depois do casamento, seria bom ter um príncipe a caminho.
Harry fora aconselhado por Sírius a se abster de encontros sexuais na semana anterior ao casamento, para se assegurar de que seu sêmen fosse abundante e potente. Foi um conselho que Harry fez questão de ignorar.
Seu sêmen sempre fora abundante!
Eram acordos comerciais, nada além disso. A Inglaterra estava lutando sob o governo de uma mulher, e a presença forte de Harry, embora ocasional, ajudaria a orientar o país.
É claro que ele teria uma amante. Muitas, talvez.
Ele não tinha a intenção de dormir sozinho à noite.
A inquietação que Harry sentia naquele instante não decorria essencialmente da ansiedade por causa do casamento, e não era orgulho o que o fazia negar estar inquieto. Muito antes de o casamento ter sido confirmado, muito antes de seus pais terem morrido, havia uma agitação profunda em sua alma.
Um problema que ele não conseguia definir.
Um lugar dentro dele que ele não queria visitar.
Às vezes, quando ele, de pé, fitava uma carta, como naquele momento, atrás de pistas que certamente não existiam, ele realmente pensava que estava ficando louco.
Às vezes, ele acordava de madrugada com o coração acelerado. Sentia a presença de uma bela mulher a seu lado na cama, enroscada nele, e ainda assim ele a olharia com menosprezo, se levantaria e se vestiria, ou mandaria que ela se retirasse e fosse para outro quarto. Não era como ele gostaria de ser visto. Seu coração estava acelerado, a respiração, curta, enquanto seus olhos verdes examinavam o mar ondeante. Ele sentiu a náusea vir como se ele estivesseem alto-mar. Podiasentir o suor porejar em sua testa, podia sentir seu corpo balançando com as ondas. As cicatrizes grossas em seus pulsos ardiam e cocavam, como acontecia de vezem quando. Seusolhos perscrutaram o vasto mar, procurando ele não sabia o quê. Então ele desviou seu olhar, desejoso de que seu coração desacelerasse, para que a loucura parasse. Ele consolou a si mesmo, não com a lembrança da noiva virgem, mas com o conforto do deserto convidativo. Sim!
Ele se livraria logo da cerimônia de casamento, a levaria para o deserto, consumaria o casamento e, então, no dia seguinte poderia caminhar, poderia ouvir a alma do país que ele governava e pedir que o país lhe trouxesse paz.
Mais feliz, ele veio da sacada e atravessou o quarto, com a carta ainda nas mãos. Parou ao lado de uma vela grossa e ficou em pé examinando o papel pesado e enrolado, e a divisa de Portugal brilhou quando as chamas a tocaram. Então ele a jogou na antiga lareira, do mesmo modo como fizera com as outras cartas, e, terminado aquele ritual, ele foi para seu casamento.
Quando abriu a porta, Sírius praticamente caiu para dentro. Harry ficou parado tempo suficiente para lançar a seu vizir um olhar fulminante. Depois, confiante, avançou pelo palácio a passos largos, passou pelos retratos de seus ancestrais, atravessou o corredor e foi até os jardins, pronto para cumprir seu dever.
Os anciãos estavam sentados, mas se levantaram quando ele entrou.
Sua noiva não olhou em volta. Ela vestia uma túnica dourada resplandecente, tinha a cabeça coberta e se manteve cabisbaixa enquanto Harry se aproximava.
Ele não estava ansioso por aquilo!
Londres tinha costumes rígidos. As mulheres usam véu e túnica até que se casem. No entanto, mesmo as numerosas camadas de tecido não conseguiam disfarçar suas formas bastante rechonchudas.
Alegria, alegria em dobro, pensou Harry com ironia. Uma amante gorda e inexperiente para emprenhar. Será que seus deveres não tinham fim?
Numa concessão rara aos tempos modernos, os anciãos de Londres tinham concordado que o anúncio fosse acompanhado de fotos. Não era hora para grandes banquetes ou celebrações, mas ainda se precisava muito de boas notícias para os povos de Londres e Paris.
O juiz falou, perguntando a Hermione se ela seria uma esposa fiel, se iria servir seu marido, dar-lhe filhos, alimentá-lo e também à sua prole.
Sua voz era suave quando ela disse que sim.
O juiz perguntou-lhe de novo.
De novo, ela disse que sim.
Repetiu-se a pergunta pela terceira vez, e Harry observou os olhos dela piscarem, embora ela ainda não tivesse levantado o olhar na direção dele, como seria certo.
— Sim.
Então chegou a vez de Harry. Ele seria o provedor dela?
Foi tudo o que lhe foi perguntado, e apenas uma vez. Um rei não precisava repetir-se.
— Sim.
Ela olhou para cima, e os olhos que cruzaram com os dele eram de um violeta profundo. Depois, longos cílios negros cobriram aqueles olhos. Harry viu-se levemente apaziguado, eles eram claros e brilhantes e realmente muito bonitos, talvez ele pudesse pedir-lhe que os mantivesse abertos à noite!
Terminou rápido. Os olhares de ambos tinham se cruzado por menos de um segundo, ainda assim, aquela fora a imagem captada e seria transmitida pelo mundo pela manhã. Sheik rei Harry Potter da França, e agora da Inglaterra, e sua noiva, rainha Hermione Potter da Inglaterra, e agora da França.
A tão esperada união era agora oficial.
— Partiremos para o deserto em uma hora... Pela primeira vez, ele se dirigia a sua mulher.
— Posso confiar que meus funcionários estão sendo prestativos?
Ela não respondeu. Ainda cabisbaixa, fez apenas um breve meneio com a cabeça.
— Você precisa de alguma coisa? — Harry tentou entabular uma conversa, ao menos procurou dar-lhe descanso, mas tudo o que conseguiu dela foram um meneio ou um balançar de cabeça. Ela se recusava a dar-lhe até mesmo um olhar de relance com aqueles bonitos olhos cor de violeta, e Harry soltou entre os dentes um silvo de irritação.
— Vejo você em uma hora.
Evidentemente, Harry pensou enquanto subia até sua suíte, pisando com força, ao som metálico das fivelas de suas botas no chão de mármore polido, que a noite seria extremamente monótona.