Na manhã seguinte, Flora encontra com Harry em frente ao pequeno comércio de Felipe. Dá um beijo na boca de Felipe, Harry desvia o olhar. Depois fala:
- Pronta?
- Sim, vamos.
Já haviam andado metade do caminho em silêncio quando Flora desabafa:
- Harry, está sendo muito difícil para mim. Nunca tive tanto ódio em meu peito. Estava tentando me enganar, querendo que meu pai tivesse algo bom dentro dele, mas não tinha, tinha? Ontem eu acompanhei Hannah ao posto médico, ela estava um pouco indisposta. Fiquei olhando para ela. Como ele pode matar tanta gente? Tantas famílias destruídas, quanta tristeza... A Hannah não tem mãe... De quem é a culpa? Você não tem pai nem mãe... Andromeda perdeu a única filha, o marido e o genro... É muito horror. Espero que pelo menos os Gaunt sejam melhores.
Harry nem responde. Dá umas batidinhas em seu ombro (a intenção era abraçar) e segue em silêncio. Sabe que não será tão melhor assim conhecer os Gaunt.
Encontram Lia e Lily correndo atrás de borboletas, no gramado. Elas explicam que foram Ricardo, Scorpius, Tiago e Albus que haviam transfigurado suas penas e pergaminhos em borboletas. E não teriam com que escrever na próxima aula. Harry ri e rapidamente desfaz o feitiço.
Lia não consegue disfarçar a decepção. Estava gostando muito de suas borboletas. Flora e Harry beijam as filhas e seguem para dentro do castelo. Harry comenta que nunca imaginou que iria ouvir que o filho de Draco estaria fazendo algo divertido com seus filhos.
- Ricardo consegue coisas impressionantes. Ele deve ter mostrado aos três que não há porque manter picuinhas. Se até ele, que é descendente de Slytherin está na casa de Gryffindor... Só tome cuidado, meu filho é tão inteligente quanto gozador, vai levar o seu para o mal caminho.
Harry ri:
- Então vai ser difícil saber quem estaria desvirtuando quem. Tiago parece ter reunido em uma pessoa só os genes para traquinagem que vieram tanto dos Weasleys quanto de meu pai, que teve fama de ser avesso às regras. Filch se lembra dele até hoje.
Eles riem. Chegam ao escritório da diretora e encontram um bilhete junto da gárgula: “Harry e Flora, fiquem a vontade. Volto mais tarde.”
Eles entram novamente no gabinete. Flora sente-se melhor depois do encontro com a filha. Permanece calada enquanto Harry pega a penseira de pedra e o pequeno vidro repleto de substância perolada. Estende a mão para ela e mergulham novamente no vácuo das lembranças de um desconhecido funcionário do ministério da Magia.
Flora observa que o homem em questão foi desrespeitado, por dois homens numa pequena casa de aspecto descuidado. Sua missão era levar a intimação para o mais jovem comparecer no ministério para esclarecer o motivo de ter usado magia em um trouxa no dia anterior. Mas foi mal recebido na casa dos Gaunt, tentam humilhá-lo de várias formas, mostrar que eram mais poderosos que ele por serem descendentes de Perverell e Slytherin. O pobre homem só não foi mais maltratado do que a filha de Gaunt, que era tratada com desprezo e violência. Flora ainda tem a oportunidade de ver seu avô paterno, que passou pela casa à cavalo. Flora sente enjôo e pede para voltar. Volta apoiando-se em Harry, enojada com os comportamentos arrogantes e perversos dos Gaunt. Sente-se revoltada com o tratamento que é dado a sua avó. Consegue se colocar no lugar dela e permanece em choque durante meia hora. Harry a ampara, sem dizer nada, passando o braço por trás de seus ombros e apoiando a cabeça dela em seu corpo. Profa Minerva entra na sala. Vê a cena e imediatamente compreende que a lembrança fora demais para Flora. Prepara e oferece um chá para os dois.
Flora agradece o chá. As lágrimas escorrem silenciosamente em seu rosto. A diretora, uma senhora muito vivida e sábia, comenta:
- O importante, nessas horas, é não perder de vista quem somos. Não é o sangue que corre nas veias que determina nossa integridade moral.
- Eu sei disso. Apenas tive medo. Também não pude deixar de sentir a dor de minha avó, Merope. Nunca foi amada por ninguém, era menos que um nada dentro da própria casa. Harry me contara a história antes, mas não os requintes de crueldade. Se pudesse, tiraria todo este sangue de dentro de mim.... Desculpe, estou sendo patética. Não é um comportamento adequado para uma mulher da minha idade, me desculpem.
Flora levanta-se e quase leva um susto ao ver o quanto estava aconchegada nos braços de Harry. Olha em seus olhos e agradece, diz que vai embora. Ele faz menção de acompanhá-la, mas ela pede para ficar sozinha. Não poderia contar a verdade para ele: tudo aquilo que desprezava também estava presente em suas entranhas. De certa forma, ser arrogante era muito mais natural para ela do que o esforço em ser agradável e correta, que fazia em todos os momentos de sua vida. Agora sabia o porquê.
Chega em casa em um instante e passa o resto da manhã chorando em sua cama.