Não se encontraram mais por semanas, a despeito do pedido de Flora e a promessa de Harry. Ambos sabiam o que tinha acontecido e sabiam que não queriam que fosse desta forma. Harry amava Ginny. Flora amava Felipe. E Harry e Flora apaixonaram-se. Nem corujas, nem e-mails, nada. Calaram-se diante da realidade inevitável do último beijo.
Harry tentava não pensar nela, inutilmente. Sentia raiva: como ela poderia supor que ele iria conseguir matá-la? Porque supôs que ele a amaria menos que Felipe? Harry bufava pelos corredores do ministério. Precisava desabafar com alguém, mas não poderia ser com seu melhor amigo Ron, acabaria levando um soco na cara por ter traído sua irmã. Não fora intencional.
Harry pega uma pilha enorme de papeis que precisam ser organizados, assinados, despachados, relatórios de batidas para serem feitos. Ri ao se dar conta que toda aquela burocracia teria uma nobre função: escondê-lo.
Vai até sua mesa e faz quatro grandes torres, categorizando pelo tipo de serviço que teria que ser feito. Separa tudo manualmente, leva horas na tarefa. Depois se esconde atrás das pilhas. Isto era muito anormal, ele simplesmente detestava despachar (por isso até que havia tanto trabalho acumulado). Normalmente estaria orientando os outros aurores em batidas ou rondas, ou, quando tudo estava tranqüilo, andava pelo ministério, pelos departamentos para ajudar os outros a resolverem problemas. Até mesmo Draco já havia reparado que algo estava errado, que Harry estava estranho, irritado, muito calado, quando muito, falava sozinho.
A culpa lhe consumia as entranhas na mesma intensidade da raiva que sentia, na mesma intensidade que o beijo de entrega. Se ela quisesse mesmo que um dia fosse capaz de deixá-la morrer (sim, porque ele não matara Voldemort, apenas facilitara as coisas), então não o teria beijado. É. É isso. Flora o estava manipulando novamente. Convencido de que na realidade o beijo teria sido proposital, friamente calculado por aquela que agora se assumia como herdeira de Slytherin, ele conseguiu um pouco de paz até a noite.
Chegou em casa levando um buquê de flores para Ginny, o coração cheio de culpa, num clichê desconcertante. A convida para irem até a casa de Ron.
- Você tem andado tão estranho, meu amor.
- Muitos problemas no trabalho e não estou conseguindo me concentrar. Acho que preciso de férias. Vamos ver se jogar um pouco de papo fora ajuda.
Vão até a casa de Ron e Hermione, Angelina e George também estavam lá. Realmente a conversa leve e as brincadeiras dos cunhados ajudaram muito Harry esquecer Flora. Até que Hermione comenta que Flora tem ajudado Hannah, agora que chegara a reta final da gravidez:
- Ela é incrível, arruma tempo para tudo! E olha que nem tem um vira-tempo. Quando lhe contei sobre a existência deles, ela ficou maravilhada, disse que seria a solução para os hiperativos. E depois disse que ela preferia esticar o tempo a sua maneira, aproveitando cada minuto, saboreando como uma deliciosa sobremesa... Falando nisso, ela mandou uma torta de mirtilos deliciosa, querem?
- Não sei, ela é filha do Voldemort... Como vamos saber se não está envenenada?
- Ron Weasley! Não acredito que tenha falado isso! Para seu governo, eu a vi preparando e não havia nada suspeito nos ingredientes...
- Sendo assim, pode cortar umas três fatias generosas para mim. Estou em fase de crescimento lateral. Se descuidar, emagreço, e aí você fica com menos marido por metro quadrado para pegar.
Hermione serve a torta para todos. Harry saboreia cada pequeno pedaço, sem conseguir parar de pensar em Flora. Chega até mesmo sorrir, lembrando do quanto era carinhosa e dedicada com Hannah (e com todos à sua volta), Hermione tinha razão: ela era incrível! Que monstro ele era em julgá-la tão mal. Sacode a cabeça, precisava voltar para a conversa. Todos estavam rindo e ele perdera a piada, sorri amarelo.
