Lavanda
Meus olhos se abriram sem que eu ordenasse. Toda a luz que era possível chegou a eles, mas sem distinguir nenhuma imagem. Só havia branco para todos os lados que eu olhasse. Mas se eles não estavam funcionando bem, meu olfato estava. O lugar cheirava a morte e luto. Sangue também. Mas havia resquícios de alívio e certa segurança. Além de sentir pelo olfato, eu sentia na carne uma dor excruciante. Era tão forte que não sabia dizer em que parte do meu corpo era. Fechei os olhos, na falta de esperança de conseguir enxergar algo. Alguma coisa ou alguém tinha rasgado cada pedacinho da minha pele. Abri os olhos novamente, por curiosidade. Aquela luz alva era predominante, mas outras cores foram aparecendo, turvas. A primeira que notei foi o vermelho, no canto inferior esquerdo do meu campo de visão. A cada segundo que eu esperava passar o vermelho ia se tornando mais intenso, e as outras cores apareciam timidamente. Um marrom. Bonito marrom, mas apenas isso, por vários segundos. Forcei as pálpebras a se abaixarem porque a claridade estava me cansando, mas me arrependi no mesmo instante. Uns cinco segundos das terríveis coisas que acabaram de acontecer apareceram diante de mim, por baixo das minhas pálpebras. Um monstro, grande, feio, cruel e peludo avançou em minha direção. Eu tinha perdido minha varinha. Ele era bem forte e bateu minha cabeça com brutalidade na parede, me fazendo perder parcialmente os sentidos. As dores na minha carne me lembraram os segundos seguintes. Ele me mordeu. Rasgou a pele do meu ombro e do meu braço esquerdo, e fez meu sangue jorrar gelado de medo para o piso gelado.
Então me ocorreu que eu estava morta. É claro que estava. Mas eu não podia estar sentindo dor, podia? Abri os olhos, para verificar. Tudo estava novamente branco. Eu deveria estar no Céu. É claro que estava.
As outras cores foram aparecendo como da primeira vez. Primeiro o vermelho doloroso. Depois o marrom bonito. Esperei por mais, e esperei e esperei. Então mais cores vieram. Logo embaixo do belo marrom tinha um bege. Cor de pele, eu poderia dizer. Bem a minha frente. Poderia concluir que tinha alguém a minha frente. Esperei mais. As cores se separaram mais e formaram imagens cada vez mais nítidas. Tinha uma mulher a minha frente, com um cabelo marrom encaracolado muito bonito. Era óbvio que era um anjo. Viera para me buscar para meu julgamento. Ou para conhecer Deus e Seu Eterno Reino.
Esperei que o anjo me guiasse, mas ele não o fez. Ficou na minha frente, realizando movimentos em volta de mim. Por muitas vezes me tocava. Tocava meu braço, que era próximo da mancha vermelha e cruel. Eu tinha a leve impressão de estar deitada.
O anjo bonito sussurrou algumas palavras, mas não eram pra mim. Parecia um canto. Um feitiço, conclui. Mas não pensei que anjos realizassem feitiços. Ela continuou cantando e murmurou alguma coisa como “pra alguma coisa tinha que servir aquele livro estúpido do Príncipe.” Não entendi, então deixei pra lá.
Estava ficando impaciente. Onde estava Deus? Meu julgamento não começaria? Aquele anjo bonito não ia me levar de vez para conhecê-Lo?
Esperei mais e mais e mais. As imagens ficavam mais nítidas com o tempo, e a dor mais forte. Mesmo assim ainda estavam turvas e eu não conseguia identificar em que ponto a dor era. O anjo era mesmo uma coisa bonita. Nem era tão difícil esperar quando se tinha uma visão daquelas.
Era uma mulher com menos de vinte anos. Não tinha asas. Vestia roupas brancas de aspecto profissional, o que eu achei estranho para um anjo. Tinha pele branca e alguns arranhões nos braços, quase cicatrizados. Os cabelos daquela cor bonita que era o marrom. Era alguma coisa entre dourado e preto, bem entre esses dois. Eram longos e lindamente cacheados. Estavam amarrados para trás, mas como eram muito grandes, viam e vinham pelos ombros magros enquanto ela trabalhava.
O anjo despejava alguma coisa na mancha vermelha, que eu ainda não enxergava o que era. Minha dor não cessou por nem um segundo, mas eu já tinha me acostumado, apesar de sua brutalidade.
Eu tentei dizer alguma coisa para o anjo. Algo do tipo “Vossa Alteza, seja lá como te chamem, quando tempo vai demorar a eu entrar no Reino do Deus?”. Não tive certeza se minha voz saiu ou se eu só pensei.
O anjo sorriu, tive certeza, e era pra mim. Um sorriso de sol, iluminador e tranqüilizador. E não como aquela excessiva claridade, emitia uma luz calorosa. Tive a impressão que minha dor diminuiu.
Lembrei de uma coisa. Uma vez, eu havia enxergado uma mulher muito parecida com aquele anjo segurando um ramo de flores na bola de cristal. Foi uma das poucas visões que tive que não encontrei significado. A professora Trelawney não quis me explicar. Lembro com clareza que as flores que o anjo segurava eram lavandas. Mas por que lavanda?
— Ela está delirando, Madame Pomfrey. — o anjo disse.
— Por Merlin, essa garota vai ter de passar um bom tempo aqui. O estado dela é grave. Talvez percamo-la... — a voz da mulher que respondeu falhou.
— Vamos salvá-la. — o anjo lindo assegurou, confiante. — Eu vou salvá-la.
A mulher celestial segurou meu queixo delicadamente e derrubou um líquido ralo e morno pela minha garganta. Não tinha gosto de nada, mas senti no mesmo instante a dor amenizar e a imagem dela voltar a ser turva. Tudo se escureceu e eu acho que dormi pelo que me pareceram poucos segundos.
Ficou tudo escuro durante esse tempo. Antes de acordar, mais imagens apareceram por baixo das minhas pálpebras, sem precisar de luz. Vi com absoluta nitidez o monstro que me atacou. Vi seu rosto cruel antes de chegar até mim. Peludo, sorriso tirano, despido de misericórdia. Vi que rezei, segundos antes dele avançar, rezei com toda minha fé, mas Deus não me ouviu. Senti os dentes pontiagudos dele em mim, rompendo minha carne. Vi meu sangue saltar desesperado daquele ponto. Ouvi uma voz feminina e familiar gritar um feitiço, com ódio. Senti meu corpo ser carregado pela forte mulher.
As imagens repetiram-se várias vezes antes de eu acordar. Abri os olhos desesperada por me livrar daquela visão. Nem que fosse a claridade incômoda a me salvar daquilo.
Meu coração batia contra as costelas. A dor voltou, bruta. Dei um grito sem perceber. Não estava tudo tão claro como eu esperava, parecia um entardecer. Fiquei muito confusa com isso, pois sempre imaginei o Céu como eternamente diurno.
