VI
Bebo com você do veneno mais impuro. Mas por que você sorri?
Minha visão ficou turva, com um véu cinza a cobri-la. Seus lábios entreabriram-se num nobre e devasso sorriso dourado ali, para mim, tão... fosco.
O veneno entranhava-se em minha carne e tomava o meu sangue após vencer-me a garganta, matando-me aos poucos. Meu corpo estava paralisado, assim como sua visão de mim, com castanhos seus fixos a deleitar-se com minha ruína.
“Se alguém há de morrer, que seja você.” – ouvi sua voz tão suavemente fúnebre despejar, como se cuspisse em minha face sua luxúria por ver o brilho evadir-se de meu olhar.
Meus olhos negros, Hermione, que você fez questão de fechar, literal e figurativamente. A tinta cinza diluiu-se em preto nas minhas íris vidradas, e logo o sol dourado brilharia imponente no céu tomando o posto da lua platinada.
Ladies and gentlemen, essas são minhas últimas linhas. Derradeiras falas de um dramaturgo falido e decadente. Então as cortinas se fecham, e os infiéis e desalmados espectadores derramam sobre mim os seus aplausos.
Palmas para minha Divina Tragédia.
Fim.