Capítulo 6
Ab ore ad aurem
Seria aquele o seu último almoço na companhia deles? Quanto mais teria que esperar? Por quanto tempo poderia aproveitar a companhia de sua família? Teria tempo de ver Harry? Como se despedir e pedir desculpas sem que desconfiassem? Não tinha respostas para nenhuma dessas perguntas. Sentia-se angustiada, mas no fundo havia também uma grande excitação. Não queria se preocupar com as respostas, pois elas doeriam mais do que as perguntas.
Agora apenas aproveitava as mínimas oportunidades para uma conversa, um abraço, um suspiro longo e significativo quando ninguém estava observando...
Não queria resposta para as suas perguntas, pois, qualquer que fosse ela, não mudaria o fato de que estava partindo.
Esperou. Preocupada e ansiosamente por qualquer sinal, até que ele veio em forma de bilhete, deixado em uma árvore, preso por um punhal quase duas semanas depois do último encontro. Sentiu calafrios. Mentiu para si mesma enquanto repetia mentalmente que eram sensações causadas pela proximidade do inverno. Abriu o bilhete e leu a caligrafia simples e firme de Tom.
“Hoje”
Lágrimas. Aperto no peito. Sabia o que precisava fazer e isso não lhe tranqüilizava. Hoje. Uma única palavra escrita, muitos significados. Sua última tarde com sua família, sua última noite sob o seu teto, a última vez que poderia ver o pôr do sol da lagoa, últimos abraços. Hoje.
Sentou-se sob a árvore que já havia perdido praticamente todas as suas folhas para o inverno. Reflexos. Uma mudança lenta, mas que já era impossível de não ser notada. Os dias já eram gelados e menos coloridos. Dias tristes. Lágrimas silenciosas. Um último choro antes de retornar a sua casa e pegar apenas o necessário. O último adeus.
“Ginny?” era Bill. “Ginny? O que há? Por que está chorando? Tem alguma coisa errada?”, ela apenas balançou a cabeça com força, negando. Bill não se convenceu.
“Não é nada”, reforçou a mentira, enxugando as lágrimas.
“Você já soube, não é?”.
“Perdão?”.
“Mamãe te contou que partirei agora, não é mesmo? Não fique desse jeito, Ginny. Dessa vez a viagem será curta e eu estarei aqui antes do Natal”.
Ela sorriu tristemente pela inocência do irmão. Ele estendeu a mão e a ajudou a se levantar para lhe oferecer um abraço. Um último abraço. Para ele, uma despedida como as outras. Para ela, a última lembrança que teria do irmão.
Caminharam juntos até a casa, em silêncio. Quando chegaram ao estábulo, Ginny se despediu mais uma vez de Bill, que montou em Branco e cavalgou veloz desaparecendo na curva da estrada. Varreu as lágrimas do seu rosto vermelho antes de entrar em casa, mas, embora estivesse claro que havia chorado, ninguém estranhou. Bill tinha ido embora.
Atravessou o corredor e fechou-se em seu quarto. Quando escurecesse e os sons na casa cessassem, seria a hora. Hoje. Em algumas horas sua viagem em busca do paraíso teria início.
Medo. Excitação. Tristeza. Esperança. Tudo se misturava de uma forma tão equilibrada que a deixava confusa. Parecia que havia medido a quantidade de cada sentimento e misturado em um caldeirão. Iria encontrar as maravilhas do mundo, enfrentar perigos, viver em liberdade, mas também estaria longe de sua família, rumo ao desconhecido e com um homem que era feito de mistérios. Tom. O responsável por sua confusão de sentimentos e sua aflição. Aquele
que a fazia sentir tudo e nada quando lhe olhava, quando sorria, quando lhe beijava. Seu pecado. Seu medo. Seu deus.
Fim da tarde, chegada da noite. Seu estômago não estava mais lá e em seu lugar havia apenas borboletas inquietas, dando-lhe uma desagradável sensação. Nervosismo. Não podia ser vista. Por isso havia pegado de seu pai uma capa escura, pois a única que possuía era clara e se destacaria na noite.
Podia sentir o vento frio bater contra as paredes de sua casa, quando chegou à cozinha, que ainda conservava um pouco do calor mesmo que a lareira preservasse apenas as brasas. Sairia para a noite fria e se forçaria a não olhar para trás. Era isso que repetia mentalmente, enquanto respirava fundo e, engolindo o choro, abria a porta em silêncio.