Senti gotas pela minha testa. O anjo voltou, prestativo, ao meu socorro. Alguma coisa úmida tocou minha cabeça e pescoço, aliviando a alta temperatura. A serva de Deus correu de um lado para o outro no lugar onde estávamos. Voltou e pingou alguma coisa naquela mancha vermelha, que até agora não tinha identificado o que era. Desejei arduamente que o anjo não me deixasse. Procurei sua mão para segurá-la, e assim que a toquei, ela olhou surpresa para mim, mas continuou com o que fazia.
“Por favor, não me deixe, meu anjo.” Pensei, suplicando.
— Não vou deixar. Eu vou salvar você. — sua voz calorosa me envolveu.
Fechei os olhos, segura de que não veria mais nenhuma cena horrenda enquanto a mulher dos Céus estivesse comigo. Adormeci mais uma vez.
Dessa vez meu sono durou mais tempo. Mas eu ainda vi o curto filme passar pelos meus olhos mais uma vez. Acordei com isso, mas a dor continuava em um sono leve, pois eu ainda a sentia. Enxerguei o local, dessa vez com mais clareza do que eu estava acostumada desde que morri. Parecia uma enfermaria. As paredes eram feitas de tijolos negros, e eu não via como isso podia deixar o lugar tão branco quanto eu estivera enxergando. A julgar que eu estivesse mesmo em uma enfermaria, eu não deveria estar morta.
Uma senhora vestida de roupas brancas e profissionais andou pela sala carregando uma bandeja até um corpo numa cama. Medicou o paciente e virou-se para as outras camas. Viu-me e veio em minha direção. Tocou-me aqui e ali, me examinando. Tinha um ar cansado, pareceu-me que a senhora não dormia há pelo menos uma semana.
— Como você está se sentindo? — me perguntou preocupada.
— Estou com dor. — admiti. Identifiquei a mancha vermelha que maculara a minha visão do Paraíso. Eram meu braço esquerdo e meu ombro. Cobertos por uma pele semi-cicatrizada e muito, muito vermelha, como se estivesse em carne viva há poucos instantes atrás. O que eu achei que não deixava de ser verdade.
Pisquei os olhos, buscando mais nitidez nas imagens. Cada vez que eu abaixava as pálpebras, o rosto do demônio que me atacou me aparecia.
A enfermeira pingou o conteúdo de um frasco no meu ferimento. Ardeu como fogo, e ela me repreendeu por gritar. Tentei me manter imóvel. Queria saber quem era a mulher celestial que eu vira. Eu ia perguntar àquela senhora, mas ela afastou-se, procurando alguma coisa pelas estantes do aposento.
Ela voltou com uma poção cinzenta e quente, fez que ia me fazer beber, mas eu a impedi, com o braço bom.
— Eu não quero dormir. — reclamei.
— Você tem que dormir. — ela tentou me aquietar, mas eu me rebelei mais uma vez.
— Eu não posso, não paro de ter pesadelos. Quero saber exatamente o que aconteceu comigo. — exigi, mesmo que com a voz fraca.
A velha senhora cedeu, colocando a poção na mesinha ao lado da minha cama.
— Você foi atacada por um lobisomem.
— O QUÊ! — me aterrorizei com a idéia. — Então quer dizer que eu...?!
— Não se estresse com isso.
— Como assim não me estressar?! — gritei quase me levantando, mas quando o fiz, a dor me derrubou.
— Ele não estava transformado. — ela assegurou, mas não adiantou para me confortar. — Provavelmente você obterá uma característica lupina, mas não acredito que isso atrapalhará sua vida. Se você sobreviver.
— Se eu sobreviver! E espero que não sejam os pêlos. — resmunguei, sentindo asco.
A médica afastou-se e saiu da sala, provavelmente sem paciência para lidar comigo, uma garota recém-mordida por um lobisomem. Eu queria mesmo era ver aquele anjo, se ela fosse de verdade. Rezei com força para que fosse.
Outras pessoas entraram, todas vestidas no mesmo uniforme, todas mais ou menos na minha idade. Dirigiam-se aos corpos nas camas, examinando e medicando. Esperei mais alguns minutos. Então a mulher celestial apareceu, vindo ao meu socorro.
Mas não. Ela não era um anjo. Eu não estava morta de verdade, só com muita dor. Eu a conhecia. Era Hermione Granger. Eu não sei se podia sentir mais asco do que senti naquele momento.
— O que, exatamente, você está fazendo aqui? — perguntei enquanto ela me examinava.
Ela me dirigiu um olhar cansado. Ocorreu-me que ela estivera cuidando de mim há muitos dias, sem descanso. Envergonhei-me por isso.
— Desculpe. — acrescentei, o rosto queimando. — Você esteve cuidando de mim, não foi? — lembrei-me das visões que tive dela. Das visões dela como um anjo que me guiaria a Deus.
— Estive. — ela respondeu com uma frieza técnica e profissional que me surpreendeu, depois de tanta doçura comigo. — Você ainda está com dor?
— Sim.
Ela pingou aquela substância ardente no ferimento de novo. Além da sensação de minha pele frágil estar queimando, senti tontura.
Granger segurou meu rosto nas mãos. Eu não tinha percebido que minha cabeça pendeu pra um lado.
— Madame Pomfrey já tinha pingado o ditamno? — ela perguntou, muito preocupada.
— Já. — minha voz quase não saiu. Minha cabeça ainda girava, sem falar na ardência incômoda e a dor no braço e no ombro.
— Oh, Merlin! Me desculpe! — ela exclamou aflita. — Para o seu caso, tivemos que usar ditamno muito concentrado, o que pode causar febre, tonturas e alucinações e...
— Eu vou ficar bem? — tentei perguntar, mas saiu um fiapo de voz.
— Vai. — Granger segurou meu rosto nas mãos com carinho. Sim, carinho. Se eu não estivesse sentindo tantas coisas desagradáveis no momento eu poderia ter estranhado.
Ela me sentou. Pegou uma tigela do outro lado da sala e se sentou na beirada da minha cama. Trouxe uma colher de uma sopa quente à minha boca, mas virei a cabeça.
— Não posso fazer isso sozinha?
— Você está fraca demais e pode derrubar em si mesma.
Revirei os olhos, me conformando que teria que ser alimentada como um bebezinho por ela. O líquido quente desceu pela minha garganta, me aquecendo e me relaxando.
Ela ainda ousou limpar minha boca quando terminei. Eu poderia ter reclamado, mas um calafrio estranho me atrapalhou. Percebi também que ela ficou constrangida, mas disfarçou rapidamente.
— Por que você está aqui, Granger? Quero dizer, por que está me ajudando? — perguntei, fitando diretamente seus olhos castanhos. Eu sempre gostei dessa cor, acho que o marrom tinha me tranqüilizado enquanto eu estava delirando.
