Flora acorda em uma casa de madeira desabitada, janelas pregadas, suja do tempo. Está deitada no chão, a cabeça sobre as pernas de Harry. Ele cuida dos ferimentos de seu braço e outro no rosto que nem havia se dado conta que fizera. Ela sussurra:
- Obrigada.
- Shhhhhhh...
Harry sinaliza para que ela fique calada. Sua cabeça dói muito, o braço também. Ainda saía bastante sangue, mas ele estava refazendo um contra-feitiço que fechava temporariamente o corte.
- Eu não tive culpa, o homem trouxa me atacou. Eu nem estava com a varinha.
Ele olha para ela:
- Fique tranqüila, acredito em você. Depois você me conta o que aconteceu, agora precisa descansar.
- Não posso! Onde está Felipe?
- Calma. Draco e Hermione foram comigo para acalmar os ânimos das pessoas e cuidar de sua família.
- Como você soube?
Por um momento ela pensa que talvez estivesse sendo monitorada.
- Você não vai sossegar se eu não contar, não é mesmo?
Flora balança a cabeça, levemente. Harry explica:
- Draco ouviu uma conversa no corredor do ministério, comentavam que Chris Burbage teria a vingança que sempre desejou. Imediatamente Draco me procurou, ele sabia que Chris a estava monitorando, esperando algum deslize seu para poder atacar. A mãe dele era professora dos estudos dos trouxas em Hogwarts, foi friamente torturada e morta por Voldemort na sala de jantar da casa de Draco. Droga! Não consigo fechar esse corte!
Harry fica um tanto desapontado e até mesmo furioso por sua falta de habilidade para cuidar do ferimento. Ele comenta distraído, como se falasse consigo mesmo:
- Parece um feitiço que um dia joguei em Draco no sexto ano da escola... Snape o inventou e sabia curar, mas acho que o contra-feitiço correto morreu com ele. Talvez no St. Mungus saibam o que fazer, mas não posso levá-la lá. Não ainda. Estou esperando Hermione mandar uma mensagem dizendo que já está tudo sob controle. Se voltarmos antes disso, não teremos a mínima chance.
- Você jogou esse feitiço em Draco? Foi um acidente?
Flora pergunta com cuidado.
- Não, não foi. Eu contei para você: Draco e eu não éramos amigos nos tempos de escola, muito pelo contrário. Naquela época Voldemort já havia retornado e estava se organizando para tomar o poder. O ministério finalmente havia reconhecido que ele estava de volta. Antes do início das aulas vi Draco e a mãe no Beco Diagonal agindo de modo suspeito. Lucius estava preso e eles estavam muito revoltados comigo, pois julgavam ser minha culpa (Draco não conseguia entender que se o pai estava preso, era porque era um comensal da morte).
Harry toma fôlego e balança a cabeça para os lados. Então continua:
- Definitivamente nós nunca fomos melhores amigos, iniciamos o ano com ele quebrando meu nariz...
Harry faz uma breve pausa e sorri pensativo.
- Passei aquele ano de olho em Draco. Eu suspeitava que ele havia se tornado um comensal da morte. E aconteceram várias tentativas de homicídio na escola e eu estava crente de que ele fosse o criminoso. E era. Um dia o encurralei no banheiro e tentei forçá-lo dizer a verdade. Foi quando nos enfrentamos. Eu não tinha idéia do que o feitiço fazia. Assustei um bocado, mas Snape chegou e o salvou. Mais tarde soube que ele fora obrigado por Voldemort, ameaçado de morte, caso não matasse Dumbledore, que era o único bruxo que Voldemort temia. Isso eu só soube depois da morte de Snape, pois recolhi suas memórias pouco antes de acontecer, a pedido dele. Então consegui compreender Draco...Desculpe se não estou sendo claro ou lógico nas informações, mas você está aqui, sangrando no meu colo!
Harry para de falar para refazer o encantamento para estancar o sangue que novamente brotava no braço dela. Flora estava surpresa:
- Nossa! E como você e Draco acabaram trabalhando juntos, depois de tanta inimizade?
Harry bufa. Ela parecia querer conversar como se nada estivesse acontecendo.
- Depois de tudo acabado, eu sabia que Draco não era tão mau assim. Quando me tornei chefe do departamento, o convidei para trabalhar comigo, pois seus conhecimentos em magia negra nos seriam muito úteis. Ele sempre achou que era para mantê-lo sob minhas vistas e não estava de todo errado. Mas depois desses anos todos, quase nos damos bem. Não somos amigos, mas temos respeito um pelo outro. E, de qualquer forma, ele tem se mostrado um homem melhor a cada dia.
- Entendi.
Ele acaricia o rosto dela. O dia estava escurecendo, então ele acende luz na varinha. Pergunta:
- Porque você achou que eu seria capaz de matá-la?
- Tenho certeza que faria o que fosse certo. Eu tenho medo de um dia não conseguir me conter... Não vou dizer que sob ataque não pensei em jogar algumas maldições da morte, estava acuada... E eu sabia exatamente como fazer...
- Porque não fez?
Harry pergunta, curioso.
