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2. Prólogo


Fic: Alma de Rainha- HHr -Com Trailer Concluída 12.12


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Prólogo


     Hermione não fechou os olhos quando as criadas a cobriram com véus. Em vez disso, olhou-se no espelho enquanto, um por um, seu colo generoso, suas pernas alvas e as delicadas tatuagens de hena desapareciam por baixo das camadas douradas do vestido coberto de jóias de ouro. Depois, observou enquanto seus longos cabelos negros, seu rosto maquiado e seus lábios carnudos também desapareciam, até que seus olhos foram tudo o que restou.


     Olhos que piscaram nervosamente quando ela compreendeu que, tirados os véus, não haveria o alívio de costume. Aquilo não significaria que ela estava em casa, em seu palácio em Londres, onde podia relaxar. Não. Os véus seriam tirados diante de seu marido; ela estaria no Deserto de Qusay, em sua noite de núpcias.


     O rei Harry Potter, o homem a quem ela estava prometida desde a infância, resolvera, depois de muitos anos, honrar o compromisso e finalmente pedira que ela se tomasse sua noiva.


Ele a deixara esperando. E, o que era mais significativo para Hermione, deixara o país dela esperando.


     A vida dela não fora, na verdade não era, nada senão um constante estado de espera. Hermione era a mais velha de sete filhas. Sua mãe morrera tentando gerar um herdeiro homem; Hermione ouvira os soluços de choro e a raiva quando cada parto extenuante resultava, todavia, noutra colheita ruim. E o povo profundamente tradicionalista de Londres se recusara ainda mais, a cada nascimento, a ser governado por uma rainha.


     Ah, mas o pai dela fora sábio. Um acordo fora fechado muitos anos antes com o rei da França, cujo casamento produzira apenas um filho: os dois se casariam. Harry Potter interviria e apaziguaria o povo de Londres. E eles, claro, gerariam um filho, que um dia governaria os dois países.


     Como a união não se realizou, Hermione tornou-se rainha com a morte do pai. Os anciãos queriam que ela governasse apenas por forma, de modo que eles pudessem dar-lhe conselhos e manter o povo seguro. Mas ela pretendia levar sua tarefa a sério. Ela defendera suas idéias e recusara-se a assinar ou dar voz a qualquer coisa com a qual não concordasse.


     E quanto a seu antigo noivado, ora, Harry estava muito ocupado com sua vida de solteiro e não queria abrir mão de seus costumes. Foi preciso que seus pais morressem para que ele se visse obrigado a casar; e ela amadurecera muito enquanto esperava pela convocação dele para o casamento. Hermione governara seu país do jeito dela, e a responsabilidade tornou-a sábia. Harry havia demorado muito para exigir obediência, motivo pelo qual ela não abaixaria a cabeça dali em diante nem entregaria tudo de mão beijada a um homem que não se interessava por ela nem como rainha nem como mulher.


     A morte recente dos pais dele claramente provocara uma reavaliação imediata, e o príncipe playboy retornara da Europa e assumira com magnificência o papel de rei da França. Líder nato, apesar de sua perda particular, ele guiava seu povo em tempos sombrios; Hermione sabia, pois observara. Eles nunca haviam se falado, ela o vira apenas de longe e só ouvira falar de seus hábitos de luxúria. Mais recentemente, no entanto, ela abrira espaço em sua agenda atribulada para acompanhá-lo mais de perto, gravando e observando seus discursos, que eram eloqüentes e incisivos. Ele não era mais o príncipe Harry, e sim um rei de verdade.


E um rei precisava de uma noiva.


Era uma transação comercial.


     Hermione estava ciente disso. No entanto, quando observava de longe o homem que um dia seria seu marido levando uma vida selvagem e corrompida, mais do que com raiva, ela tinha inveja. Inveja da liberdade de que Harry usufruía para ter amantes, levar uma vida selvagem e libertina enquanto ela tinha que esperar.


Ela estava com 26 anos de idade.


E naquela noite, finalmente, era a vez dela.


     Naquela noite, quer se tratasse de transação comercial ou não, de noivado por conveniência, mesmo que, em geral, eles fossem levar suas vidas afastados um do outro, naquela noite ele a levaria para o Deserto de Qusay.


     Naquela noite, Hermione ficaria frente a frente com seu marido... De repente ela ficou feliz por estar usando véus, pois debaixo deles, ela ruborizava... Naquela noite, o rei Harry Potter se tomaria seu amante. Seu único amante.