— Por que eu não ajudaria? — a resposta foi um pouco fria, e ela não me olhou nos olhos. — Você tem idéia de quantos feridos houve nessa guerra? Como Madame Pomfrey poderia cuidar de todos? Eu e esses alunos da Corvinal, que somos bons em medicina bruxa, resolvemos ajudar, só por isso. — a voz saiu um pouco esganiçada de irritação.
Encolhi-me envergonhada na cama. Não queria causar irritação à mulher, ela já fizera tanto por mim.
— Você precisa dormir. — ela sentenciou.
— Não posso. — supliquei. Não queria ver aquele mostro de novo. — Não paro de ter pesadelos.
— Eu vou ficar com você. — assegurou-me, e eu me aliviei.
O líquido morno e sem sabor desceu pela minha garganta. Granger segurou minha mão e eu adormeci instantaneamente.
Graças a Deus, não tive pesadelos. Mas também graças à Granger, que ficou o tempo todo sentada na minha cama, segurando minha mão. Eu senti, mesmo que dormindo. Senti sua mão e sua presença me protegendo.
Assim que abri os olhos, vi sua imagem preocupada, olhando a grande janela. Ela podia não ser, mas parecia um anjo de verdade. Os cabelos longos, castanhos e revoltos, descendo pelas costas, os olhos também castanhos, com fundas olheiras. Eu queria ter podido ficar observando-a por mais tempo, mas ela me viu acordada e se levantou, buscando meus medicamentos.
Voltou e me medicou com o líquido queimante. Eu gemi de dor, e ela me consolou com um carinho na mão. Eu não sabia se merecia tanto zelo.
Depois ela se afastou para cuidar de um corpo do lado do meu. Levantei-me um pouco na cama, ficando quase sentada. Virei o rosto para observar Hermione e levei um grande susto. Levei a mão do braço bom à boca, com horror.
Na cama ao lado, estava o corpo da minha melhor amiga, praticamente despido. Uma das pernas dela estava num ângulo estranho, impossível de se fazer a não ser que estivesse quebrada. Parvati estava desacordada. Hermione dobrava e desdobrava a perna machucada, exercitando as articulações. Eu quase pedi que ela parasse, com medo de machucar mais.
— O que aconteceu com ela? — minha voz estava trêmula de angústia. Queria estar saudável para cuidar de Parvati eu mesma.
— Ela quebrou a perna enquanto corria... tentando salvar a sua vida. — Hermione respondeu tristemente.
Eu desabei. Quase desmaiei. Minha melhor amiga tinha se arriscado pra me salvar. No meio daquela guerra, ela se arriscou pra me salvar. Deitei na cama e não pude evitar chorar. Eu faria tudo pra estar bem e poder cuidar dela. E faria tudo pra que ela ficasse bem. Adormeci mais uma vez.
Dessa vez tive outro pesadelo, só que muito pior. Uma figura feminina alta, com o uniforme de Hogwarts rasgado e ensangüentado, carregava outro corpo, que mais parecia uma grande bolsa de sangue vazando para o piso. Ela corria, segurando o corpo entre os braços, com uma força sobre-humana. Deslizava bravamente pelos corredores, até que ela tropeçou e ouviu-se um estalar horrendo de ossos quebrando.
“Sobreviva, Lavander... por favor...”
Acordei arfando. Hermione não estava lá. Parvati ressonava calmamente na sua cama. A perna estava consertada, mesmo assim tive medo. Queria levantar e cuidar dela, mas eu ainda tinha dor. Na verdade, tinha até me esquecido que estava com dor.
Hermione apareceu, mas não olhou pra mim. Foi à cama de Parvati e derrubou um líquido transparente pela sua boca. Depois se dirigiu a mim.
— Você precisa tomar banho... e comer. — assenti e peguei a mão que ela me estendeu.
Levantei-me vagarosamente da cama, sentindo muita dor no braço, que ainda estava vermelho, mas parecia que a cicatrização tinha avançado. A mulher me guiou até um banheiro pequeno do lado da Ala Hospitalar. Havia apenas uma banheira pequena com um chuveiro simples.
Ela teve que me ajudar a tirar a roupa – uma camisola fina – por que eu não conseguia erguer o braço esquerdo. Eu vi, eu tive certeza que vi os olhos dela me percorrerem nervosamente. Hermione ficou trêmula e corada. Entregou-me uma toalha e praticamente fugiu do banheiro. “Se me precisar, chame.” Me disse antes de sair quase correndo.
Preferi banho frio. Não me demorei muito, a dor do meu braço se intensificava cada vez que eu tentava mexê-lo. E eu estava com fome. Enrolei-me na toalha e chamei Hermione para que me trouxesse roupas. Ela me deu outra camisola, lilás.
— Você ainda está com muita dor? — ela perguntou assim que eu terminei de me vestir.
— Parvati vai ficar bem? — ela suspirou, compreensiva.
— Vai. — assegurou-me. Confiei nela.
— Sim, eu estou com dor.
Ela me levou até a cama, que estava com os lençóis trocados, e eu me sentei. Medicou-me com ditamno e me alimentou.
— Obrigada. — eu disse, ao terminar, sem poder me conter. — Eu digo, por cuidar de mim e de Parvati.
Ela sorriu, me beijou na testa e se afastou sorrindo. Fiquei um bom tempo ali, sentada, olhando para o canto onde ela desapareceu para a outra sala.
Eu não merecia tanto carinho nem tanto cuidado. Eu sempre a tratei mal, e ela estava dando o máximo de si para me manter viva.
Dormi mais. Eu passava a maior parte do tempo dormindo por que me fazia esquecer-se da dor. Acordei com Hermione sentada na minha cama, sua mão entrelaçada na minha. Assim que me viu despertar, soltou minha mão e foi procurar o ditamno.
Os outros enfermeiros corvinais entraram e começaram a tratar os outros enfermos, que estavam bem melhores, eu percebi.
A mulher voltou com o remédio e pingou no meu braço, ardeu muito como de costume.
Ela tinha olheiras fundas e escuras abaixo dos belos olhos castanhos. Vestia o mesmo uniforme branco que todos os outros alunos ali, mas o cabelo estava solto dessa vez.
— Há quantos dias você não dorme, Granger? — perguntei fitando-a. Ela nunca me olhava nos olhos.
— Ahn... dormir mesmo, pelo menos uma noite inteira... uma semana, eu acho.
Peguei o frasco da mão dela e pus na mesinha ao lado. Ela me repreendeu e tentou alcançá-lo de volta, mas eu o escondi atrás de mim.
— Vá descansar. Você precisa.
Ela me olhou com uma cara de “eu sou a médica aqui!”. Mas eu insisti:
— Eu posso me medicar sozinha. Vá dormir.