Contornou a casa e chegou ao estábulo onde encontrou o cavalo e o desamarrou da madeira fria, jogando as cordas de qualquer jeito no chão úmido e repleto de folhas secas. Conduziu o animal silenciosamente até transpassar a cerca e chegar à estrada, por onde andou mais um pouco antes de montar com dificuldade e galopar em uma velocidade baixa até chegar à curva, na qual desapareceu sem olhar nenhuma vez para a sua casa.
Uma última lágrima escorreu pelo seu rosto sardento e gelado, sendo varrida pelo vento logo depois. Seus pensamentos corriam velozes e o medo era substituído por uma sensação que não sabia exatamente o que significava, mas que lhe incomodava e ao mesmo tempo a impelia a continuar galopando, mais e mais rápido.
Chegou à vila adormecida. Poucos eram os archotes que resistiam ao vento frio que anunciava o inverno. Diminuiu a velocidade e passou pelos casebres, estalagem, chegando logo ao pátio da igreja, onde desmontou e amarrou o cavalo em um tronco. Olhou da porta à torre do sino e suspirou. Não sabia onde deveria encontrar Tom, mas ele provavelmente já aguardava a sua chegada em um local que pudesse avistá-la assim que entrasse na vila.
“Fique quieto. Pela manhã encontrarão você”, falou baixo para o cavalo, acariciando seu pêlo.
Um vento mais forte lhe causou arrepios, ao mesmo tempo em que sentia algo gelado pousar em seu braço estendido. Branco. Neve. O inverno já não era apenas uma promessa. Virou a palma da mão e outros flocos caíram sobre ela, derretendo em poucos instantes. Suspirou, virando as costas para o animal e prosseguiu em passos firmes na direção do mosteiro, sentindo que não deveria sentir medo. Foi sua escolha partir em troca da vida da sua família e era assim que seria. Teria Éden e teria deus.
Subiu as escadas e abriu a pesada porta de madeira com cuidado, sem fazer barulho. Seus passos eram comedidos e sua respiração estava suspensa, como se qualquer coisa pudesse denunciar a sua presença. Mais alguns passos e estaria nas escadas que levaria ao corredor onde se encontrava o dormitório de Tom, só mais um pouco. O pouco que nunca chegaria.
Sentiu um aperto no peito e um pressentimento ruim, como se as forças superiores a puxassem de volta para o pátio, como se vozes sussurrassem em seu ouvido suplicando que voltasse para casa. Era seu coração. O remorso por deixar pessoas que amava tanto, mas que deixaria para trás com pensamentos errados sobre ela. Queria livrar-lhes da vergonha e da humilhação que sofreriam com a denúncia de Tom, precisava livrá-los de uma morte dolorosa.
“Mas nós não precisamos morrer”, pensou. “Temos poder suficiente para conseguir escapar, podemos conseguir, não é mesmo? Não preciso ir, Tom deve entender que...”
Seu coração gelou e precisou conter o grito que quase lhe saiu pela garganta, quando sentiu sua cintura enlaçada. Colocada contra a parede, percebeu que não eram os olhos negros que lhe encaravam.
O rosto era pálido, mãos trêmulas e olhar questionador. Eram os olhos castanhos de Miguel que lhe analisavam. No momento em que o encarou, Ginny percebeu que aquele jovem padre seria o responsável pelo seu destino. Sua esperança morreu no mesmo instante em que ele pousou os olhos sobre ela.
“Ginny, o que há? Não deveria estar aqui. Só posso imaginar o que está acontecendo, mas rogo para que volte para a sua casa e durma em paz”.
“Por Deus, padre, o senhor não deveria se meter”.
“O que vai fazer, menina?”, perguntou sem soltá-la.
“Deixe-me ir, padre”.
“Não posso deixá-la cometer essa loucura, Ginny. Gabriel não é uma boa pessoa e eu sei que você veio vê-lo. Não vou deixar que...”
“Ninguém deveria me ver”, falou para si mesma, com a voz trêmula. “Por que o senhor tinha que aparecer? Deixe-me ir e não acontecerá nada”.
“Nos últimos dias percebi que ele se preparava para alguma coisa. Sei que pediu transferência para um mosteiro na corte francesa, sei que ele vai partir, só não imaginei que os planos obscuros dele incluíam você”.
“Por favor”, ela pediu com lágrimas nos olhos. “Não tente impedi-lo e não fale nada para meus pais, padre. Eu não ia partir, mas o senhor... Deus só pode estar me castigando. Padre, por favor...”