     Estranhamente, ela gostaria que ele não fosse tão bonito, que o rosto que ela seguira nos jornais, na televisão e na Internet não tivesse tamanho encanto taciturno e arrogante. Ela examinara com todo o cuidado os traços de seu rosto, dando pausa no vídeo de vez em quando, perdendo o fôlego por um instante quando os olhos extremamente verdes dele se voltavam para ela, observando-a. Ele tinha aparência de rei, do nariz grego, reto, até as faces barbeadas e a atraente cabeleira negra e espessa de formato perfeito. Ele era de boa linhagem.


     Ele também tinha aura, uma confiança natural, uma presença que o envolvia. Ela mesma tinha testemunhado invisível a distância, quando suas respectivas agendas os mantinham desempenhando as mesmas funções. Escondida atrás do véu, Hermione observara seu futuro marido, desejando que aqueles olhos a descobrissem, que ele lhe desse um sorriso ou mesmo um rápido sinal de reconhecimento, qualquer coisa que pudesse indicar curiosidade com relação a sua futura mulher.


Ele não lhe deu nada.


     Menos que nada. Ele estivera ao seu lado na coroação da rainha Luna da Espanha no ano anterior e simplesmente a ignorou.


     A vergonha daquele dia ainda queimava; a indiferença dele, seu tédio evidente diante da futura união entre ambos ainda humilhava Hermione.


— Vossa Alteza...


     Ela apertou os olhos com impaciência quando, já coberta com o véu, Remus, um de seus muitos conselheiros, entrou em seu quarto para despachar sobre assuntos de última hora, detalhar algumas questões, requerer instruções finais com sua voz nasalada, antes que sua rainha tirasse uma rara folga de uma semana de seus deveres oficiais.


— E precisamos de uma assinatura urgente para a alteração da proposta referente à mina de safira...


No dia do casamento dela!


     Mas o dever em primeiro lugar. E, como rainha da Inglaterra, havia muitas obrigações. Uma comitiva a acompanhara até Paris para o casamento: uma equipe de conselheiros, junto com as criadas e sua principal dama de honra, Molly.


     Ah, como os conselheiros e os mais velhos lamentavam o dia em que a rainha dera sua opinião pela primeira vez, recusando-se a dizer simplesmente sim, para que eles perpetuassem os costumes do passado. Em vez disso, para desgosto deles, Hermione continuou a afirmar-se, o que significava lembrá-los constantemente de que, como rainha, todas as decisões eram dela em última instância...


     Era cansativo, de fato exaustivo, sempre ter de conferir fatos e números diversas vezes, sabendo que sua assim chamada equipe mantinha-se permanentemente alerta para uma desatenção dela, para o momento em que pudessem fazer passar um documento sem que ela notasse, quando seus olhos deixassem de perceber uma pequena cláusula... Esperavam que a Inglaterra pudesse permanecer fixa e imutável, em vez de aproveitar as muitas oportunidades que o rico país oferecia a seu povo.


— Tudo isso pode esperar! — disse Hermione, olhando fixo para Remus. — Hoje, não assino nada.


Ela notou que ele apertava os lábios.


— Isso pode esperar até minha volta.


— A perfuração deve começar...


— Vai começar quando eu voltar! — exclamou Hermione. — Quando eu tiver lido a alteração e se eu aprová-la.


     Ainda assim, apesar de suas palavras firmes, ela pôde sentir lágrimas arderam em seus olhos cuidadosamente pintados, lágrimas que ela jamais deixaria Remus ver; por isso, ela deu as costas para ele e fitou o mar de Londres.


No dia do casamento dela!


Com certeza, com certeza, ela conquistara o direito de não ser nada senão uma mulher por um dia e uma noite?


Aparentemente, não!


— Nós também precisamos discutir a prorrogação da visita do rei à Inglaterra... — disse Remus, implacável.


— Não pode haver discussão até que estejamos casados — respondeu Hermione, ainda de costas para ele, consciente de que, se notasse alguma fraqueza nela, Remus aproveitaria a oportunidade.


— Agora, se o senhor fizer a gentileza de permitir que eu trate desse assunto menor que é meu casamento, eu poderia dar toda a minha atenção de novo a Inglaterra.


     Ele foi dispensado, mas continuou ali, e Hermione sabia o que estava por vir. Sem se virar para ele, por cima dos ombros, ela falou primeiro:


— Permita que eu reitere: nada, e com isso quero dizer nada, deve ser aprovado em minha ausência.


— Claro — respondeu Remus suavemente. — Embora, naturalmente, se fosse urgente, a senhora confiaria a seu Comitê de Anciãos...


—Remus. — Suas lágrimas secaram, e seus olhos estavam firmes quando ela se virou e o encarou. Sua voz, assim como suas ordens, estava clara como cristal. — Vou levar meu computador comigo. Se, por algum motivo, não conseguirem me contatar pelo computador, você vai pegar um helicóptero para me encontrar no deserto.


— Pensei que a senhora fosse preferir não ser perturbada — arriscou Remus.