Ela bufou e saiu da enfermaria. Pus o frasquinho na mesinha. Então percebi que tinha um terço ali. O terço da minha mãe, reconheci. Peguei-o e me levantei, mesmo com dificuldade, e fui até a cama de Parvati. Ajoelhei-me ao seu lado e rezei muito pela sua melhora, como boa católica que sou.
Ela murmurou alguma coisa, despertando aos poucos.
— Parvati! Parvati! Você está bem?
— Ahn... ai! — ela tentou se levantar e gemeu de dor.
— Fique onde está!
— Eu... você... você está bem! — ela exclamou alegre. Eu quis abraçá-la, mas sabia que meu braço ia ferver de dor. Segurei suas mãos entre as minhas e as beijei. — Eu estou tão feliz que você se recuperou!
— Ainda não me recuperei. — eu disse, indicando o ferimento em processo de cicatrização. — E como você está? Muita dor?
— Um pouco. — ela tentou levantar a perna, mas desistiu.
— Ei! — exclamou Madame Pomfrey, vindo correndo até nós. Pus-me de pé rapidamente. — Volte já para a cama!
Obedeci, lançando um sorriso divertido para Parvati, que riu.
Eu fiquei meia hora agradecendo a ela por ter me salvado. Queria tanto abraçá-la, tanto. Depois ficamos conversando até entardecer, qualquer coisa menos as horríveis das quais passamos. Então adormecemos.
Tive outro sonho. Não foi um pesadelo, graças aos céus.
Havia uma mulher celestial numa estrada longa. A estrada tinha em suas beiradas, coisas que vi e vivi durante minha vida. Estava lá minha avó pouco antes de falecer; minha carta de Hogwarts; os objetos que comprei no Beco Diagonal antes das aulas; os professores da escola quando os conheci; meu coelhinho antes de ser assassinado; a professora Trelawney como estava em minha primeira aula de Adivinhação; minha primeira bola de cristal, etc.
Ela estava no fim “visível” da estrada, porque ela se estendia mais a frente, mas as coisas que ela mostraria não apareciam pra mim nesse momento. A única coisa que eu via realmente além dela era uma luz no fim da estrada. Minha morte.
Era, indubitavelmente, a estrada da minha vida. O anjo segurava um ramo de lavandas. Estava num vestido branco. Grandes asas brancas se projetavam das suas costas. Cabelos castanhos encaracolados até a cintura. Era o meu anjo, eu a estava vendo novamente.
Eu a via com mais nitidez do que nunca. Sua beleza chegava a ofuscar. Seu rosto expressava bondade e amor. Definitivamente amor. Amor com uma intensidade nunca antes imaginada.
Meu anjo pôs as flores no chão e sorriu para mim, num ar de adeus. Deu alguns passos pela estrada antes de desaparecer.
Eu aprendi muito bem com a professora Trelawney que sonhos não são somente coisas que você vê durante o dia ou que você viu e não se lembra mais. Sonhos podem mostrar muito mais que isso. Futuro, passado, ou futuro que talvez você deva evitar.
Eu preferi não escolher nada disso, ainda. Também preferi não dar significado nenhum a ele por enquanto. Tinha medo de saber.
Acordei sem susto. Hermione estava na minha cama, segurando minha mão, como de costume. Ela não me viu acordar, então aproveitei para olhá-la enquanto podia. Ela estava com a aparência bem melhor, já que eu a pedi para descansar. O que eu quero dizer é que ela estava mais bonita. Assim que mirei seus cabelos rebeldes senti um arrepio. Eram idênticos ao anjo do meu sonho. Seus olhos tão castanhos quanto os cabelos fitavam o chão. Ela parecia devanear.
Minha mão fez um leve carinho na dela, despertando-a. Ela sorriu calma e se levantou para buscar o ditamno.
— Hermione. — minha voz saiu um pouco fraca. — O ditamno está aqui. — eu indiquei a mesinha.
Ela voltou e se sentou na cama novamente. Sentei-me também. Eu sentia muito menos dor, quase nada. A pele estava coberta por uma cicatriz fina e levemente rubor. A mulher me medicou e apertou minha mão para que eu suportasse a típica ardência do remédio.
Observei-a por mais um tempo. Carinhosa, terna, bondosa. Podia concluir só de vê-la cuidar de mim. A mesma áurea do anjo.
— Você está bem melhor. — esta fala devia ser dela, mas fui eu quem disse. — Eu disse que devia dormir.
— Você também está. — ela me olhou nos olhos, como raramente fazia. Os olhos do anjo. O mesmo arrepio. — Venha. Tomar banho e comer.
Guiou-me para o mesmo aposento de antes. Me deu short e camisa confortáveis dessa vez, no lugar daquela tediosa roupa hospitalar, que reconheci como meus, alguém devia ter me mandado. Mesmo que eu estivesse melhor, eu ainda tinha dificuldade em mexer o braço ferido, então ela teve que me ajudar a me despir. Seus olhos fugiram e seu rosto ficou vermelho, como da última vez. Eu não soube que conclusão tirar daquilo.
Tomei outro banho frio e não me demorei. Ao terminar, Hermione me guiou a outro aposento: um pequeno refeitório. Havia alguns alunos ali, curandeiros e enfermos.
Sentei-me com ela, e apareceram diante de nós refeições prontas, como sempre apareciam no refeitório do Salão Principal do castelo.
Ficamos em silêncio por bons minutos enquanto comíamos, até que ela falou:
— Esqueci de te avisar: sua mãe não pôde vir te visitar, disse que ela, seu pai e seu irmão estão presos na Espanha por complicações com o Ministério de lá. Mas ela te enviou roupas e alguns objetos, que estão na sua mesinha. — fez uma pausa. — E flores. Que também estão lá.
Sorri.
— São... são lavandas. Muito bonitas. — ela comentou.
— Minha mãe gosta.
— É daí que veio seu nome? — perguntou curiosa. Assenti.
Terminamos e ela me levou de volta à Ala Hospitalar.
— Ah, — lembrou-se de algo mais. — Patil está curada. Ela foi reencontrar a família, que estava muito preocupada... pediu-me para te avisar que logo te visita.
— Obrigada.
— Não é nada.
— Não por isso. — fiz uma pequena pausa, sentando-me na cama, Hermione me acompanhou e olhou-me atentamente. — Você está fazendo tanto por mim. Salvou-me de um estado grave, curou minha melhor amiga. Eu nunca poderia retribuir isso. — peguei suas mãos e as beijei, sem conseguir me conter.
Eu queria mesmo era abraçá-la e passar um bom tempo assim com ela. Ela me olhou daquele jeito. O olhar do anjo, o olhar de amor. Não consegui mais me segurar, abracei-a, ignorando a dor.