“Ginny, você tem conhecimento da loucura que está prestes a cometer?”
“Não vai me deixar ir, não é mesmo?”
“Assim que soltar você, informarei à guarda dos Habsburgo”, ele avisou. “Darei tempo para que volte para casa, mas Tom pagará por isso, porque não permitirei que ele faça qualquer mal a você”.
“Entenda, padre”, ela lhe tocou a face enquanto deixava que grossas lágrimas rolassem por seu rosto. “Não era isso que eu desejava, mas o senhor escolheu por mim ao aparecer aqui essa noite. Perdão”.
“Ginny, não...”
“Eu presto honras ao grande guardião do espaço”, ela recitou, sussurrando.
“O que...”
“Para que me dê permissão para segurar as cordas da vida e da mente em uma mão e tecê-las com a outra. Transmissão completa”.
A expressão de surpresa de Miguel ao vê-la recitar os versos se desfez. O rosto do sacerdote ficou relaxado e seus olhos miravam os de Ginny, que estavam brilhantes de lágrimas.
“Perdão”, falou entre os dentes. “Nah eth cëuto sonopa eth inm. Nah eth cëuto sonopa eth inm. Nah eth cëuto sonopa eth inm”.
(tradução: “Que seu corpo rejeite a sua alma. Que seu corpo rejeite a sua alma. Que seu corpo rejeite a sua alma.”)
As mãos do padre soltaram o corpo de Ginny e aos poucos Miguel foi cedendo. Logo estava sentado no chão, sua respiração quase inexistente e o brilho de seus olhos já não existiam.
“Abhadda kedhabra. Abhadda kedhabra. Abhadda kedhabra.”
(tradução: “Desapareça como essa palavra”. Repetidamente. Palavras de origem aramaica que inspiraram o Avada Kedavra).
Sua cabeça pendeu para o lado, enquanto Ginny repetia o mantra, entre soluços, até não haver mais firmeza em sua voz. Cessou as palavras de morte quando já não havia mais contato visual. Os olhos de Miguel estavam vidrados nela, mas sua alma havia sido varrida de seu corpo.
“Perdão, padre. Perdão meu Deus. Perdão”.
“Ginevra?”, a voz de Tom chegou baixa aos seus ouvidos. “Venha, rápido”.
“Tom”, ela se levantou devagar. O corpo de Miguel escorregou, caindo deitado, fitando o chão.
Tom se aproximou e a segurou pela mão, olhando rapidamente para o corpo do sacerdote e logo voltando a encarar Ginny.
“Avisei que não deveria chamar atenção”, falou ríspido.
“Eu não chamei”, respondeu chorosa.
“E o que é esse corpo, Ginevra?”, apesar de sua voz controlada, era visível que Tom estava furioso. “Sair da cidade como fugitivo não estava em meus planos”, sussurrou.
“Se eu fiz foi por você”, respondeu com a voz trêmula.
“Você foi imprudente”.
“Ele já desconfiava então eu não sabia o que fazer, Tom. Que Deus me perdôe”.
“Esqueça! Vamos”, ele a puxou.
“Eu não quero”.
“Não tem escolha. E não tema a Deus, Ginevra, pois é isso que ele quer de nós”.
Apressando seus passos para acompanhar Tom, que a segurava com força pelo pulso, Ginny não conseguiu evitar olhar para trás mais uma vez e encarar o corpo do homem que havia assassinado. Seus olhos sem brilho a encaravam. Aqueles olhos lhe perseguiriam durante todos os dias que restassem de sua vida. Era uma sensação nova, estranha, confusa. Só havia usado aquele tipo de magia uma vez, mas para tirar a vida de um animal, e não de um ser humano. Humanidade. Sentia que o significado dessa palavra se afastava cada vez mais do ser em que ela começava a se transformar.
Chegaram a um hall onde o único ponto de luz vinha do altar com uma imagem de São Pedro. Tom atravessou o aposento e olhou através do arco que levava a um outro corredor.
“Não perceberam nossa presença”, falou para si mesmo e, em seguida, encarou a garota, que ainda soluçava. “Não derrame lágrimas por tão pouco, Ginevra”.
“Eu acabei de tirar a vida de um ser humano, Tom. Seremos condenados ao inferno, não teremos perdão”.
“Deuses desfrutam do Éden. Inferno são para mortais”, respondeu estendendo-lhe algumas roupas. “Troque-se”.