- Porque nunca mataria ninguém! Que pergunta ridícula!
Flora estava indignada: não acreditava que ele pudesse perguntar isso a ela!
- Eu também não.
Ele responde olhando profundamente em seus olhos.
- Mas você matou meu pai... Eu sei que você faria o que é certo. Você o matou e me mataria se eu me tornasse como ele.
Harry se irrita:
- Não, não matei. A maldição dele ricocheteou no meu feitiço para desarmar e voltou para ele. O que eu fiz foi torná-lo vulnerável a isso, mas essa é uma história que quero deixar para outro dia... Você deveria saber que nunca a mataria.
Ele suspira e baixa a voz, seu coração batendo depressa:
- Eu te amo. Dói, sabe?
Flora engole em seco antes de responder:
- Eu sei. Eu te amo também. E dói em mim também.
Eles se calam, ouvindo o eco daquilo que haviam acabado de dizer. Ela aconchega-se mais em seu colo. Adormece. O tempo esfria, ele conjura uma chama para aquecê-los, mas ela começa a tremer. Perdera muito sangue, tem dificuldade em manter a própria temperatura. Ele desabotoa a camisa para poder esquentá-la melhor, com o contato de seu corpo. A cada dez minutos precisa refazer o “curativo” mágico. Ela acorda.
Harry quebra o silêncio para distrair sua mente da percepção do toque do corpo dela sobre sua pele:
- O que você fez em seu cabelo?
Ela sorri, mas também se sentia levemente incomodada com todo aquele contato, especialmente depois deles terem se declarado um para o outro. Era difícil fazer de conta que aquilo tudo era natural e continuar conversando como se não estivesse com o rosto colado no peito nu de Harry, sentindo o coração dele batendo descompassadamente.
- Ah, era o meu “dia de trouxa”, fui ao cabeleireiro. Pintei, cortei, escovei. Agora sou loira.
Ele comenta sem certeza se deveria, mordendo os lábios:
- Continua linda.
Ela sorri. Afasta o cabelo dele, deixando a mostra a cicatriz em forma de raio. Então comenta:
- Nossa aparência e nossa descendência não importam. Importa quem somos. E você está aqui e me salvou.
Ela tira-lhe os óculos. Ela aproxima seu rosto do dele, sente a respiração quente que entra em suas narinas. Olhos verdes e azuis se entregam novamente, num breve beijo. Breve porque Flora sente dor e seu nariz estava congelando, azulado com o frio. Harry percebe e a aproxima mais de seu corpo. Ela quer tocá-lo, a mão aberta sobre seu peito, mas acaba contraindo as pontas dos dedos e o afasta de si. A expressão no seu rosto é de dor, mas não a dor física que sentiu com o beijo, a dor psíquica de querer e não querer, não poder. Sai de seu colo, senta à frente. O queixo começa a bater:
- Tenho frio...
Ele balança a cabeça para os lados, com um esboço de sorriso no rosto:
- Volta aqui. Vai morrer de frio. Tem uma tempestade de neve chegando.
Ela encosta o nariz no peito dele para aquecer, ele segura gentilmente sua cabeça e ela adormece. Não estava mais tremendo.
O dia amanhece. Harry cochila. Acorda com um barulho. Hermione está em sua frente, de pé. Flora totalmente encolhida no colo dele, ele abraçado nela, o peito nu para aquecê-la e ambos cobertos pela capa dele.
- Ela ainda está sangrando, não sei como estancar. Acho que foi sectunsempra.
Ele mostra o corte no braço de Flora. Hermione examina:
- Acho melhor levá-la ao St. Mungus.
- É seguro?
- Sim, desculpe. Depois explico.
Hermione fica desconsertada com a cena, não quer julgar mal os amigos. Ajuda Harry a fechar a roupa e ficar em pé. Ele pega Flora ainda desacordada no colo e aparatam até o St. Mungus – hospital para doenças mágicas.
Assim que conseguem atendimento para ela, Hermione relata:
- O maníaco que atacou Flora foi preso, pois depois atacou uma trouxa também. A trouxa faleceu. Flora teve muita sorte, uma vez que estava desarmada. Ele contou como foi a perseguição, o ataque e suas intenções em detalhes para o pessoal do departamento de execução das leis de magia, antes deles apagarem sua memória. Agora todos compreenderam que ela agiu em defesa própria. O ministério descobriu que Chris Burbage havia pago para alguns homens difamá-la em Hogsmeade e também a seguirem a todo lugar. Ele está preso.
- E a família dela?
- Estão com Draco e Abe, no Cabeça de Javali. Tiveram que tirar os meninos da escola, uma vez que a notícia de que a mãe havia atacado um trouxa chegara lá, não se sabe como, e eles estavam sendo perseguidos. Mas nada de mal aconteceu com ninguém. Felipe recuperou a consciência depois de algumas horas.
- Que bom... Hermione?
- Sim.
- Por favor, não conte nada para Ginny do que você viu. Ela não compreenderia. Flora iria morrer de frio se...
- Não precisa me explicar nada, Harry. Não vou contar.
- Obrigado.