Ela era quente, e seus cabelos tinham cheiro floral. Quis que o abraço durasse para sempre, mas nos afastamos, e ao fazer isso, ficamos com os rostos próximos. Sua face angelical era tudo que eu via, tudo que eu queria ver.
Os olhos castanhos miraram minha boca, e eu mirei a dela. Entreaberta, ofegando. Faltava um milímetro para se encostarem, mas os corvinais entraram na Ala Hospitalar. Ela se afastou de mim com brusquidão. “Descanse.” Ela murmurou sem me olhar. Tentei obedecer, mas não consegui dormir.
Coloquei o terço no pescoço e fiquei sentada, fitando o teto. Queria saber o que significava tudo aquilo. Sonhar com Hermione, querer olhar pra ela o tempo todo, querer abraçá-la. Bem, eu quase a beijei!
Se fosse um garoto, eu concluiria que estava apaixonada. Mas era uma menina! Era pecado, eu sabia que era, apesar de não conseguir enxergar como um amor tão bonito podia me levar ao Inferno.
Ouvi passos do corredor ao lado, esperei a visão de Hermione, mas foi Parvati quem apareceu, com a perna totalmente curada.
— Lavander! — abracei-a, mesmo com dor. Ela se sentou a minha frente na cama. — Você está bem melhor. — disse sorrindo e examinando meu braço.
— Sim. E a sua família, estão todos bem?
— Sim, apesar de que... — desviou o olhar, triste. — minha mãe ficou pirada com essa guerra e... ela quer que nos mudemos para a Índia de volta...
Abaixei a cabeça. Eu sem minha melhor amiga?
— Quando vai ser?
— Mês que vem... — apertou minha mão. — Eu vou voltar todo santo mês, Lavander, prometo.
— Não se preocupe comigo. — afaguei seus cabelos negros. — Pelo menos você vai estar aqui até eu me recuperar totalmente. Não vejo a hora de sair dessa enfermaria. — eu não sabia se isso era tão verdade. Só de pensar em não ver mais Hermione...
— Você vai ficar bem logo. — ela disse com brilho nos olhos. — E daí nós vamos ao Beco Diagonal, porque você precisa visitar um salão de beleza. — riu, brincando.
Peguei o espelho que minha mãe me trouxera e me fitei. Ok, eu realmente precisava mesmo de um salão de beleza.
— Me empresta sua varinha. — pedi.
Parvati me entregou e arrumei superficialmente minhas sobrancelhas crescidas, enrolei os cílios e penteei os cabelos brevemente.
— Bem melhor, sim? — eu disse e ela concordou.
Ficamos tagarelando sobre o que íamos comprar no Beco Diagonal quando eu me recuperasse até entardecer. Parvati se despediu de mim com um beijo na testa.
Fiquei mais um tempo sentada da cama, devaneando. Será que eu pararia de sonhar com aquele anjo, digo, Hermione quando eu fosse embora da enfermaria? Será que ela tinha sonhos ou pensamentos assim também? O que, diabos, significava ela por as flores no chão e sumir, como no sonho? Será que ela também pensava no dia que eu for embora? Sentiria minha falta como eu vou sentir a dela?
Cochilei, apenas. Sem pesadelos ou sonhos ainda mais perturbadores. Acordei com vozes sussurrando na enfermaria escura.
— Granger, não venha me dizer isso, eu concordo com você, mas ela já está em condições de ir, e a mãe certamente contratará um curandeiro particular para ela.
— Mas... Pomfrey, e... e o transporte? Ela pode não estar pronta para aparatar ou... — ouvi a voz de Hermione, angustiada.
— Para aparatar de jeito nenhum! — a velha quase gritou, com a voz severa. Amenizou-se bruscamente nas palavras seguintes: — Eu sei o quanto é importante para você, mas a Sra. Brown foi clara, ela quer a filha em casa, sob cuidados, mas quer tirá-la daqui.
— Eu não sei que problema ela tem com Hogwarts! — ela sussurrou, chateada.
— Sabe sim! — a severidade da curandeira voltou. — Estão todos com essa paranóia de que a escola não é mais segura e...
— O que é mentira! A guerra acabou!
Virei-me e me sentei, se fosse para falar de mim elas deveriam falar comigo. O ranger do metal da cama despertou-as. Elas estavam a poucos metros de mim, num pedacinho de claridade do aposento escuro.
Os olhos de Hermione estavam cheios d’água. Ela olhou pra mim com dor, e se retirou com pressa.
— O que está acontecendo? — fingi-me de sonolenta, como se não estivesse ouvindo a conversa.
Pomfrey veio até minha cama e acendeu, com um aceno da varinha, o abajur da mesinha ao lado. Fitou-me com ar cansado, como se ter aquela conversa comigo foi uma coisa que ela evitara há dias.
— Sua mãe mandou uma carta da Espanha. Sabendo da sua ótima recuperação, graças aos cuidados da Srta. Granger, quer que você volte para sua casa, sob cuidados de um curandeiro do St. Mungus contratado por ela. Nós pretendemos te transferir amanhã.
Fiquei calada. Então eu não ia mais vê-la. Era por isso que ela estava tão angustiada, mas isso significava que ela também não queria deixar de me ver. Esse pensamento me perturbou, de certa forma.
Hermione voltou, os olhos vermelhos, com um novo frasco de ditamno em mãos. Madame Pomfrey suspirou cansadamente e saiu do lugar, nos deixando a sós, a não ser pelos outros pacientes que dormiam silenciosamente.
A mulher me medicou como de costume. Entrelaçou sua mão na minha, para me consolar da dor do remédio, habitualmente. Seus olhos estavam tão tristes como os meus deveriam estar.
Desviei o olhar para os lados, então notei o vaso de flores de minha mãe, bem mais cheio.
— M-minha mãe trouxe mais flores? Trouxe mais alguma coisa? — perguntei sem olhá-la.
— Não. — fungou. Pôs o frasquinho na mesinha. Olhou-me nos olhos. — F-fui eu quem trouxe... e-eu gostei da flor.
Abracei-a mais uma vez. Meu coração batia forte quando os braços dela me envolviam. Seus cabelos macios e com aroma floral. Pensei em me despedir, agradecer, ou dizer qualquer coisa estúpida, mas minha mente teve uma idéia brilhante.
— Vem comigo. — eu disse aos nos separarmos. — Seja minha curandeira particular. — brinquei, ela riu levemente. Parecia não estar acreditando no que eu estava dizendo. — É sério, Mione. — senti o rosto queimar, talvez ela não gostasse que eu a chamasse assim. — Hermione. — corrigi rapidamente.
— Sua mãe...
— Ela deixa! — eu nem tinha certeza, mas como ela não podia voltar por enquanto, eu podia convencê-la depois.
Hermione olhou para o chão, tentando achar um motivo para não aceitar, daquele jeito racional dela. Mas eu vi em seus olhos brilhantes que ela estava feliz com a idéia; feliz que ia continuar comigo.