“Não somos deuses. Somos humanos, somos mortais, pecamos. Seremos condenados por tudo o que estamos fazendo”.
“Você será condenada, eu não. Recuso-me a ceder aos caprichos de um Deus como o que rege nossas vidas. Serei o meu próprio deus, Ginevra. Fique comigo e não haverá inferno para você”, falou olhando novamente pelo arco. “Troque as suas roupas”
“Eu não vou”, falou decidida. “Tom, você não pode me obrigar a isso, será que não entende? Eu desejo o Éden, quero estar ao seu lado, mas abandonar tudo é pedir demais. Eu amo demais a minha família para deixar tudo para trás dessa forma”.
“Tudo bem, volte para a sua casa”, falou friamente.
“Não tentará me impedir?”, perguntou estranhando a reação calma.
“Não causarei tumulto. Não quero chamar atenção para mim neste momento”.
Ginny virou as costas sem pensar duas vezes e passou por Tom, que segurou-a pelo braço. Em seu olhar havia um misto de triunfo e divertimento, como se ele estivesse esperando o tempo todo por isso. Ginny sentiu calafrios, ele estava sorrindo.
“Acredito que devo alertá-la sobre um possível contratempo”, sussurrou. “Quero deixar claro que assim que você for avistada chegando em casa, seis de meus seguidores têm ordem de matar todos que estiverem lá dentro, enquanto dormem. Acredito que seus pais e irmãos não terão muita chance, mas prometo que não sentirão dor. Será rápido”.
Ginny deixou seu peso cair sobre seus próprios joelhos, enquanto lágrimas caiam de seus olhos. Tom se abaixou ao seu lado e a segurou pelos ombros, beijando-lhe o pescoço.
“Vamos”, sussurrou. “Não temos muito tempo”.
“Você disse que estava sozinho”.
“Não tão sozinho”, ele se levantou e a puxou pelo braço para que se levantasse também.
“Que tipo de tolos segue você, Tom?”
“São pessoas como você, Ginny”, falou sorrindo, chamando-a pelo apelido pela primeira vez.
“Chantageados?”, perguntou com raiva.
“Não, claro que não”.
“Então...”
“Eles são como você, minha Ginny. Querem Éden, desejam desfrutar do paraíso, mas não são ambiciosos o suficiente para seguir nessa longa jornada. Então creio que se contentam em ter a mim como seu novo deus, acreditando que lhes darei a vida eterna... Entende? São como você, mas não terão a oportunidade de estar ao meu lado quando meu reino for criado. Sorria. Não há motivo para lágrimas”.
“Sua dualidade me assusta”.
“Sua inocência me encanta”, sussurrou. “Vista-se rápido”.
“Não me trocarei em sua presença”, respondeu irritada. “Além do mais, são calças. Não posso vestir calças”.
“Não questione. Tire seu vestido e vista o que lhe dei. Procurarão por um padre e uma garota e eu não quero perguntas durante essa primeira parte da viagem”.
Ela apenas engoliu as palavras e mordeu os lábios. Logo seu vestido estava no chão. Sentiu frio quando o vento gelado soprou, tocando-lhe a pele. Vestiu a calça marrom de forma desajeitada e, em seguida, colocou a camisa branca, de algodão. Seus dedos tremiam enquanto tentava amarrar as tiras da gola e afivelava o cinto. Por último, Tom lhe entregou uma capa grossa e preta, que vestiu depressa, na tentativa de espantar o frio.
Tom pegou as vestes, colocou-as diante do altar e, em seguida, jogou algumas das velas que iluminavam a imagem. Logo as roupas ficaram em chamas, Tom sorriu. Ginny estremeceu.
“Vamos”, ele a chamou e atravessou o arco.
Andaram apressados pelos corredores escuros do mosteiro, saindo por uma porta lateral diante das escadas do outro lado da igreja. Um cocheiro esperava já sentado na carruagem, pronto para partir.
“Tudo pronto, padre?”, perguntou, quando Ginny e Tom entraram.
“Sim, pode seguir”, ordenou.
O coche se moveu e o mosteiro começou a ficar para trás. O chão começava a mudar de cor, deixando lentamente o tom alaranjado das folhas secas do outono para se tornar branco. Ginny suspirou ao se lembrar que nunca mais veria a vila coberta pelo tapete branco da neve, nem as flores da primavera, quando o inverno fosse embora. Sua despedida era regada a frio e neve, um adeus digno de uma pecadora.
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