Já haviam se passado duas semanas desde a última visita de Harry Potter. Flora andava angustiada, sentia a falta dele para conversar. Não que o marido ou as amigas não cumprissem esse papel muito bem, mas com Harry a sintonia era outra. Havia muita identificação.
Flora começa a notar algumas pessoas a tratando de forma diferente em Hogsmeade, com um certo desprezo, inclusive. Outras pareciam querer desafiá-la o tempo todo, como se testando para ver o que ela era capaz de fazer. Nestes casos, ela se poupava e ignorava. Mas crescia dentro dela um certo desprezo por essas pessoas que não tinham nada melhor para fazer.
Escreve para Harry, pede que venha conversar com ela assim que fosse possível.
No mesmo dia, à noite, Flora estava em Hogwarts, na torre de astronomia estudando a posição das estrelas e constelações (havia pedido umas dicas para a professora de astronomia). Cansada de olhar para o céu, sobe na mureta de proteção da torre.
Neste momento chega Harry. Ele quase tem um colapso, tenta chamar sua atenção sem assustá-la. Interpreta mal a cena, acha que ela iria pular.
Ela, sem descer, fala para ele:
- Descobri uma coisa nova, não se preocupe, não vou cair. Olhe!
E imediatamente começa a flutuar em direção a ele. A lembrança dele é imediata, nunca vira outro bruxo fazendo aquilo, a não ser Voldemort. Mas ela vem sorrindo em direção a ele: o que o desarma mais do que um Expelliarmus.
Ela abraça ele com emoção e lhe dá um beijo na bochecha:
- Muito obrigada por ter vindo. Não esperava que pudesse atender meu chamado assim tão cedo. Como foi que me achou aqui?
- Hannah me contou que você viria aqui para observar melhor as estrelas.
E então uma rajada de vento sacode o cabelo dela, sua capa verde brilha levemente, destacando o azul de seus olhos. Harry deixa escapar:
- Como você é linda!
Flora se aproxima ainda mais, para poder falar baixinho:
- Harry, nós dois temos idade suficiente para saber que a minha aparência é o que menos importa em mim. Já fui mais jovem, mais gorda, mais magra, tive os cabelos curtos, compridos, lisos, coloridos de diversas maneiras diferentes. Minha aparência está em constante mutação. E festejarei cada fio de cabelo branco, cada ruga que aparecer em meu rosto, cada sarda que surgir em minha pele branca... Festejarei porque estas marcas estarão impregnadas de história, assim como as paredes deste castelo. Não é minha aparência que deve importar a você, mas minha essência.
Flora respira fundo e continua:
- Eu posso usar meu nome trouxa com orgulho (não o Riddle, mas Gressler Ferreira), mas não se engane: eu falo com as cobras. Mais do que uma Riddle, eu sou uma Slytherin. E preciso de você. Quero você sempre ao meu lado...
- Eu estarei.
E neste momento Harry a abraça, olha no fundo de seus olhos e começa a beijá-la na boca. O calor de seus lábios a faz estremecer. Ela o afasta. Precisava falar mais:
- Como eu estava dizendo, não é desta maneira que preciso de você ao meu lado, por mais que o deseje. Sou uma Slytherin, existem coisas em mim que você não pode supor. A carga deste sobrenome... A arrogância e a necessidade de poder, por mais que estejam na contramão de tudo o que acredito, gritam dentro de mim. Luto todos os dias contra essa natureza, suprimindo-a para o fundo de minha alma.
Flora pega nas mãos dele, olha intensamente no fundo de seus olhos e continua:
- Quero você do meu lado porque tem algo que Felipe nunca poderia fazer por mim. Quero você do meu lado para que se eu fraquejar um dia e acabar sucumbindo às pressões do meu sangue, quero que você esteja lá para garantir que eu tenha o mesmo fim que fora reservado ao meu pai.
Ela vê algo incompreensível nos olhos dele, um momento antes dele baixá-los, respirar fundo e dizer:
- Vou tentar.
Com as estrelas por testemunhas e sem saber o porquê, Flora fecha os olhos e se entrega ao beijo mais demorado de sua vida.