Deitei-me na cama e puxei os lençóis.
— Nós vamos amanhã. — sentenciei, sorrindo para seu rosto incrédulo. — Via Flu. Boa noite, Hermione.
Sem me conter, como sempre, levantei-me e deixei um beijo na sua bochecha. Ela saiu, ainda me olhando sem acreditar.
No outro dia, depois da devida medicação, estávamos lá, em frente a uma das lareiras do castelo. Madame Pomfrey desfilava instruções para Hermione, e ela revirava os olhos murmurando “Já sei, já sei...”. Olhava pra mim e ria, divertida e feliz. Eu nunca a tinha visto tão bonita. Abandonara o uniforme da Ala Hospitalar e usava um vestido preto, parecido com o meu, que era lilás. Seus olhos estavam mais brilhantes, as maçãs do rosto bem rosadas, ela estava toda com um ar mais vivo.
Assim que entramos na lareira, o fogo verde nos envolveu. Fechei os olhos com força e agarrei a mão dela. Tropecei, toda desajeitada na lareira da minha sala. Ela saiu graciosamente, espanando as cinzas do vestido.
Mostrei o meu quarto para e ela deixou minha mala com poucos pertences lá. Eu queria mesmo era levá-la para os jardins e respirar muito ar fresco, mas algumas fotos na minha cômoda prenderam a atenção de Hermione.
— Own! — ela deu um gritinho, segurando um porta-retrato. — Não me diga que é você, Lavander?
Ela me mostrou a foto de um bebezinho enrolado em lençóis cor de rosa, dormindo com a mãozinha na boca.
— É. — afirmei, já me conformando com o que teria que enfrentar. — Sou eu.
A mulher largou a foto e pegou outra. Seus olhinhos brilharam, ela sorria e hora ou outra exclamava “Que fofinha!”.
— Mione! — pedi, suplicando para que saíssemos de casa. — Vamos para o jardim, por favor.
— Não. — ela riu, vendo outra foto minha, com uns 5 anos de idade, carregando quantos ramos de lavanda eu conseguia. — Como você era linda! — exclamou. Corou um pouco e acrescentou: — Ainda é, quero d-dizer...
Ri-me dela. Conformando-se, me sentei com ela na cama, trazendo todas as fotos que eu tinha. Havia algumas da época de Hogwarts, mesmo assim já estavam um pouco amareladas de tempo. Hermione fitou uma minha com Parvati em que acenávamos bobamente para a câmera, sorrindo lindamente. Noutra com a professora Trelawney chacoalhando os braços cobertos de pulseiras enquanto falava, ela começou a rir.
— Você... você lembra... — começou entre risos. — daquela vez que eu... sai da sala... gritando com ela...
— Lembro... — respondi rindo, a cena vindo à mente. — ela tinha predito sua saída... foi assustador!
— Que nada! — ela riu mais. — Sempre achei Adivinhação uma matéria muito imprecisa e vaga.
— Você é cética demais, Hermione. — eu disse olhando pra ela, agora mais séria.
— Talvez eu seja. — admitiu sorrindo pra mim.
— Eu deveria te ensinar algo mais de sobrenatural... — sussurrei, me aproximando do rosto dela, involuntariamente. — E você deixaria de ser tão descrente. — tão, tão perto. As respirações se cruzavam, seu olhar voou para minha boca e o meu voou para a dela. Quase. Ela fugiu, pegando outra foto e fingindo examiná-la.
— Quinto ano! — voltou a rir. — Umbridge e tudo mais. Aquela cara de sapa.
— Ela parecia inchar quando ficava brava! — entrei no embalo, rindo também. — Quando Potter a enfrentou na primeira aula.
— E quando Fred e George fugiram! Ela ficava parecendo um mini-pufe com aquelas roupas cor-de-rosa e peludas! — gargalhamos até saltar lágrimas dos olhos.
Hermione parou de rir aos poucos, secando os olhos. Escancarou a boca, encantada, quando viu o violino do meu pai pela porta que levava a sala. Foi até lá, virando o rosto pra mim com uma expressão “é sério que você tem um violino?”. Eu ria.
— P-posso tocar? — ela pediu e eu assenti.
Pegou o instrumento e sentou-se no sofá. Uma melodia gostosa, leve. Alternava em partes calmas e outras muito rápidas, seus dedos correndo habilmente pelas cordas. Muitos afirmariam que era uma música sonolenta, mas eu me sentia mais acordada que nunca. Seu rosto estava calmo, ela parecia em paz.
Eu não pude resistir àquela imagem. Fui até ela, tirei o violino de suas mãos e pus de lado. Beijei-a, sem deixar que ela fugisse dessa vez. Envolvi seus lábios doces com carinho, abracei-a sem me importar com a incômoda dor, sem me importar com nada. Tudo que existia naquele momento era ela, o meu anjo.
Suas mãos quentes tocaram meu rosto com delicadeza. Seu beijo era puro amor, pura ternura. Era uma sensação tão boa. Eu me sentia completa com seus lábios selados aos meus.
Separamo-nos devagar. Ela distribuiu vários beijinhos pelo meu rosto, eu sorria, indubitavelmente feliz.
— Eu sonhava com você, Hermione. — confessei. — Eu amo você. — a frase saiu involuntariamente, num sussurro quase inaudível, mas era verdade.
Seus lábios sorriram, seus olhos de amêndoas sorriram. Ela me abraçou de um jeito que dizia visivelmente “Eu amo você também.”
Apertei o abraço, bem forte, mas a dor me venceu. Um gemido agudo escapou da minha boca, e Hermione pulou do sofá, buscando ditamno. Achei que ela estava fugindo mais uma vez, mas quando ela voltou e começou a me medicar, desfilou mais beijinhos pela minha face, apertando minha mão com força.
Aproximei-me para beijá-la de novo, por que era a única coisa que eu queria naquele momento, mas ela segurou meus lábios com um dedo, me impedindo.
— Vou cozinhar alguma coisa pra gente. — disse sorrindo e se dirigindo à cozinha.
Segui-a, conformada e me sentei numa das cadeiras da mesa da cozinha. Fiquei observando ela trabalhar, às vezes me lançando olhares serenos e sorrindo ou cantarolando. Uma leve tontura me veio e eu cochilei, ali mesmo.
Acordei na minha cama. Não sei como, diabos, Hermione me carregou até ali. Ela estava lá, como ficava no hospital, segurando minha mão enquanto eu dormia. Assim que eu mirei seus cabelos, assim que seu aroma chegou a mim, eu quis beijá-la, mas antes mesmo de me pronunciar ela me viu acordada, e deitou mais beijos carinhosos pelo meu rosto. Como eu amava aquilo.