— Eu já lhe disse antes, Remus, nunca suponha saber quais são meus pensamentos.


— E claro, Vossa Alteza.


     Então ele se retirou, e, embora faltasse muito pouco tempo até a hora do casamento, a tensão que ela sentiu na barriga estava reservada para Remus.


— Respire fundo, Hermione. — disse Molly com delicadeza. Molly, querida Molly, que ficava calada nas reuniões, mas ouvia tudo. Molly, que vira as lágrimas que ela derramara em algumas noites. Molly, a única que entendia de verdade o fardo diário que ela carregava sobre os ombros.


— Ele vai se aproveitar do tempo que eu permanecer fora para fazer algo... — disse Hermione.


— Seria tolice dele — disse Molly. — Suas ordens foram claras.


— Eles distorcem minhas palavras.


— Depois as anotam.


     Ela era muito grata a Molly por sua sabedoria, sua paciência, e Hermione confiava nela quase que totalmente.


Quase... porque Hermione aprendera há muito que a única pessoa em quem ela podia confiar de verdade era em si mesma.


— Eu irei.


— Mas primeiro — disse Molly — a senhora tem de se casar.


     Ela foi conduzida pelo palácio de Paris, com seus corredores cobertos com retratos de ancestrais. Era mais fácil pensar numa pintura na parede, se concentrar nas portas largas que estavam sendo abertas, ou ouvir o sussurro de seu véu enquanto ela caminhava, e só então tentar compreender que, num instante, estaria ao lado dele.


     O calor do lugar a atingiu assim que pôs os pés fora do palácio. Ela foi levada por um caminho branco, através de um jardim de plantas podadas, um oásis no deserto, literalmente. Pequenos pássaros coloriam as árvores como jóias, suas asas batiam no mesmo ritmo do piscar de olhos de Hermione até que ela finalmente parou para esperar seu noivo.


     A cerimônia de casamento seria rápida. Na semana seguinte, quando o véu dela, mulher casada, fosse tirado, conforme a tradição da Inglaterra, o casal seria apresentado a dignitários e governantes numa recepção formal. Por ora, no entanto, havia apenas o juiz e os anciãos de ambos os países como testemunhas.


     Ela ficou à sombra relativamente fresca de uma laranjeira, sentiu a fragrância da floração dos jardins, ouviu o gotejar contínuo das fontes, e ainda esperou.


     Ele a fez esperar por dez anos; portanto, que diferença fariam dez minutos a mais? Foi o que Hermione se perguntou.


Ou outros dez!


     Trouxeram-lhe uma cadeira, mas Hermione a recusou. Preferiu ficar de pé, ardendo de vergonha. Será que ele conseguiria deixar mais clara a indiferença que sentia por ela?


     Ela queria caminhar. Queria dar as costas à tradição, exigir um carro, dizer a ele onde ele podia enfiar seu acordo de negócios.


— O rei estará aqui em breve.


     Ela olhou sua mão, viu os dedos firmemente entrelaçados, teve de plantar seus pés no chão a fim de impedir a si mesma de olhar para trás e andar. Teve de trancar a boca por trás do véu para impedir a si, mesma de dizer algo de que seu povo certamente se arrependeria se ela o fizesse.


— Talvez Vossa Alteza devesse sentar-se... — Mais uma vez ofereceram-lhe uma cadeira. Um dos juízes anciãos já estava sentado, abanando-se. Talvez trouxessem bebidas, pensou Hermione num desvario, ou cortassem as laranjas dos pés carregados. Então todos eles poderiam ficar por ali brincando de virar os copos de bebida enquanto discutissem o que fazer quando um rei se recusa a comparecer a seu próprio casamento.


Eis o inferno do dever. Ficar de pé. Envergonhar-se. Esperar.


     Hermione faria aquilo por seu povo iria adiante com aquela união se era aquilo que a tradição mandava. Mas ela jurou a si mesma enquanto esperava, pálida e a ponto de desmaiar, ainda assim recusando-se a se sentar, que ele pagaria por aquela ofensa.


     Se ele pensava que poderia tratá-la tão mal, se ele pensava que ela obedeceria humildemente, caminharia a seu lado e seguiria suas ordens, seria essa a desgraça dele.


     O rei Harry deveria ter feito sua pesquisa mais exaustivamente. Deveria saber que por trás daqueles véus havia uma mulher forte e orgulhosa.


Que por trás da multidão de anciãos e assessores havia uma governante forte... Forte demais, segundo eles.


     Naquela noite, ela diria a ele, muito claramente, o que pensava de seu comportamento. Ele não tinha idéia do que o esperava, pensou Hermione, com um discreto sorriso de satisfação nos lábios. Sorriso que logo sumiu... Pois ele ainda a fazia esperar.

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