Ginny e Harry voltam tarde para casa. Adormecem abraçados na cama de lençóis azuis, como os mirtilos da torta.
Harry começa a sonhar com Flora, linda, cabelos ao vento, lábios rosados e a costumeira pele pálida, saltando com leveza pelos telhados das casas, feito gato. Acorda feliz com aquela imagem na cabeça e olha para a esposa que dorme tranquilamente. Sente uma culpa que lhe torce as entranhas, as lágrimas escorrem em silêncio. A realidade dói. Ele amava duas mulheres, mas não tinha escolha: já havia se decidido há 15 anos quando se casara.
Em Hogsmeade as coisas não eram diferentes. O coração de Flora sangrava. Tentava se ocupar das mais diversas formas para não pensar em Harry. Sentia-se vulnerável e abandonada por não ter mais notícias suas. Não perguntava nada a Hermione, com quem se encontrava quase que diariamente há dois meses.
Sentia-se triste, principalmente porque a notícia de que era filha de Voldemort se espalhara e com isso, algumas pessoas a estavam tratando de modo diferente. Por mais que ela e Felipe dessem exemplos diários de que suas atitudes em nada se pareciam com as do pai, Felipe chegou a perder clientes da loja e escola de informática.
Vai se deitar exausta naquela noite. Passara o dia com Hannah, lhe auxiliando com os serviços domésticos, fazendo massagens para ajudar a circulação sanguinea, visto que ela vinha tendo câimbras cada vez mais constantes no final da gravidez.
“O sonho era vivído, parecia que estava ali. Andava entre as árvores, ninguém poderia vê-la. Chega a uma clareira, existem pessoas ali. Hagrid preso a uma árvore dá um grito quando cai sua capa de invisibilidade. Seu pai está em sua frente. Fala alguma coisa referente a demora e outras coisas que não entende bem, como se não fosse ela, Flora, que estivesse ali. . Então ele aponta a varinha e vem um jato de luz verde. E depois muito branca”. Flora acorda. Felipe ronca sonoramente ao seu lado. Não presenciara nada, está protegido. Não entende o sonho, parece a vida de outra pessoa. Mas quem? Não foi nada claro. O que eu viu não poderia ser memória de ninguém vivo, afinal ela já tinha ouvido falar do tal feitiço de luz verde, o feitiço da morte. Mas ninguém escaparia dele, não de peito aberto... Esforça-se mais um pouco para tentar lembrar onde viu aquelas memórias. A cortina balançando com a brisa leve que escapa pelas frestas da janela parecia meio fantasmagórica. Ri. Não tem medo de fantasmas. Não teme, na verdade, mais nada, a não ser a morte daqueles que ama.
O luar ilumina o lado de fora da casa. A árvore já quase nua ainda retém uma única folha que insiste em ser verde quando todas já são vermelho-amareladas ou caíram. Seus olhos se fixam naquela única folha verde. Ela lhe lembra um olho... É claro! O único que sobreviveu a maldição da morte: os olhos de Harry Potter. Fora sua lembrança que ela vira, muito provavelmente naquele momento em que fez o pedido mais difícil de sua vida: pediu pela própria morte. Então era isso, ele também havia pedido para morrer, ou havia se entregado como ela se entregaria a ele, quando não pudesse mais suportar seus impulsos mais sombrios, aquilo tudo que lhe congelava a alma.
Flora levanta-se da cama e fica admirando a folha verde. Sorri. Ele a beijara. Foi bom. Mas Felipe era o seu porto seguro, nunca o trairia, por mais apelo que aquele par de olhos verdes intensos teria. Volta para a cama e procura o aconchego certo dos braços do marido. Antes de adormecer, decide que iria se dar um “dia de trouxa” e ir até a cidadezinha mais próxima procurar um salão de beleza. Seria bom fugir da pressão de ser ela mesma.