Puxei-a para mim, deitando-a ao meu lado e ela me abraçou. Aproveitei os pequenos minutos assim, explorando sua boca com a minha, aspirando seu cheiro, olhando seus olhos, sentindo sua pele quente em mim. Podia durar pra sempre.
Mas ela se levantou e me chamou para a cozinha. Hermione tinha preparado um jantar romântico. Assim, com velas e flores e tudo. E, é claro, as flores na mesa eram lavandas, se apaixonou por elas. E por mim, pensei com uma pontada de satisfação.
Durante o maravilhoso jantar, eu ainda pensei em sair para o jardim, mas já estava entardecendo, além de que o céu estava negro, como que para cair uma grande tempestade.
Quando terminamos, Hermione inventou de voltar a tocar violino, é claro que eu não reclamei, ela tocava muito bem, mas duvido que por muito tempo. Eu não conseguia mirar sua figura calma e bela, soando pelo instrumento aqueles sons entorpecentes sem querer interrompê-la e beijá-la.
Resisti por algum tempo. A música era diferente, mais agitada, chocante, arrepiante. Mas alguma coisa estava atrapalhando. Um baque em madeira, do lado de fora da casa. Outro baque, mais forte. Hermione parou de tocar.
Ouvi a porta da casa ir ao chão e Hermione pôr-se na minha frente empunhando a varinha. Ela segurava meu braço por trás dela, se fazendo de escudo. O monstro apareceu, igual aos meus sonhos. Peludo, sangrento, cruel. Me viu e deu uma risada tirana e satisfeita.
— Vim buscar meu jantar... que fugiu. — ele disse. A voz era faminta e áspera.
Hermione não esperou muito para disparar quantos feitiços conhecesse em direção ao lobisomem. Puxou meu braço, correndo pela casa. Saímos pela outra porta. Eu nem me dei conta que tinha começado a chover. Corríamos pela tempestade, e eu até cheguei a pensar, ingenuamente, que Greyback tivesse ido embora, mas ele apareceu pela porta, avançando com uma velocidade absurda até nós. Mais feitiços. A cada feitiço de ataque, Hermione conjurava um novo escudo com Protego me envolvendo. Um raio vermelho atingiu o monstro no ombro e ele passou a mancar, nos dando tempo para nos afastar dele. Eu estava sem varinha e totalmente perdida.
O rosto da mulher estava cheio de fúria. Ela me puxava e corria pela chuva forte. Se não estivéssemos correndo, alguém até poderia achar que ela era a vilã, tamanho ódio que seu rosto mostrava ao atacar Greyback. Ele corria atrás de nós, rápido como um animal feroz, também furioso.
Senti, em volta de mim e de Hermione uma força estranha, uma energia diferente. Ela parou, eu a puxei desesperada para longe do lobisomem, mas ela o fitava, o rosto sem piedade alguma. Quando restavam poucos passos para ele nos alcançar, ela gritou:
— Avada Kedavra!
Estaquei. Hermione matou aquele lobisomem. Olhei pra ela, estava arfando e tremendo. Hermione matou aquele lobisomem. Joguei-me sobre ela, abraçando-a o mais forte que conseguia. Ela matou aquele lobisomem para me defender. Eu nem ousei olhar para o corpo do monstro. O dela ainda tremia de susto, cansaço ou nervoso, eu não soube. Concentrei-me o máximo possível e, com um estalo, desaparecemos.
Nossos corpos se materializaram ainda colados e molhados pela tempestade, na sala da casa de Hermione. Não havia ninguém. Separei-me dela, devagar e contra a minha vontade, porque eu só queria segurá-la em meus braços, mas tínhamos de nos secar e, bem... nos acalmar, depois do que aconteceu.
Hermione não deixou. Assim que dei o mínimo movimento para me separar dela, ela me apertou mais forte, e eu não resisti. Quis grudar-me nela por um bom tempo só para ter certeza de que estávamos vivas. Acho que ela pensava a mesma coisa. Seu coração batia acelerado contra o meu, a respiração rápida e descompassada no meu pescoço. Senti um arrepio.
Ela largou a varinha no chão e se separou apenas o suficiente pra me olhar nos olhos. Eu li, sem dificuldade, que ela queria dizer “Eu não quero te perder.”
— Você não vai me perder. Eu não vou te deixar, Hermione! — minha voz saiu esganiçada, desesperada. Tudo que eu queria era que ela soubesse disso.
Nossos corpos pareciam um só de tão apertados que estavam um contra o outro. Os batimentos apressados dos nossos corações acalmaram-se do susto, mas aceleraram-se novamente, com nossas respirações se cruzando, os olhos jurando amor, as bocas entreabertas, uma pedindo pela outra, as peles ardendo de súplica por mais toques.
Minhas mãos seguraram seu rosto angelical e eu puxei-o para mim, os olhos se fecharam, as bocas se encostaram. As línguas dançaram juntas uma daquelas melodias que Hermione tocava no violino. As mãos me puxaram pela cintura, buscando maior contato, se é que era possível.
Ela me guiou pela casa, ainda me beijando, até me derrubar em uma cama, encharcando os lençóis, seu corpo se juntando ao meu logo depois, sua pele me aquecendo. Os seus beijinhos ternos passaram a ser quentes, agora distribuídos pelo meu pescoço e colo. Puxei-a mais uma vez, não suportava muito tempo sem sua boca na minha. As mãos começaram a ficar curiosas, as minhas em suas costas, por baixo do vestido; as dela nas minhas coxas, as pontas dos dedos se arrastando pela minha pele, calma e enlouquecedoramente. Nossos perfumes se misturando.
Os vestidos foram embora, revelando mais pele, atiçando mais desejo, aumentando a temperatura. Minhas mãos em seu corpo cheio de curvas, perigosamente perdidas como numa estrada sinuosa. Ela vestia lingerie lilás, minha cor preferida. Parecia feita pra mim, seus seios envolvidos naquela peça bordada. Apesar daquela visão linda, eu não resisti a tirar as últimas peças, e mais pedaços deliciosos de Hermione entravam em meu campo de visão. Completamente nua e completamente linda. Ela me desnudou também, seus olhos me percorreram famintos, brilhando de desejo.
Peles se friccionaram, sexos e seios se tocaram, línguas se acariciaram, lábios se envolveram, mãos, boca, dentes, respirações ofegantes, gemidos e gritinhos resultando em dois corpos apaixonados e satisfeitos.
Abraçada a ela e intoxicada pelo seu cheiro, adormeci.
O sol forte bateu no meu rosto, me despertando. Meu anjo ainda dormia, calma e em paz. Aproveitei para olhá-la, eu quase nunca tinha essa chance.
Os cabelos castanhos e cacheados se esparramavam pelo travesseiro branco. Sua pele brilhava com a luz solar batendo nela. Eu não precisava chegar perto para sentir seu cheiro de flores, estava impregnado em mim. Ela parecia sorrir enquanto dormia, provavelmente sonhando.
Senti dor no braço, levantei para pegar o remédio e lembrei que não havia remédio algum. Deixamos tudo em minha casa, que agora provavelmente estava devastada pelos feitiços de Hermione tentando me proteger. Tentei suportar a dor por enquanto.
Avistei um papel jogado na cômoda bem em frente à janela. Parecia uma carta, com algumas gotas molhando o papel. Supus que tinha sido uma carta que chegou durante a noite, enquanto estava chovendo. Eu não ia mexer, mas vi meu nome escrito nela. Com a caligrafia da minha mãe.
Rasguei o envelope. Minha mãe dizia que tinha chegado e encontrado a casa destruída, e que estava louca de preocupação tentando adivinhar o que aconteceu, que foi pior ainda me tirar da enfermaria da escola, e que não tinha admitido que Hermione fosse comigo. Não soube o que fazer ou o que pensar. Eu tinha que voltar para casa e reencontrar minha família, mas... e o meu anjo?
Antes de eu terminar de pensar, ouvi um estalo múltiplo do lado de fora da casa e a campainha tocar. Procurei desesperadamente pela varinha de Hermione, achando-a, pus o vestido, por que eu ainda estava nua.
Tentei olhar pela janela se dava pra ver alguém, mas nada. Ocorreu-me, também, que se fosse uma ameaça, ela não ia tocar a campainha. Abaixei a varinha, um pouco.
Cobri o corpo nu de Hermione com o lençol. Nunca se sabe onde a visita vai entrar pela casa. Atendi a porta, receosa.
A Sra. Brown entrou por ela, me atropelando, meu pai a seguiu.
— O que aconteceu com você? — ela se virou pra mim, sibilando. Me encolhi.
— M-mãe... aconteceu muita coisa... m-mas eu estou bem! Eu digo, Hermione cuidou de mim. — Ela pôs a mão na cintura e me esperou falar. O Sr. Brown se postou ao lado dela, bem menos severo que a mulher, mas muito preocupado. — Na g-guerra... — gaguejei. Minha mãe sabia que podia me deixar com medo e nervosa. — eu fui atacada por um lobisomem... — os olhos dela se arregalaram e as narinas se dilataram. — mas eu estou bem! Ele não estava transformado, não estou amaldiçoada nem nada! — indiquei a cicatriz, muito bem curada, no meu braço e ombro. — Veja, eu estou curada, Hermione me salvou.
— Onde está essa garota? — ela exigiu. — E o que aconteceu com nossa casa?
— H-ermione está dormindo... olhem, — preparei-lhes para o que viria. — os estragos na casa... foi Hermione tentando me salvar... o lobisomem Greyback voltou para me pegar...
— Ele apareceu na casa para te pegar? — meu pai perguntou, tremendo.
— Sim! E Hermione me salvou, ela... ela matou ele.
— Céus! — eles exclamaram. A mulher indignada, o homem assustado.
— Ela me salvou! — exclamei, esganiçada. Eles pareciam não estar entendendo.
Ouvi um barulho no cômodo seguinte e segundos depois a garota apareceu, com a aparência bem melhor que a minha, mais vestida e com o cabelo mais arrumado.
— Nós chegamos ontem! Mandamos a carta e você não respondia. Procuramos o endereço da garota e aqui estamos. — ela falava como se Hermione não estivesse presente. A coitada da mulher fitava os dois, envergonhada.
— Lavander está bem, Sra. Brown. — ela se pronunciou, tímida pela presença severa da minha mãe. — Ela está totalmente curada e...
— Eu queria que ela tivesse sido curada por um enfermeiro profissional! — exclamou furiosa.
— Qual a diferença? — quase gritei. Não podia acreditar que, depois de tudo que Hermione fizera por mim minha mãe estivesse fazendo pouco caso. — Ela trabalhou árdua e dedicadamente, fez muito por mim, muito! — Hermione retirou-se.
— Você vai para casa comigo agora. — impôs, agarrando meu braço.
— Me deixe pelo menos... — procurei por ela, procurei meu anjo. — me deixe pelo menos me despedir dela! — supliquei, mas minha mãe só me puxou mais forte.
Senti meu corpo todo se encolher e entrar em escuridão. Com o familiar estalo, reapareci em uma casa totalmente diferente, mas parecia bem a cara da minha família. Meu jovem irmão estava lá, deitado no sofá lendo um livro de contos de fadas.
Minha mãe descarregou sermões infinitos em mim. Meu pai tentava me olhar severo, mas ele simplesmente não tinha essa postura.
Eu me retirei, deixando-a falar sozinha, para um quarto qualquer. Tranquei a porta e deixei os gritos furiosos da mulher do lado de fora. Procurei por pergaminho e alguma pena perdida. O quarto estava devidamente arrumando para mim, então encontrei-os facilmente.
“Você disse – a primeira coisa que você disse – foi que ia me salvar. Você cumpriu. Você disse que ia ficar comigo, que não me abandonaria. Você cumpriu mais uma vez. Me assegurou que eu ia ficar bem, eu acreditei, e eu realmente fiquei bem. Você ficou lá, toda noite, como prometeu, segurando minha mão enquanto eu dormia.
Você pode não ter sido um anjo de verdade igual ao que eu vi no meu sonho, mas agiu exatamente como um. E o sonho que eu tive, revelando o que ia acontecer entre nós, aconteceu. Tudo se cumpriu como deveria, menos a minha parte.
Eu disse que você não ia me perder, não disse?
Não sei se isso é exatamente perder, mas eu não cumpri minha parte de qualquer maneira. Eu não pude ficar ao seu lado pra sempre como meus olhos te prometeram. Eu não pude deixar de te abandonar como meu coração prometeu não fazer. Eu realmente sinto muito. Eu nunca vou poder cumprir o que prometi se minha família se intrometer. Você não pode saber o quanto eu sinto, Hermione.
Mas, uma coisa, nós guardaremos para sempre depois disso: Você vai continuar fazendo parte da estrada da minha vida e as lembranças de você, dos seus olhos, dos seus lábios e do seu cheiro vão estar sempre comigo. E, pra garantir que você também tenha um pedacinho de mim contigo, eu vou te deixar com essa flor de lavanda.
Pra você lembrar que se apaixonou por ela; que se apaixonou por mim.”
N/A: acho que o maior clichê e de mais destaque foi o da primeira paixãozinha *-* e tbm, já vi em outras fics, quando uma pessoa cuida da outra e acabam se gostando, mas geralmente é do ponto de vista de quem cuida, aqui é o contrário. não sei se os itens ficaram muito bons ou se destacaram o suficiente... bem, fiz o meu melhor. essa fic é, na minha opinião sem muito valor, a melhor coisa que eu já escrevi (: além de ser diferente de tudo que eu já fiz; foi legal escrever. não vejo a hora de ver as outras fics do chall *o*